sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 5 - Cesta de Notícias

Os Estados Unidos anunciam construção de mais uma base militar externa, na Argentina. Eles concentram em torno de 80% das bases militares estrangeiras no mundo, contando mais de 800, das quais quase 80 estão aqui na América Latina, e crescendo. O segundo lugar vai para o Reino Unido, que tem cerca de 150 bases fora do território. A Rússia tem menos de 50 bases e a China tem perto de 10. A marinha brasileira faz um exercício militar conjunto com a marinha dos EUA, em nosso território, com a presença de navios de guerra deles, que estão a caminho da base de Yokosuka, no Japão. Muito perto de Taiwan e das Filipinas, onde os EUA também têm predomínio estratégico. Além de fazer um exercício militar conjunto, das marinhas, das forças armadas brasileiras com as americanas, em águas brasileiras, o que por si só já é um absurdo sinal de submissão das nossas forças armadas aos EUA e ainda por cima tivemos que receber um pito da general comandante das ffaa deles, por causa de nosso comprometimento com os BRICS e especialmente com a China. Nada pode ser mais claro nem mais ultrajante para nós. Na guerra da Ucrânia, até momento, foram desalojadas / deslocadas próximo a 7 milhões de pessoas. As mortes são estimadas em algumas centenas de milhares. Vastos territórios e estruturas produtivas e sociais foram e continuam sendo completamente destruídas. E os gastos estimados são de mais de 1 trilhão de USD, só na aliança ocidental. Gastos governamentais, como forma, inclusive, de investimento seguro, com demanda garantida, em suas respectivas indústrias bélicas. Na crise capitalista, liberal, a guerra tem um sentido absurdamente racional. A Rússia seguiu avançando com a ocupação lentamente progressiva do território leste da Ucrânia. Mas, no início de Agosto, a Ucrânia, ao norte, invadiu pequena parte do território Russo. Vão mandar mais armas e munições para a guerra da Ucrânia continuar por mais e mais tempo. Até o último soldado ucraniano. O primeiro ministro da Eslováquia foi alvejado por tiros. Ele é pro Rússia. A Georgia está em crise política porque o governo e o parlamento estão se realinhando cada vez mais com a Rússia. A crise está definitivamente instalada na região, com a nova ascensão de poder e influência russos e a resistência da OTAN e da UE. Esta é a real. E tudo indica que a guerra persistirá ali por muito tempo e sempre com grandes chances de se alastrar. A França decretou estado de exceção na Nova Caledônia, para reprimir a revolta dos locais, por independência. Inclusive com a proibição da plataforma de mídia social Tik Tok. Que está em vias de ser completamente banida dos EUA. A Corte Internacional de Justiça, da ONU, determina o término dos bombardeios em Rafah e Israel intensifica os ataques. A continuidade do plano de limpeza étnica e do genocídio israelense contra os palestinos em Gaza, a intensificação das agressões na fronteira entre Israel e Líbano, e os ataques de Israel dentro do território iraniano, levaram à condição em que um conflito maior entre Israel e o Irã parece, agora, quase inevitável. Uma tentativa de golpe de estado, com participação de mercenários americanos, foi oprimida na República do Congo. Grande crise em Bangladesh com muita mobilização popular violenta, com mais de 300 mortes, conduziu à queda do governo. Difícil entender quais as forças em tensão lá. Tem componentes de fascismo e xenofobia e de revolta contra privilégios. Não podemos esquecer que se trata de um dos pontos de maior concentração de miséria no mundo atualmente. Conflitos de grande proporção devido a manifestações antiimigrantes e antimulçumanos e contra manifestações antifascistas, no reino unido, ou, mais especificamente, na Inglaterra. Incentivos à intensificação e ampliação das guerras internacionais e dos conflitos e guerras civis estão vindo de múltiplas direções. Eleições na Venezuela abriram uma crise de grande proporções, mas por enquanto (08/24) ainda sem maiores danos por violência. China e Rússia reconheceram imediatamente a reeleição de Maduro. O Estado do Brasil se colocou na posição de certificador ou tutor internacional do resultado da eleição. Não me pareceu um bom movimento, mas, como sempre, agora, a opção pela paz nos favorece muito mais do que o impulso para a guerra. Se o Brasil contribuir para a solução pacífica, ficará bem. Talvez o melhor para atingir este resultado é ficar calado e aceitar o processo histórico do povo vizinho. Como a China nos ensina. Abre seu olho, cidadania. Os governos da Nicarágua e depois o do Brasil expulsaram os embaixadores um do outro. Isto me pareceu absurdo demais. Isto é um absurdo. E se tudo isto significar uma tomada de posição, uma escolha de lado, do Brasil, no cenário geopolítico, é um erro, uma escolha do lado errado. Os EUA prosseguem e aprofundam a guerra comercial contra a China. Trata-se, de todo modo, de uma tentativa anunciada de proteção e reativamento da indústria dos EUA e de um reconhecimento do poderio, do predomínio, ou da vantagem da produção chinesa. Por seu lado, a China continua acelerando a redução do seu estoque de títulos da dívida americana. Nos últimos anos, se desfez de mais de 1 trilhão, em USD. A desdolarização da economia é francamente discutida e avança no cenário mundial. A China já está realizando mais da metade de suas transações internacionais em moeda própria, ultrapassando pela primeira vez o USD. Putin visitou a China, pela segunda vez em 6 meses. 90% do comércio entre eles já é feito nas moedas próprias e não em USD. A China patrocinou uma aliança ou reconciliação entre os diversos grupos de poder da Palestina. Fevereiro de 2025 Seguindo os passos do recém eleito presidente dos EUA, o liberal extremista que preside a Argentina, também resolveu confrontar as instituições internacionais, o Sistema ONU, especificamente, retirando-se da OMS, por divergência com relação à politica sanitária da instituição de saúde pública mundial. Isso se alinha perfeitamente com a postura estratégica de desqualificação das instituições internacionais, de combate às estruturas normativas internacionais e com a ideologia nacionalista e anti globalista que marcam o bloco liberal e fascista atual. Isto destaca também o caráter absolutamente estratégico da questão sanitária ou epidemiológica no mundo globalizado: a prevenção e controle de epidemias e pandemias, incluindo a vacinação e as medidas de controle, assim como a classificação e o controle de qualidade e acesso a drogas em geral e medicamentos em específico são, com certeza, temas maiores da organização social, de repercussão estratégica mundial. E, portanto, este também é será um tema estratégico para o combate ideológico atual que, centralmente, como eu tenho reiterado, é, ainda, o combate entre a doutrina liberal e seu extremo fascista e a doutrina socialista, incluindo aí a sua via social democrática. Assim como também são temas estratégicos de igual ou ainda maior relevância a nível global, mundial: a questão ecológica, a questão da guerra e as questões de fronteira já visíveis do desenvolvimento científico e tecnológico, desde, antes que tudo, a continuação dos processos de mecanização e automação da produção, assim como de sua integração entre os mais diferentes países e regiões, até os aspectos da própria produção de conhecimento e a questão da informação e comunicação. Obviamente todas estas questões estão entre si relacionadas e são inter determinadas.

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 4. A questão ideológica contemporânea

1. Anarco capitalismo x Anarco comunismo A discussão ideológica atual é a discussão entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo. Digo isto no sentido mais profundo da palavra ideológico, em seu sentido mais teleológico e, portanto, de princípios, ou, ideal, se você quiser chamar assim. Esta é a principal questão ideológica do presente, porque é a maior questão de futuro em termos de escolha social humana, de escolha entre alternativas. Alguns sinais neste sentido já se mostram na realidade. Temos, ou tivemos um Estado embrionário que se organizou de forma confederativa com características anarquistas coletivistas, feministas e ecológicas em Rojava, território Curdo na Síria. E temos, agora, um primeiro governo declarado anarco capitalista, que está no poder executivo da Argentina. Na crise das enchentes do Rio Grande do Sul, o lema da direita está se tornando: “o povo pelo povo”. O povo por si mesmo, sem necessidade do estado. Justo eles, a direita, que são o sistema em si, aqueles que querem, por todos os meios, conservar o sistema social em que vivemos há séculos, agora que ele parece insustentável, paradoxalmente e em falsidade, se declaram anti sistema. Atualmente os liberais, conservadores do capitalismo, em seu desespero extremo, estão abdicando dos limites da ordem político-institucional democrática, por não terem mais resposta à crise econômica e social do sistema capitalista mundial, por não terem mais proposta para o mundo, por terem se tornado forças regressivas, neste momento histórico. Abdicando disto, eles vêm para o terreno revolucionário. Para o terreno da ruptura com a ordem institucional e passada. Ao ponto em que, hoje, parece que são os liberais, é a extrema direita, quem é insurrecional, quem é, pasmem, anarquista. Esse é o nosso terreno, no entanto. O que precisamos fazer para recuperar este espaço e este vetor que é, de fato nosso? Em termos mais profundos, como eu estava dizendo, devemos vencer o debate ideológico. Para vencermos o debate ideológico, temos que mostrar as diferenças e a superioridade, ideológicas, entre o anarco capitalismo e o anarco comunismo. Cada ideologia, no seu sentido mais profundo, deve visualizar e mostrar o que lhe é próprio, o que é adequado, ou, consequente, aos seus princípios, como o melhor, o mais belo o mais virtuoso ou, pelo menos, como o mais vitorioso, o maior sucesso possível. Devemos vencer a batalha ideológica de fato e não apenas nas mídias. Não que a gente não deva tentar vencer o debate nas mídias burguesas, como se dizia antigamente. Mas, este debate ideológico aparece, agora, ainda precoce, fora do tempo. E é, realmente, assim, pois está longe das possibilidades reais contemporâneas. Mas, é justamente disto que se trata o debate ideológico profundo, do sentido de futuro que queremos dar à humanidade, ao humano. Vamos, então, tentar dosar isto no tempo. A questão de futuro distante entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo, é