terça-feira, 13 de maio de 2025
A CRISE DE REALIZAÇÃO GENERALIZADA, A NOVA ONDA SOCIALIZANTE, O MUNDO BIPOLAR E A POSIÇÃO DO BRASIL
A avaliação de que estamos em uma crise de realização na economia mundial desde em 2007 no sistema capitalista mundial está embasada na identificação que foi aí que começou um processo depressivo na economia mundial que resultou em uma recessão global, ou seja, em taxa de crescimento negativo, abaixo de zero, da economia mundial. É claro que esta variação é muito dependente da variação na economia dos EUA, que ainda é, ou era, a maior economia nacional do mundo. Foi a primeira vez que isto ocorreu desde o fim da segunda guerra mundial. E abriu-se aí um período de níveis menores de crescimento, em grandes centros da economia mundial, com a propensão para novas crises e picos recessivos no sistema. Isto tudo é bastante coerente com um período longo de crise de realização generalizada, o que é, por sua vez, também bastante coerente com, deve mesmo resultar de, um período, longo, de intensa concentração da riqueza social. E foi justamente isto o que aconteceu, ao fim, na onda neoliberal, pelo nível extremo de concentração a que chegou-se, já em 2007, e que veio se acentuando em pontos centrais do sistema, tanto nos EUA, como na Europa, por exemplo.
Os recursos de trilhões de dólares, lançados pelos diversos governos, especialmente nos próprios EUA e Europa, mitigaram os efeitos desta grande crise, até agora. Mas, claramente não foram suficientes para afastar completamente as crises da economia, apesar de bons períodos de retomadas de crescimento da produção, mercados e bolsas. Isto é justamente a condição da crise mitigada pelos recursos anticíclicos, de socorro financeiro e social em que nos encontramos agora. E ainda bem que é assim e não mais no padrão que foi na primeira metade do século passado. Mas, estamos em uma situação cada vez mais difícil e será ainda assim, enquanto não for radicalmente revertida a tendência de concentração da riqueza nestes grandes centros da economia mundial. Parece claro que isto já está em curso na China, desde 2014 os dados indicam, pelo menos, o fim da onda de crescimento da desigualdade econômica lá. A paralização e reversão do crescimento da concentração de riquezas Isto terá que ocorrer, também e rapidamente, nos EUA e na Europa e mundo afora, na verdade. E irá ocorrer, nos próximos anos e décadas. Ainda que a gente passe por grandes crises e até mesmo maiores guerras, isto irá acontecer, pois é a necessidade do sistema, o que se representa, de modo realista, eu creio, pela imagem de que após uma onda liberal segue-se uma onda socializante no sistema econômico capitalista mundial, ou, pelo menos, dentro das economias nacionais centrais do sistema, ou, dito de outro modo, após uma onda de concentração de riqueza, segue-se uma de redistribuição da riqueza no sistema, necessariamente. E iremos, a seguir, já estamos, é verdade, indo numa nova onda socializante, na medida mesma em que a onda neoliberal está acabando, nesta sucessão de crises.
As necessidades do sistema econômico mundial se impõem, de certo modo, cada vez mais, sobre quaisquer particularidades e peculiaridades locais e nacionais. Isto é, e será progressivamente uma contradição a ser superada. Temos cada vez mais, um sistema econômico mundial, fundado, no entanto, em economias nacionais, atreladas a unidades políticas nacionais legalmente autônomas e independentes. Esta independência é falsa e, progressivamente, mais falsa na medida em que avança a integração produtiva e financeira, científica e tecnológica global, em que avança a globalização. E este avanço é necessário, não se pode, no limite, na lógica própria do sistema econômico capitalista mundial, e a ainda menos de um sistema socialista, parar a globalização. Ela é necessária e positiva e todos a desejamos. Mas, a economia fundada em estados nações se acomoda e se contrapõe a este sistema global. Em momentos críticos esta contraposição vai aparecer mais explícita e dramática. É o exemplo claro do tarifaço e, na verdade, de toda a doutrina do governo atual dos EUA. Como dizem na roça, farinha pouca, o meu pirão primeiro, no limite do confronto por dinheiro ou poder, realmente, acaba toda a gentileza. É, contudo, apenas como força desvanecente que as economias nacionais se impõem, a globalização é necessária e inevitável ao sistema capitalista e, de um modo mais profundo, à própria produção humana.
