quarta-feira, 14 de maio de 2025
A CRISE ATUAL E A QUESTÃO IDEOLÓGICA DO SISTEMA: CAPITALISMO X SOCIALISMO?
Um outro efeito secundário das recentes ações agressivas do governo dos EUA sobre a economia mundial, se apresenta no rompimento com as regras e o norte ideológico estabelecidos por eles mesmos, desde a fundação da ordem contemporânea global, no fim da segunda guerra mundial e ainda mais, com a onda neoliberal de globalização. As regras do sistema e o seu sentido liberalizante foram colocadas em questão, ou melhor, foram diretamente negadas pelo governo dos bilionários nos EUA. Aqueles que mais propugnaram por estas regras e idéias liberalizantes e que deveriam ser os maiores defensores desta ordem, agora, são justamente os que mais diretamente a confrontam e negam.
Isto estava presente, mais ou menos explicitamente, em tudo o que tenho escrito desde o início desta crise das tarifas de importação dos EUA, ou melhor, desde o início das guerras da Ucrânia e de Gaza . Mas, este aspecto merece um destaque à parte, porque suas consequências interessam em especial a um debate ideológico ainda crucial em nosso tempo e que permanecerá assim no futuro próximo, ainda mais e mais acentuadamente.
Não é possível negar a força, o impacto ideológico de uma mudança de postura tão grande. A concepção que separa o estado do mercado, a política do business, tão cara a toda a ideologia liberal e democrática, é frontalmente negada pelas ações do governo dos EUA, o antigo campeão mundial da ideologia capitalista e democrática.
Para entender mais esta contradição aguda da situação atual, devemos, como sempre, buscar as suas causas, para além da superficialidade das impressões emocionais ou pessoais que, no fundo nada explicam. Isto não se deve a uma natureza autocrática, neofacista, do governo atual dos EUA, ainda que ele tenha esta característica, em comum com um grande número de movimentos e líderes políticos neofacistas de vários países no mundo atual. Certamente, é de se esperar algo deste padrão no bojo das grandes crises econômicas: as regras são contestadas pelo poder e as farsas ideológicas e políticas são dispensadas quando se torna necessário agir no limite, o poder se exerce de qualquer jeito, sem máscaras.
Para o governo dos EUA a crise se apresenta, agora, na forma do dilema do duplo déficit, o governo gasta mais do que arrecada e o país compra mais do que vende, e isto não para de crescer, aceleradamente. Esta é a razão e a justificativa para as ações excepcionais do governo. Um estado emergencial devido ao nível gigantesco e à velocidade acelerada de crescimento do duplo déficit na economia americana. Mas esta crise atual vem de antes, de longo período, já, de quase 20 anos de crise econômica, com dificuldades disseminando-se na economia mundial, em vários pontos, desde então, resultando em níveis mais baixos de crescimento econômico e com a presença de pícos recessivos, apesar dos momentos de retomada e bons ganhos nos mercados. A crise do duplo déficit dos EUA se entende mais facilmente neste contexto de uma grande crise de realização generalizada, mas ainda bem controlada com o lançamento episódico de trilhões e trilhões de dólares nas economias pelos governos, mundo afora, desde 2008. Como eu tenho insistido, sempre, a origem principal desta crise está na extrema desigualdade na distribuição da riqueza social, que se atingiu ao fim da onda neoliberal iniciada nos anos 1980. e só será realmente resolvida com a sua reversão.