a questão presente e de futuro próximo, entre capitalismo liberal e fascismo, por um lado, e social-democracia e socialismo, por outro. Por razões históricas e conceituais, eu posso afirmar que o liberalismo, quanto mais se torna coerente e radical, na forma “libertária”, ou anarco-liberal, enfim, tanto mais ele se torna autoritário e violento. A liberdade do poder capitalista, sem limite, e a ruptura com a institucionalidade tradicional do ocidente contemporâneo, com a democracia burguesa, necessariamente levam à concentração ilimitada de riqueza e de poder nas mãos dos detentores de riqueza, sem a proteção ou o controle e regulação públicos, do Estado. Isto se mostra, em qualquer dimensão da vida social que você quiser analisar, como brutal aumento do autoritarismo e do diferencial de poder entre as pessoas. Quem tem dinheiro, quem tem muito dinheiro, pode e deve, por esta ótica, comprar tudo o que quiser e dar a ordem e o sentido a tudo como quiser, sem que ninguém possa interferir em nome do poder público. O poder do dinheiro, do capital, da riqueza, deve se impor sem qualquer limite. No limite, sem Estado algum. É o povo pelo povo. Mas com os ricos mandando. Na segurança pública, por exemplo, cada rico teria seus capangas, suas milícias, e todo o poder seria deles, nos seus territórios. Nas relações de trabalho, em relação ao meio ambiente, no que toca aos costumes, em tudo, do mesmo modo. Cada rico com suas próprias regras. E todos os outros, todos pobres, diante de tanto poder concentrado, terão, sempre, a liberdade de mudar de rico pra trabalhar e se submeter aos seus caprichos. O mercado capitalista, mesmo, não é compatível com esta barbárie. Mas ela é uma consequência lógica da ideologia liberal conservadora, especialmente na sua forma mais explícita ou despudorada, libertariana, anarco-capitalista. O anarquista não quer o peso do Estado nas costas da sociedade, não quer corruptos e perdulários, adoradores de privilégios, aproveitadores e oportunistas sem qualquer sintonia com os interesses públicos, fingindo de servidores da nação, enquanto a parasitam que nem sanguessugas. Ninguém quer isto e o anarquista menos que todos os outros. Nós temos horror e ódio a isto. A bandeira libertária é, de fato, a nossa. Somos anarco comunistas, no entanto. E isto é justamente o oposto do libertarianismo capitalista. Entendemos que o anarquismo é uma conquista social e, como eles fazem, também a projetamos como forma ou modo de vida social futura ou ideal, se você quiser assim chamar. Mas, seja como for, uma conquista social, uma ordem social superior coletivamente estabelecida, conquistada, construída e que somente como tal pode ter existência. É algo para além do socialismo. É a ideologia totalmente contrária ao liberalismo capitalista radical. 2. Socialismo x Capitalismo liberal A gente pode chegar ao anarquismo por duas vias, pela via da crítica ao Estado e pela via da crítica ao Mercado. Esta é uma frase verdadeira em sua essência, sendo a ideia, ou projeção, da anarquia, aquela de uma sociedade para além do Estado e do Mercado, da superação tanto do Estado quanto do Mercado, é muito razoável que a crítica radical de um ou de outro sejam vias possíveis para se chegar ao anarquismo. Mas, só se pode chegar de fato, ao anarquismo, se se supera esta parcialidade crítica. A crítica ao Estado tem que levar também à crítica do Mercado, assim como a crítica ao Mercado tem que levar também à crítica do Estado. Senão, não é anarquismo, não é a doutrina da anarquia. Uma coisa, no entanto, é o caminho da teoria e outra é o caminho da realidade. A ideologia liberal capitalista radical, libertariana ou anarco-capitalista, não é, não pode ser, a ideologia anarquista radical ou verdadeira, já que ela, em sua lógica mesma, desemboca na máxima concentração de poder possível nas mãos dos detentores da riqueza, do poder econômico ou até, especificamente, financeiro. Nem pode ser o caminho objetivo, histórico, para uma sociedade de pessoas livres. Eu cheguei à compreensão de que, objetivamente, só se pode chegar à anarquia pela via socialista. Conceitualmente, por óbvio, porque vivemos em uma sociedade capitalista, o mundo vive, ainda, em um sistema capitalista mundial e a anarquia certamente será a superação desta porra toda. Nunca, jamais, a Anarquia foi projetada como a manutenção do atual sistema econômico e político, como ele se apresenta na modernidade, ou, na contemporaneidade, mas sim como a sua superação e, até mesmo, como a sua negação ou destruição. Do ponto de vista teórico é possível fantasiar o aprofundamento do liberalismo, o capitalismo liberal puro, a liberdade plena de mercado, ou qualquer nome que se queira dar a isto, é possível fantasiar, mas a sua implantação não significaria nenhum avanço na superação do status quo social da humanidade hoje. Ao contrário, significaria o retrocesso a um modelo como aquele do capitalismo, por exemplo, do século XIX e início do século XX, que nos levou às imensas crises econômicas e sociais e às monstruosas guerras da primeira metade do século XX. O aprofundamento, a radicalização do liberalismo leva, necessariamente, a crises econômicas e sociais violentas e destrutivas, guerras internacionais extremas e autoritarismo político extremo. Como estamos vivendo no presente. Por isto, também, o socialismo é o único caminho real para o anarquismo. A ideologia liberal capitalista radical, libertariana ou anarco-capitalista, não é, não pode ser, a ideologia anarquista radical ou verdadeira, já que ela desemboca na máxima concentração de poder possível nas mãos dos poderosos detentores da riqueza, do poder econômico ou até, especificamente, financeiro. Nem pode ser o caminho objetivo, histórico, para uma sociedade de pessoas livres. Os palhaços macabros que estão no governo dos EUA, da Argentina, assim como aquele que presidiu o Brasil e outros da mesma extirpe, mostram isto com clareza. Atrás do discurso libertário vem o uso inconstitucional das forças de repressão, da opressão violenta, da repressão ilegal, do fascismo. Nós anarquistas queremos realmente o povo pelo povo, queremos o ordenamento social, queremos os poderes na mão do povo, queremos o poder público radical, o povo no poder, sem qualquer sombra de dúvidas. Mas, é óbvio, isto só pode advir da superação do capitalismo. Sem isto, a diminuição do poder político termina se tornando, necessariamente, aumento do poder do capital, do poder dos ricos, dos muito ricos, especialmente, e não aumento do poder popular, ao contrário. Há um bom tempo eu já vinha postulando que a grande questão ideológica do nosso tempo, no seu sentido mais profundo, enquanto projeção teleológica, é a questão da anarquia e, portanto, a contraposição entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo. Algo que parecia completamente dissociado da realidade, até bem pouco tempo. Mas agora já temos um primeiro governante na história moderna a se proclamar anarquista e, de repente, isto mostra que realmente há uma questão significativa aí e agora a gente já pode e deve falar sobre anarquismo e anarquia, sem parecer apenas uma loucura excêntrica, sem qualquer contato com a realidade. Eu entendo que o anarco-liberalismo é verdadeiramente o liberalismo consequente, coerente com sua doutrina e, portanto, brutal. Não é de se estranhar que algo assim venha a surgir nas condições atuais de crise final da onda neoliberal no sistema capitalista mundial, em que estamos desde fins da década passada. A resposta liberal, neste momento, é aquela de redobrar a aposta e impor um maior poder do mercado e uma maior concentração de riquezas, por um lado, e, por outro, impor mais perdas de direitos, serviços e renda aos trabalhadores. Esta é a solução natural ou espontânea das crises no modelo liberal e o anarco-liberalismo é, apenas, a proposição radical deste modelo, com maior integralidade, mais pureza, ou, menos concessões. Nas condições sociais contemporâneas normais não há como implantar e manter algo assim, sem uma contrapartida de grande aumento da violência institucional e politica por parte do Estado contra a sociedade. O liberalismo extremo e, portanto, o anarco-liberalismo, terminam no fascismo. Não é possível negar a semelhança, a proximidade e as identidades ideológicas entre os movimentos fascistas do século passado e a extrema direita no mundo hoje, na Argentina, nos EUA e no Brasil, por exemplo. E isto não é um acaso, é a expressão da solução liberal extrema para a grande crise econômica e social em que estamos metidos, para onde nos trouxe exatamente a onda (neo)liberal, iniciada na década de 80 do século passado. Como foi o próprio liberalismo, pela grande concentração de riqueza e poder que promoveu, que nos trouxe a esta crise, não será pela via liberal que a superaremos, senão com custos sociais extremos, destruição em massa, na forma de crises econômicas, grandes guerras e crises ecológicas extremas. 3. Democracia x Autoritarismo Se o embate ideológico (de futuro) é aquele da anarquia, no entanto, o grande embate ideológica do presente, no mundo ocidental, continua sende a questão da democracia. Nada parece ser mais consensual e inquestionável no mundo ocidental, seja nos países ricos ou em seus vassalos, do que a ideologia da democracia. Ainda que isto esteja um tanto abalado hoje em dia, pelo avançar da crise, como estou descrevendo. Os democratas, os sociais-democratas, dos países dominantes no sistema, do chamado Norte ou Oeste Global, hoje, ainda se agarram à retórica da democracia contra o autoritarismo, do estado democrático de direito, contra as ditaduras e os governos considerados de exceção ou ilegítimos. Esta parece ser a sua justificativa última para tudo e qualquer coisa, na defesa da sua hegemonia e dos privilégios dela, na economia mundial e na geopolitica. Até mesmo os radicais da direita, que estão sempre no limiar de ultrapassar essa retórica, ainda se servem dela, também. Defendem o aprofundamento do receituário liberal, que, nos moldes atuais só pode ser imposto por estados de exceção, apoiados em medidas extra-constitucionais, ditaduras e fascismo. Mas, ainda assim, se servem do discurso de defesa da democracia e da liberdade, contra a ditadura e o autoritarismo. As questões ideológicas entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo e nem mesmo aquelas entre o capitalismo liberal e o socialismo não se apresentam claramente no presente. O pensamento dominante, as forças hegemônicas ainda colocam as coisas com a forma um tanto ilusória, um tanto farsante, um tanto real ou honesta, da defesa da democracia e da liberdade em contraposição à autocracia e ao autoritarismo. Esta é a forma como 100% dos ideólogos e dos agentes do poder hegemônico, da aliança do Oeste ou Norte Global, justificam as suas escolhas e posições no cenário mundial atual. Eles estão agindo em defesa da democracia e da liberdade contra o autoritarismo e a autocracia, apoiando a Ucrânia contra a Rússia, apoiando Israel contra a Palestina e até quando estão criando barreiras e impondo medidas de guerra comercial ou abolindo redes sociais fora do seu controle, como o Tik Tok. Mas, eu não quero discutir a hipocrisias e as contradições neste discurso. Eu quero tomá-lo pelo seu melhor valor, como todo discurso ideológico merece ser considerado. Como ideologia, propriamente. A ideologia democrática liberal. As liberdades democráticas, os direitos civis formalmente estabelecidos e o poder do Estado controlado. Não é mesmo isto? As eleições parlamentares e executivas regulares e confiáveis. A segurança da imposição das leis e a divisão de poderes entre judiciário, parlamento e governo executivo. Tudo isto estaria em jogo e tudo isto seria perdido se os líderes do Oeste Global, os senhores imperialistas no sistema capitalista mundial atual, não reagissem e não impusessem derrotas contra a ascensão do eixo autoritário. A gente se acostumou a aceitar a democracia como valor absoluto. Mas, certamente, não existe valor absoluto. Este é um dos grandes aprendizados filosóficos que todos precisamos atingir. Realmente não existem valores absolutos. Ate mesmo a vida, com toda a força de sua plenitude, sendo algo absolutamente único, pessoal e insubstituível, não é, na verdade, um valor absoluto. Nada melhor que a situação de guerra para exemplificar isto. Quantos não estão indo agora, espontaneamente, por vontade, por desejo próprio, colocar a sua vida em risco extremo, ou até entregar a sua vida à certeza da morte, em nome do seu país, porque o seu Estado está em guerra com outro Estado, outro país. Entregam a sua vida e tiram a vida de outros sem qualquer motivo pessoal real, mas pela simples ideia de um país em guerra contra outro. Falo aqui especificamente daqueles que vão espontaneamente para a guerra, não dos que são forçados a isto. Não importa, na verdade, que hoje o recrutamento seja muito mais difícil na Ucrânia, por exemplo, segundo as notícias. O fato é que já morreram várias dezenas de milhares de pessoas, de jovens, sobretudo, e eles continuam a ser incentivados pelos seus países e pelo mundo todo, de certo modo, a continuarem a matar e morrer nos campos de guerra. Não é nem mesmo possível saber um número próximo da realidade dos mortos nos campos de batalha na Ucrânia, tamanha é a guerra de desinformação. Certamente são várias dezenas, talvez algumas centenas de milhares de jovens que já morreram e continuarão a morrer em nome de valores mais altos que a própria vida. Tudo isto prova, sem qualquer sombra de dúvidas, que nem a vida é um valor absoluto para nós, para os humanos, em geral. Mas, a doutrina anarquista sempre foi e sempre será a favor da vida e da dignidade, humanas, e é por isto que estabeleceu, em alguma parte, que, em uma guerra entre Estados, em uma guerra de ocupação ou imperialista, o verdadeiro herói é o desertor. Neste sentido anarquista podemos entender bem como um dos maiores, ou o maior herói norte-americano na guerra do Vietnã, foi o grande campeão de Boxe, Muhammad Ali, que se recusou a lutar contra quem realmente não era seu inimigo, não era inimigo do seu povo. Se a própria vida não é e não pode ser um valor absoluto, muito menos valores ideológicos ou políticos, como a liberdade ou a democracia devem ser tomados como absolutos. Nunca foram, nunca serão, isto simplesmente não existe. Não existem valores absolutos e toda vez que você aceitar uma doutrina qualquer de valores absolutos, você aceitará uma submissão a uma imposição ideológica contra você mesmo. Tudo realmente é relativo e vamos conversar sobre isto. A liberdade, ó minha alma, a liberdade. Quem pode amar mais a liberdade do que um anarquista? Mas só um tolo pode acreditar na liberdade burguesa ou capitalista como a melhor ou a única possível, como um valor ou modelo absoluto de liberdade. Afinal, de qual liberdade você está falando, caralho? Agora, a gente precisa dar ainda um passo adiante e aceitar que além de nada ser absoluto, tudo é contraditório. Coisas tão simples de se perceber, mas tão difíceis de se aceitar. Eu cheguei, depois de muito lidar com a análise da realidade e com alguma ajuda do DMT, ao recurso ao pensamento paradoxal, sem constrangimentos e resolutivamente. Não posso deixar de aceitar isto e estabelecer isto como um valor cognitivo ou eurístico e até mesmo como base para a certeza, ainda que seja tudo tão incerto. No caso da liberdade, o que eu sempre digo é que nós os anarquistas somos mais libertários que os liberais, temos que ser, pela natureza do nosso negócio. Somos anarquistas, “porra”, não somos liberais capitalistas. Não nos misturem com isto, com este pensamento unilateral e historicamente derrotado. Eles querem a liberdade da guerra. Eles, hoje, aliás, querem e precisam da guerra, os capitalistas, os liberais. A resposta econômica liberal à crise leva à necessidade da guerra e a economia militar parece ser até uma forma de saída da crise, porque é uma demanda impositiva, forçada,. Mas o seu sentido é apenas destrutivo e ela terá como consequência, no mínimo, o atraso no desenvolvimento e acesso a mais e melhores recursos produtivos para o atendimento das necessidades e desenvolvimento das potencialidades das pessoas. Que é o que faz o verdadeiro crescimento. A guerra é inútil e destrutiva. Mas, o sistema capitalista mundial agora busca a guerra, como uma solução, assim como busca o anarco-capitalismo, como uma resposta. É certo, portanto, que eles falarão em nome da liberdade para apenas desembocarem em mais e mais autoritarismo e violência. O verdadeiro paradoxo anarquista, da questão da liberdade, não é este, no entanto, e sim o fato de que a maior liberdade se dá no maior controle e o fato inverso que de que no menor controle, ou, no maior descontrole a gente encontra a menor liberdade. 4. Elogio crítico da via social-democrática É claro, e não deve haver qualquer dúvida, que o avanço social-democrático e o avanço socialista de todo o sistema econômico capitalista mundial deve e só pode, realmente, ocorrer, com o avanço também do globalismo e da governança global. Isto é correspondente ao processo progressivo de integração mundial das economias nacionais e necessário para sua continuidade e avanço. E esta força é, ao fim, insuperável. Mesmo com todos os esforços geopolíticos de guerra comercial e com as guerras físicas, ao fim isto se imporá, como tem ocorrido, no sistema capitalista mundial contemporâneo, apesar dos períodos de grave crise e regressão momentânea. A integração econômica mundial prossegue e continuará assim, mesmo que momentaneamente seja contraposta por forças contrárias imperativas, como são as recessões mundiais e as grandes guerras, por exemplo. A força integrativa prosseguirá e a globalização mundial não será detida e nem é mesmo possível desfazer o nível atual de integração, a não ser a custos muito altos, como temos visto a própria Europa pagar agora, por conta da guerra contra a Rússia. Temos a possibilidade de sairmos da situação atual de crise pela via da maior socialização e maior desenvolvimento da governança global ou pela via do aprofundamento da crise e da ampliação e generalização das guerras. É claro que não podemos ficar presos aos limites democráticos do Estado capitalista. Isto não interessa a ninguém, a não ser aos que realmente se beneficiam dele. Mas não podemos confundir aqui a teoria com a prática. Havia um instinto, digamos assim, anarquista em mim, desde sempre. Mas, foi numa forma de ortodoxia marxista onde eu encontrei fundamentos e um caminho intelectual para dar desenvolver este meu instinto anarquista. Como se pode ver, o paradoxo sempre foi um grande companheiro da minha vida, da minha consciência. A ontonegatividade da política, era assim que chamávamos esse caráter, essa condição, inerentemente negativa, perversa, ou alienada, estranhada, como queiram dizer, da política. A política, enquanto tal, como nós a conhecemos e como ela é, na realidade, é sempre uma usurpação da vida social livre e ativa, dos indivíduos livres e ativamente associados na vida produtiva e social em geral. É sempre uma forma de poder sobre os indivíduos, alheia a eles, imposta e ilegítima. Curiosamente, temos que concluir, temos que aceitar, e novamente fazemos elogio ao raciocínio paradoxal, que a democracia, como forma mais desenvolvida, como a melhor forma, de política (ou a pior, exceto todas as demais, como dizia um poderoso imperialista), a mais perfeita, para quem aceita este termo, forma de política, deve ser, também, logicamente, a mais perversa, a mais negativa, a mais destrutiva até, se você quiser. O violento antagonismo político que marca os embates democráticos pode bem servir de exemplo disto, especialmente em momentos de crise. É curioso ver como as democracias mais tradicionais, em geral, fracassaram fortemente no manejo da situação de pandemia. Foi tudo errado e mal feito, em grande parte das melhores e maiores democracias do mundo ocidental. Com certeza, o estúpido embate político democrático foi uma das causas mais importantes deste fracasso, aqui no Brasil e no mundo ocidental em geral. Parece que isto é um fato que muito dificilmente pode ser contestado. Com certeza, o embate político, ideológico e irracional, criou imensas dificuldades para respostas nacionais integradas, coerentes, efetivas e bem executadas, nestas grandes democracias. Outro bom exemplo desta irracionalidade pode ser dado pela trajetória de PT e PSD na política brasileira. Os dois partidos eram muito mais próximos um do outro, ideologicamente, do que eles gostariam de se reconhecer. Ao menos nas suas origens, em suas pretensões ideológicas, eles eram, ambos, sociais-democratas. Mas precisavam se contrapor, politicamente. Este foi, na minha análise, um dos vícios maiores da nossa arquitetura política naquela época. Estes dois partidos emergentes que, por suas posições ideológicas, eram irmãos ou, pelo menos, colaboradores, ainda que críticos um ao outro, se tornaram inimigos, antagonistas principais no cenário político nacional. Para mim isso é mais uma evidência do caráter intrinsecamente negativo, perverso, da