sexta-feira, 16 de maio de 2025
O PROCEDIMENTO IDEOLÓGICO E A FUNÇÃO DA PROJEÇÃO IDEAL
A atividade humana é dirigida por objetivos projetados, em um nível muito específico, especial. Nós projetamos o objeto da produção, da atividade, do trabalho, no produto que buscamos realizar. Isto é tão simples quanto definidor, específico da nossa espécie, pelo menos nos limites que nós conhecemos até o presente. Sob diferentes aspectos, autores que eu respeito sustentam que nós, os humanos, diferimos de outras espécies de seres vivos porque projetamos nossa atividade antes de realizá-la, de tal modo, com tal nível de consciência, sistematização e continuidade que se pode chamar a nossa atividade produtiva de dirigida por fins ou por projetos. Isto distinguiria seguramente a atividade produtiva humana ou seja, o trabalho humano, de qualquer modo, das atividades vitais de produção e reprodução da vida dos outros seres vivos, em geral. Na contemporaneidade há uma forte tendência cultural de questionamento a esta excepcionalidade da nossa espécie, pelos mais diversos motivos. Por outro lado, é inquestionável que a ideia de projeto pode ser admitida em outras níveis de codificação que não seja aquela da consciência humana, como por exemplo, no código genético. É realmente difícil contestar completamente a ideia de que há um projeto no código genético. Não podemos, contudo, falar em ideologia ou qualquer forma de projeção ideal no nível do código genético. E podemos deixar este assunto de lado, por enquanto. O fato é que são os resultados reais da nossa atividade que atestam suas características e demonstram, de modo incontrastável, a nossa excepcionalidade. Nós fazemos projetos mentais e registros, por códigos e imagens, das nossas atividades e seus resultados pretendidos e os comunicamos entre nós, criticamos e desenvolvemos estes projetos e as atividades vinculadas a eles, conforme os seus resultados, desde formas muito rudimentares da existência humana, desde a pré- história da nossa espécie. Pelas características mesmas desta atividade dirigida por projetos, ela permite e forja, de algum modo, o próprio desenvolvimento. Isto é o que, ao fim, constitui a técnica, a tecnologia, a produção científica, enfim. E isto é parte determinante da nossa história .Mesmo as pessoas que, decepcionadas com a humanidade, ou entendendo melhor o mundo dos animais, suas linguagens e formas de vida, questionam a nossa excepcionalidade, não podem negar a distinção absolutamente radical nestes aspectos.
Na cultura em geral, ou, pelo menos naquela em que eu me formei, uma forma extremamente dominante de lidar com esta excepcionalidade humana está nas ideologias religiosas. As ideologias religiosas terão, em geral, um mito de origem. Haveria alguma força, alguma origem, alguma determinação superior, talvez, exatamente, alguém que planejou, que projetou, de um modo ou de outro, a nossa excepcionalidade, da nossa espécie, ou ao menos daquela tribo ou nação de cada religião. Esta determinação seria a fonte da nossa diferença em relação às outras espécies de animais e, até, em relação à natureza em geral. Não é meu objetivo agora analisar as ideologias religiosas, seja das religiões dominantes na minha cultura, seja de religiões em geral. Mas quis destacar aqui bastante claramente esta diferença radical entre esta ideologia religiosa e o reconhecimento objetivo da nossa distinção em relação aos seres naturais em geral.
Somos distintos pelas características da nossa atividade produtiva, pelo desenvolvimento tecnológico da produção, do qual é indistinguível o desenvolvimento da linguagem em geral, da linguagem escrita e da matemática, em especial, assim como dos outros sistemas de codificação da informação e de comunicação, ao longo da nossa história.
Alguns diriam que somos diferentes por termos rompido com as formas naturais de sexualidade e reprodução, resultando no desenvolvimento da família. Não é possível questionar a importância central da formação e desenvolvimento da estrutura social, decisiva, da família. Mas não é possível ignorar a adequação da estrutura familiar a certas condições de produção e reprodução da vida humana que não são, elas mesmas, o nosso natural, ou originário. A família, tudo indica, se desenvolveu em conjuto e em consonância com as bases da produção agrícola e artesanal, nas origens da nossa história atual. Algo que é constumeiramente datado por volta de 20 a 10 mil anos atrás. Ainda que não seja possível reduzir toda a complexidade psicossocial da família, dos diversos modelos de família, ao desenvolvimento do sistema produtivo, mas também não é possível dissocia-la completamente deste processo histórico de desenvolvimento. A família, algum modelo de família, especialmente, é sempre um valor ideológico alto e vamos considerar isto em outro momento. Agora nosso objetivo é apenas contestar a sustentação da família como fundante da própria humanidade. Esta é uma formulação ideológica extremamente forte, com um valor absoluto, e é, por isto mesmo, parte integral das ideologias religiosas, morais e politicas, em geral. Mas, isto não é verdadeiro. A família não é a estrutura fundante da excepcionalidade humana. Não, para nós, esta excepcionalidade está na nossa própria atividade vital, no nosso trabalho coletivo e na transformação das nossas próprias vidas, com a transformação das nossas condições de vida. São as características desta atividade que criam uma história humana, e, nesta história, uma perspectiva de desenvolvimento. Diferentes formas de organização da sexualidade e da reprodução da vida dos indivíduos se criam, se estabelecem e se transformam também, neste longo processo histórico. Sabemos disto.