Até por isto mesmo, o impacto ideológico das últimas ações do governo estadunidense é de grande importância e se reverterá em mais um efeito secundário importante para a superação da onda neoliberal por uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial. Todo o mundo de defensores do sistema capitalista, até mesmo os seus ideólogos mais recalcitrantes, são forçados a reconhecer que a forte intervenção estatal nos mercados pode ser e é requerida, conforme as condições de momento da economia, do sistema. Nessas condições ninguém pode continuar, facilmente, nutrindo ilusões de que os mercados são realmente autoreguláveis e autoregulados e que esta seria, senão a realidade, pelo menos o norte ideológico, o ideal do qual deveríamos sempre nos aproximar. Esta fantasia absurdamente dissociada da realidade histórica é, no entanto, parte fundamental da alma, do núcleo da ideologia capitalista. Segundo esta ideologia o estado não pode interferir nas regras próprias do mercado, elas devem atuar e se desenvolver livremente, pelos próprios mecanismos do mercado e, nem muito menos o estado deve atuar diretamente empreendendo no mercado. Esta ideologia tem vitalidade real e continuará a ter, de algum modo, sempre enquanto persistirmos no sistema capitalista. Temos que trata-la em sua contraditoriedade real, pois é certo que em diversos momentos liberalizantes em diversas economias nacionais e, de um modo geral, no sistema capitalista mundial, a economia floresceu, digamos assim. Mas, talvez, não mais do que nos períodos socializantes, dentro deste mesmo sistema capitalista mundial.
Independente disto, o fato é que a ideologia capitalista liberal sofreu um forte revés quando os seus principais representantes, os bilionários no governo nos EUA, são obrigados a agir da forma mais intervencionista e protecionista, destruindo, com a força da realidade, toda a infinidade de páginas escritas e vídeos gravados pelos defensores do "livre mercado".
Temos que lidar de fato com a contradição real de que o livre mercado não é e é necessário atualmente. Sim, seria tolo tentar ignorar, de qualquer modo, que a maior economia de mercado emergente, a grande potência capítalista emergente no mundo, é a China socialista. A contradição evidente nos termos é um enigma real para todos nós. E com certeza para a China também. Eles têm, no entanto, conseguido dar as respostas certas, de maneira inquestionavelmente brilhante, acertadas de modo muito além do que é, ou, era, comum, em toda a história do sistema capitalista mundial, com certeza. Talvez o único evento similar tenha sido a ascensão da produção, riqueza e do padrão de vida social nos EUA e nos países ricos da Europa, ao longo do período socializante, de grande redistribuição da riqueza social, do início dos anos 1950 até o fim dos anos 1970. Mas, o impacto do desenvolvimento Chinês atual já se mostra muito maior, até porque estamos em um nível tecnológico acima, mas, principalmente, porque o salto de desenvolvimento social foi mais intenso e a duração e constância deste avanço na China já é muito maior e continua avançando. E, não se pode negar, não é um avanço do capitalismo como se conheceu no sistema até agora. Tem muita coisa diferente no sistema econômico chinês. Diferente e melhor, cada vez menos gente consegue teimar contra isto.
Não vou entrar em detalhes sobre este ponto agora. Queria apenas destacar que houve mais um ganho da ideologia socialista, socializante, de qualquer modo, sobre a ideologia liberal, quando os maiores heróis desta ideologia são obrigados a rasgar os véus da fantasia e investir contra a pretensão de uma liberdade absoluta dos mercados.
O contraponto disto também é paradoxal, contraditório também, como toda a realidade. É o fato que a maior força de defesa do mercado e das liberdades de comércio e investimento no mundo se tornou a China socialista, onde, certamente, não impera a liberdade absoluta dos mercados, dos capitalistas, do comércio e dos investimentos, não impera o modelo liberal capitalista e nem o modelo social democrático. A China encontrou um modelo que mantém o controle estratégico e financeiro do sistema no setor público. Até agora é assim. E, com base nos seus planos, o estado é um ator mais ou menos presente em todos os setores da economia, que, no entanto, persiste como economia de livre mercado, dentro dos limites e sob o direcionamento da atuação estratégica do estado. E realmente poucos podem contestar que está funcionando bem assim, muito melhor que todos os outros modelos até agora implementados nas mais diversas economias nacionais, do mundo todo, em nossa história recente, pelo menos.
Vai ser muito mais difícil sustentar as ideologias capitalistas liberais agora, diante da sua negação pelos seus próprios heróis, coagidos pela crise, e da grande vitória da China, socialista, no cenário mundial. E isto também é bastante compatível com o fato que estamos já no ápice da crise de fim da onda neoliberal e que iremos, já estamos indo, para uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário