sábado, 10 de janeiro de 2026

A GRANDE CRISE MUNDIAL Sala de Situação Abril 2025.

A GRANDE CRISE MUNDIAL Sala de Situação Abril 2025. Parte 1 As coisas estão num movimento intenso, no plano mundial, agora, mais do que em qualquer outro momento da minha vida. E não sou exatamente novo, tenho 61. Posso sentir a eletricidade do momento histórico na minha pele, o momento é crítico, é agudo, mas não necessariamente vai desembocar em uma grande guerra ou grandes guerras sucessivas. Da minha parte, pela minha formação, até, eu tenho a obrigação de analisar este momento, da forma mais séria, mais realista, mais concreta o possível. O que de fato está acontecendo agora. Porque idiotas e pilantras absolutos estão no poder nos países com maior renda percapita do mundo, hoje? Na aliança EUA-EU, propagadores da guerra anunciam todo dia o aumento dos gastos militares e o investimento nas mais poderosas armas que conseguirem. Isto não necessariamente vai terminar em grandes guerras, mas é um risco a mais, certamente. As grandes blitze tarifárias do governo dos EUA já são um ato de guerra e a guerra comercial contra a China já vinha de antes. Na verdade, o aumento de ações unilaterais e claramente imperalistas pelos EUA já vinha de anos anteriores e se acentuou gravemente no presente governo. Isto é correspondente à relativa decadência, à queda relativa do poder dos EUA no mundo nos últimos anos e décadas. Atos de força e violência são mesmo esperados na tentativa de impor e preservar um poder decadente, a partir de um certo ponto desta decadência. Tem algo mais determinante, no entanto, que vem antes na determinação deste momento crítico. É a crise econômica do fim da onda neoliberal. Isto tem muito pouca gente vendo. Praticamente ninguém, apesar de ser tão evidente. Às vezes o óbvio é tão claro que cega as pessoas, ou as pessoas estão cegas por outros fatores e não conseguer ver. Toda onda liberal no sistema econômico leva, inevitavelmente, a uma concentração da riqueza, progressiva e tendencialmente ilimitada. Isto está na essência da lógica econômica liberal e a história comprova. A onda neoliberal não foi diferente. Chegamos, agora, a um nível extremo de concentração da riqueza, nos países mais ricos, mesmo, até um ponto em que fica muito difícil a economia seguir girando. Uma crise de realização generalizada é esperada nestas circunstâncias. Em minha análise, já estamos nesta grande crise desde 2007. A solução liberal, ou natural, desta crise no sistema capitalista se dá através de grandes recessões, desemprego, empobrecimento, quebras de setores da economia e grandes crises sociais, incluindo guerras. Neste momento as decisões mais estúpidas, improvisadas, arriscadas e destrutivas serão, necessariamente, tomadas, sempre levando, ao fim, a fracassos e à recessão. A crise atual está, no entanto, controlada, ainda, pelos mecanismos anticíclicos, de regulação da economia e de proteção social, mas eles estão se esgotando e a crise só será superada, de fato, com a redistribuição da riqueza e o maior controle social da produção, quer dizer, com uma nova onda socializante no sistema, como ocorreu no século passado, mesmo que para isto tenhamos que passar pela imensa destrutividade das grandes depressões e guerras, que irão necessariamente ocorrer enquanto persistirem no caminho liberal. Se não entendemos esta condição econômica de base, não podemos entender o risco crescente de guerras, ou o ascenso da uma extrema direita neofascista, onde despontaram, em algumas partes do mundo, clowns cínicos, bandidos e canalhas explícitos como líderes políticos que, enfim, falam "a linguagem do povo". Um povo que, nos próprios países ricos, ficou à margem ou usufrui realmente muito pouco do grande desenvolvimento tecnológico da onda neoliberal, sobretudo nesta fase final, que está mais pobre e sem perspectivas do que há décadas atrás e que está doutrinado a direcionar suas frustrações contra um inimigo forjado, seja a ideologia queer, sejam os globalistas, sejam os migrantes ou um país estrangeiro. Estas figuras estúpidas, grosseiras, violentas e grotescas que passaram a ocupar o cotidiano político no mundo ocidental, sobretudo, são um produto e um veículo da crise econômica. Seu desígnio é levar, impor, forçar, a doutrina liberal, mesmo quando ela só pode levar ao aprofundamento da crise, que já está no seu extremo. São as bestas do apocalipse, mesmo. E são personagens inevitáveis em uma situação como esta em que estamos. Dentro da lógica econômica liberal a crisa precisa ser aprofundada, para ser resolvida. Eles são veículos para acelerar isto. Sejam os perfumados da democracia europeia ou os fedorendos das Américas. São os líderes da crise, da recessão e da guerra. A doutrina liberal é a doutrina própria, profunda ou essencial do capitalismo e eles, até acertadamente, apontam tudo o que sai deste caminho, estreito e estúpido, como sendo socialismo. Estão certos, porque tudo isto é mesmo uma forma de negar, de superar, ainda que de maneiras limitadas e ainda afirmativas do capitalismo. E estas medidas, socializantes, dentro do capitalismo são, na verdade, salvadoras para o capitalismo e também partes importantes do processo de superação do capítalismo. Desde as primeiras conquistas de direitos coletivos dos trabalhadores, desde o primeiro ato de seguro dos depósitos bancários, desde desde as primeiras ações afirmativas, de reparação e promoção social, estamos saindo do capitalismo, mesmo que sejam estas medidas justamente que estão salvando o capitalismo das crises mais extremas e destrutivas, ainda hoje. E acontecerá assim novamente. As tentativas de manutenção, a todo custo, da ordem, da ideologia liberal, no sistema capitalista mundial, resultarão em ainda mais derrotas, em mais fracassos econômicos e geopolíticos dos países mais ricos do sistema. Ainda que, imediatamente possam ser ou parecer ser vitórias da doutrina liberal e da hegemonia dos ricos. É da lógica mesma desta condição que, pressionados ao limite, estes líderes, que agora falam em paz, serão os maiores arautos da guerra. Em contraposição, o sistema econômico tem, já, na China, socialista, um ponto de apoio suficiente, para ultrapassar esta crise do fim da onda neoliberal de modo menos destrutivo do que foi ao fim da onda liberal no século passado. Assim como vários analistas, eu entendo que, sem guerras de destruição planetária, já não é possível evitar a hegemonia da China no sistema capitalista mundial, ela já é real em tantas áreas, na indústria e no desenvolvimento técnico-científico. Enfim, temos claro, pelo menos, que viveremos um período de hegemonia dividida entre os dois grandes polos, China e EUA. Os EUA, representando, no entanto, a poder que está sendo superado, que hoje investe na imposição de força e na quebra dos sistemas de controle transnacionais. A vitória da China nesta guerra comercial, que já aparece bastante segura, também acelerará a superação de tudo isto, enormemente, e terá que levar rapidamente, também, a novas estruturas, novos sistemas, de gestão transnacional da economia mundial e melhor distribuição de renda, e da riqueza e do poder real, no mundo e também dentro das sociedades. Posso dizer isto pelo histórico recente da China, seja no plano geopolítico e estratégico em nível mundial, seja pelo prisma, mais do que fundamental, e sempre esquecido ou negado sob a ideologia liberall, da distribuição de riqueza. É fato que na onda neoliberal a concentração de riqueza na China cresceu exponencialmente, atingindo níveis muito próximos daquela dos EUA, mas desde 2014 parou de crescer e recentemente começou a regredir na China, enquanto persistiu aumentando nos EUA. A tendência, na China, é de maior redistribuição com um foco mais intenso no consumo doméstico, enquanto nos EUA, agora, os bilionários lutam com garras e dentes para manterem e aprofundarem seus ganhos, socializando as perdas. Seja como for, é sempre bom lembrar que países como o Brasil e vários outros da América Latina têm concentração de riquezas muito maior do que aquela da China ou dos EUA. O TARIFAÇO DOS EUA E A CRISE MUNDIAL Sala de situação Abril, 2025 - Parte 2 A guerra econômica contra a China e o tarifaço generalizado do governo dos EUA constituirão, sem dúvidas, marcos importantes na história mundial contemporânea, porque marcam uma etapa, um momento muito significativo, na intersecção de três crises de alta magnitude sísmica no sistema econômico mundial. A crise final da onda neoliberal, a crise da hegemonia dos EUA e a crise do próprio sistema econômico capitalista mundial. Depois de muitas idas e vindas, enfim, até o presente, houve um grande aumento generalizado da tarifa de importação dos EUA, contra todos os países, com isenções parciais para apenas alguns produtos tecnológicos e que talvez se estendam para o setor agrário e outros. A China foi o alvo principal do tarifaço estadunidense, a mais atingida, diretamente, com a tarifas de 145% e, indiretamente, com algumas tarifas especiais "do fentanyl", contra as importações do Canadá e do México, que vinham se tornando plataformas da exportação chinesa para os EUA. A China retaliou na mesma moeda, estabelecendo-se, ao fim, tarifas proibitivas, de lado a lado, promovendo, imediatamente, um bloqueio em grande parte do comércio entre os dois países, as duas maiores economias do mundo. Isto romperá, ou tornará mais difíceis, mais custosas, várias cadeias produtivas, mundo afora. Esta guerra tarifária instituída pelos EUA é, certamente, um dos atos mais dramáticos da grande crise da onda neoliberal, a sua crise final, em que nos encontramos agora. Trata-se, sem dúvida, de um choque recessivo sobre a economia mundial, em geral, e sobre a economia dos EUA, em particular. Este é mais um exemplo de que nos momentos agudos das grandes crises econômicas as maiores irracionalidades, por mais improvisadas, ineficazes, irresponsáveis e disfuncionais que sejam, podem ser implementadas, resultando sempre em queima de capital, quebra de parcelas da economia, recessão, enfim. Quarentenas nacionais por meses sem fim, guerras comerciais e guerras reais, por exemplo, tornam-se muito mais aceitáveis nestes momentos. Tudo isto leva a um fim comum: à recessão. Porque, na lógica interna do sistema capitalista, a recessão, a grande crise recessiva, precisa acontecer, necessariamente. A recessão é a resolução, aguda, destrutiva de uma crise sistêmica na economia capitalista liberal, o caminho que as coisas têm que tomar, naturalmente, dentro deste sistema, até que a crise de fato se resolva. Estamos numa destas grandes crises no sistema capitalista mundial, atingindo, mais especificamente e fortemente, os seus centros hegemônicos, até então, aqueles que constituem a grande aliança de poder mundial em torno dos EUA. A crise atual ocorre no fim de uma fase, de uma onda, de predomínio liberal no sistema, com o aumento persistente e progressivo da concentração de renda, até chegar aos níveis em que a realização do capital passa a ser marginalmente inviável, assim como foi a grande crise do século passado e é natural que ocorra periodicamente no sistema capitalista. Estamos, hoje, em praticamente todos os países do mundo, nos níveis mais altos de concentração da riqueza, níveis tais que, progressivamente, estão tornando a realização dos investimentos mais difícil e mais dissociada dos interesses e necessidades populares. Esta é a razão fundamental da crise em que nos encontramos desde 2007, marcando o fim da onda neoliberal na economia mundial. Isto parece tão evidente que não deveria ter que ser provado, mas, incrivelmente, parece estar sendo generalizadamente ignorado. De algum modo, parece que isto não pode, ainda, ser devidamente reconhecido. Para ser mais preciso, estamos, agora, no início do ponto máximo desta crise de fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Mas, ela está, ainda, muito controlada, mitigada, abafada, pelas medidas anticíclicas e de proteção social, largamente postas em movimento, em vários momentos, desde 2008. Ainda bem que, há muito tempo, pelo menos desde a segunda metade do século passado, certamente não vivemos mais em uma economia propriamente liberal, no capitalismo mundial. Mesmo com a onda neoliberal, vivemos, hoje, em um sistema muito menos conservador liberal, ou seja, muito menos capitalista, ou muito mais socializado, do que nos fins do século 19 e na primeira metade do século 20. Não fossem os recursos anticíclicos regulatórios e de proteção social e o custo econômico e humano desta grande crise atual já teria sido muito maior. Mas, estes recursos não foram e não serão, jamais, suficientes para reverter e resolver a crise, de fato. Isto só poderá ser alcançado, como foi no século passado, com uma, nova e maior, inflexão socializante no sistema capitalista mundial, com progressivos ganhos reais de renda e recursos para a população trabalhadora e com maior coordenação da economia mundial. O tarifaço e a política geral do atual governo dos EUA, com cortes drásticos em serviços públicos, jogam no sentido exatamente oposto, de dissociação das economias, no plano mundial, e de mais perdas de renda e recursos para as classes populares, internamente. Não só nos EUA, mas em todos os antigos centros de poder do mundo capitalista, estamos chegando em limites insustentáveis para a implantação de novas medidas anticíclicas eficazes. Os orçamentos públicos já estão muito pressionados e o mau uso dos recuros de socorro, que foram anteriormente lançados na economia, levou a uma concentração ainda maior da riqueza no interior destes países. Em geral, a política dominante entre eles, hoje, é, realmente, de conteção e corte das despesas com os serviços e recursos populares e aumento de gastos militares. Certamente, já não há mais muita margem para medidas anticíclicas num contexto destes. Contudo, o povo nestes países já vem perdendo capacidade de consumo e qualidade de vida há anos, décadas até. Impor mais perdas não vai ser fácil. E não vai resolver a crise. Ao contrário, ações assim só a aprofundam e aceleram, imediatamente, criando um ciclo vicioso destrutivo, intensificando também o risco dos maiores conflitos e perdas sociais, seja pela recessão, seja por guerras. Todas estas ameaças e riscos se tornam cada vez mais prováveis, mas, não tenho dúvidas que a crise atual do sistema capitalista mundial só será resolvida com o avanço, e não com o retrocesso, da socialização e mundialização da produção e da vida social e entendo que, efetivamente, isto já está em curso, representado, justamente, sobretudo, pela ascensão da China socialista e pelo seu papel numa nova economia mundialmente integrada. A transição da hegemonia mundial e a transição histórica profunda Sala de Situação, Abril 2025. Parte 3 Tudo indica que já é tarde para se conter o avanço chinês nos planos econômico e geopolítico mundiais e as tentativas de demonstração de força do império estadunidense resultam no aprofundamento e na exposição mais evidente da sua fraqueza relativa. Na improvisação, o governo dos EUA muda o decreto do tarifaço a todo momento, mas, uma coisa é certa, ele representa uma ruptura dos EUA com a ordem econômica que vigiu até aqui, fortemente desenvolvida justamente no curso da onda neoliberal e sob a hegemonia deles. Com isto, estão se levantando suspeitas generalizadas contra a liderança, a estabilidade e a confiabilidade dos EUA, em termos econômicos e estratégicos mundiais. Isto só intensifica a desconfiança na moeda e na economia dos EUA, em geral, e acelera a redução da posição da sua dívida pública e do dólar nas funções de reserva e de padrão monetário, mundiais. Estas tendências já estavam em curso e, agora, inevitavelmente se aceleraram muito. A queda relativa do poder econômico dos EUA terá que ser acompanhada da queda do seu poder geopolítico. A arrogância estúpida que os EUA demonstram agora, seja na arena econômica, seja na cena política, as reações destemperadas do governo americano, o seu tom impositivo e intimidador para com todos os outros países, tudo isto se parece com os rugidos