política. Algo que estava no DNA do grupo filosófico do qual eu estava mais próximo àquela época. A irracionalidade original de se submeter os destinos do ordenamento social, através do peso do Estado, ao crivo eleitoral, em que se entrega os desígnios sociais ao estamento político de modo indeterminado, indefinido e, até, ilimitado, pelo período de vigência do mandato político conquistado nas eleições, isso, que parece ser uma grande, insuperável virtude da democracia, submete a sociedade à visão, às vontades, aos delírios e às perversões dos políticos de momento, com as eleições como o único momento de controle e manifestação da vontade popular. Não é difícil ver que isto se torna uma batalha constante, pelo poder, pelas benesses e pelas vantagens que advém de uma posição política, mesmo que transitória. Os que estão no poder farão de tudo para permanecer e os que estão fora farão de tudo para derrubar os outros e subir. Dentro e fora das regras legais do jogo. Aqui no Brasil, por exemplo, a perseguição e a morte fazem parte de um submundo da politica. Em grande parte do mundo é assim. Mas, vamos admitir a idealidade burguesa da democracia dentro das regras do jogo. Isto termina sendo um modo de dominação e de manipulação sobre as massas populares que parecem incapazes, impotentes, para tomar o poder em suas próprias mãos. Então os representantes políticos fazem este papel em nosso nome, com nossa autorização, dada nas eleições. Não importa com quanta mentira, com quanta manipulação da mídia e do poder judiciário, nem com quanta imposição do poder econômico. Dentro das regras do jogo democrático tudo isto é aceito, de algum modo. Faz parte da estrutura social e do jogo politico. A mentira, as fake news, são constitutivas da democracia, em sua melhor forma, não apenas das degenerações da democracia. Mentir, manipular as informações, iludir e dar falsas perspectivas para o público faz parte do jogo politico democrático. A ideia singela do ideal democrático é que a liberdade de expressão política e a disputa eleitoral honesta seriam suficientes para garantir que as más condutas fossem punidas e o caminho do melhor bem comum terminasse se impondo, ao passo que todos os outros sistemas não teriam esta virtude. Não posso, talvez, falar em relação aos países dominantes no sistema capitalista mundial contemporâneo. Mas, posso falar do prisma do resto do mundo, de certo modo. E, aqui, nada disto se sustenta, de fato. Nem a plenitude da liberdade de expressão, por exemplo, é realmente garantida, em lugar algum, e não é errado ter limites para isto, temos é que discuti-los para deliberar conscientemente sobre eles. Nem a continuidade das eleições parece realmente suficiente para garantir a punição das más condutas políticas e para encontrar o caminho do melhor bem comum. Ao contrário, muitas vezes parece que, no terceiro mundo, como se chamava antigamente, somos sempre condenados aos piores fracassos nestas áreas. Mas, eu quero dialogar também com o melhor da ideologia democrática e, portanto, com as visões dos países dominantes também. Vale perguntar, logo de saída: o melhor da democracia, se eu pudesse lhes retirar também a condição de países imperialistas, resultaria nas condições sociais superiores que se viu nestes centros, das décadas do pós segunda guerra mundial para cá, de um modo ou de outro? Persistiriam os ganhos sociais ou, ao contrário de estarem mais ligados à superioridade da sua democracia e da sua superestrutura institucional em geral, estariam mais ligados mesmo é às vantagens econômicas da posição imperialista no mundo? Mas, enfim, seja como for, de um modo ou de outro, para os povos locais dos países imperialistas, de fato, alguma forma de social-democracia se impôs, se estabeleceu, dando o tom da vida social desde os anos seguintes à segunda guerra mundial e persistindo, em grande medida, mesmo depois de décadas da onda neoliberal. Ainda hoje, é a institucionalidade social-democrática que dá estrutura à vida social, política e econômica, inclusive, na grande maioria destes países. Seria ingênuo tentar contestar isto e imaginar que, com a onda neoliberal, as grandes potências dominantes no sistema capitalista mundial tenham aberto mão da superestrutura social democrática, completamente. Vamos repetir mais uma vez, os sistemas de proteção social e de regulação da economia que se desenvolveram no século passado não foram completamente abandonados ou eliminados, mesmo após as quase 5 décadas da onda neoliberal. Mesmo assim, a superestrutura social democrática ainda é predominante nestes países, incluindo os EUA. Tudo isto se mostra com evidência nas situações de crise social de grandes proporções, como as que vivemos, no sistema mundial e, sobretudo, no oeste ou norte global e associados, nos últimos 15-20 anos. Estamos no fim desta onda neoliberal e por isto vemos as formas mais extremas de imposição do liberalismo, ou do interesse comum do capital, do poder financeiro, enfim, ressurgirem e buscarem levar aos limites máximos a destruição desta superestrutura social democrática. Como a condição dos países imperialistas mundiais atuais é de inexorável decadência relativa e de perda substancial de poder no mundo, com certeza isto coloca riscos ainda maiores de eles debandarem para estas experiências sociais liberais conservadoras mais extremas, de caráter fascista e belicista, por exemplo. Mas, isto não é necessário e a vitória, uma nova vitória da social-democracia, nestes territórios, pode ser suficiente para evitar este risco. Mesmo com ganhos e perdas eleitorais, o fascismo não conseguirá se impor no centro do mundo, desde que a social-democracia se reestabeleça nestes locais. O reestabelecimento das diretrizes sociais-democratas lá, agora, é muito útil para que a paz mundial e a continuidade de desenvolvimento social sejam melhor garantidos. A retomada da produção e do trabalho social organizado, em nível mundial, são condições inelutáveis para a vida social atual, para o nível de industrialização e de desenvolvimento tecnológico, atuais, por exemplo. Só uma nova valorização do trabalho social e da dignidade social dos trabalhadores, real, material e subjetiva, em termos de condições e qualidade de vida pode ser uma base firme e, ao mesmo tempo, um produto de uma economia social sustentável e em desenvolvimento. Nestes grandes centros hegemônicos do mundo, as conquistas sociais-democratas podem e devem ser retomadas e renovadas, revistas e recriadas, nas condições tecnológicas e no momento atual da globalização produtiva e social. Isso será positivo para o mundo em geral. Eles se assegurarão, assim, uma saída sustentável da crise econômica em que estão metidos desde 2008 e isto permitirá uma menor adesão ao belicismo, ao nacionalismo e ao fascismo nestes países. Mas, nada evitará a sua decadência relativa no cenário econômico e geopolítico mundial, com todas as perdas, inclusive econômicas que se tem com isto. Eles terão que saber lidar com isto, eles terão que aprender a tirar as garras de cima de outras nações, que ainda mantêm em seus esquemas de exploração. Só há um modo de fazer isto sem que seja a imposição de novo império e uma simples renovação dos esquemas mundiais de exploração e opressão: a via socialista, que é, deste modo, também, a via de continuidade, de ampliação, de aprofundamento e desenvolvimento da social-democracia.

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 3. As Guerras no Processo Histórico Contemporâneo

1. A Guerra na Crise Econômica Sistêmica Capitalista: Efeito e Causa, Causa e Efeito Em uma crise econômica sistêmica capitalista, a guerra tem racionalidades econômicas absolutamente perversas. Mas, inquestionáveis, na lógica liberal, ou, capitalista em geral. É uma forma segura de um governo queimar capital e dar uso a uma mão de obra excedente no âmbito da crise, é um investimento num setor produtivo com demanda segura, criada por ele mesmo. Dentro desta lógica, a guerra é uma forma racional para se resolverem, ou ajudar a se resolverem, as crises econômicas capitalistas liberais. É o que chamam de” keynesianismo de guerra”. Mas, sobretudo, é uma forma de destruir recursos produtivos físicos e humanos, de destruir capital e quebrar cadeias de produção e circulação de mercadorias, fazendo e justificando o trabalho mais sujo, mas destrutivo, da crise econômica. E, quase sempre angariando grande apoio popular, pois o povo raramente se opõe ao “Príncipe” quando ele decreta guerra num momento de crise econômica capitalista. É uma sabedoria popular estúpida, mas verdadeira, dentro da crise. Funciona bem para isto. E é, portanto, quase que uma condição de natureza que, no aprofundar-se da atual crise da economia neoliberal mundial e, sobretudo, ocidental, a guerra seja cada vez mais defendida e, efetivamente, ampliada. No momento, a limpeza étnica sionista na Palestina prossegue, com o apoio das grandes potências ocidentais e sem maiores oposições reais, sem que o mundo consiga fazer qualquer coisa efetiva para deter ou impedir, por mais que muitos, em nome da razão e da dignidade humana, se manifestem e protestem contra. Ninguém consegue deter também a guerra proxi da Otan versus a Rússia, na Ucrânia, que parece longe do fim e com alto risco de se ampliar. E uma guerra, proxi ou direta, dos EUA contra o Irã parece estar apenas no começo. Nestes e em outros conflitos armados internacionais, milhares, talvez, dezenas de milhares, de pessoas morrem todos os dias. Jovens, em especial, são, assim, assassinados e trilhões e trilhões em recursos produtivos são simplesmente destruídos, cotidianamente, nos campos de guerra. E o risco que isto se amplie para níveis ainda mais catastróficos é, realmente, cada vez maior. 2. A Importância da Guerra da Ucrânia e da Vantagem Estratégica da Rússia Na perspectiva estratégica, geopolítica, ou, do poder na arena mundial, imediatamente, é incontestável que o conflito mais importante, de longe, é o da Ucrânia. Muito mais que a guerra da Palestina. A guerra da Ucrânia é a mais importante do momento, a mais emblemática da polarização do mundo atual. E hoje é a Rússia que tem uma vantagem militar no front ucraniano. Isto, também não me parece passível de contestação. Mas se arma no presente uma outra guerra, já bem possível e, talvez, provável, no mar do Sul da China, em Taiwan. Esta, sim, se ocorrer, será a guerra decisiva da atual situação de polarização geopolítica mundial. Tomara que sejamos capazes de evitá-la. Acredito que a iminente derrota na Ucrânia terá algum efeito dissuasivo nas pretensões da aliança do Oeste Global ou coletivo, OTAN e associados, especialmente aqueles do sudeste e sul da Ásia e Oceania. Hoje já terão sido mais de 100 mil mortos e centenas de milhares de feridos entre ucranianos e russos imolados nos campos cerimoniais macabros da guerra, como os mortos em sacrifícios religiosos antigos. São mais de cem mortes por dia, em alguns dias mais de 1000, segundo os dados divulgados de lado a lado, ao mesmo tempo que milhas e milhas de infraestrutura residencial e produtiva são continuamente destruídas. Nos campos cerimoniais macabros da guerra. Na Palestina já terão sido mais de 30 mil mortos e 70 mil feridos e milhões desalojados, deslocados de suas casas. E mais destruição da infraestrutura, da economia, da vida social. A irracionalidade disto tudo não pode ser nunca ignorada ou diminuída. Isto é um absurdo e uma estupidez somente equivalente aos grandes sacrifícios humanos que são documentados ou atribuídos a certas religiões e Estados da antiguidade. Tudo justificado por alguma racionalidade, alguma crença, alguma certeza imposta pelos senhores da guerra, pelos senhores da morte. Eles têm sempre certeza que é preciso matar e destruir, em nome de algo superior. Uma necessidade divina, uma necessidade da pátria ou do Estado. Eles têm certeza que sem o sacrifício absurdo, bárbaro, alucinado, daquelas vidas, algo pior necessariamente resultaria. Eles são fracassados, eles são incompetentes. Eles são estúpidos até onde não pode mais. Mas, têm suas razões. A celebração macabra do então secretário de estado norteamericano, tocando guitarra num pub da Ucrânia foi um espetáculo assustadoramente cínico e impiedosamente icônico. Ele estava celebrando a guerra. Ele estava celebrando com seus chegados da Ucrânia, que eles vão receber mais dezenas bilhões de dólares em armamento norte-americano para continuarem morrendo em defesa da hegemonia da aliança USA-EU e da OTAN. Estão tragicamente sacrificando dezenas, centenas de milhares de jovens ucranianos, além de grande parte do território e da capacidade produtiva da Ucrânia, neste altar macabro, como mártires da hegemonia ocidental. Enquanto do outro lado também, dezenas, centenas de milhares de jovens estão sacrificando as suas vidas, no altar sacrificial da soberania russa. De fato, a própria existência da Otan é contrária à carta das Nações Unidas, que pressupunha uma força mundial de imposição da não agressão entre os povos. A ONU está morta. Viva a ONU! Ou qualquer outra forma de organização pública mundial, com o mandato da paz e com força para interferir realmente nas situações de guerra no mundo. 3. A Continuidade da Guerra e o Necessário Avanço do Socialismo Uma coisa que agora todos nós temos certeza, nesta guerra, é que ela vai continuar. Existem forças mundiais capazes de fazer a guerra terminar, mas parece que elas não estão interessadas nisto. As punições impostas à economia russa não funcionaram porque ela teve para onde escoar toda a sua produção e continuar alimentando a sua economia com os produtos que ela precisa para prosseguir com o seu esforço de guerra. E está sendo bem sucedida nisto. É claro que isto comprova a incontestável fragilidade objetiva, material, econômica, militar e política da aliança do Ocidente Global, para impor a sua vontade no cenário mundial. Isto simplesmente não é mais possível. As grandes potências que se aproveitaram do baixo preço do combustível e outros produtos russos e aumentaram exponencialmente suas exportações para a Rússia, podiam impor ao Estado russo, a paz como condição. Do mesmo modo as potências ocidentais poderiam impor à Ucrânia a paz. Facilmente. Mas não parecem estar interessados nisto. Ao contrário, o Ocidente, eu creio, está realmente mais propenso à guerra, de um modo quase inelutável, dada a convergência da grande crise econômica do fim da onda (neo)liberal, que ainda estamos vivendo, e a perda da hegemonia econômica dos EUA e do Ocidente Global no mundo. A guerra aparece como uma resposta, como uma solução aceitável ou até desejável para estes dois grandes problemas que confluem dramaticamente sobre as potências ocidentais. Até agora não estavam conseguindo lidar de fato com a crise econômica e não há como evitar o seu declínio relativo em face da ascensão da China socialista e de potências associadas. Não conseguiram lidar com a crise porque os instrumentos anticíclicos aplicados não atingiram o lado da distribuição de renda, da (re)conquista de direitos e serviços públicos para as massas. O receituário para o combate às grandes crises econômicas do capitalismo está razoavelmente bem estabelecido e ele não pode prescindir do avanço social, socialista ou social-democrático, em geral, como ocorreu no século passado, a partir dos anos 30 e, sobretudo, a partir de 1945. Vamos, certamente, passar por uma onda de avanço social-democrático e socialista, no mundo em geral. No século passado, até acharmos este caminho, a crise nos custou 2 grandes guerras mundiais e uma pandemia totalmente destruidora, com mais de 150 milhões de mortes. Neste século, no fim da onda liberal atual, talvez a gente não precise passar por caminhos tão destrutivos. Até agora ainda não tivemos guerras totais com a destrutividade do século passado e a até a pandemia atual foi muito menos letal. Mas, a crise ainda está aí e as guerras nos espreitam cada vez mais. O poder dos Estados dos países democráticos e liberais é cada vez mais bélico. Estão gastando cada vez mais com armas e defendem a guerra, defendem as guerras, como a da Ucrânia e a da Palestina, sem constrangimentos. Como defenderam todas as anteriores em que os EUA se envolveu. Defendem as guerras como necessárias, quando elas atendem aos seus interesses. Do mesmo modo que defendem e promovem as revoluções, os golpes de Estado e as ditaduras, quando atendem aos seus interesses. Não é de se estranhar que, na condição de crise e desafios extremos para o capitalismo ocidental, ele reagisse com toda a sua virulência, ao limite, para além de qualquer racionalidade e dignidade humanas. Não é de se estranhar que o fascismo renasça no centro do capitalismo mundial (EUA – EU) e tenha vitórias políticas nestes centros hegemônicos da civilização, no sistema capitalista mundial contemporâneo. Eles estão em decadência e ameaçados de todos os modos. A resposta pela violência política explicita, pela xenofobia, pelo nacionalismo, pelo isolacionismo e pelas guerras é quase natural, neste caminho estúpido. Assistimos atônitos e amedrontados, assustados, esta escalada macabra. E impotentes. Não podemos, ninguém pode, parece, impedir estas tragédias anunciadas, como as outras que se anunciam pela via das crises ecológicas e pela própria evolução tecnológica. Não dentro do sistema capitalista mundial, na ordem liberal que vige nas últimas décadas. É necessária, é impositiva, uma nova guinada, uma nova onda, à esquerda, uma nova onda de socialização. É necessária ao próprio sistema econômico, produtivo, capitalista mundial. Não há outras alternativas senão o avanço da socialização. Apenas catástrofes econômicas, bélicas, ecológicas e tecnológicas se apresentam como futuro próximo, caso a ideologia liberal conservadora ainda se imponha, ainda mantenha o predomínio nos cenários econômicos e políticos mundiais. 5. O Caminho Civilizatório: A Derrota do Fascismo e do Imperialismo na AL e no Mundo Não é de se estranhar que a gente veja a ascensão de forças verdadeiramente fascistas ao poder de países hegemônicos, na atualidade. Também não é de se estranhar que aqui, nas Américas, o poderio imperialista dos EUA queira se fortalecer e se fazer impor, de todo modo. Na ausência dos meios para exercer a hegemonia econômica restam as imposições de poder cultural, político e militar. Mas, por mais potentes que sejam as influências políticas e culturais (pensemos só no controle que os EUA de fato ainda têm sobre as mídias tradicionais e sobre as mídias sociais no Brasil, por exemplo), diante da ausência de hegemonia econômica real, elas tendem a declinar a se enfraquecer e não têm mais como sustentar uma posição efetiva de poder do império, em relação aos seus vassalos. Isto está acontecendo agora, aqui no Brasil e em todo o mundo, em toda a América em particular. A presença militar dos EUA e os temas de segurança ampliam a sua presença na realidade política dos nossos países. Novas desestabilizações da segurança pública e da política aqui nas Américas, portanto, devem estar mesmo no nosso radar. É o que está acontecendo e é previsível. Caso os EUA e a Europa marchem decididamente em direção mais e mais social-democrata, ou seja, no seu sentido mais profundo, mais socialista, certamente o risco de guerras generalizadas diminuirá muito, pois, o seu vetor econômico se desfará ou terá a sua força muito reduzida, a crise econômica será realmente superada, finalmente, e não apenas protraída, como ainda está agora. E sem o vetor econômico para a guerra, até o vetor geopolítico perde sentido de ser. Com as economias das potências ocidentais voltando a crescer e a qualidade de vida voltando a melhorar para as suas populações, ninguém vai querer guerras. A disputa contra o fascismo continua válida, portanto, em cada metro do território mundial. Em todo lado a vitória do liberal-fascismo é um risco maior para todos nós, pelo aprofundamento da crise econômica e pelo risco, pela ameaça ou realidade, das guerras, de mais e maiores guerras. Analisando as coisas como estão agora e como têm decorrido, na comparação histórica, entre o século atual e o passado, por exemplo, aparece bem consistente um progresso socializante e civilizatório no período, associado aos avanços sociais-democráticos do século passado e à globalização neoliberal das últimas 04 décadas. Houve grandes avanços produtivos, tecnológicos, em todo este período dos últimos 80 anos, de 1945 até o presente. Um período, por pior que seja, de muito mais paz e de expansão da prosperidade em escala mundial, em comparação aos 80 anos anteriores, por exemplo. Com certeza. Tudo isto, contudo, ainda com um contingente de violência, miséria, exploração e exclusão que só se faz mais e mais absurdo, diante dos avanços tecnológicos e gerais, do período contemporânneo. Foi um período de mais paz e prosperidade, com certeza, mas também, ainda, um período de tanta violência desnecessária, tanta opressão e abuso, que não dá para aceitar, de modo algum. Isto tem que acabar, tem que seguir diminuindo, certamente. O caminho civilizatório deve prosseguir. E prosseguirá.