A nossa excepcionalidade não é, por origem, espiritual, racional, moral, religiosa ou devida a uma ética da família, ainda que nada disto seja desprezível, ao contrário. Ela é devida ao nosso processo produtivo coletivo que, por suas próprias características, se torna um processo histórico auto produtivo. Nós transformamos e criamos, enfim, as condições em que vivemos, de tal modo que, por todos os meios e em todas as dimensões, transformamos e criamos a nós mesmos, coletivamente. Podemos dizer que criamos a nós mesmos pelo tanto que transformamos as nossas condições de vida e estabelecemos bases para formas tão diferentes de vida humana, com um encadeamento histórico progressivamente mais forte, ainda que a nossa base genética e, portanto, os nossos corpos e seus limites vitais, sigam os mesmos. Algo que, talvez, a emergência da genética dos autismos já esteja a questionar. Até a nossa genética estaria modificando-se em função do nosso desenvolvimento tecnológico e das transformações no modo de vida humana, em geral. É, às vezes, um tanto vertiginosa esta forma de auto reconhecimento que projeta um sem fim e sem limites para o ser humano. Tudo se transforma e tudo se modifica, nenhuma base ou estrutura é sólida o bastante para nos limitar, absolutamente. Nenhuma razão superior, nenhuma fórmula ética, nenhum princípio moral, nenhum padrão ou ideal de família, de sociedade, de economia, ou algo assim. Até mesmo a nossa estrutura vital mais fundamental pode estar sendo modificada, já, pelo nosso desenvolvimento tecnológico e, de um certo modo, isto me parece ser realmente inevitável, pelo nível de transformação das nossas condições objetivas de trabalho, comunicação e vida, em geral, que esta transformação tecnológica já realizou e segue realizando, cada vez mais intensamente. Certamente é em busca de segurança e estabilidade que se estatuem, com pretensões absolutas, aos princípios morais, às fórmulas éticas e aos ideais, em geral. A família, a moral, a ética, são para sempre. Talvez, mas não certamente não esta ética, esta moral, esta família, estas religiões, não, tudo isto vai perecer e se modificar no tempo, como tudo o que veio antes, neste sentido.
Ainda assim, somos seres morais e projetamos nossas ações, em geral, com graus diferentes de consciência e controle, também no plano ético. Tomamos em consideração, realizamos, de qualquer modo, juízos éticos e decisões morais em cada uma das nossas atividades. Cada ação nossa, considerada no tempo, é uma escolha entre alternativas morais. Poderíamos, em geral, fazer alguma outra coisa, mesmo nas condições mais restritas de vida. Fazemos escolhas, sempre, que envolvem a nossa vida individual e os coletivos imediatos e mediatos em que estamos envolvidos. Este é o sentido moral ineliminável das escolhas e da ações humanas. Nas ações cotidianas mesmo, continuamente, fazemos escolhas morais definidoras, firmamos condutas e padrões de comportamento, de relacionamentos e de modos de viver em geral. Não há como escapar disto, seja com qual grau de consciência e liberdade que fazemos estas escolhas, o fato é que fazemos. E também é fato que faremos estas escolhas no corpo do processo coletivo, dentro dele e com as condições e meios coletivamente desenvolvidos e reproduzidos. Limitados, portanto, às questões que o coletivo, naquele tempo histórico, tem diante de si e com as respostas coletivas possíveis , por mais únicos que cada um de nós seja.
Ao nos colocarmos as questões cotidianas, em todas as dimensões da nossa vida, de alguma maneira, estamos simultaneamente no plano individual extremo, dos nossos interesses mais egoístas, assim como no plano dos interesses coletivos, dos grupos mais imediatos, em que vivemos diretamente nossas relações e realizamos nossas atividades, até os coletivos mais gerais e éticos, políticos, religiosos, sendo a própria humanidade como um todo, ou alguma forma de universalidade humana ideal, o ponto máximo ou extremo neste sentido. Então, ao agir, em cada ato, seja ele grandioso e disruptivo, ou um ato pequeno e repetitivo de nosso cotidiano, nós escolhemos o modo de ser humano, de nós mesmos, dos grupos a que nós temos e ao modo de ser humano em geral. Na prática. Somos nós e apenas nós que reproduzimos tudo isto que está aí, da forma em que está. A responsabilidade não pode ser de mais ninguém. É, inexoravelmente, de cada um de nós. E é por isso que somos seres morais, sem escapatória.