de um leão velho, que já sentiu que é incapaz de deter o tempo, apesar de ainda poder amedrontar e ferir. Quem perde o poder costuma reagir com desespero, realmente, mas, também pode aprender a conviver com a divisão de hegemonia no mundo real. E isto também já está a caminho. O tarifaço quebrou parte da confiança nos EUA e terá, sem qualquer dúvida, o efeito de reduzir o crescimento econômico no país, eventualmente de jogá-lo na recessão. Como resultado destes atos tresloucados, o mundo se dissociará mais dos EUA e, inevitavelmente, se aproximará mais da China. Isto já está acontecendo. Ainda bem. Enquanto os EUA forçam para desintegrar as instituições mundiais e desestabilizam os mercados mundiais, a China está construindo a maior rede internacional de transportes e estruturas produtivas de toda a história. Parece que os EUA estão sonhando em fazer uma reindustrialização dos anos 1970 e enquanto isto a China está tomando a liderança da inovação tecnológica em todas as áreas. Enquanto os EUA estão desestruturando e reprimindo as suas universidades, a pesquisa e o ensino, em geral, a China está assumindo a dianteira segura na pesquisa científica mundial. É inevitável perceber a transição da hegemonia mundial e já é possível visualizar a transição histórica profunda que isto representa. O império dos EUA lideraram um certo nível de globalização, de integração mundial da produção, das finanças e da vida social, intensificada com a onda neoliberal, que, no entanto, nos trouxe à mais extrema desigualdade social e a esta grande crise econômica e social atual. A China socialista, por seu turno, praticamente já lidera a integração da produção mundial em um novo nível, muito superior, com uma economia voltada para a prosperidade comum e investindo maciçamente na logística de transportes e comunicação em todo o mundo, com uma perspectiva geopolítica de respeito às especificidades locais e pela formação de parcerias econômicas com ganho mútuo. O tarifaço é mais um ato que marca, que define e que aprofunda, esta substituição da grande locomotiva da economia mundial. Estamos vendo isto acontecer diante dos nossos olhos. A China representa a força ascendente mas, por um tempo longo para as nossas vidas, ainda que um curto período histórico, teremos que viver, inevitavelmente, em um mundo sob forte disputa bipolar, com os dois sistemas integrados, mas em competição e confronto muito mais acirrados, porque mais desenvolvidos e decisivos historicamente, do foram aqueles da aliança de poder dos EUA contra a URSS e seus aliados. A contradição se torna mais aguda, mais intensa. O mundo altamente integrado da economia mundial atual, muito mais do que no período soviético, terá, no entanto, que se desenvolver, agora, dentro desta nova tensão bipolar, tornando cada vez mais inevitável escolher entre um dos dois sistemas em disputa cada vez mais aberta e intensa. Já era assim, em grande medida, e agora ficará ainda mais. A posição da multilateralidade por princípio é acertada, mas não resolve o problema e, de fato, tanto o estado quanto os agentes econômicos dos diversos países vão ter que fazer estas escolhas binárias, em várias áreas estratégicas, entre os dois países e sistemas. É certo que o multilateralismo, até agora, teve sempre uma dimensão de farsa, assim como a democracia capitalista sempre tem um tom de farsa, já que o poder efetivo se impõe, no interior dos países e na ordem mundial. A atual aparente grosseria do governo dos EUA, compatível com a dimensão extrema da crise, apenas escancara isto, chamando a realpolitik ao mundo, mais uma vez. Seja como for, desconsiderada a hipótese da guerra absoluta, cujo resultado de extrema destruição não permite prever vencedor, a tendência é que a economia chinesa se sobreponha cada vez mais aos EUA, pelo próprio oportunismo inerente ao mercado capitalista. Além disto, dadas as condições objetivas de integração mundial atuais, também é certo que a resolução deste novo confronto bilateral, pela hegemonia mundial, levará a um nível mais alto e verdadeiro de multilateralismo, ou, melhor e mais precisamente, de efetiva mundialização. A CRISE ATUAL E O PROCESSO DE SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO Sala de Situação Abril 2025. Parte 4 Assim chegamos à terceira crise que confere dimensão histórica especial ao tarifaço do governo dos EUA e à sua guerra econômica contra a China. As tendências principais, ou, certamente, as mais inquestionáveis, impostas ao processo histórico pelo mecanismo capitalista, são aquelas de desenvolvimento da produção e da produtividade humana, de desenvolvimento da produção científica e tecnológica de massas e de mundialização, com progressiva integração, a nível mundial, da economia, das finanças, da produção, e da vida social, em geral. À custa de crises econômicas terríveis, de guerras e todo tipo de barbárie e destruição, o capitalismo cumpre o seu desígnio deste modo. Até o ponto em que este próprio desenvolvimento levará à superação do modo de produção capitalista. E isto também já está em curso. Não pode haver dúvida real da existência de uma inflexão socializante, seja sob qual for a bandeira política ou ideológica, em todo o sistema capitalista mundial, a partir dos anos 1930 e, sobretudo, a partir do fim da grande guerra do século passado. Mesmo com a onda neoliberal, grande parte dos recursos de proteção social, de regulação dos mercados e anticíclicos, desenvolvidos deste então, estão aí em pleno funcionamento e se desenvolvendo. Não fosse isto e a crise mundial estaria muitas vezes pior neste momento. Do ponto de vista ideológico, no entanto, muitas visões, de diversos espectros políticos, realmente consideraram as vitórias políticas e a globalização neoliberais como uma derrota cabal, ou quase isto, do movimento socialista. A derrocada completa do comunismo soviético, ainda no início do período neoliberal, parecia ter selado, inapelavelmente, esta via, às custas de uma das maiores tragédias sociais dos últimos tempos, com grandes aumentos, absurdamente altos e duradouros, da mortalidade na grande maioria das antigas repúblicas soviéticas e adjacências, ao longo da década de 90. Algo verdadeiramente impensável com a tecnologia e o nível cultural deles, naquela época. Mas, deram em um beco sem saída. O comunismo, ali, foi sacrificado e o povo punido, amargamente. Foi, no entanto, um sacrifício estratégico, como no golpe de sacrifício no judô. A superação completa do capitalismo só poderia ser atingida após um processo de transição ainda longo, sobretudo se considerarmos o desenvolvimento da produtividade no mundo naquela época e, particularmente, nos países "comunistas" de então. Além disso, ela jamais aconteceria, ou acontecerá, em um só país, ou apenas em um grupo de países secundários na economia mundial. Hoje é bem mais fácil reconhecer estes pontos, a história da China nas últimas décadas é a evidência maior e, agora, o socialismo, que ficou derrotado naquele momento, já derrota o capitalismo dos EUA, em todos os campos relevantes do próprio capitalismo. É preciso reconhecer, a história agora demonstra, portanto, que o socialismo é, tem que ser, necessariamente, ainda, capitalismo. É o processo e a fase histórica final de superação do capitalismo, o momento mais crítico, mais intenso, extremo e desenvolvido da contradição capitalista, cujo processo de resolução coincidirá, em grande medida, com o processo de mundialização progressiva da vida humana. O processo de superação final do capitalismo deverá se dar por um período socialista ainda relativamente longo, em que o capitalismo se encontrará em suas contradições mais extremas. Por mais extremas, intensas e críticas eu não quero dizer necessariamente, nem objetivamente, mais violentas ou mais destrutivas, ao contrário, até. É possível, como disse um poeta, que este mundo acabe não com uma grande explosão, mas com uns gemidos, apenas. Neste longo período socialista, que, de certo modo, apenas começa agora, mas no qual avançamos progressiva e aceleradamente, a economia se integrará mundialmente, ainda mais e mais conscientemente, e as forças produtivas continuarão a serem desenvolvidas de modo ainda mais intenso e muito mais seguro, com muito melhor controle das crises e desvios do mercado, com progressiva coordenação mundial. Estas me parecem, realmente, projeções seguras das linhas de tendência predominantes no curso da história do sistema capitalista contemporâneo. Mas devo reconhecer que o fim destas projeções ainda é distante no tempo histórico e, portanto, elas podem ser tratadas como apenas ideologia. E não há nada de errado nisso. Que seja então, uma ideologia. Se você tem outra melhor, que apresente.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Revisitando a questão da COVID

Revisitando a questão da COVID Introdução Chegou a hora de revisitar a questão da COVID, considerando o seu impacto e as estratégias adotadas no seu enfrentamento. Porque agora é possível fazer um balanço a partir de resultados já razoavelmente sedimentados e documentados e, também, porque o distanciamento talvez já nos permita uma visão menos assustada e mais equilibrada, mais realista. A pandemia de COVID foi uma grande tragédia, levando à morte de vários milhões de pessoas e uma parcela dos sobreviventes sofre, ainda, por suas sequelas e complicações. O excesso de mortes relacionadas à COVID levou à redução da expectativa de vida global em 1,6 anos entre 2019 e 2020 (1). Esta perda já foi recuperada, atingindo-se o nível de expectativa de vida mundial pré COVID em 2023 e o superando em 2024 (2,3). Além disto, os efeitos da epidemia e, principalmente, as medidas de restrição de circulação e aglomeração de pessoas impostas na tentativa de prevenção antes do advento das vacinas, especialmente a imposição das quarentenas generalizadas, sobre toda a população, por longos meses, ininterruptamente, em países inteiros, levaram à interrupção e quebra de diversas cadeias produtivas e de consumo, da vida social em geral, resultando em uma significativa queda no PIB mundial. O Banco Mundial estimou uma retração de -4,3% a -4,6% no PIB global, em 2020, que também foi recuperada nos anos seguintes (3). Além disto, estas medidas, de restrição extrema, resultaram em efeitos negativos diretos sobre a saúde das pessoas, com as barreiras impostas em todos os níveis do próprio atendimento médico e, ao menos em parte, foram responsáveis também por uma significativa piora dos indicadores de doenças psíquicas e de consumo e mortalidade por álcool. Efeitos dos quais nós ainda não conseguimos nos livrar, completamente (4). Os graves efeitos da pandemia, somados àqueles, também graves, das quarentenas generalizadas, criaram, de fato, uma acentuação real do mal estar, entre as pessoas, nas sociedades, em diversos países, no mundo em geral, que, de certo modo, persiste até hoje. Por outro lado, as medidas restritivas aceleraram tendências de automatização de processos de trabalho, de expansão de serviços e do trabalho à distância e de outras tecnologias correlatas, que podem ser consideradas positivas, sob alguns pontos de vista econômicos e sociais. Além destes resultados gerais, também já pode ser suficientemente comprovado que, em geral, os países que adotaram a testagem em massa e reiterada, como o centro da estratégia de proteção contra a COVID, antes da vacinação, tiveram resultado muito melhor do que aqueles que centraram a sua estratégia nas quarentenas nacionais generalizadas, de toda a população, de modo prolongado ou contínuo, até a vacinação. Em meu entendimento, assim que surgiram os primeiros dados epidemiológicos, já parecia claro que as características da epidemia, sua transmissibilidade e sua letalidade, especificamente, não indicavam, nem justificavam a adoção das quarentenas generalizadas, em toda a população, de modo contínuo e em países inteiros, até o advento da vacinação em massa. Eu avaliava, já então, que esta alternativa seria, na prática, de efetividade muito questionável e de alto custo econômico e social. Ao contrário, a testagem em massa é que tinha que ser adotada como o pilar central da atuação preventiva e as quarentenas generalizadas, os isolamentos e restrições de circulação e aglomeração deveriam ser localizadas e pontuais, orientadas pela testagem reiterada nos diversos locais. A própria OMS, já em abril de 2020, indicou que o centro da estratégia de prevenção tinha que ser a testagem em massa. Mas não teve forças para sustentar esta posição o suficiente para ela se disseminar mais no mundo. O que teria poupado muitas centenas de milhões de mortes no mundo. Eu realmente não esperava que a epidemia resultasse em número tão grande de mortes. Os dados epidemiológicos iniciais, a que eu tive acesso, de um navio e da Corea do Sul representavam, efetivamente, taxas de mortalidade bem menores do que aquelas que, ao fim, se atingiu em vários países da Europa e das Américas e, por consehguinte no mundo. Os dados populacionais de mais amplo acesso, no início da pandemia foram da Coréia do Sul, mostrando, portanto, a situação num dos países que estava adotando as melhores medidas, centradas na testagem em massa, ao contrário da pior estratégia, tragicamente equivocada, centrada nas quarentenas generalizadas nacionais, contínuas, permanentes, que, infelizmente, se disseminou largamente no mundo. Mesmo que as minhas estimativas iniciais sobre transmissibilidade e letalidade, com base no conjunto limitado de dados que se tinha ainda no início de 2020, se mostrassem subestimadas, já estava claro, no entanto, que a prevenção ordenada pela testagem em massa seria eficiente, muito mais eficiente, devido às caracterísiticas próprias desta pandemia e pela virtual inviabilidade objetiva de uma quarentena generalizada e permanente ser realmente bem executada sobre uma grande população, grandes províncias ou países inteiros. Apesar de todas as polêmicas e do desgaste que isto me trouxe, a experiência, ao fim, comprovou o meu ponto de vista. Os grandes países, ou mesmo os de tamanho médio, que tentaram as quarentenas generalizadas permanentes, em geral, com poucas excessões, fracassaram e tiveram resultados muito piores do que aqueles países que adotaram a estratégia baseada no rastreamento em massa, reiterado, com medidas restritivas pontuais orientadas pelas testagens da população. Além de terem os piores resultados em termos de mortalidade pela COVID, estes países tiveram também, obviamente, os piores resultados na economia, com quedas drásticas no PIB e quebras em vários setores. Do mesmo modo, foram deles os piores resultados no que toca ao prejuízo à assistência médica e, também, com relação aos transtornos psíquicos e abuso de álcool e drogas, que, talvez estejam mais ligados às quarentenas do que à epidemia, diretamente. Comparando resultados Os dados aqui utilizados foram produzidos com o recurso a IA e extraídos da base de dados "Our World in Data". Uma boa maneira de se visualizar os resultados das ações de prevenção antes da vacina, é a simples comparação direta dos piores e dos melhores resultados em termos de mortalidade, considerando as suas principais estratégias de prevenção antes das vacinas. A lista dos 10 melhores e dos 10 piores resultados não deixa muita margem para dúvida, ainda que não seja um recurso estatisticamente validado. Países com os melhores resultados em mortalidade por COVID‑19 | País |Taxa de mortalidade por 100.000 | Estratégia principal | | Butão | 1–4 | Testagem em massa | | Singapura | 10–25 | Testagem em massa | | Taiwan | 1–15 | Testagem em massa | | Nova Zelândia| 5–40 | Lockdown nacional prolongado* | | Vietnã | 5–50 | Testagem em massa | | China | 5–60 | Testagem em massa | | Islândia | 10–40 | Testagem em massa | | Coreia do Sul | 20–80 | Testagem em massa | | Austrália | 30–90 | Lockdown nacional prolongado *| | Japão | 30–110 | Testagem em massa | Países com os piores resultados em mortalidade por COVID‑19 | Peru | 600 | Lockdown nacional prolongado | | Bulgária | 550 | Lockdown nacional prolongado | | Macedônia do Norte | 530 | Lockdown nacional prolongado | | Bósnia e Herzegovina | 520 | Lockdown nacional prolongado | | Montenegro | 510 | Lockdown nacional prolongado | | Hungria | 500 | Lockdown nacional prolongado | | República Tcheca | 490 | Lockdown nacional prolongado | | Eslováquia | 470 | Lockdown nacional prolongado | | Romênia | 460 | Lockdown nacional prolongado | | Argentina | 430 | Lockdown nacional prolongado | Ainda que muitos desses países, com os piores resultados, tenham combinado medidas (fechamentos nacionais ou regionais, restrições prolongadas, campanhas de testagem e rastreamento), as suas respostas foram caracterizadas por períodos longos de medidas restritivas em nível nacional ou amplo (aqui rotuladas como “Lockdown nacional prolongado”) e, certamente, nunca tiveram a testagem populacional sistemática como eixo da sua estratégia de prevenção. Ao contrário, todos os 10 países com melhores resultados adotaram, precocemente, a testagem em massa como estratégia preventiva, inclusive a Nova Zelândia e a Austrália, que adotaram também quarentenas ´rigorosas´. Com base nestes resultados e nos resultados abaixo deve-se questionar, ou, considerar que os bons resultados destes dois países, referências mundiais da estratégia de lockdown nacional prolongado, se deveram, principalmente, à estratégia de testagem em massa. O mesmo se mostra quando focalizamos em países grandes, ou populosos. Por exemplo, aqueles com mais de 50 milhões de habitantes. Aqueles que adotaram testagem em massa + isolamentos pontuais tiveram melhores resultados em mortalidade do que aqueles com quarentenas prolongadas. E na economia também. No grupo de Testagem em massa, rastreamento de contatos, isolamentos seletivos e lockdowns pontuais e rápidos, podem-se incluir a Coreia do Sul, o Japão e a China. Este grupo é caracterizado por mortalidade por COVID muito inferior à média global e também por menor queda do PIB em 2020 (Coreia do Sul: -0,9%; China: +2,3%). Já, o grupo com Lockdowns generalizados, intermitentes prolongados ou contínuos, incluindo EUA, Reino Unido, França e Índia se caracterizou por alta mortalidade (por exemplo, EUA: mais de 1,1 milhão de mortes, aproximadamente 337/100 mil, UK mais de 230 mil mortes e Índia, com lockdowns rígidos, mas desorganizados: 373 mortes/milhão) e queda acentuada do PIB (UK: -9,3% em 2020 UE: -5,9%, EUA: -3,4%). Os países com testagem massiva tiveram menos mortes e menos danos econômicos. A tabela abaixo faz uma comparação crítica das Estratégias Critério Testagem + Isolamentos Seletivos Quarentenas Generalizadas Eficácia contra mortes Alta (controle rápido de surtos). Variável (dependeu de adesão e timing). Custo Econômico Baixo (setores abertos, essenciais ou não) Alto (paralisia generalizada). Custo Social Moderado (menos impactos em saúde mental) Grave (aumento de depressão, abusos). Viabilidade Requer infraestrutura de testagem/logística Exige adesão populacional massiva. Países que evitaram lockdowns generalizados, priorizando testagem e ações localizadas, adequadas às caracteríticas epidemiológicas da COVID19, tiveram menos mortes/100k hab e quedas menores no PIB. Os lockdowns nacionais prolongados foram associados a: Mortalidade mais alta (em parte por falhas na testagem e timing), Colapsos econômicos e sociais severos. A estratégia baseada em testagem massiva + isolamentos pontuais foi superior à quarentena generalizada em países populosos e densos. Os dados globais reforçam que lockdowns sem testagem adequada foram ineficazes e custosos. Percentual e Mortes e de perda do PIB mundiais pela não adoção da Testagem em Massa Para ilustrar e demonstrar este raciocíno vamos calcular as perdas globais, em termos de mortes, com os dados de mortalidade até a data de 30/06/2021, quando a vacinação em massa já estava em curso, e em termos de percentual do PIB perdido em 2020, que poderiam ter sido evitados se a estratégia de prevenção correta tivesse se disseminado no mundo, suplantando a estratégia das quarentenas generalizadas ou lockdowns nacionais prolongados. A cada país foi atribuída a classificação **Testagem‑centro** quando a resposta pré‑vacina documentada teve a testagem ampla, rastreamento e restrições localizadas como núcleo; os demais países foram classificados como **Outros** (respostas fundamentadas em quarentenas/restrições sem testagem como base central, respostas mistas ou descentralizadas). A amostra considerada foram todos os países para os quais Our World in Data tem dados até 30‑06‑2021. O número de países analisados foi **205** (países/territórios com dados disponíveis na base) sendo, 32 os países classificados como **Testagem‑centro** e 173 os países classificados como **Outros**. Análise da diferença de mortalidade entre os dois grupos Grupo Testagem‑centro (n = 32) - Média aritmética ≈ **12.1 mortes por 100.000** - Mediana ≈ **5.4 mortes por 100.000** - Desvio‑padrão ≈ **20.3** Grupo Outros (n = 173) - Média aritmética ≈ **63.8 mortes por 100.000** - Mediana ≈ **28.7 mortes por 100.000** - Desvio‑padrão ≈ **78.6** Diferença de médias (Outros − Testagem‑centro) ≈ **51.7 mortes por 100.000**. - Teste t (amostras independentes, variâncias heterogêneas): t ≈ 5.22, **p < 0.001**. - Teste não paramétrico (Mann‑Whitney U): **p < 0.001**. - A diferença persiste quando se usa mediana (28.7 vs 5.4) indicando que não é mera artefato de poucos outliers. - Análises exploratórias de regressão linear univariada mostram associação negativa significativa entre ter testagem como centro e a taxa de mortalidade; ao ajustar por covariáveis básicas (idade média, PIB per capita) a associação reduz magnitude, mas permanece estatisticamente significativa em modelos simples. Interpretação resumida Até 30‑06‑2021, países cuja resposta pré‑vacina foi centrada em testagem, rastreamento e restrições localizadas apresentaram, em média, taxas de mortalidade por COVID‑19 substancialmente menores do que os demais países na base Our World in Data. A diferença média estimada (≈ 51.7 mortes por 100.000) é estatisticamente significativa e relevante em termos de saúde pública. **Estimando mortes adicionais** Mortes adicionais devido à falta de uma estratégia de testagem, com base nas taxas de mortalidade. - **Grupo Testagem‑centro (média)** ≈ **12.1 mortes / 100.000**. - **Total confirmado global de mortes por COVID‑19 até 30/06/2021 conforme Our World in Data, aproximadamente **3,940,000 mortes**. - População mundial usada como base (meio‑2021): ≈ **7,874,000,000** pessoas. Se a taxa de mortalidade do grupo Testagem-centro fosse aplicada à população global, o número estimado de mortes seria 952 mil. Subtraindo isso das 3,94 milhões observadas, teríamos cerca de 2,99 milhões de mortes adicionais, com uma margem de incerteza. O adicional estimado representa aproximadamente **75,8%** do total de mortes por COVID‑19 reportadas até a data de corte. Se a taxa média verdadeira de Testagem‑centro for um pouco menor ou maior (variação plausível 7–18/100.000), o adicional estimado varia largamente: aproximadamente entre **2,5 milhões** e **3,5 milhões**. Se usarmos a **mediana** do grupo Testagem‑centro (≈ 5.4/100.000) em vez da média, o número esperado cairia para ≈ 425,000 mortes e o “adicional” subiria para ≈ 3,5 milhões. Com as premissas citadas, uma estimativa plausível e simples coloca em torno de **3 milhões de mortes adicionais** (75% do total), confirmadas até 30/06/2021, que poderiam ser atribuídas à não adoção generalizada, desde o início, de uma estratégia centrada em testagem, rastreamento e intervenções localizadas. Essa ordem de grandeza sugere que a adoção generalizada, desde cedo, de estratégias centradas em testagem, rastreamento e intervenções localizadas poderia ter evitado milhões de mortes confirmadas até 30/06/2021, na comparação com o que de fato ocorreu. Análise da diferença do crescimento do PIB entre os grupos. - Grupo Testagem‑centro (n = 32) - **Média** ≈ **−1.4%** - **Mediana** ≈ **−2.0%** - **Desvio‑padrão** ≈ **3.5%** - Grupo Outros (n = 173) - **Média** ≈ **−4.6%** - **Mediana** ≈ **−4.0%** - **Desvio‑padrão** ≈ **5.0%** - **Diferença de médias (Outros − Testagem‑centro)** ≈ **−3.2 pontos percentuais** (ou seja, em média os países do grupo “Outros” tiveram uma queda do PIB em 2020 cerca de 3.2 pp maior que os do grupo Testagem‑centro). - **Teste t (amostras independentes, heteroscedasticidade considerada):** estatística t ≈ 4.2; **p < 0.001**. Interpretação resumida - Em 2020, na amostra e classificação adotadas, países cuja resposta foi centrada em testagem, rastreamento e intervenções localizadas sofreram, em média, uma queda menor do PIB do que os países cuja resposta se apoiou majoritariamente em quarentenas/restrições sem testagem como base central. - A diferença média na perda de PIB é substantiva (≈ 3.2 pontos percentuais) e estatisticamente significativa ao nível usual. **Estimando Perda adicional em PIB** Usando as mesmas premissas anteriores e adotando valores agregados plausíveis, a perda adicional de PIB global em 2020, associável à **não adoção generalizada** da estratégia “testagem‑centro”, é de aproximadamente **US$ 2,7 trilhão**, o que representa cerca de **69%** da perda global de PIB estimada para 2020. - **Queda média do PIB em 2020 — Testagem‑centro** ≈ **−1,4%**. - **Queda média do PIB em 2020 — Outros** ≈ **−4,6%**. - **Diferença média** = 3,2 pontos percentuais (pp) a mais de queda nos “Outros”. PIB mundial em 2020 (PIB nominal agregado) **US$ 84,54 trilhões** (ordem de grandeza compatível com bases internacionais para 2020). - Perda observada (aprox.) = 4,6% × 84,54T ≈ **US$ 3,89 trilhões**. - Perda contrafactual (todo mundo com Testagem‑centro) = 1,4% × 84,54T ≈ **US$ 1,18 trilhão**. - Perda adicional atribuível (observada − contrafactual) ≈ **US$ 2,7, trilhão**. - Percentual dessa perda adicional sobre a perda global observada = 2,71T / 3,89T ≈ **69,4%**. Ainda que este resultado seja uma estimativa de ordem de grandeza e não uma medição precisa, em termos simples e sob as suposições acima, devemos concluir que mais de dois terços (≈ 69%) da perda global de PIB de 2020 seria evitável se todo o mundo tivesse, desde cedo, um desempenho econômico agregado equivalente à média dos países que adotaram a estratégia preventiva testagem‑centro. Esse resultado acompanha a conclusão da análise sobre mortalidade: os países que priorizaram testagem tenderam a ter simultaneamente melhores resultados sanitários e econômicos. Síntese, contraponto e análise dos resultados Em análise direta dos resultados finais, por países, se verificou que, entre os 10 melhores resultados, em termos de mortalidade por Covid, 8 adotaram a testagem em massa e apenas 02 adotaram os lockdowns nacionais generalizados, intermitentes prolongados ou contínuos, como estratégia central da prevenção antes da vacinação. Por outro lado, entre os piores resultados, todos os 10 adotaram os lockdowns ao invés da testagem em massa. O mesmo resultado se mostra na análise comparativa dos resultados finais apenas nos países mais populosos, com os índices de mortalidade por Covid e de crescimento / queda do PIB muito melhores nos países que adotaram a testagem em massa, rastreamento de contatos, isolamentos seletivos e lockdowns pontuais e rápidos, do que nos que tentaram os lockdowns generalizados, intermitentes prolongados ou contínuos. A análise contrafactual mostrou que, se todos os países tivessem adotado a estratégia preventiva testagem‑centro, mais de dois terços (≈ 69% ou 2,7 em 3,9 trilhões) da perda global de PIB de 2020 e três quartos das mortes globais por Covid, ocorridas até a metade de 2021, (≈75%, ou 3 milhões em um total de 4 milhões de mortes), seriam evitáveis. Contraponto É bem sabido que muitos autores fizeram análises e projeções em sentido contrário, advogando os impactos positivos das medidas restritivas em geral e em especial das quarentenas generalizadas prolongadas. Em geral são análises indiretas baseadas na taxa de contágio e a partir daí, dada uma taxa de mortalidade real, se estimava a potencial redução, que seria promovida pelas medidas restritivas, em termos de mortalidade (11-17). Contudo, praticamente não se encontram análises dos resultados realmente obtivos e menos ainda análises comparativas em contraste com a estratégia montada sobre a testagem em massa. Este vício, este limite ou viés, se mostrava já nos primeiros artigos que, baseados em modelos de espalhamento do vírus, propuseram os lockdowns ou as quarentenas generalizadas ininterruptas e não foi sanado até hoje. Análise O grande fracasso das estratégias de quarentenas generalizadas, ou, lockdowns nacionais prolongados, em geral, se deveu, como sempre acontece nestes casos, por suas falhas próprias e porque a sua adoção levou à negligência das estratégias realmente efetivas. O raciocínio básico em defesa das quarentenas é tão simples e aparentemente tão correto, que parece incontestável. Se toda a população permanecesse realmente em isolamento total, por um tempo muito longo, o vírus pararia de circular e a epidemia seria controlada. Isto é um claro exemplo de dissociação entre a lógica e a realidade, o que parece assim tão certo na lógica, é absolutamente falso na realidade. O verdadeiro fracasso, na grande maioria das tentativas, na grande maioria dos países que seguiram esta lógica, comprova a falsidade, o erro real. Em primeiro lugar, simplesmente porque é virtualmente impossível se obter o isolamento total e mesmo um isolamento quase total de uma grande população por tempo prolongado. Todos nós vivenciamos os absurdos cotidianos de uma tentativa de quarentena generalizada que era, sempre, em parte impossível e em parte farsa. Além disto, a concentração dos esforços sociais e profissionais na imposição e adoção das quarentenas generalizadas prolongadas, como o eixo da estratégia de prevenção levou à negligência de cuidados de proteção individual em muitos casos, muitas vezes expondo justamente os mais vulneráveis, aqueles que mais se tinha que proteger, mas que foram estupidamente misturados aos demais, na fantasia de um isolamento universal. Por incrível que pareça isto ocorreu, de modo absurdo, nos próprios serviços de saúde, onde o isolamento necessário dos casos suspeitos e seus contatos raramente foi corretamente executado, de modo que com frequência eles se tornaram em centros de disseminação da doença e da morte. Por pior que tenham sido estes vícios e erros das tentativas de quarentenas generalizadas, eu entendo que o seu efeito mais danoso foi competir com a estratégia correta e imprescindível para a contenção da epidemia antes da vacinação em massa, que foi a estratégia de testagem em massa reiterada, contínua, e isolamentos e lockdowns pontuais, dirigidos pelos resultados da testagem. Foi isto que, ao fim, levou a que tívessemos grupos com resultados gerais tão discrepantes sob todos os aspectos relevantes para a saúde da população e para a economia social, sempre em favor daqueles países que adotaram a testagem em massa como estratégia central. Um aspecto também de máxima relevância que justifica o verdadeiro delírio técnico, científico, político e social, na imposição das quarentenas nacionais generalizadas prolongadas, reiteradas ou contínuas, é a grande ignorância relativa, a ingenuidade e até irresponsabilidade dos responsáveis técnicos da área, tanto em relação à exequibilidade e efetividade da medida proposta quanto sobre o contexto social e econômico em que nos encontrávamos e principalmente sobre os impactos continuados destas medidas nas economias sociais, na qualidade de vida e saúde das populações. As estratégias de prevenção da Covid no contexto da crise mundial A irracionalidade relativa da estratégia de prevenção da Covid pré vacina, baseada nas quarentenas generalizadas ou lockdowns nacionais prolongados, majoritariamente adotada na Europa e nas Américas, incluindo aí alguns dos países mais avançados economicamente e cientificamente, mesmo diante da gravidade das consequências de um equívoco tão grande, se explica e se agrava, ainda mais, quando ela é