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 2. A Nova Governança Mundial

1. A Capelita Militar Universal Meu pai, em seu leito de morte, delirou por um bom tempo, por uma hora ou mais, não me lembro direito, enquanto eu e uma irmã, ouvíamos. Algo que hoje, mais de 10 anos depois, veio a fazer sentido para mim. Um sentido que me parece tão claro e verdadeiro, que me faz ficar estupefato. O delírio do meu pai dava conta, ele assim narrava, de uma grande guerra, uma verdadeira guerra das guerras, a final, definitiva, entre o exército de macacos e o exército de borboletas. Vencida, enfim, pelo exército das borboletas. Meus olhos se enchem de lágrimas, ao lembrar disto. A partir daí se fez uma Capelita Universal para estabelecer e garantir, enfim, a paz. Uma cúpula mundial, ou até mais ampla, pois eu não sei ao certo de qual ou quais dimensões meu pai falava, delirando no seu leito de morte. Preciso dizer alguma coisa sobre a vida do meu pai, para uma melhor percepção do significado disto. Meu pai teve formação militar e serviu durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, felizmente, para nós, não participou de combates, porque ficou guardando a costa brasileira. Seja pelos horrores da guerra, dos quais ele não deixou de participar, seja pelo seu espírito próprio, meu pai era um pacifista radical. A ideia sonhada pelo meu pai me lembra o mandato da ONU, da cúpula mundial, estabelecida no pós segunda guerra mundial. Mas, no presente, a ONU está fracassando completamente no seu mandato e eu sinto que o meu pai não falava do passado em seu delírio, mas sim, certamente, do futuro. Além disto, ainda que a expressão capelita tenha até uma ressonância religiosa, ecumênica, talvez, meu pai se referia a uma cúpula mundial de exércitos, das forças militares. Ele falava de uma Capelita Militar, isto era muito claro no seu delírio. Uma Capelita Militar Universal. Isto, eu só compreendi hoje, porque seria fundamental. Uma cúpula militar mundial. E, justamente isto, a ONU não é. Uma cúpula militar mundial real poderá ser o caminho, talvez necessário, para de fato se barrar as guerras. E é isto justamente o que a ONU não é. A ONU não é uma aliança militar e nem é ou detém uma força militar real. Uma força militar mundial, com potência de pronta ação, o suficiente para confrontar todo e cada exército nacional e toda e cada aliança militar multinacional, poderá realmente garantir melhor a paz mundial, do que o que temos hoje. Apenas um poder igual ou maior será capaz de impor a paz entre inimigos nacionais e conter ações genocidas e colonialistas, de todo modo. Agora, no atual momento histórico, isto parece realmente claro e até óbvio. Ninguém respeita nem se submete à ONU, atualmente. Ela certamente não tem qualquer poder real de imposição ou dissuasão em suas mãos, nem é capaz de mobilizar forças suficientes em tempo hábil. Por isto continuamos tendo que nos haver com Xerifes Mundiais, que vão agir na arena internacional, antes das e contra as deliberações da ONU. Os EUA, a OTAN, de um lado e de outro a Rússia, por exemplo, têm cumprido este papel, de modo mais destacado. Mas, na terra de ninguém da arena internacional no sistema capitalista mundial, na atualidade, na terra incivilizada da arena geopolítica e militar mundial, atual, em que parece que o homem é realmente o lobo do homem, cada país é um potencial inimigo de qualquer outro e pode se impor pela força, toda potência militar média ou grande exerce, de algum modo, o papel de xerife do mundo. Assim como nas favelas, nas zonas de conflito social e miséria, em qualquer lugar do mundo, manda quem pode e obedece quem tem juízo. É o simples e imediato poder das armas. Quem tem armas, quem tem poder, exerce o seu direto naturalizado de se impor sobre os demais. E não há, nem pode haver, nesta estrutura global atual, qualquer força que realmente se contraponha ao poder dos estados mais bem armados. Hoje, vivemos um tanto naquela situação doentia de equilíbrio entre idiotas poderosos, sentados cada qual em seu barril de pólvora, prontos para detonar o mundo todo a qualquer momento, enquanto nós, os povos em geral, e, especificamente, os povos dos países desarmados, inferiorizados militarmente e submetidos economicamente e ideologicamente, assistimos a tudo impotentes, torcendo para que os malucos no poder não detonem a guerra total com a qual nos ameaçam. Dias atrás eu escrevi que a ONU estava morta e, portanto, que viva a ONU. Seja qual for o caminho, a não ser à custa de destruição extrema, avançaremos para uma integração mundial, produtiva e social, em geral, ainda maior. E isto certamente exigirá recursos de governança mundial cada vez maiores e, portanto, de um modo ou de outro, a ONU terá que ser refundada. Agora me parece claro, óbvio, foi o que eu enfim compreendi, que me veio pela memória do delírio do meu pai, terá que ser um redesenho militar do mundo, também. A ONU terá que ser recriada, também, com uma força suficiente para realmente impor e garantir o respeito às regras de convivência internacional e a paz no mundo. Esta Nova Governança Mundial (NGM) não pode ser uma cúpula exclusivamente política, com o mandato da paz mundial, para o qual ela já provou ser impotente, falhou miseravelmente, mas também uma cúpula militar, com o mesmo mandato da paz mundial e com real capacidade militar de pronta mobilização. O suficiente para conter as guerras internacionais, assim como os processos de genocídio e limpeza étnica, prontamente, em sua insurgência mesmo. Este deve ver, este é, eu acredito, o mandato da cúpula militar mundial que o meu pai sonhou em seu delírio, no leito de morte. Se você acredita que esta é uma fantasia, apenas, um delírio realmente, qual te parece, então, o caminho para melhor garantir a paz, a integração e o desenvolvimento, mundiais? Vale a pena considerar que não existem muitas alternativas possíveis. Talvez, apenas duas: ou temos o domínio violento dos poderosos de plantão, dos Xerifes de momento, ou temos uma Nova Governança Mundial com força efetiva para se contrapor inclusive aos poderosos. Ou então alguém pode pretender que os poderosos vão se conter por conta própria, mas, esta ilusão a história não nos permite ter. 2. A Necessidade Objetiva da NGM O que eu escrevi acima sobre a refundação da ONU, também como uma cúpula militar, não seria mais do que apenas um delírio mesmo, se as condições objetivas não conduzissem, não requisitassem, de fato, algo assim. Num texto anterior, eu escrevi que a ONU fracassou em seu mandato porque era extemporânea, não havia, ainda, as condições necessárias para a implantação de uma governança mundial como a ONU se propôs a ser, justamente ao se atribuir o mandato de garantidora da paz mundial. Estas condições não estavam desenvolvidas, no aspecto mais objetivo, porque a globalização, a integração produtiva e financeira da economia capitalista mundial ainda apenas engatinhava, perto do que, agora, ela já atingiu. Hoje, em função da crise, as forças ideológicas e políticas liberais conservadoras, que foram uma força motriz do sistema ONU e da globalização, se tornaram mais regressivas e reacionárias, propugnando, na economia, pelo decoupling e pela guerra comercial e financeira, assim como adotando o chauvinismo nacionalista e belicista, até mesmo nas feições abertamente fascistas e imperialistas, como ideologia. Mas, apesar disto, a trajetória de integração da economia mundial continuará adiante, a não ser, como adverti, em caso de destruição maciça da economia e até mesmo da civilização, através de grandes guerras e catástrofes ambientais globais. Não sendo assim, não regressaremos a um ponto realmente anterior ao atual estágio de globalização, de integração da economia e da sociedade mundial, ao contrário, isto se acelerará e intesificará. Existe, portanto, uma condição econômica nova, no cenário mundial, que já não se adequa mais aos tímidos instrumentos, de gestão ou de regulação, desenvolvidos no pós guerra do século passado, sob o guarda chuva geral da ONU, ou, de algum modo, a ela associados, como o sistema de Bretton Woods e a OMC. Hoje nada disto é eficiente para o simples bom funcionamento da economia mundial e tudo isto está claramente em cheque, no atual momento histórico. Uma Nova Governança Mundial é requerida e terá que ser constituída, por mais que os liberais conservadores, hoje, promovam toda forma de resistência ao globalismo, em todas as suas dimensões econômicas, políticas e pessoais. A trajetória de integração mundial da economia é, e continuará sendo, progressiva e a Governança Mundial, hoje tão desacreditada, tão sucateada, tão desqualificada, na figura da ONU, terá que ser reconstituída, refeita, redefinida e reestabelecida. Em novos patamares, muito mais efetivos do que foi possível até hoje. Inclusive com a cúpula militar com gestão permanente sobre forças militares suficientes para garantir a integração e a paz mundiais, em níveis bem superiores aos atuais. Se isto te parece um caminho irrealista, para a melhor garantia da paz mundial, hoje ainda mais efetivamente irrealista é a alternativa oposta de se buscar o desarmamento mundial. E não há outro caminho, ou um ou outro, ou o status quo atual de ausência de força e de poder de paz efetivos no mundo e de efetiva submissão da maior parte dos países e da população mundial ao poderio estratégico, militar, no fim das contas, dos países hegemônicos, imperialistas ou neocoloniais. 3. A Via Socialista Outro aspecto da objetividade que me permite antever o desenvolvimento da Nova Governança Mundial como uma probabilidade real, ou como uma tendência efetiva, é o fato que não estamos mais no mesmo ambiente histórico, social, ideológico e econômico, do início ou da metade do século passado, não apenas pelo desenvolvimento das forças produtivas e pela integração produtiva mundial, consequente e consentânea, mas também pelo desenvolvimento politico, administrativo e ideológico que vem ocorrendo no sistema capitalista mundial, desde então. Até mesmo nas últimas décadas, em confronto, em paralelo e de dentro das entranhas do neoliberalismo, da globalização neoliberal, que dominou o mundo nos últimos 40 anos, o socialismo se desenvolveu e encontrou o seu caminho próprio, mostrando-se, para além de qualquer dúvida razoável, como uma alternativa objetiva, factível, à barbárie liberal. Uma alternativa que se manifesta como mais pacífica, mais harmônica para a humanidade, em geral, e, o que é fundamental e absolutamente determinante, mais efetiva para a gestão da economia, para o desenvolvimento econômico. Este novo avanço do socialismo, mundialmente, é outro fator que já nos permite antever uma Nova Governança Mundial, ao fim desta longa crise do sistema capitalista mundial, a crise da onda neoliberal, sem isto ser apenas um delírio. A Nova Governança Mundial, que necessariamente terá que se desenvolver, pelas próprias condições de produção atuais, somente será possível, de fato, com o avanço do socialismo mundial, que também é muito mais apropriado para as novas formas de produção que se desenvolveram nas últimas décadas, na globalização neoliberal. Por um lado, o avanço da governança mundial é absolutamente necessário para a prevenção e contenção dos conflitos internacionais e para a melhora do ambiente político internacional, digamos assim, ou seja, em síntese, para a ampliação e maior garantia da paz no mundo, com isto melhorando o ambiente de negócios, de investimentos, o comércio internacional, a integração produtiva e social, assim como a gestão global do sistema. Por outro, isto só pode ocorrer, e ocorrerá, devido ao avanço do socialismo no mundo, nesta nova onda que está se inciando agora, quando estamos chegando ao fim da grande crise econômica do sistema mundial, a crise da onda neoliberal. A Nova Ordem Mundial, a Nova Governança Mundial terá que ser, e será, portanto, muito mais socialista do que a ONU, propriamente, jamais foi. E é por isto, também, e com toda a razão, em sua irracionalidade, que os liberais se tornaram cada vez mais reativos e regressivos com relação à governança mundial, às instituições e mecanismos de controle e gestão mundiais. Nas últimas décadas estes mecanismos e instituições foram sistematicamente mais desprezadas, ignoradas, esvaziadas e desqualificadas pelas potências liberais mundiais. Isto ocorreu porque a ideologia e as práticas propriamente liberais, ou conservadoras, na economia, atingiram seus limites e se esvaziaram pela sua impotência diante da crise. Algo que todos nós já conhecemos, pelo que aconteceu na grande crise anterior, na primeira metade do século passado. Do mesmo modo, agora, que a crise da onda neoliberal se aprofunda e as receitas anticíclicas se mostram insuficientes e perto do esgotamento, o aprofundamento da crise e, junto com ele, o imperialismo, o fascismo e as guerras despontam como a alternativa liberal, conservadora. Agora as regras internacionais, a boa governança e a boa gestão da economia e dos conflitos internacionais se colocam como inimigas, como barreiras para os interesses do poder nos centros dominantes do sistema capitalista mundial. É, somente, com o avanço do socialismo, a nível mundial, que esta Nova Governança Mundial poderá se implantar. 