A escolha moral é, de algum modo, como atividade humana, regida por fins, por projetos. Projetos, neste caso, de nós mesmos, de nossa dignidade, de nosso proceder, do nosso relacionamento, do nosso conviver, da nossa família, da nossa sociedade, do nosso mundo, do nosso ser humano. Então, inexoravelmente, também, teremos projeções ideais nestes âmbitos a reger as nossas escolhas morais e ações. Devemos reconhecê-las, devemos trazê-las à consciência, devemos submetê-las à crítica racional e empírica, como fazemos com tudo o mais que projetamos e realizamos. Mas, aqui, isto parece completamente impossível, como avaliar racional e empiricamente os efeitos, os resultados mais profundos, das diversas ideologias que competem, por exemplo, sobre os padrões de sexualidade e os modelos de família ou das relações de trabalho e distribuição de riqueza e poder nas sociedades? E, pior ainda, como avaliar isto dentro do caos geral das vidas cotidianas, da luta pela vida, pelo bem estar, pelo reconhecimento, pela riqueza ou pelo poder, do dia a dia? É difícil, mas a gente opera estas avaliações, de modo mais ou menos consciente, em cada escolha diária nossa. E cada sociedade e até a humanidade como um todo, escolhe a si mesma, decide seu rumo, deste modo, pelas escolhas reiteradas de cada um de nós, dentro das condições materiais do seu tempo. E, com grande dificuldade e contradição, a humanidade evoluiu neste caminho, ou seja, se desenvolve também, positivamente, neste sentido, no longo curso da nossa história.
Devemos considerar, ao avaliar cada projeção ideal que, de algum modo, determina e direciona nossas escolhas, como ela se insere nesta cadeia histórica e na escala das projeções. Tudo tem uma história pretérita, que deve ser reconhecida e avaliada criticamente, e tudo terá uma história adiante, cada projeção ideal estará, necessariamente, se vier a se realizar, em uma sequencia histórica real, que deve ser previamente compreendida e bem estabelecida na própria idealidade, como projeto. Devemos nos esforçar ao máximo, portanto, para identificar quais os ideais ou princípios que podem ou devem nortear as nossas escolhas morais e as relações pessoais e coletivas, em geral, na sua sequência de realização possível. Com certeza alguns ideais são realizáveis no presente e em um futuro próximo e como caminho ou trajeto para aquelas que somente podem se projetar para tempos muito mais longos, até se perdendo, de fato, na bruma de tempos indetermináveis adiante. Entender isto e estabelecer as ordens de realização possíveis e, portanto, as alternativas reais do presente e do futuro próximo em consonância com os melhores ideais ou projeções futuras, distantes. É preciso entender que muitas vezes haverá grande contradição aparente entre caminho e meta ideal, mas devemos estar preparados para isto e nunca podemos nos render neste ponto ao idealismo. Por exemplo, num mundo sob a realidade e o risco de violência e abuso entre nações, aquela que mais busca a paz, que mais afirma a paz terá, talvez, que se armar muito fortemente o suficiente para não ser dominada ou destruída. É assim hoje, sabemos disto.
Outro aspecto fundamental, de máxima importância, que também se refere ao processo de estabelecimento e realização de idealidades éticas ou morais, é o fato que apenas podemos ter certos ideais devidamente compreendidos e as suas projeções postas como objetos e metas de projetos em uma escala realizável, não apenas como idealidade ou fantasia mitológica ou racional,, quando a sua maturação histórica atingir certo nível. A questão mais imediata da ideologia ética em geral, a universalidade humana como crfitério e verdadeiro lócus de decisão e atuação moral, só pode de fato ser entendida e tomada como objeto e objetivo, real e não fantasioso e ilusório, na medida em que a própria humanidade se desenvolve objetivamente como uma universalidade real, uma sociedade humana universal, constituída na integração da produção e no intercâmbio humano em todas as dimensões a nível mundial, de fato. Este é, portanto, como se poderia mesmo esperar, pelas características fundantes do nosso ser, um processo em que o desenvolvimento objetivo e a construção ideológica das escolhas morais se fazem um ao outro, no curso da nossa história, sempre, lembro, com grandes contradições e idas e vindas, mas, ao que parece, com este sentido de desenvolvimento, no longo curso de nossa história.
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