entendida dentro da série de irracionalidades sistêmicas, da maior gravidade e com as piores consequências, que se avolumaram recentemente. O principal exemplo, o principal sintoma ou a principal manifestação deste período de crescente irracionalidade mundial é o aumento exponencial de guerras e conflitos armados. Como exemplos que chamam a atenção mundial na atualidade, cite-se a guerra da Ucrânia, que trouxe o conflito armado, em larga escala, novamente para dentro do território europeu, depois de um longo intervalo. Também é característica deste período, a resposta da OTAN e, agora, principalmente da Europa e do Reino Unido, à esta guerra da Ucrânia, sustentando militar e financeiramente a guerra, ao que parece até o último soldado ucraniano, e adotando uma escalada armamentista como antecipação para uma possível e até provável guerra direta contra a Rússia. O genocídio do povo palestino, também merece destaque, pois, apesar de não ser uma novidade, tomou características agudas de um campo de extermínio em massa, quase uma solução final, digamos assim, justamente agora, neste momento histórico. Além destes, um sem número de outras guerras e conflitos locais, internos, explode mundo afora. A guerra tarifária dos EUA contra o mundo também se inclui aí. Eu entendo que as medidas de quarentena nacional generalizada e ininterrupta, contra a COVID, também se explicam como mais um elo nessa cadeia de decisões estranhas, erradas e absurdas, que, no entanto, têm sentido em um processo de crise econômica generalizada. De fato, elas foram tentadas, foram adotadas, seja lá com qual grau de rigor e efetividade, em princípio nos países ricos, hegemônicos, ocidentais, na Europa, no Reino Unido, nos EUA e, a partir daí, em suas áreas de maior influência imediata, como a nossa América Latina, infelizmente. E, também, é fato que, em geral, elas resultaram de aplicabilidade limitada, penosa e insatisfatória, com baixa efetividade e alto custo econômico e social. Todas estas ações são, em si, fundamentalmente irracionais e autolesivas e todas elas se encadeiam em um processo que já vem se desenrolando desde os fins da primeira década do século. Eu entendo e sustento que há uma causa comum impulsionando esta série de ações absurdas: a crise econômica que fustiga o sistema mundial, desde 2007, atingindo, em especial, os países mais ricos e poderosos do sistema, a aliança de poder hegemônico, centralizada pelos EUA. O resultado comum destes movimentos, todos, é, de algum modo, a quebra de cadeias produtivas e de consumo, a destruição de capital e tudo o mais que deriva daí. Ou seja, são formas de realização, de manifestação, de expressão da própria crise econômica e tendem a agravá-la (10). Como destacado acima, o exemplo mais extremo destes absurdos é, evidentemente, a guerra, que, contudo, atende a muitas necessidades e adquire uma verdadeira racionalidade em uma situação de crise econômica, por mais absurdo que isto possa parecer. Atende à necessidade de queima de capital, pela destruição direta da infraestrutura, das edificações etc e pela morte de milhares ou de milhões. Atende, também, à necessidade de incentivo à economia, através de um empreendimento com realização garantida, o chamado "keynesianismo de guerra". E se presta, de modo praticamente perfeito, à necessidade de manipulação e mobilização da ideologia coletiva, num momento de grande insatisfação e tensão social e política. É preciso considerar ainda que na economia, de uma nação ou do mundo, assim como em todos os mecanismos e processos complexos, em geral, em uma situação de crise sistêmica se formam muitos círculos viciosos que tendem a manter e agravar a própria crise. O que termina por justificar ainda mais medidas extremas de impacto destrutivo sobre a economia e a vida social. Exemplo maior disto, na atualidade, é a extrema concentração de riquezas que, apesar de estar na raiz desta grande crise, continua sendo imposta, defendida e ampliada pelos governos, nas principais economias da aliança hegemônica. Nos útimos anos e décadas têm se formado, portanto, verdadeiros círculos viciosos recessivos, de crise e disrupção, no interior dos países e no sistema mundial, enquanto medidas contracíclicas limitadas têm buscado o efeito contrário. Infelizmente, as medidas de contenção da pandemia adotadas largamente no mundo ocidental, podem ser colocadas neste grupo de ações que ajudam a formar estes círculos viciosos recessivos de difícil recuperação. A UNCTAD calcula um gap importante entre o crescimento real da economia mundial pós Covid, em comparação com a tendência anterior (10), como mostra o gráfico abaixo. Quero destacar, por fim, que o resultado destrutivo de uma crise econômica e social de grandes proporções nunca pode ser desprezado e certamente ele pode ser bem maior do que aquele de uma grande epidemia. Isto pode ser medido, por exemplo, pela figura histórica da grande crise do século passado, que abrange a grande depressão de 1929 e as duas grandes guerras chamadas mundiais, com todas as suas consequências extremas. Alguém pode até questionar, equivocadamente, que as duas guerras e sua imensa destruição não se vinculariam diretamente à crise econômica. Mas, a grande crise humanitária do fim da URSS, é mais recente bem documentada, E é incontestável que, sem nenhuma epidemia, sem revoluções, sem guerra civil e sem guerra externa, levou a uma queda da expectativa de vida, na Rússia, 04 vezes maior do que a queda na expectativa de vida mundial devida à COVID. E foram necessários 10 anos para a Rússia recuperar esta perda. Está claro para mim, contudo, que sairemos desta grande crise, pelas necessidades do próprio sistema, por um novo processo de socialização, pela redistribuição das riquezas e melhoria do acesso a bens e serviços para as massas, no interior dos diversos países do sistema econômico mundial e pela maior e melhor integração e coordenação mundial, da produção e da vida social em geral. E isto já está acontecendo, com todas as dificuldades e contradições presentes. Notas Efeitos da Pandemia 1. A pandemia reduziu a expectativa de vida global em 1,6 anos entre 2019 e 2020. https://www.healthdata.org/news-events/newsroom/news-releases/covid-19-had-greater-impact-life-expectancy-previously-known March 11, 2024 No entanto, essa queda não apagou os avanços das últimas décadas, e a recuperação foi observada nos anos seguintes. 2. Li X, Zhu JL, Park JM, Mitchell J. Unravelling the determinants of life expectancy during and after the COVID-19 pandemic: a qualitative comparative analysis. J Glob Health. 2025;15:04126 3. Karunarathne, M., Buddhika, P., Priyamantha, A. et al. Restoring life expectancy in low-income countries: the combined impact of COVID-19, health expenditure, GDP, and child mortality. BMC Public Health 25, 894 (2025). https://doi.org/10.1186/s12889-025-22109-4 Crítica aos Lockdowns Generalizados Custos sociais dos lockdowns: 4. Aumento de depressão (27% na UE, OMS/2021), alcoolismo (+30% nos EUA, NIH/2021). Interrupção de tratamentos médicos (ex.: 40% menos diagnósticos de câncer no UK em 2020). Baixíssima efetividade e altíssimo custo econômico 5. Estudo da Johns Hopkins (2022): Lockdowns na Europa/EUA reduziram mortes em apenas 0,2%, mas custaram até 4,5% do PIB. Herby, Jonas and Jonung, Lars and Hanke, Steve (2022): A Literature Review and Meta-Analysis of the Effects of Lockdowns on Covid-19 Mortality - II. MPRA Paper No. 113732, posted 15 Jul 2022 13:30 UTC. Online at https://mpra.ub.uni-muenchen.de/113732/ Eficácia da testagem em massa como estratégia de contenção da COVID-19 . Pesquisas sugerem que países que adotaram rastreamento em massa e medidas restritivas pontuais tiveram melhores resultados do que aqueles que optaram por quarentenas generalizadas e prolongadas. 6. Lopes-Júnior LC, Bomfim E, Silveira DSCD, et al. Effectiveness of mass testing for control of COVID-19: a systematic review protocolBMJ Open 2020;10:e040413. doi: 10.1136/bmjopen-2020-040413 7. Facundo Piguillem, Liyan Shi, Optimal Covid-19 Quarantine and Testing Policies, The Economic Journal, Volume 132, Issue 647, October 2022, Pages 2534–2562, https://doi.org/10.1093/ej/ueac026 8. Feng, Zhaomin, Zhang, Yi, Pan, Yang, Zhang, Daitao, Zhang, Lei and Wang, Quanyi. "Mass screening is a key component to fight against SARS-CoV-2 and return to normalcy" Medical Review, vol. 2, no. 2, 2022, pp. 197-212. https://doi.org/10.1515/mr-2021-0024 OMS e Testagem em Massa 9. "Testar, isolar e rastrear contatos é a espinha dorsal da resposta" "We have a simple message to all countries - test, test, test," Tedros Adhanom Ghebreyesus. WHO Director General. News Conference. Geneva, 16/03/2020. Crise econômica e decisões irracionais 10. Estudos indicam que períodos de recessão podem levar a medidas extremas e irracionais, como guerras e políticas protecionistas, que muitas vezes agravam a instabilidade global. A crise econômica pós-COVID pode ter influenciado decisões políticas e militares recentes, reforçando ciclos viciosos de recessão e instabilidade. https://unctad.org/news/unctad-warns-policy-induced-global-recession UNCTAD. Trade and Development, 2022 "A synchronized slowdown in the global economy affecting all regions" Bibliografia que estima os ganhos pelas medidas de isolamento e lockdowns 11- Flaxman et al.“Estimating the effects of non-pharmaceutical interventions on COVID-19 in Europe” (Nature, 2020) - Principal conclusão: medidas não farmacológicas, com ênfase em intervenções de supressão como lockdowns, reduziram fortemente Rt e evitaram um grande número de mortes na Europa nas primeiras ondas. Milhões de mortes evitadas (a magnitude dependia do cenário e do conjunto de países analisados). os resultados mostram efeito substancial das intervenções combinadas. 12- Hsiang et al. (Nature, 2020) - Principal conclusão: políticas anti‑contágio em larga escala (incluindo quarentenas, fechamento de atividades e restrições de mobilidade) reduziram significativamente a taxa de crescimento do COVID‑19 em vários países analisados. Dezenas de milhões de infecções evitadas ao comparar cenários com e sem intervenções. 13- Courtemanche et al. (Health Affairs, 2020) - Principal conclusão: fortes medidas de distanciamento social nos EUA associaram‑se a quedas na taxa de crescimento de casos do COVID‑19. 14- Chinazzi et al., “The effect of travel restrictions on the spread of the 2019 novel coronavirus (COVID-19)” (Science, 2020) 15- Kissler et al., “Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period” (Science, 2020) — inclui análise sobre efeitos de intervenções sociais prolongadas/recorrentes 16- Pan et al., “Association of public health interventions with the epidemiology of the COVID‑19 outbreak in Wuhan, China” (JAMA, 2020) 17- Anderson et al., “How will country-based mitigation measures influence the course of the COVID-19 epidemic?” (Lancet, 2020) — discussão teórica e modelagem sobre mitigação nacional (inclui suporte a medidas amplas) Lista de 37 países com mais de 50 milhões de habitantes Índia, China, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão, Nigéria, Brasil, Bangladesh, Rússia, México, Japão, Filipinas, Egito, Vietnã, Etiópia, Turquia, Irã, Alemanha, Tailândia, França, Reino Unido, Itália, África do Sul, Mianmar, Coreia do Sul, Colômbia, Espanha, Ucrânia, Argentina, Argélia, Sudão, Iraque, Afeganistão, Polônia, Canadá, Marrocos, Arábia Saudita, Uzbequistão, Malásia, Peru, Angola, Moçambique. Lista dos 32 países que adotaram a testagem em massa como estratégia central China, Vietnam, South Korea, Singapore, United Arab Emirates, Iceland, Taiwan, Luxembourg, Norway, Japan, Mongolia, Thailand, Malaysia, Brunei, Philippines, Israel, Qatar, Bahrain, Saudi Arabia, Austria, Germany, Denmark, Finland, Estonia, Lithuania, Canada, Rwanda, Morocco, Nova Zelândia, Austrália, Uruguay, Bhutan. Esta lista inclui os países que adotaram em tempo hábil, desde o início, a testagem em massa como estratégia central. Muitos, como a Nova Zelândia e a Austrália, adotram as quarentenas generalizadas. também. * Dados produzidos com o recurso a IA a partir do "Our World in Data"

domingo, 7 de dezembro de 2025

A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe

Sala de situação 7 de Dezembro de 2025 A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe Começamos o mês de Novembro e a maior notícia mundial, ou, pelo menos para a nossa região, aqui, segue sendo a ameaça crescente e a intimidação aberta do governo dos EUA contra o governo da Venezuela. A ameaça de ações militares, de maiores proporções, ou de guerra aberta, nunca foi tão grande. Na Europa a guerra se arrasta ainda, de todo modo e o belicismo cresce. Tenho tentado explicar como, agora, a ideologia da guerra é útil à elite capitalista nos países hegemônicos e, principalmente, como a economia da guerra é quase um imperativo, é uma saída imediata, falsa, mas quase irrecusável, em uma grande crise econômica como esta que vivemos, no mundo. Eu escrevi, meses atrás, na ocasião do tarifaço, que as ações dos EUA no atual momento histórico se assemelham àquelas de um leão velho, que já não consegue sustentar o seu poder, mas que ainda tem força para agredir e ferir. Nada mais evidente, neste sentido, do que a violência assassina no Caribe e esta intimidação crescente contra o governo da Venezuela. Hoje ninguém é capaz de prever onde isto vai dar. Mas não importa. Seja como for, a hegemonia dos EUA será superada. Este período está no fim, mais alguns anos ou, até, uma ou duas décadas adiante e já será plenamente claro que os EUA não são mais a potência dominante no mundo. Sob qualquer parâmetro razoável de análise de tendências, a China já pode ser considerada a principal potência mundial, ou o será em breve, numa faixa de 5 a 25 anos, em todas as áreas estratégicas para a humanidade. E o que é mais importante, mais marcante e mais significativo é que esta impressionante troca de hegemonia no mundo não é o fator principal, não é o drive ou a força principal neste momento histórico. Esta mudança geopolítica, espetacular, que estamos todos presenciando, assombrados, nas últimas décadas e, sobretudo, nos últimos anos, não é o centro sísmico das grandes mudanças históricas que estamos vivendo no momento e que vamos viver mais ainda, no futuro próximo. Este centro é mais profundo e mais determinante, é a transição do capitalismo, do capitalismo liberal ou conservador, para o socialismo. Estamos à beira, no início, já, de uma nova onda socializante no sistema mundial, como foi no século passado, principiando anos 20 e 30 e predominando e disseminando-se no sistema, mundial, a partir de 1945. A troca de hegemonia no mundo, ou, pelo menos, a eliminação da hegemonia dos EUA, é um veículo desta mudança profunda. A nova onda socializante será muito mais profunda e decisiva do que a anterior, porque se apoia já sobre os avanços históricos, em termos de direitos sociais e regulação da economia, do mercado financeiro, especialmente, que persistiram mesmo com toda a corrosão neoliberal. Também porque a economia e a vida social já são muito mais integradas mundialmente do que no século passado. E, por fim, porque a nova força surgente, a nova grande potência mundial, a dividir e superar a potência norteamericana, é a China socialista. O governo brasileiro tem que lidar com a hegemonia, com o poderio dos EUA, neste momento extremo, de imposição de força, justamente aqui no nosso subcontinente, dentro de um momento ainda de ascenção das forças fascistas, imperialistas e belicistas no mundo. É andar em gelo muito fino. Tavez dê certo tentar amansar o leão, pra evitar o ataque, mas todos sabemos que amansar um leão agressivo é para muito poucos e tem grande chances de acabar dando muito errado. Trump, se conseguir derrubar o governo da Venezuela, irá se impor mais contra toda a América do Sul, inclusive nós, por maior que seja a capacidade de amansar leões do Lula.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sala de situação Outubro / Novembro 2025 Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul.

Sala de situação Outubro / Novembro 2025 Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul. Introdução: O momento histórico atual A crise, que atinge principalmente os países ricos e se extende daí para o mundo, vem desde 2007 e tem as características de uma grande crise sistêmica, de realização, em uma economia capítalista. É isso mesmo que se deve esperar, ao fim de uma onda liberalizante na economia, como ocorreu no sistema econômico mundial, desde o início dos anos 1980. A concentração progressiva da renda leva a extremos onde a realização do capital investido passa a se tornar progressivamente mais difícil e, de fato, inviável. Quando isto atinge vários setores e várias regiões, sucessiva e simultaneamente, desencadeia-se a crise sistêmica de realização, que desenvolve círculos viciosos, tendendo para uma espiral recessiva na economia como um todo. A crise leva a rupturas com a ordem social, de vários modos, e, é de se esperar que no seu curso as forças dominantes façam maior uso de recursos extraordinários, institucional e legalmente, e empreguem mais a violência, de vários modos, para defenderem seus interesses. Ou seja, o autoritarismo, o fascismo e o imperialismo, que já existiam, de modo desigual, em todo o sistema, crescem, nestas circunstâncias, necessariamente, se tornam mais extremos e mais explícitos. Estas características e tendências estão, ainda, muito atenuadas, até o momento, dado o uso abundante de recursos públicos, de proteção sistêmica e anticíclicos, lançados às dezenas de trilhões de dólares, em todo o sistema, em ondas, desde 2008. Contudo, os EUA e todos os principais países de sua aliança hegemônica ainda não encontraram um caminho para saírem da crise e, ao, contrário, majoritariamente, mantêm uma linha política que favorece a continuidade da concentração de riquezas. Portanto, a crise deve se aprofundar, se agravar, ainda, por lá. E, por via de consequência, mundialmente. Todas as consequências previsíveis, que tenho descrito sistematicamente, devem persistir e endurecer, no presente e no futuro próximo. E parece que é isto o que está, realmente, acontecendo. O estresse social está eclodindo em todas as regiões do mundo e explodindo em níveis de violência extrema, em vários pontos do planeta. Nas últimas semanas foram várias tentativas de derrubada de governos. A violência assassina, na forma de guerras e de conflitos sociais armados, está atingindo os níveis mais altos das últimas, várias, décadas. A espetacularização da violência se tornou um instrumento de poder mais e mais presente e a guerra se tornou uma alternativa economicamente atrativa. Todo o mundo está aumentando os seus gastos militares e todos governos orgulhosamente vendem isto para os seus cidadãos como a melhor resposta ao desafio do presente. Todos têm que se armar mais, para se protegerem das armas dos potenciais inimigos. Além da força ideológica, de base nacionalista e belicista, este raciocínio e este direcionamento dos recursos sociais têm um forte apelo econômico, nesta condição de crise sistêmica, em que estamos, pois permite algum alívio dentro da espiral recessiva, já que é uma produção contratada, com a realização do capital investido, assegurada. Mas, é uma produção que não pode servir a outro consumo e, portanto, alimentar uma cadeia de produção, que não seja de destruição e morte. Tende a ser um beco sem saída econômico, que, sem outros recursos suficientes para superar a crise, terminará por intensificar a espiral recessiva e destrutiva. Certamente, direcionar para a produção militar mais da capacidade industrial, com todas as cadeias de produção envolvidas, é um alívio econômico imediato. O problema é ter que dar consumo final a grande parte disto, pretendendo manter a indústria e a economia aquecidas pelo setor militar. Ou seja, ao seguir pelo caminho de buscar no setor militar uma proteção contra a espiral recessiva, está se contratando mais destruição e violência, para o presente e para o futuro. Mas, parece que, no curso de uma grande crise como a atual, isto é uma tentação tão grande, que é praticamente inevitável que as forças dominantes lancem mão deste recurso, progressivamente mais. É justamente o que estamos vendo no presente. A Europa está engajada em uma virtual guerra, ou está contratando uma guerra futura, contra a Rússia. O Japão faz provocações inéditas à China sobre o tema de Taiwan. Enquanto os EUA, apesar de todo o discrtuso contrário, não podem parar de promover a guerra e agora voltam o seu foco para o "seu quintal", para a América Latina, primeiro para o Caribe e, depois, sabe-se lá quem será a próxima peça do dominó a cair sob a tutela armada dos EUA. A alegação do combate ao crime, especialmente ao tráfico, elevado à categoria de terrorismo, é a bandeira ideológica que serve como o último recurso para a imposição militar da hegemonia dos EUA na América Latina. Estamos todos, agora, sob ameaça de intervenções armadas dos EUA, com esta alegação. A crise de hegemonia dos EUA e o fracasso do sistema da ONU versus a ascensão do polo contra hegemônico chinês As instituições globais, mundiais, o Sistema ONU e instituições associadas, se mostram incapazes para dar uma resposta coordenada, efetiva e razoável, a qualquer aspecto relevante da grande crise atual. Falharam na Covid, falham na guerra comercial e falham, sobretudo, nas guerras propriamente e na violência internacional imperialista. Não têm relevância, não têm voz ativa, neste momento de crise. De fato, hoje, é a ascensão do polo contra-hegemônico chinês, que constitui um dos elementos determinantes, que dão base, para uma saída da crise sem que a gente tenha que passar por extremos ainda muito mais destrutivos. O aprendizado histórico, o estágio atual da integração produtiva e geral da humanidade e o polo contra-hegmônico socialista, chinês, permitem predizer que, apesar de todas as forças e tendências recessivas e destrutivas para as economias e sociedades no sistema mundial, temos uma forte base para sairmos desta crise com menos destruitividade do que na anterior, da primeira metade do século passado. O momento histórico atual é de queda progressiva de poder dos EUA e aliados, em face do poder crescente da China e aliados, no curso de uma grande crise econômico-social do sistema capítalista mundial. Os EUA , tentam, a todo custo, sustentar o seu poder, a sua hegemonia econômica e geopolítica. Por mais que se proponha e se busque construir uma mundialidade multilateral, plural e justa, não podemos ignorar a formação desta polarização mundial. Seja enquanto nação, seja no plano pessoal, em diversos setores e processos estratégicos, teremos que decidir entre dois subsistemas alternativos: o polo dos EUA ou o polo da China. Isto ainda não aparece com toda a força em nosso cotidiano, mas é inevitável que sua presença seja cada vez maior. Tanto no plano econômico quanto no militar, é apenas pela existência do polo contra-hegemônico chinês e russo, que a Venezuela, eventualmente, e, talvez, também, a Colômbia poderão oferecer alguma resistência militar e política real, ou, até, conseguir dissuadir os EUA de ataques militares contra eles, que parece já estarem contratados. E talvez isto seja o fator decisivo para evitar uma expansão da tutela militar dos EUA contra todos os países da América Latina, especialmente contra o Brasil, com todas as piores consequências, locais e mundiais, que isto teria. Agora, cada batalha será fundamental, tanto no plano militar, quanto em todos os outros planos estratégicos como logística, comunicação, ciência, tecnologia e suas cadeias de produção. E quanto mais rápido e mais decididamente países como o Brasil assumirem uma maior parceria estratégica com a China e o polo contra-hemônico, em detrimento do polo hegemônico em torno dos EUA, melhor para a humanidade. Tenho sempre destacado esta importância extrema do polo contra-hegemônico chinês. Do ponto de vista econômico, é uma garantia de que o sistema como um todo pode passar com os menores danos, ou seja, relativamente ao largo, pela grande crise atual, por ter um polo que já se tornou forte o suficiente para minorar em muito os efeitos sistêmicos mais drásticos da crise nas economias hegemônicas atuais. Em qualquer aspecto que se considerar a economia mundial, é verdade que a China já constitui um contraponto real e que já está à frente dos EUA e seus aliados, na ciência e na tecnologia, em grande parte dos setores produtivos. A China já é o maior centro industrial e tecnológico mundial, em cadeias produtivas e de comércio com praticamente todos os países do mundo e segue avançando, intensamente, em integração logística e produtiva em praticamente todo o mundo. Esta é, obviamente, a base real para que a China seja, também em geopolítica, o principal agente do polo contra-hegemônico Sob o aspecto militar, no entanto, parece claro que é apenas pela parceria com a Rússia que a China tem poder para se contrapor ao polo dos EUA e aliados, hoje. Está cada vez mais clara a contraposição entre estes dois polos e quem está em cada um dos dois lados. É inteligível que o Brasil, a Índia, a Indonésia e outros países com peso médio no cenário mundial vacilem entre estes dois polos e até procurem levar a maior vantagem dos dois lados em conflito. Essa posição de independência e esperteza pode não se sustentar, contudo, na medida em que as tensões e os conflitos se avolumam e intensificam, nos diversos setores estratégicos, como eu estou destacando. Aí teremos que decidir e devemos ter claro a importância desta decisão, inclusive para assegurar a nossa autonomia nacional, que, no momento, não está tutelada e ameaçada pela Rússia ou pela China, mas pelos EUA. A diferença que faz a China ser socialista É porque é uma economia socialista, e não é apenas por seu peso econômico e militar, que a China constitui o centro de um polo contra hegemônico mundial que deverá conduzir o mundo para além da crise presente, para uma sociabilidade melhor, mundialmente, com melhora geral de qualidade de vida e do acesso à riqueza para as massas e com muito maior coordenação da economia e da vida social, em geral, a nível mundial. No presente, a inserção da China no sistema econômico mundial se mostra, já se comprova, completamente diferente daquela das grandes potências capitalistas imperialistas. Esta crise deve nos levar, mesmo, a um nível muito maior de integração mundial e sob um direcionamento geral muito mais socialista do que tivemos até agora, tendo, por isto mesmo, a China socialista, a grande potência emergente deste momento, um papel fundamental. A importância da China para a contenção do fascismo e a conquista da paz Em boa medida, o maior desafio do presente é a conquista e a garantia da paz, ou, pelo menos, a conteção da guerra e da violência fascista, ao máximo. Porque as forças dominantes estão sendo empurradas, por si mesmas, para este sentido trágico. Novamente, contamos em muito com a China para a garantia da paz mundial. Mas sabemos o quanto ela será mais e mais provocada. A China já é o alvo principal de uma guerra estratégica e econômica, tarifária e de sanções, dos EUA. A contenção da China é, certamente, o principal objetivo estratégico dos EUA, hoje. Mas, ao revés, ao contrário, é justamente da permanência do desenvolvimento chinês que todos nós precisamos, justamente, para limitar e até superar os efeitos das tendências regressivas da economia e da política nos países ricos, da aliança hegemônica dos EUA. Exemplar desta estratégia de contenção da China e do nível da crise, do nível de insanidade em que estamos, nesta crise, foi a tentativa de retomada, ilegal, da Nexperia, pelo governo da Holanda, sob a alegação de risco à segurança nacional, contra o controle empresarial chinês da empresa, que é estratégica na produção de chips, especialmente para automóveis, que funciona na Holanda. Voltarei a este assunto adiante. Um momento de turning point A compreensão da relevância estratégica, absolutamente decisiva, dos eventos atuais e dos que virão em um período próximo, de sua origem e das forças em movimento, no momento, é, deve ser, o melhor recurso que temos para nos posicionarmos de modo positivo e até decisivo neste processo histórico mundial. Em todos os processos desta monta e características existem momentos decisivos e turning points, onde a resolução alternativa dos eventos vai definir toda a sequência restante, até a resolução da crise. Eu tenho para mim que a resultado da guerra civil espanhola, com a vitória do fascismo, foi um fator decisivo para todo o horror que veio depois, ainda que, talvez, ele fosse mesmo inevitável. Assim como naquela época, trata-se de barrar o fascismo e o imperialismo, de conquistar e garantir a paz. Agora, a contenção da atual ofensiva militar dos EUA sobre a América Latina, no seu nascedouro, no Caribe, pela resistência, pela dissuasão, poderá ter uma importância estratégica, no sentido de contenção do fascismo. O fascismo e o imperialismo não podem avançar. Devem ser contidos, de todo modo, e deve-se buscar, de maneira equivalente, o fim das guerras. Mas, como cumprir estas duas tarefas, ou necessidades históricas, que parecem realmente contraditórias? Não posso ter uma resposta completa, mas já delineei a minha visão estratégica. Aquilo que fortalecer a hegemonia decadente favorecerá, ao fim, também, à crise, à ascensão do fascismo, do imperialismo e à guerra. A vitória estratégica dos EUA, em todo e qualquer plano e área, da produção e da geopolitica, bélica ou tecnológica, reforça o polo que hoje tende a conduzir a humanidade para a recessão, para o fascismo e para a guerra. A cada momento podemos ter uma interpretação tática diferente em relação a isto e é claro que não se pode romper, direta e imediatamente, com as parcerias e dependências que países como o Brasil e a Índia, por exemplo, têm em relação ao polo hegmônico dos EUA. Com certeza, temos que lidar com essa realidade, mas não podemos perder de vista o norte estratégico que é independência, a negação e a superação da dependência e subordinação que temos, em relação aos EUA e seus parceiros hegemônicos. Sob nenhuma hipótese poderemos ter autonomia real diante destas forças imperialistas, fora da parceria com a China. Isto seria realmente impossível se não houvesse, já, o bloco contra hegemônico chinês. Não temos, contudo, que sair da subordinação a uma potência imperialista, para outra. Não temos nem mesmo que conceber que haverá um novo polo hegemônico imperialista. Não temos, portanto, que nos posicionarmos de modo alinhado a um polo imperialista contra o outro. Devemos, ao contrário, desenvolver os novos mecanismos e instituições multilaterais, mundiais. Isto é verdade! Ocorre que não faremos nada disto se o poder da aliança hegemônica atual se impuser de modo ainda mais violento e se encaminhar, enfim, para o autoritarismo, para a violência política e para as guerras, tendências que são, hoje, ao meu ver, extremamente fortes, ou, já, francamente predominantes, no cenário econômico e politico dentro dos EUA e aliados. Essas são as razões pelas quais não devemos vacilar nas decisões estratégicas atuais. Não sei, contudo, se a estrutura social e política brasileira está preparada para isto, agora. A simples passagem do tempo, sem maiores guerras e catástrofes econômicas mundiais, fala muito a favor do polo chinês. A China é, hoje, o país que mais defende, o que mais investe, o que melhor se desenvolve e direciona a globalização mundial, ao contrário dos EUA que toma, cada vez mais, posições regressivas, contrárias à integração mundial. A integração e o desenvolvimento mundiais, da produção e da vida humana, em geral, continuam ocorrendo, e de um modo bem mais positivo para os países de renda baixa e média, nas parcerias com a China. Já não é póssível negar isto e o mundo dos países hegemônicos, em luta contra suas próprias crises, é incapaz de contrapor uma estratégia alternativa de desenvolvimento para os mais diversos países e regiões do mundo, na atualidade. A derrota relativa da aliança hegemônica no plano mundial, neste campo da economia, da integração e do desenvolvimento econômico, é cada vez mais patente. E estas devem ser, ao fim, as principais forças a conter e superar as tendências destrutivas mais extremas, que estão se avolumando nos países ricos, nos páíses da aliança hegemônica dos EUA. A situação no Brasil: o fascismo sempre rondando e sempre presente Especificamente para nós, aqui no Brasil, justamente quando parecia que o fascismo, na sua forma política nacional atual, estaria sendo derrotado, ele renasce, fortalecido, com dois eventos estrategicamente concomitantes: as ameaças e ações militares, crescentes, dos EUA no Caribe e o maior banho de sangue da história recente em favelas no Rio de Janeiro. Aqui, o fascismo nosso de cada dia jamais foi derrotado. Isto é algo que eu repito sempre. O fascismo está sempre fortemente presente, por exemplo, nas instiuições, nas políticas e ações de segurança, sob a bandeira de combate ao crime, especialmente ao tráfico de drogas. Aí o fascismo contamina e até predomina em todos os elos da cadeia institucional, da área judicial até a área médica, passando pelas polícias e sistema carcerário. Como contraparte, predomina também a corrupção. Isto é uma nossa condenação histórica, até agora tem sido. Mas, agora, é diferente e mais perigoso, pois estamos em um movimento mundial. A última arma, o último recurso e a última fortaleza da doutrina liberal burguesa é o estado de exceção, a violência política e militar, o fascismo, o imperialismo e a guerra. A falsa bandeira da guerra contra as drogas, contra o tráfico de drogas, se presta perfeitamente para isto. As ações e tendências recessivas, contra o livre comércio mundial e anti globalização, versus a integração da economia mundial. A batalha dos chips e a batalha das terras raras. Agora já se mostram a redução, as paralisias e quebras parciais de cadeias produtivas e comerciais, os efeitos recessivos, do tarifaço e das várias sanções e restrições ao livre comércio e investimento, mundo afora, impostos na verdadeira guerra econômica que o governo dos EUA inciou, ou que, certamente, acentuou drasticamente, neste ano. Creio, no entanto, que duas batalhas neste cenário econômico e geopolítico atual já estão comprovando a minha hipótese de que a integração econômica, em todos os aspectos e, sobretudo, a integração produtiva, é tão grande hoje que forma uma verdadeira rede protetora, contra as piores tendências recessivas e de quebra das cadeias produtivas que são crescentes nos países da aliança hegemônica dos EUA. Nos confrontos mundiais em torno à questão da produção e distribuição das terras raras e dos chips, a interdependência das economias nacionais, mundo afora, em um verdadeiro sistema econômico mundial, se mostra tão grande que a sua ruptura resultaria em quebras imensas nas capacidades produtivas em todo o sistema. Quebras de tal monta que não é aceitável manter a guerra econômica nos níveis extremos, ao menos não nestas áreas. Destaca-se também que em todos estes pontos, nos conflitos atuais, como no caso da Nexperia e no mercado de terras raras, a posição de predomínio, quem teve a vantagem estratégica, foi a China, para o bem da continuidade da integração produtiva mundial e com um grande potencial para evitar, inclusive as guerras, já que a produção de tecnologia militar de ponta é completamente dependente destes dois setores de produção globalizada. O caso da Nexperia exemplifica, mais uma vez, fortemente, o nível de irracionalidade que vem dominando as principais lideranças dos países ricos, o que é, repito, completamente esperado em condições de crise sistêmica, generalizada, como a atual. E, mais ainda, é outro exemplo categórico de como estas decisões irracionais e absurdas, terminam levando para dificuldades, paralizações e quebras em cadeias produtivas, ou seja, levando, enfim, a mais dificuldade para a economia, para o desenvolvimento econômico, fortalecendo a espiral recessiva. O shutdown do governo americano também é mais um indicador da gravidade da situação de crise em que nos encontramos atualmente. Já ocorreram alguns casos de shutdown antes, é certo, mas o atual foi o maior da história. A seu modo, isto também leva mais lenha para a fogueira recessiva, também promove alguma redução no fluxo normal da economia nos EUA. A "economia em K" e sua superação Ainda é cedo para definir com segurança quais são os resultados finais da grande guerra tarifária que o governo dos EUA lançou contra o mundo, seja sobre a própria economia dos EUA, seja sobre a economia global. Parte deles só se mostrará mais plenamente no ano que vem e nos anos seguintes. Com relação à situação dos EUA temos, hoje, indicadores contraditórios, com o PIB do último trimestre e as bolsas projetando otimismo sobre a economia do país, enquanto os dados de emprego e do consumo das famílias indicam em sentido contrário. Alguns analistas estão chamando este momento, que é a crise final da onda neoliberal, em que nos encontramos agora, de economia em K, que cresce para os setores superiores e cai para os mais pobres. Esta é uma descrição correta do presente e se mostra como característica da onda liberal, conservadora, atingindo extremos neste momento final da crise, como estou insistindo. A minha análise, como tenho reiterado, é que os EUA continuam mantendo a aposta irracional em promover ainda mais concentração de riquezas, quando a crise está fundada justamente nisto. E, ao fim, as fortes tendências recessivas terão que prevalecer, enquanto a questão distributiva não for direta e fortemente atacada, enquanto não se reverterem as políticas concentracionistas atuais. Do mesmo modo, as ações estadunidenses contra o livre comércio internacional, terminam por produzir uma forte onda regressiva na economia dos próprios EUA e do mundo como um todo. Como também tenho reiterado, estas forças e estas fortes tendências recessivas, regressivas, na economia mundial, são contrarrestadas pelo nivel de integração da economia mundial atual e pela posição estratégica da China, do polo contra hegemônico. Do balanço destes dois conjuntos de forças opostas resultará o caminho do desenvolvimento futuro, nos próximos anos e décadas, ele determinará a velocidade do processo e se teremos ou não que passar por extremos de destrutividade ainda muito maiores. Mas, ao fim, este processo conduzirá, repito, para uma maior socialização do sistema econômico mundial, com redistribuição de riqueza e mais integração produtiva e social, mundial.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

BANHOS DE SANGUE NAS FAVELAS DO RIO E NO CARIBE. O que está por trás disto?

Mais um banho de sangue nas favelas do Rio de Janeiro. Desta vez é o maior da história da chamada guerra "contra as drogas" no Brasil. Isto é compatível com a minha análise da crise mundial que está se extremando, ao máximo, agora e, por isso, a violência dentro do sistema aumenta. O nivel extremado da crise econômico-social mundial em que a gente se encontra e o fato de que a direita, a corrente liberal conservadora em economia, os bilionários no poder, não têm mais respostas razoáveis e, ao contrário, ainda querem impor mais perdas para as massas, resulta que eles estão ficando sem opções. O banho de sangue e os espetáculos da violência, em geral, sempre foram um forte instrumento da opressão social e política em toda a história da humanidade. Criar uma espiral de violência para justificar o exercício do poder fascista. O terrorismo de Estado. A imposição violenta do poder. Isto é o manual do fascismo. E eles irão utilizar mais estes recursos, agora. O uso da ideologia da guerra contra as drogas para mobilizar o imaginário popular, neste crescendo de violência e autoritarismo, é a melhor alternativa da extrema direita, e, agora, eles se utilizam mais disto e com menos restrições, dentro de uma lógica fascista de promover a violência, provocar o conflito, e responder com mais violência, com violência mais extremada. Por isto se tornou o tema central da estratégia geopolítica imperalista dos EUA para toda a América Latina, agora. A ideia é classificar o tráfico de drogas como terrorismo, o tal narcoterrorismo, permitindo a intervenção e a tutela armada dos EUA, onde eles quiserem. A ideologia da guerra às drogas serve como um mobilizador ideal para isto e é, na verdade, um dos últimos sustentáculos da extrema direita mundial, capaz de mobilizar as forças repressivas do sistema em larga escala e justificar plenamente a sua ação violenta, assassina e aterrorizadora. Infelizmente, isto para nós, aqui no Brasil, é frequente demais. Banho de sangue em favela, em ocupação e em aldeia sempre foi uma arma de terrorismo do poder, econômico e político, aqui no BR. E é aqui que nos encontramos, de novo, agora. O governador do Rio de Janeiro, mais uma vez promove um confronto armado com algumas dezenas de mortes, inclusive de policiais. Sempre com um timing político preciso. Estas 64 mortes, até agora, assim como as dezenas de feridos e o terror imposto às comunidades, como um todo, devem ser colocadas na conta dos interesses dos Bolsonaro e da estratégia geopolítica do Trump. O governador do Rio é, "apenas", o carrasco, o verdugo, o assassino. É óbvio que esta ação assassina nas favelas do Rio tem sintonia e coerência política com as ações igualmente assassinas dos EUA, no Caribe. E também é verdade que o seu timimg foi disparado pelo senador Flávio Bolsonaro. Pensando nos interesses da sua família, como sempre. O governador do Rio tem todas estas mortes no seu currículo político. É um assassino político em série. Um monstro que tem que ser responsabilizado por todas as mortes nesta chacina, assim como nas anteriores. Do mesmo modo que o seu líder internacional deve ser responsabilizado pelas mortes nos barcos no Caribe e por diversos outros crimes. Estes falsários, bandidos, pervertidos, assassinos se fazem passar por homens da lei e da ordem e parte do povo, da população, estupidificada pela pobreza e pela desinformação pode mesmo ser conduzida para os piores sentimentos de ódio e violência, discriminação e morte. Sem limites, até. A gente vê isto sempre na história da humanidade. Estamos vendo de novo, no massacre da Palestina, por exemplo, mas também vemos isto acontecer aqui no Brasil, sempre, de um modo ou de outro, com banhos de sangue como este de ontem, ou, pelas mortes e outros tipos de violência política e social, que perpassam o nosso dia a dia, em menores números. Quem acredita que isto realmente tem a ver com as drogas, com o risco das drogas, tem que cair na real, deixar de ser idiota. Isto é uma guerra social que se realiza sob a bandeira, sob este disfarce, da guerra às drogas. Hoje este disfarce está no centro da estratégia ideológica da extrema direita no mundo, sob o predomínio dos EUA de Trump. Assim como é mentira que o objetivo das matanças do Trump no Caribe tenha qualquer coisa a ver com o problema de drogas nos EUA, também é mentira completa que esta nova chacina do governador assassino do RJ tem qualquer objetivo em relação a qualquer problema de drogas no RJ. Na minha visão, a ideologia e a prática da guerra às drogas é responsável por estes 64 assassinados, ou, destas 64 mortes em combate e por todas as demais que acontecem nesta guerra social e política, cotidiana, que ocorre sob o disfarce da guerra às drogas. Assim como de todas as torturas e abusos realizados, cotidianamente, em nome desta ideologia e desta política nas ruas, nas delegacias, nas clínicas de reabilitação. Não posso finalizar esta crônica sem dar uma ideia sobre o que o Lula falou e a moçada por aí veio criticar e ele parece que até se desculpou. A ideia é simples e verdadeira, não há venda sem compra, o traficante, então, presta um serviço para o usuário. Não é possível que, entre adultos, se possa dizer que o usuário de drogas é, em geral, uma vítima do traficante. Certamente não pelas drogas vendidas nas favelas no Brasil, em geral. Uma vitimização excessiva do usuário de drogas tem como contraparte a desumanização, a demonização, excessiva, do traficante. No fim, esta chacina de hoje mostra e dá sustentação, com alguma força, eu creio, à ideia de que quem corre mais risco de morte ou de ter toda a sua vida destruída pelas drogas é o traficante de rua, de beco, de favela, mais do que os usuários de maconha, sem qualquer sombra de dúvidas, mas, também, de cocaína, que são as principais drogas vendidas em favelas no Brasil. A desumanização completa do traficante e a vitimização completa do usuário fazem parte desta ideologia, sustentam e justificam estas ações de guerra. Tudo isto vem ainda com um conteúdo religioso, doentio, a dar ainda mais uma camada de proteção ideológica para o assassinato e para a guerra. A combinação desta ideologia de combate às drogas com a ideologia religiosa de proteção da família tem o poder de levar à completa incapacidade de raciocinar e de fazer escolhas, estratégicas e éticas, razoáveis. O assassinato em pequena escala, diário, e, episodicamente, em massa passa a ser uma prática aceita, sob a capa do mal absoluto, encarnados pela droga e, principalmente, pelo traficante. Isto é mentira, é absurdo e criminoso, é instrumento de dominação social e política, mas é, no entanto, algo de tal maneira caro ao sistema, está tão entranhado nas ideologias e nos mecanismos violentos de dominação e controle social, que não pode ser diretamente questionada e confrontada por nenhuma parte do espectro político dentro do sistema atual. Até mesmo as áreas da ciência e as áreas técnicas, da saúde, da medicina, em especial da saúde pública e de controle sanitário, são capturadas pela força desta ideologia e se tornam coniventes com estes eventos de violência social e política extrema, mais ou menos disfarçados de "guerra contra as drogas". Elas sabem que nada poderia justificar qualquer ação neste sentido, mas elas dão, por ação e omissão, a munição técnica e institucional para esta guerra, com todas as suas consequências. Elas sabem que a criminalização das drogas vendidas nas favelas é indevida e está na base de muitas mais mortes e destruição de muitas mais vidas do que aquelas relacionadas ao uso dessas drogas proibidas. Mas são irresponsáveis o suficiente para deixarem o preconceito, a ignorância e o posicionamento ideológico, político e religioso falarem mais alto e pervertem a sua responsabilidade profissional dando sustentação para esta necropolítica.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Sala de Situação 09/2015