4. Condicionantes e requisitos da NGM Temos, portanto, três elementos que devem confluir neste novo patamar, nesta nova onda, no sistema capitalista mundial: a integração produtiva mundial avançada, uma nova socialização das relações sociais e o desenvolvimento da Nova Governança Mundial. Estas devem ser três forças, três dimensões, três vetores predominantes da trajetória da realidade social, histórica, nas décadas adiante. Estes temas serão recolocados, necessariamente, agora, daqui em diante, em um patamar mais elevado, muito mais elevado, do que aquele da metade do século passado, quando as grandes guerras terminaram e se tentou fazer o grande acordo de paz que levou à constituição das Nações Unidas, à criação de instituições de regulação e gestão financeiras mundiais (os dois bancos mundiais: o BM e o FMI) e ao desenvolvimento posterior de grandes agências reguladoras mundiais (como a OMS ou a OMC, por exemplo). Todo este sistema hoje parece defasado e virtualmente inútil ou até prejudicial. Mas, em contrapartida, não creio que alguém realmente sério no mundo, hoje, imagine a vida econômica e social sem instituições de governança mundial. O fato é que realmente precisamos de governança mundial. Precisamos é de mais e melhor governança mundial e não de menos ou nenhuma, este é o ponto. Assim como ninguém realmente sério neste mundo acredita que se devem enfrentar as crises econômicas sem os recursos anticíclicos e de proteção social, também ninguém sério acredita que vamos avançar, que vamos ter condições de prosseguir, mundialmente, de um modo minimamente ordenado e, até mesmo, simplesmente viável, sem mecanismos de governança mundial. Por isto eu disse: a ONU está morta, então, viva a ONU! Mas é outra ONU, é outra coisa que tem que ser desenvolvida, são outros sistemas de regulação e promoção econômica, internacionais. Novos sistemas, obviamente, mais socialistas e mais poderosos do que aqueles emergentes do fim da segunda guerra mundial. Este é um desafio histórico do presente. Todo um rearranjo, um verdadeiro movimento de placas tectônicas geopolíticas, está ocorrendo no cenário mundial diante dos nossos olhos e só os alienados não são capazes de ver isto. A grande potência hegemônica do sistema capitalista mundial, das últimas 8 a 10 décadas, está perdendo o seu diferencial de poder no mundo, de modo incontestável, em todos os aspectos da vida social, a um ponto em que isto parece não poder mais ser revertido. Em muitos aspectos decisivos da economia e do desenvolvimento, em geral, os EUA já foram superados pela China e a perda da sua hegemonia não poderá ser revertida, a não ser à custa de grandes guerras e destruição cataclísmica em escala mundial, maior do o que ocorreu na primeira metade do século passado, quando mais de 100 milhões morreram nas guerras e outros 50 milhões na pandemia de gripe espanhola. A integração mundial prossegue, ao invés de regredir, e a China é hoje o seu grande motor, muito mais do que os EUA ou a Europa. Maior do que os dois juntos. Estes fatos são incontestáveis e definitivos. Uma nação socialista, com o controle financeiro e estratégico nas mãos do setor público, na liderança do desenvolvimento econômico mundial, pode ser e será, já está sendo, com certeza, um ponto de segurança, de apoio, fundamental, para a refundação da governança mundial, em todos os seus aspectos, incluindo a refundação completa da federação de nações, dos bancos e outros recursos de gestão das finanças e da economia mundial, em geral, assim como no tocante às diversas agências reguladoras mundiais. Não me parece possível um avanço efetivo da governança mundial, em qualquer sentido relevante, se ela não tiver poder militar e financeiro para realmente ser algo definidor no cenário mundial. Só assim esta governança, a nova ONU, ou, seja qual for a forma institucional que isto tomar, terá real relevância no tabuleiro geopolítico mundial e poderá realmente ser garantidora de uma, maior e mais duradoura, paz mundial. E só assim poderá retomar o seu papel estratégico, fundamental, como ordenadora e reguladora dos assuntos internacionais, no campo da saúde, das migrações, da preservação do meio ambiente e de tudo o mais. Será, por tudo isto que expus, necessariamente, uma governança mundial mais poderosa e mais socialista do que os tímidos instrumentos e instituições que emergiram a partir de 1945. E reitero, é realmente também por isto, que os liberais a temem e a odeiam, mesmo antes dela existir. Um aspecto central desta evolução da governança mundial será o seu caráter mais radicalmente globalizado, mundializado, ou multilateral, como gostam de chamar hoje em dia. E neste campo, justamente, os aspectos militar, financeiro e de tecnologia de informação e comunicação, incluindo redes sociais e IA, despontam como absolutamente cruciais. Nestes campos, justamente, não podemos mais ficar sujeitos a qualquer forma de poder imperial e aos conflitos entre os poderes imperiais. Os Xerifes do mundo sempre serão, também, os bullies do mundo. Não podemos, ninguém pode mais, aceitar que o poder militar esteja concentrado exclusivamente nas mãos de uma nação, ou de um pequeno conjunto de nações, que exercem, como querem, os privilégios que o maior poder armado lhes confere. Isto é, com certeza, uma condenação da maior parte dos países e, sobretudo, da maior parte dos povos ao domínio de um, ou de um punhado, de bullies imperiais. Muitos agora pedem e estão encontrando na Rússia o novo xerife, que está lhes ajudando a se libertarem do domínio imperial colonialista. O maior exemplo disto são as nações do Sahel, onde está acontecendo, uma grande mudança geopolítica na atualidade, com a sua libertação do domínio Francês e Norteamericano, por meio da insurgência armada, com apoio russo. Mas a qual custo? Será a substituição de um bully superpoderoso por outro? A história o provará. Tomara que não e, provavelmente, não será assim, justamente porque estamos iniciando uma nova etapa histórica. 5. O predomínio da China Socialista Até agora, em toda a história do capitalismo mundial, da modernidade, a substituição de uma nação por outra na hegemonia mundial, na liderança, no predomínio, na economia e geopolítica do mundo, culminou com a substituição da moeda do país hegemônico, até então, pela moeda da nova maior potência mundial, como moeda mundial, de reserva e de trocas. Do mesmo modo, obviamente, também o maior poderio militar passou das mãos da potência ultrapassada para aquelas da nova superpotência mundial. E, até agora, isto sempre foi acompanhado, de grandes guerras. Ainda que não diretamente entre as duas potências na transição da hegemonia mundial. Mas, agora será diferente. Será pela via socialista, com o predomínio da China. Objetivamente, isto quer dizer, por exemplo, que a China deverá abrir mão destes dois símbolos e instrumentos de dominação internacional, em nome da Nova Governança Mundial. Somente um sistema financeiro mundial, com um sistema de trocas, uma moeda, ou cesta de moedas, ou valor de referência, como queiram, realmente mundial, e um poder militar, igualmente mundial, e não de um país, ou de um grupo de países, apenas, serão adequados e suficientes para garantirem um melhor funcionamento e desenvolvimento da economia mundial, do sistema econômico e social mundial no futuro próximo. Todas as evidências do presente dão conta que os EUA já estão perdendo ou já perderam, irremediavelmente, a sua hegemonia econômica e, portanto, geopolítica no mundo. A minha aposta é que a transição de hegemonia no palco mundial será, desta vez, diferente do modelo anterior, identificado por Ray Dalio, por exemplo. E será diferente porque terá em sua ponta de lança não outra nação capitalista e, portanto, imperialista, como foram todas as anteriores nos últimos 400 anos. O fato da China ser socialista e a realidade de sua postura no cenário mundial nos permitem prever que desta vez não será mais uma transição imperialista capitalista. Portanto, não poderá ser a transição para o poder concentrado nas mãos de uma única nação ou para uma pequena federação de nações dominadoras, imperialistas, no mundo. A China socialista, por sua experiência e por sua postura no mundo, nos mostra que este não pode ser e não será mais o caminho. Mas, a China, ao abrir mão da concentração de poder econômico e militar, de modo absolutamente hegemônico e exploratório ou dominador, nas suas mãos, não deve, também, permitir que isto se realize pela concentração do poder em alguma moeda e potência militar nacional. Não, teremos realmente que construir esta transição para uma força, ou forças, enfim, supranacionais, potentes o suficiente para se imporem no cenário mundial de conflitos crescentes, envolvendo as grandes potências mundiais. Creio que, afora este, não há outro caminho, senão o das grandes guerras, como ocorreu na primeira metade do século passado. Não foi a China que encontrou o Socialismo, mas sim, foi o Socialismo que encontrou a China. Por mais que isto fira o orgulho chinês, o Socialismo, o Movimento Socialista Mundial, ou, no limite, o movimento comunista, o movimento anarco-comunista, enfim, mundial, é maior do que qualquer país isoladamente. Creio que a China Socialista reconhece isto e não colocará uma arrogância nacionalista imperialista à frente do seu papel único de liderança do movimento socialista no momento de uma grande vitória mundial, que está se iniciando agora, nestes momentos finais (o que ainda pode durar décadas) da grande crise econômica do sistema capitalista liberal, que vem desde 2007. À época do fim da URSS havia um judoca brasileiro que praticava muito a técnica de sacrifício, em que ele entregava a posição, se colocava em posição de inferioridade, momentaneamente, para, ao fim do movimento, sair em uma posição superior, vencedora. Eu entendi que era isto o que estava acontecendo com o Movimento Socialista Mundial, um momento de sacrifício e eliminação de caminhos errados. Um novo caminho surgiria, adiante. O Movimento Socialista Mundial ressurgiria mais forte, mais efetivo, superior. Foi realmente assim que aconteceu e isto já se mostra evidente agora, quando a nova onda liberal termina a sua trajetória, se destroçando em crises sistêmicas e guerras, a economia real, ligada à China Socialista, já tinha erguido uma alternativa econômica viável e estrategicamente sustentável. E agora, que a crise leva a via liberal realmente ao ponto de poder inviabilizar até a vida humana na terra, ou torná-la completamente miserável para todos, com destruição climática e grandes guerras simultaneamente, agora, o avanço mundial do movimento socialista será ainda maior do que foi no pós-guerra do século passado. Definitivamente, as estruturas de poder mundial serão completamente outras, tendo a China Socialista e muitos países independentes, como forças predominantes, e não a tradicional aliança das potências imperialistas. Certamente isto não poderá se resolver no núcleo paralítico do conselho de segurança, composto por grandes potências nucleares, apenas. 