A integração da produção e das finanças no mundo prosseguirá, contra qualquer barreira artificial e momentânea que qualquer economia nacional possa antepor a este desenvolvimento. Mas, no tempo histórico o momentâneo pode durar muito tempo para uma vida pessoal, isto sempre é bom ter em mente. E o fato histórico mais evidente no momento é que temos e teremos, ainda, um período relativamente longo. diante de nós, em que o sistema econômico capitalista mundial estará completamente polarizado pelas duas grandes potências atuais, duas economias nacionais tão preponderantes que, realmente se destacam muito em relação aos outros. Para exemplificar, hoje, os EUA têm 28% do patrimônio de todas as empresas listadas em bolsas, globalmente, enquanto a China representa 40% da produção industrial global.
É uma condição de polarização forte e decisiva, pois está em jogo aí, não apenas e nem principalmente, a hegemonia no sistema mundial, mas também o próprio modelo, forma ou destino do sistema. A vitória da China é uma expressão da vitória do socialismo, por mais que se conteste este fato. Em dois aspectos centrais isto deve se demonstrar, na integração da economia mundial e no seu redirecionamento para necessidades populares, logo, maior coordenação da produção e distribuição da riqueza.
Na realidade estamos saindo de um mundo efetivamente unipolar, um mundo em que o predomínio econômico e militar da aliança em torno dos EUA era realmente incontestável, ainda que este poder real se fizesse, também, pelo recurso aos e desenvolvimento dos mecanismos e instituições multilaterais. Não é de se estranhar que, apenas iniciada a grande crise atual, no final da primeira década deste século, os EUA e alguns de seus principais aliados progressivamente se afastaram destes mecanismos e instituições multilaterais e passaram a afirmar um nacionalismo crescente e crescentemente contraditório com o sistema mundial globalizado, tentando afirmar um poder que, efetivamente, já não têm. Estamos, realmente, saindo do mundo com predomínio unipolar e entrando em um sistema de predomínio bipolar. Uma transição longa se dará, por meio de um processo de polarização de dois subsistemas de predomínio, em todos os campos estratégicos no mundo. O predomínio dos EUA e seus aliados diretos deverá ser progressivamente desinflado e, correlativamente, o predomínio da China e seus aliados, deverá se ampliar progressivamente, em todos os campos estratégicos, repito, por um bom tempo adiante. Tomemos, por exemplo, as gravíssimas questões do predomino sobre a internet e as tecnologias de informação em geral e no campo militar. Em todos estes aspectos a hegemonia da aliança estadunidense perde realidade objetiva a cada dia, mas ainda vivemos num mundo com grande domínio dos EUA e aliados nestas duas áreas e assim será nos próximos, longos, anos. Não é difícil antever a gravidade destas transições estratégicas e os grandes riscos que elas trazem. Mas também parece claro que não é possível deter esta transição e que ela é realmente muito positiva para a humanidade. Também não é possível a ninguém, a nenhum país, a nenhuma economia nacional, minimamente relevante no mundo, ficar realmente neutra ou pretender ter uma posição realmente autônoma nesta bipolarização do sistema mundial. Ao contrário, diante de todas as questões estratégicas no mundo, hoje, já, e progressivamente mais, vamos ter que escolher entre um lado ou outro, inevitavelmente. Como sempre, este intenso processo de transformação histórica também se dá e se dará por meio de agudas contradições. De fato, as economias da China e dos EUA são, hoje, muito integradas e complementares e isto não tem como ser eliminado na prática. Ainda bem. Quanto mais as economias nacionais se integrarem nos sistemas mundiais de produção e distribuição, melhor para o desenvolvimento geral economia, da humanidade, em geral, e menor a chance das grandes guerras internacionais que ainda hoje nos assombram tão terrivelmente. Então, certamente o mais inteligente para todos nós, para cada país minimamente relevante, para o Brasil, sobretudo, o mais inteligente é jogar na integração mundial geral, realmente globalizante e globalista, no sentido econômico de maior e melhor coordenação da economia mundial e, quando as decisões antagônicas tiverem que ser feitas, e terão sempre, de certo modo, cada vez mais, que serem feitas, que a gente se alie ao lado de maior progresso para a própria integração mundial, planejamento e coordenação da produção mundial e melhor distribuição da riqueza e do poder social. Na verdade não há outro caminho, no sentido histórico mais amplo e, no momento histórico atual e nos anos e décadas seguintes, é realmente esta a onda que prevalecerá. Quanto mais cedo e mais decididamente estivermos neste caminho, neste sentido ou neste lado, acertado, melhor será para nós aqui no Brasil e para a humanidade em geral.
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