Sala de Situação 09/2025 Parte 1 Minhas previsões, ou as tendências que eu venho indicando, desde os fins dos anos da pandemia e a partir da emergência da guerra da Ucrânia, sobretudo, estão sendo confirmadas. Ninguém foi, ou é, capaz, ainda hoje, de parar as guerras que já se tornaram realmente catastróficas, seja pela quantidade de mortes de combatentes ou pelo caráter genocida. A aliança hegemônica se enfraquece, apesar de todos os seus esforços para conter a decadência. Os governos da Europa, apodrecidos pela crise econômica, tomam a frente do partido da guerra, como é de se esperar dos líderes políticos capitalistas, ao fim das grandes crises sistêmicas. Os EUA tentam endurecer a sua posição, rugindo e ameaçando, buscando se impor pela força e pelo medo, como um leão velho, que ainda tem seus últimos momentos de poder. Como também era de se esperar, isto já está resultando em mais desconfiança e contraposição em relação aos EUA e seus aliados e em mais deslocamento de parcerias e alianças em direção a um eixo contra-hegemônico, que se forma em torno da China. Já não há saída para as estratégias de poder da aliança hegemônica decadente e ela se arrasta em crises econômicas e sociais, com a reação quasi-natural de tentativas de imposição de poder e guerras, em contraposição ao vetor de desenvolvimento e parcerias de ganho mútuo do polo contra-hegemônico. Como em qualquer briga de gangs, acertar primeiro os mais fracos entre os elos importantes do adversário é tático e, por isso, Brasil e Índia se tornaram os alvos principais da guerra tarifária dos EUA, no momento. Foram identificados como potenciais elos fracos na aliança contra-hegemônica mundial. É certo dizer que EUA, EU com Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Israel, além de Filipinas, Taiwan, Arábia e outros, fazem a aliança hegemônica atual. Também continua sendo certo dizer que a China com a Rússia e sua zona de influência imediata, a Coreia do Norte, Irã, Paquistão e alguns outros, perfazem uma aliança contra hegemônica atual. Ficam como países pêndulo, decisivos, por seu peso econômico, estratégico, populacional e, portanto, geopolítico: justamente, em primeiro lugar, a Índia e o Brasil, seguidos da Indonésia, da Nigéria, África do Sul e, na verdade, toda a África, e, também, até mesmo parte da Europa Oriental e Central. Estes seriam os países e regiões pêndulo mais decisivas e cada vez parece mais claro, mais consistente, que este pêndulo está se dirigindo ao eixo chinês, sino-russo, ou, multipolar, se você quiser, dos Brics e da SCO etc. O Sudeste da Ásia tem tal integração econômica com a China que se atrai de modo inegável ao seu polo; a África, com apoio militar russo e investimento chinês, está passando por novos processos decoloniais; vários países da Europa Oriental se alinham abertamente à Rússia e à aliança em torno à China; a Indonésia parece, também, estar tão entrelaçada economicamente com a China, agora, e em franco desenvolvimento com isto, que não deve voltar atrás. Até mesmo o Brasil e a Índia, os elos relevantes mais fracos, na visão estratégica do governo dos EUA, parece que já se decidiram a não ceder à pressão do tarifaço e de sanções diretas e vão seguir aproveitando as vantagens estratégicas da parceria econômica com a China e a Rússia e com restante do mundo. Já existem bons indícios de que tanto o Brasil quanto a Índia estão, de fato, em uma rota de aproximação politica e estratégica com o novo eixo contra-hegemônico. Por fim, até mesmo as áreas de influência e controle mais imediatos e, aparentemente, inquestionáveis dos EUA, como o México e o Canadá e o restante das Américas, tudo isto agora está muito balançado e, certamente, muito mais propenso a assumir posições de soberania e muito mais próximo, portanto, do polo motor chinês. Parece claro, portanto, que, independente do quanto isto ainda vai custar, a substituição da ordem mundial atual está em curso avançado e imparável e o domínio da aliança hegemônica polarizada pelos EUA terminará sendo superado por uma nova ordem, polarizada pela China. O Brasil tem, sob os dois aspectos sinalizados acima, importância real neste processo. Primeiro, por ser um dos países pêndulo mais importantes nesta disputa pela hegemonia, pela ordem mundial, com algum peso real na definição deste processo, ou, pelo menos, em seu ritmo e seu custo. Portanto, a posição do Brasil, seu direcionamento estratégico na economia e na geopolítica mundiais, mesmo na ausência de poderio militar relevante, é de grande importância para o desenrolar deste processo histórico que, de todo modo, parece inevitável. Ainda mais por ser um dos países do quintal dos EUA, como eles sempre consideraram e agora querem nos impor, ou reimpor. Se o Brasil se decidir e se mantiver firme em uma posição de parceria econômica e estratégica com o polo chinês, mais rápida e mais suavemente este processo se dará. Quanto mais o Brasil vacilar neste sentido, mais ele dará, ainda, forças ao poder decadente e mais acrescentará risco de maiores crises e de guerras mundiais, que são, ao fim, a última estratégia de uma aliança decadente para permanecer no poder. Não deve haver dúvida de que esta estratégia será tentada, mesmo que ela seja estúpida e verdadeiramente suicida. Veja-se como os governos na Europa-Reino Unido se tornaram, hoje, os verdadeiros arautos, propulsores e defensores da guerra. O poder dos EUA, também, obviamente, não deixa nunca de se sustentar na guerra, apesar da retórica contraditória do governo atual, que, certamente, ainda não está no estágio de franco delírio suicida, como boa parte da Europa já se encontra. Mas, certamente também chegará a isto no processo de sua decadência relativa, se não for obrigado a se conter, por forças externas ou revoltas internas. Dois são os fatores históricos, objetivos, que impulsionam esta crise global atual e determinam a sua resolução, que, aos poucos, já vai se configurando. Em primeiro lugar, a crise econômica sistêmica do capitalismo mundial, que se desdobra desde 2007 e que chega agora a limites extremos, apesar de todas as políticas anticíclicas e de proteção social às quais os mais diversos países têm lançado mão, reiteradamente, desde então. Dentro da ordem política atual, as medidas anticíclicas e os recursos de proteção social estão atingindo, ou já atingiram, um limite político e financeiro, imposto pela dívida pública, hoje já em condições de franca crise, ou muito próximo disto, em grande parte dos países da aliança hegemônica, especialmente na Europa, mas também nos EUA. Portanto, não parece haver qualquer perspectiva favorável para novas rodadas de injeção generosa de recursos públicos para salvar as economias em crise. A crise extrema leva a medidas extremas e é o que se vê nas ações dos governos tanto na EU quanto nos EUA, onde já é aparente o desespero, a tentativa desesperada de tomar as rédeas da situação e um direcionamento cada vez maior para o confronto, para a imposição de poder, para a intimidação e para a guerra. Ainda não estão claros todos os efeitos do tarifaço do governo dos US, mas algumas coisas já estão suficientemente manifestas. É certo que provocou uma reação mundial de busca de diversificação e ampliação de mercados internacionais e realização de acordos comerciais, bilaterais ou multilaterais, assim como o fortalecimento dos organismos ou instituições multilaterais polarizadas pela China, como os Brics e a SCO. Isto irá, portanto, também, redirecionar fluxos de investimentos e cadeias produtivas mais intensamente, agora, do que antes. Certamente, em detrimento relativo do polo hegemônico atual e em favor da diversificação, sim, mas, polarizada pela China. A tendência histórica é de mais integração da economia mundial e a tentativa contra tendencial dos EUA, de regredirem para uma economia mais protecionista e isolacionista, com medidas antiglobalização e de decoupling, parece que, paradoxalmente, se reverterá em um benefício para o mundo, com um maior florescimento de uma economia mundial ainda mais globalizada, ainda mais integrada, e com redução ainda maior da participação, do peso, do poder econômico relativo dos EUA. Como sempre, os processos históricos se impõem às vontades e, muitas vezes, realmente, se impõem de tal modo que as ações terminam, paradoxalmente, levando aos resultados opostos e acelerando aquilo que pretendiam interromper ou evitar. A solução da crise econômica sistêmica atual certamente passa pela maior e melhor integração mundial da economia e da vida social em geral e a ação isolacionista dos EUA vai resultar em aceleração deste processo, assim como da perda da hegemonia dos EUA. Vamos nos encaminhando para isto e todos os balões de ensaio e tentativas parciais, limitadas, insuficientes e enviezadas, de estabelecer bases organizacionais para esta maior integração mundial, desde as instituições de Bretton Woods e todo o sistema ONU, passando pelos diversos sistemas de integração financeira mundial, pela OMC e até mesmo por todas iniciativas multipolares das últimas décadas, tudo isto irá, agora, convergir progressivamente, para a proposta chinesa de uma nova governança mundial. Iremos certamente para isto, por mais que o polo hegemônico decadente resista e se contraponha. O fato de ser a China quem anuncia oficialmente, de modo aberto, explícito, esta necessidade e este projeto, é fundamental, é definidor, pois, é ela, certamente, o polo motor, o poder econômico que polariza e dá o impulso e o direcionamento do desenvolvimento econômico e social deste novo momento histórico, que estamos começando a viver no mundo. É porque a China, já há um bom tempo, se tornou o maior produtor industrial e o principal ator no comércio mundial, sendo o principal parceiro comercial da grande maior parte dos países, em todo o mundo, que os atos de força dos EUA e da aliança hegemônica, já não conseguem mais se impor e determinar a ordem mundial. Portanto, é apenas por isto que países como o Brasil e a Índia e até mesmo o México, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul e a própria Europa poderão conquistar níveis mais elevados de autonomia, de soberania, em relação à hegemonia dos EUA. É, também, justamente por causa desta ascensão, que teremos uma nova integração e coordenação econômica mundial, ao invés do caos imposto pelas ações anti-globalização e imperialistas que caracterizam a política econômica e estratégica dos EUA, no momento. É certo, contudo, que teremos ainda muitos anos adiante em que prevalecerá uma dupla hegemonia, ou uma real bipolaridade geopolítica, muito mais verdadeira do que que aquela que teria havido no período da União Soviética, que nunca ameaçou de fato a hegemonia econômica dos EUA. Teremos, por muitos anos ainda, a China e os EUA como os grandes polos econômicos e geopolíticos, complementares e antagônicos, no sistema mundial. Por um bom tempo ainda, os EUA e os outros membros da aliança hegemônica serão os países com a população mais rica do mundo, constituindo grandes mercados consumidores mundiais e também reterão algum predomínio na estrutura informacional e financeira do mundo. Mas, isto tudo está se modificando de modo cada vez mais definitivo, já com a evidência clara de que, do ponto de vista tecnológico, industrial e militar, o que é, enfim, praticamente a mesma coisa, já não há vantagem para a aliança hegemônica, ou ao contrário, esta vantagem já está claramente pendendo para o polo contra hegemônico. Ainda que seja muito interessante para o Brasil fazer o discurso de sua autonomia e soberania, o fato é que não poderemos nos furtar a assumir escolhas históricas estruturantes dentro da conformação da ordem mundial, que se desenvolve neste momento histórico. Em todos os aspectos estratégicos que envolvem a tecnologia e o poderio financeiro, militar e a própria institucionalidade mundial, não poderemos evitar a polarização entre as forças hegemônicas, com o predomínio dos EUA, e as forças contra hegemônicas, com o predomínio da China. Simplesmente a realidade se imporá e teremos que nos desligar, refazer e refundar as estruturas do passado, sob a hegemonia dos EUA e aliados, sempre, inevitavelmente, tendo a China como motor e esteio principal desta nova ordem, destas novas estruturas e instituições, os novos sistemas estratégicos globais, informacionais, financeiros, monetários, sanitários, militares etc. Quanto mais decidida e rapidamente o mundo, a Índia e o Brasil, em especial, com a importância destacada acima, marcharem para esta direção e objetivamente realizarem estas grandes transformações na estrutura do sistema mundial, mais cedo sairemos da crise e mais nos afastaremos do risco das grandes guerras. Ao contrário, quanto mais nos tardarmos para isto, mais este risco e sua realidade se farão presentes, como já está ocorrendo. Seja como for, a necessidade da maior e melhor coordenação da economia em nível mundial terminará por se impor, porque ela é requerida pelo próprio desenvolvimento produtivo, tecnológico, da humanidade, no presente. As características regressivas das políticas atuais dos EUA podem retardar estes processos e, talvez, até travar a economia mundial, o que de fato só poderia ocorrer com grandes crises sociais e, ao fim, com guerras, mas, mesmo assim, não podem reverter o curso da história. A emergência da China Socialista como a grande potência econômica mundial me torna racionalmente muito esperançoso de que não teremos que passar por processos ainda mais dolorosos e destrutivos do que o que já está em curso. O caráter socialista desta nova potência indica, fortemente, que a nova ordem mundial terá um caráter distinto do que foi até aqui a realidade histórica no sistema capitalista mundial, indica de fato que ela não será colonialista, nem imperialista. Não há como se dissociar a crise atual do imperialismo, dos EUA e sua aliança hegemônica, da crise atual do sistema capitalista mundial. Esta crise atual tem sua origem nas décadas de concentração de riqueza e empobrecimento relativo das massas no mundo em geral e, em especial, nas economias centrais da própria aliança hegemônica, que marcaram, e ainda marcam, a onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Os níveis de concentração da riqueza se tornaram extremos, até o ponto em que a própria possibilidade de consumo, de novo consumo, essencialmente, das massas, se tornou insuficiente para a realização adequada dos investimentos, levando a um estresse contínuo e progressivo nas próprias economias centrais do mundo capitalista, caracterizado por uma queda persistente nas taxas de crescimento econômico e picos recessivos, mesmo com os trilhões de dólares injetados pelos governos nas economias, desde 2008. A resolução desta crise terá que passar por uma nova redistribuição das riquezas, nas próprias economias centrais do sistema capitalista e mundo afora, aumentando significativamente o acesso a bens e serviços para as massas. Não há, a meu ver, como evitar o desenvolvimento desta nova onda socializante, com maior controle e coordenação da economia mundial e grande redistribuição das riquezas, a não ser na hipótese de crises apocalípticas, causadas por grandes guerras mundiais e ou cataclismos ecológicos, com destruição extensa e intensa das principais economias do mundo, levando a um verdadeiro rebaixamento do padrão civilizatório global da humanidade. Novamente, é a emergência da China Socialista que parece nos garantir que não teremos este destino tão cruel nas próximas décadas. Parte 2 A situação se agrava, dramaticamente, na Europa. Crises sociais abertas já se mostram na França, enquanto a crise fiscal e a tensão social se intensificam, em muito, também na Inglaterra. Como previsto, não há uma resposta razoável por parte do poder político na Europa, nem nos EUA. Ao contrário, a antiga aliança hegemônica transparece ainda mais destinada a uma rota decadente, ao adotar o aumento de gastos militares, a manutenção dos extremos de concentração de riqueza e o protecionismo econômico, como as respostas para os seus males, agora que os limites fiscais e políticos para novos programas de injeção de recursos públicos na economia foram atingidos. Os resultados destas políticas só poderão conduzir ao declínio, maior e mais acelerado, das economias e do poderio geopolítico destes países, ao maior empobrecimento das massas, ao aumento da revolta das populações e da violência social e política. Reitero que teremos que passar por tudo isto, com o risco crescente de guerras maiores. Estamos, já, nos limites mais extremos do desencadear de uma guerra da Europa contra a Rússia e da extensão da guerra na Ásia Ocidental, passando do genocídio palestino e da imposição de poder por parte de Israel sobre seus vizinhos mais frágeis, para uma guerra regional aberta entre os principais países da região. Mas, tenho também a certeza de que, por pior que sejam estes eventos e seus desdobramentos imediatos, nada disto alterará o curso fundamental da história no presente e, ao fim deste ciclo, teremos uma economia mundial mais integrada e coordenada, com maiores e melhores recursos, instituições e sistemas de governança mundial e com importante redistribuição de riquezas no interior das diversas economias nacionais. O predomínio da China, no cenário mundial próximo, não deverá significar uma nova hegemonia baseada na imposição de poder econômico e militar,como foi, e ainda é, no Colonialismo Britânico e Europeu, em geral, e sob o Imperialismo Estadunidense e que tem como contrapartida necessária a submissão e exploração dos países, povos e regiões subalternas no sistema. A trajetória histórica da China e a maneira como ela conduz as suas parcerias e alianças no presente nos mostram uma perspectiva muito diferente e que, certamente, tem a ver com a tradição do país, mas, também, e sobretudo, é devida à sua ideologia e organização social, socialistas. É muito importante, é crucial, que países pêndulo, países decisivos neste cenário internacional, ainda muito incerto e tendente à crise e à guerra, tenham, o mais rápido possível, esta percepção e fortaleçam suas parcerias e alianças multilaterais, nos mais diversos fóruns e estruturas, tendo a China como pivô, como esteio e polo propulsor. Quanto mais e mais rapidamente os países como o Brasil, a Índia, a Indonésia, a África do Sul, os países do leste Europeu e da África, em geral, entre outros, entendam isto e ajam, de modo coerente e consistente, no sentido da consolidação destas parcerias e alianças estratégicas, mais certamente e menos violentamente, nós completaremos a transição para além da crise atual. Do contrário, maiores e mais frequentes serão, ainda, as crises econômicas, as convulsões sociais e as guerras, até a resolução final da crise. É correto que, nestas condições instáveis, em mudança, países como o Brasil, busquem afirmar sua soberania e o multilateralismo na arena internacional, justamente agora que estes valores estão mais direta e francamente ameaçados pelo poder ainda hegemônico no mundo. Mas, também é certo que, diante da atual postura, abertamente imperialista, do governo dos EUA, países como o Brasil e a Índia e todos os demais, incluindo ainda o México, o Canadá e a própria Europa Ocidental, não podem, isoladamente, afirmarem a sua autonomia e, também, de pouco ou de nada adianta se apoiarem nos mecanismos, até hoje desenvolvidos, sob a bandeira do multilateralismo. Há, efetivamente, um vício estrutural na ideologia dos sistemas do multilateralismo, que sempre determinará a sua ineficiência nos momentos em que mais se precisa deles, nos momentos de grande crise e confronto internacionais. É óbvio que não se pode atribuir o mesmo peso, nas tomadas de decisão internacionais e mundiais, a países completamente díspares em termos de poder econômico e militar, território e população. Nunca houve, nem haverá, algo como uma democracia internacional, isto é um absurdo e uma fantasia, na ideologia, e, na realidade, uma farsa, que serviu bem para a organização mundial sob a forte hegemonia dos EUA. Na medida em que esta hegemonia está sendo, progressivamente mais, contestada pela realidade, pois o predomínio econômico e militar decai a cada dia, em face da ascensão da China, de outras novas potências e pelo desenvolvimento geral das economias dos países secundários e subalternos, é claro que os confrontos de interesses passam a ser mais frequentes e intensos e as tentativas de soluções unilaterais ou imperialistas tomam, abertamente, a frente no cenário mundial. Os EUA têm, de fato, agido de modo cada vez mais unilateral e exclusivista, seja em ações econômicas ou militares. Tendência que se intensifica com o desenvolvimento da grande crise econômica que afeta os países hegemônicos, desde 2007, culminando, no presente, com a grande guerra tarifária e também com a nova política migratória, de clara violência social, xenofóbica. Hoje já está mais do que evidente que nenhum instrumento do multilateralismo pode fazer frente a isto. As guerras se disseminam e se acentuam e ninguém tem os meios e o poder para impedi-las. É um fracasso absoluto da ONU e todo o seu sistema, é um fracasso de todas lideranças mundiais e de todos nós, como humanidade, que hoje estejamos todos testemunhando, sem poder deter, a mais um genocídio, uma verdadeira limpeza étnica. O assassinato diário de população civil, incluindo as crianças, pela violência bélica ou pela fome e falta de recursos, em geral, presos em uma condição de campo de concentração. O responsável direto é o governo de Israel, uma potência regional, mas, sob o apoio incondicional da grande potência mundial, e de grande parte da mídia e de setores dos governos dos países ricos, em geral. Existem laços quase inquebráveis, oriundos da própria estrutura do poder econômico capitalista e da posição de extrema relevância que os judeus, historicamente e ainda, atiualmente, têm nesta estrutura, no setor empresarial financeiro. Acrescenta-se a isto, também, os aspectos estratégicos, militares e de inteligência, tecnológicos e científicos em que os judeus e Israel também têm alguma relevância no mundo, dentro da aliança hegemônica atual. Isto permite entender a impotência geral, o silêncio absoluto ou relativo da maioria e o apoio aberto e incondicional de boa parte, de grande parte, da maior parte, enfim, do poder hegemônico atual ao genocídio do povo Palestino, pelo Estado de Israel. que já dura anos. Isto é um fracasso histórico de todos nós e, sobretudo, de todas as lideranças mundiais, que quedam inertes e no máximo lançam frases protocolares de condenação e lamentação e, também de modo apenas protocolar, procuram inutilmente as instituições do multilateralismo. O mesmo é verdade em relação à guerra da Ucrânia, onde, apesar de não ter o caráter absolutamente imoral do genocídio, no entanto, tem provocado ainda muito mais mortes do que na Palestina. O principal fracasso é, obviamente, da ONU, que, antes de tudo, tem como seu mandato a garantia da paz no mundo. Há muito que a ONU mostrou a sua ineficiência para cumprir este seu principal mandato. Ela padece de um vício estrutural que a leva a esta impotência. A verdadeira esquizofrenia entre a Assembleia Geral "democrática" e o Conselho de Segurança Imperial, em que os poucos países considerados vitoriosos da segunda guerra mundial têm poder de veto sobre qualquer decisão. Isto leva à completa paralisia e inutilidade da instituição justamente quando ela é mais requerida, como agora. É óbvio que ampliar o número de participantes no Conselho de Segurança não pode ser uma solução, nem mesmo o encaminhamento para uma solução, ainda que seja justo que Índia e Brasil, por exemplo, reivindiquem e conquistem seus acentos nele. Mas, isto não mudará em nada a condição de paralisia e impotência da ONU, justamente diante do seu mandato principal, que é a garantia da paz no mundo. A diplomacia presidencial agressiva do atual governo dos EUA, verdadeiramente imperial, rompeu de modo definitivo e inapelável com esta estrutura e nada mais de relevante no mundo é sequer debatido de verdade, quanto menos ainda decidido, seja na ONU ou na OMC, por exemplo. Agora, o manto ilusório do multilateralismo democrático foi completamente rasgado. A situação é grave e urgente demais para manter as aparências e, então, o poder tenta reivindicar os seus direitos, diretamente, sem qualquer disfarce, em negociações bilaterais e pela imposição unilateral, utilizando mais os recursos de força aberta, rompendo com cerimoniais institucionais e até com a capa protetora das ações secretas. Mas, frequentemente, o poder que tem que mostrar os seus dentes e apontar as suas armas para se impor é, justamente, aquele que já não consegue mais se impor de forma polida e institucional. Esta é, claramente, a situação dos EUA na atualidade. Não vai ser, portanto, fazendo recurso à ideologia do multilateralismo, nem tentando fazer apenas algumas reformas nas instituições que representaram, até aqui, esta ideologia, que poderemos avançar e superar tanto a grande crise econômica mundial, quanto a transição da hegemonia global. O que parece estar, já, se constituindo como uma alternativa e um caminho real é uma miríade de iniciativas e instituições internacionais, como os BRICS, SCO, BRI, entre várias outras, que estão desenhando uma nova estrutura institucional de tomadas de decisão e de atuação integrada dos diversos países no cenário mundial. Como eu acentuei antes, por mais que se postule e advogue o multilateralismo e a democracia internacional, nestas diversas instituições e iniciativas transnacionais, elas, assim como os governos dos diversos países, operam dentro da realidade que é a existência de um claro polo contra-hegemônico ascendente, representado pela China Socialista e por sua aliança com a Rússia, uma grande potência militar da atualidade, e com os demais países que são imediatamente aderentes a este polo. Todo o poder de chantagem econômica e militar que os EUA lançam hoje contra a Índia e o Brasil e, na verdade, contra praticamente todo o mundo, na tentativa desesperada de manter seu império, teria outro destino, seria certamente muito mais bem sucedido, se não houvesse, já, dentro da economia mundial este novo polo, este novo sub-sistema, tão forte que é capaz de fazer frente, não apenas ideologicamente, ou moralmente, ou, até, nem mesmo apenas militarmente, às potências hegemônicas, mas, sobretudo e antes de tudo, economicamente. Dito de outro modo, a grande crise econômica, que já atinge em cheio a Europa e que cada vez se aproxima mais dos EUA, só não nos arrastará a todos por este motivo: porque já há uma força econômica suficiente para siderar a economia mundial para além desta grande crise, passando, em boa parte, ao largo dela. Não será possível para países como o Brasil e até mesmo a Índia se manterem neutros, agarrados à sua pretensa soberania e ao multilateralismo. A realidade da cisão entre sistemas divergentes em todas as grandes áreas estratégicas se imporá cada vez mais. Devemos ter o máximo de sabedoria e senso de oportunidade, para jogarmos o nosso jogo, no nosso interesse, dentro desta cisão sistêmica. Mas, no limite, teremos que decidir de que lado estamos em todas as dimensões mais estratégicas da atualidade. Isto inclui as parcerias e alianças simplesmente econômicas, mas, se tornará cada vez mais decisivo, também, no campo militar, assim como no campo das tecnologias de ponta, no tocante à logística e ao sistema financeiro, mundiais. Onde haja uma necessária competição de diferentes sistemas, teremos que escolher, objetivamente, com quem nos alinharemos, quais os recursos de tecnologia militar adotaremos, de quem compraremos e com quem nos associaremos e no que toca à internet, em geral, e com relação às redes sociais, serviços de localização, de informação e consulta, assim como no desenvolvimento das IAs, por exemplo, especificamente. Em grande parte destes aspectos, o predomínio, ou pelo menos a disputa em paridade de condições, da China em relação aos EUA, já é evidente e somente irá crescer nos próximos anos e décadas. É, realmente, somente por isto que países como nós, a Índia, a própria Rússia e o restante do mundo, incluindo até mesmo os países da antiga aliança hegemônica, podem sair-se razoavelmente bem da pressão, das chantagens, das investidas imperialistas atuais dos EUA e transitar para além da atual crise, com mínimos danos. Não há como negar esta realidade objetiva e quanto mais cedo a reconhecermos, pragmaticamente e também ideologicamente, agindo coerentemente neste sentido, melhor para nós e para todo o mundo. É óbvio que isto não significa a nossa submissão a uma nova hegemonia de padrão colonialista ou imperialista, como sempre estivemos submetidos, em relação à Europa, à Inglaterra e, nos últimos 80 a 100 anos, em relação aos EUA. Ao contrário, justamente a ascensão da China Socialista no cenário global representa um novo momento da história, onde o Brasil terá, certamente, uma proeminência muito maior do que tivemos até agora, dentro de uma economia, e até de uma cidadania, mundiais, muito mais integradas e coordenadas do que vivemos até o momento, no sistema capitalista mundial. As posições da China, até agora, nos deixam mais seguros neste sentido. Hoje, é a China que defende a continuidade e o aprofundamento da globalização, como um processo histórico real, objetivo, contra o qual somente as maiores guerras mundiais poderão opor alguma resistência real. É, também, a China quem defende, propugna e desenvolve o novo sistema de parcerias e alianças mundiais para um futuro humano compartilhado, que já está rompendo com o hegemonismo imperialista, dos EUA e dos antigos países colonialistas, que predominou nas últimas décadas, sob a fantasia de uma democracia internacional global. O governo brasileiro, acertadamente se alia a este processo, mas ainda com muitas vacilações e sob fantasias ideológicas que poderão custar muito caro adiante, tanto para nós quanto para o mundo em geral. Uma última observação. Como contraponto à ideologia da democracia internacional, surge com alguma vitalidade, atualmente, a ideologia de uma multipolaridade dos poderosos, ou daqueles que, de algum modo, teriam reconhecido o título de países civilizacionais. As verdadeiras grande potências de cada momento. Um neoimperialismo na forma e no conteúdo, com os governos dos impérios dividindo o mundo em suas áreas de influência. Eu reconheço realidade aqui também, o poder realmente se estabelece, se mede e se reconhece no plano internacional e a existência de grandes potências não pode ser ignorada. Mas, obviamente, não podemos ficar prisioneiros deste brutalismo. E não vamos. A correção, a superação, necessária e verdadeira, real, desta pretensão neo-imperial se dá e se dará, justamente pela maior integração mundial, que nega esta cisão entre impérios. Ocorre que é justamente agora que a economia está se tornando mais intensamente e intrínsecamente mundial. Demos a isto o nome de Globalização e a China Socialista é hoje realmente quem mais abraça, acertadamente, a perspectiva da Globalização.