6. O papel dos BRICS e de outras Federações ou Alianças Internacionais, no momento contraditório de bipolaridade na trajetória da NGM Os Brics já cumprem um papel muito importante nesta transição do eixo hegemônico do mundo e talvez sejam até a via pela qual uma nova governança se desenvolverá. Certamente cumprirá um papel positivo importante neste sentido. A OTAN, ao contrário, nunca poderá cumprir um papel positivo neste sentido. Ela é uma associação, uma federação, militar, de defesa, portanto pressupõe a cisão a contraposição, o conflito e, no limite, a guerra entre as nações e não o concerto delas em uma governança global. A OTAN terá que ser submetida, assim como todas as outras alianças militares, ao poder global. O poder militar global, a sua capacidade de mobilização e pronta ação, deverá ser, no mínimo, o equivalente da OTAN ou de qualquer país do mundo, de modo a dissuadi-los a agir de forma autônoma, independente do poder global, como hoje fazem. O papel histórico dos Brics só começou a aparecer e, certamente, ele crescerá muito, mas de todo modo não poderá substituir a governança global e deve, ao contrário, se aliar e alinhar a ela o mais rápido possível. Temos, portanto, esta imensa tarefa diante de nós: (re)fundar a governança global e (re)estabelecer o seu funcionamento o mais pleno possível e conforme as necessidades econômicas e sociais do presente e futuro próximos. Isto significa refundar e reestabelecer não apenas a federação mundial, mas também todas as suas agências reguladoras que hoje se encontram completamente sucateadas e fracassam miseravelmente em seus mandatos, seja na área comercial, seja na área da saúde, seja na área da segurança etc.. Sob qualquer ângulo, a necessidade imperiosa da melhor governança mundial é contraposta aos discursos e práticas de fragmentação, oposição e conflito entre as nações, que se disseminam e prevalecem, invalidando praticamente qualquer possibilidade do sistema da ONU operar efetivamente, fazendo diferença real, no mundo hoje. Mas, o avanço da economia mundial no sistema capitalista segue forçando a maior integração e associação produtiva internacional, por mais que forças políticas hegemônicas agora operem em sentido contrário. No entanto, parece que a gente pode já vislumbrar ou perceber um mundo efetivamente bipolar nos próximos anos e, provavelmente, décadas, infelizmente. Quase que dá para ver as placas tectônicas da geopolítica se acomodando, se colidindo e se separando em dois grandes blocos. Praticamente estamos vendo o leste europeu se rachando ali onde os dois blocos se tocam e se conflitam, agora. Não é difícil antever que isto marchará para mais e maiores guerras, se não houver alguma mudança no curso espontâneo dos conflitos imperialistas. Se se tratasse de um país hegemônico, de um bloco de poder e dominação, capitalista imperialista, de um lado, como de fato se trata, e do outro, do mesmo modo, outro país ou bloco de poder capitalista imperialista, estaríamos, eu creio, condenados a algum nível de destruição equivalente aquela da primeira metade do século passado, mas, com muito mais poder destrutivo em ação. Felizmente essa não é a realidade. Podemos duvidar, com toda razão, se ao fim e ao cabo todo o projeto russo hoje não deva ser classificado também como capitalista imperialista, como o são os projetos associados de EUA e UE, da OTAN, enfim, e de Israel. Isso é matéria para muito questionamento e muita reflexão séria. Mas, ninguém pode afirmar, de modo algum, pelas evidências históricas e objetivas do presente, que a China seja também, apenas mais uma potência capitalista imperialista buscando a sua hegemonia. Não, a China não é isto. É uma potência socialista assumindo a proeminência na economia e em tudo o mais que é vinculado e consequente a isto e é claro que na aliança entre a China e a Rússia, ou na aliança dos Brics em geral, e até mesmo no mundo ou numa aliança das nações, em geral, agora somente a China é, e pode ser, o polo vetor, predominante. 7. Colonialismo e imperialismo. O Brasil sob o Império dos EUA. O Brasil, a Índia e outros países independentes na polarização mundial É tão absurdo que ainda hoje no século XXI adentro, a gente ainda esteja lidando com o sistema colonial francês e os seus problemas. A história terá que registrar que na Nova Caledônia, assim como no Sahel e muitos outros pontos da África e, também, aqui nas Américas, a presença colonial da França ainda se mostrava viva nos anos 20 do século XXI. Isto só confirma como a realidade histórica é contraditória, fragmentária e nunca se desenvolve de modo linear ou homogêneo. O imperialismo é uma forma de colonialismo, mesmo que não sob a forma de dominação politica direta. Nós aqui no Brasil somos obrigados a saber disto, a não ter dúvidas disto. O imperialismo, primeiro britânico e depois norte-americano, aqui, para nós, sempre foi uma forma de colonialismo. Vassalagem e submissão. Não há como contestar isto, aqui. No limite, a economia, a política e as forças armadas brasileiras se submeteram ao poder norte-americano, desde a segunda guerra mundial, pelo menos. Isto, para o pensamento de direita brasileira, para a doutrina atual das nossas forças armadas, para a maior parte do nosso empresariado, ainda aparece como absolutamente natural e incontrastável. E não é mesmo fácil se livrar disto, da submissão colonial, da vassalagem, diante da potência superior, da maior potência ou, até, da única grande potência mundial, como foi os EUA no século passado, a partir da segunda guerra mundial. É verdadeiramente normal que os países mais próximos se submetam ao poder dominante, econômica e militarmente, inclusive por sua interferência política direta, por sua influência cultural e em todas as áreas da vida social. É muito difícil se contrapor a isto. Objetivamente, para a maioria dos países na história, isto tem sido realmente impossível. Mas as coisas se tornam diferentes na decadência da potência imperialista. E estamos, realmente neste momento da história, quando a dominância norte-americana está se reduzindo a cada dia e já não parece ser mais tão efetiva, nem econômica e nem militarmente. Ou seja, a hegemonia está deixando de existir, em parte já não existe mais, de fato. Logo, é claro que toda a sua estrutura de vassalagem irá ser remodelada, irá acabar. Não há como uma potência decadente manter o seu poder de influência e constrangimento no mundo e nem mesmo no seu quintal. Aqui, também, isto vai mudar nos próximos anos e nas próximas décadas. O fato da presença econômica da China no Brasil, e no mundo em geral, estar se tornando objetivamente maior do que a norte-americana impõe uma agenda objetiva, comercial e de investimentos, econômica, que muda o direcionamento estratégico das forças sociais aqui no Brasil e no interior dos mais diversos países, mundo afora. Agora parece claro, incontestável, que há um poder, uma aliança de potências, que se contrapõe aos EUA, à aliança EUA-UE, à OTAN. Isto só é possível do ponto de vista militar, porque já é real do ponto de vista econômico. A aliança China-Rússia e associados realmente se contrapõe militarmente aos EUA, à OTAN e associados, porque já é suficientemente grande, já é equivalente ou superior à Aliança do Oeste ou do Norte Global. E isto é assim, por um motivo: a grande ascensão econômica da China Socialista. Isto chegou a um nível que realmente todo o poder, todo o domínio, toda a hegemonia, todo o império norteamericano, e das potências associadas, está sendo questionado, superado, suplantado, no mundo. Nada disto existiu antes, nem mesmo no auge da potência das URSS. Esta bipolaridade no sistema geopolítico mundial é o que está diante de nós, mas, ao mesmo tempo, ela é impossível, ela não é mais possível dada a integração econômica mundial. Ela será uma forma completamente transitória, no entanto, podendo durar décadas. E as guerras persistirão, então, muito provavelmente, nos pontos de fricção deste mundo bipolar. Ao identificar uma bipolaridade em nível estratégico no plano mundial, no nível geopolítico, é claro que isto tem uma base econômica no confronto entre as duas grandes potências mundiais do momento, por exemplo na fronteira tecnológica, na área de processamento de megadados e inteligência artificial, parece que apenas as redes instaladas e a tecnologia hoje implantada em EUA e China podem realmente processar as informações como necessário para o pleno funcionamento destas tecnologias que, de um modo ou de outro já estão, e estarão cada vez mais, presentes em todas as áreas da produção e da vida social em geral. Com certeza, nesta cisão bilateral do mundo, a posição de estados que tradicionalmente se colocam como independentes ou não alinhados, hoje, é definidora, será definidora no curso da história próxima. Entre estes a Índia, o Brasil, a Indonésia, o México, por exemplo, são e serão muito importantes. Talvez logo não sobre mais espaço para a neutralidade, nessa divisão mundial e o Brasil, por exemplo, terá que se posicionar. Mas, vamos lembrar que, realmente, nada é linear e homogêneo no desenvolvimento histórico. Então, o processo de decadência do império americano está em curso e se manifesta de forma desigual em regiões e localidades diferentes. Aqui no Brasil, nas Américas, enfim, temos boa parte das nossas elites, boa parte do poder econômico, militar e político completamente alinhados aos EUA. E mesmo aqueles que estão do outro lado do espectro político e ideológico, não parecem conseguir a clareza e a consistência para colocar em cheque o predomínio dos EUA no nosso território e sobre a nossa população. Ainda somos vassalos dos EUA e submetidos ao seu poderio. Mas, a história realmente mudou e mesmo nós aqui teremos que nos mover no sentido da mudança inevitável da hegemonia no mundo. Não digo com palavras, mas com fatos, com mudança histórica real. O alinhamento das forças armadas brasileiras com o comando norte-americana é, portanto, um dos principais problemas que nós, como nação, temos diante de nós, Desfazer rapidamente e decididamente este alinhamento militar automático com os EUA será muito importante para nós. Mas, não há possibilidade de nós nos tornamos, em curto ou médio prazo, uma potência militar realmente autônoma no mundo. Não vejo esta possibilidade nos próximos 10 ou 50 anos, para falar a verdade. Por outro lado, não temos porque sairmos da submissão militar estratégica aos EUA, para nos submetermos, nos alinharmos militarmente, a qualquer outra potência muito superior à nossa. Não precisamos e não devemos fazer isto. Como, então, alcançaremos alguma autonomia, estando justamente no campo de domínio territorial da maior potência militar do mundo? Para nós, do ponto de vista militar, para os nossos militares, o nosso alinhamento e, portanto, a nossa submissão à potência militar norte-americana podem parecer inevitáveis e praticamente automáticos. Em uma visão militar e estratégica parece que nós não temos sequer outra opção, sempre foi assim e deve mesmo ser assim. Aceitamos, tacitamente, a supremacia norte-americana como natural e inquestionável. Temos, é óbvio, o discurso político e militar da nossa soberania, da independência e autonomia do país, da nação brasileira. Mas não é esta a realidade histórica. Simples assim e isto não é posto em dúvida, eu creio, por ninguém realista, por ninguém que se atenha mais aos fatos do que aos discursos. Infelizmente, no mundo imperial em que vivemos, somos vassalos dos EUA. No limite, eles fazem aqui o que querem e nossas forças armadas estão alinhadas com eles e prontas a servir sob o comando norte-americano. Negar isto me parece uma tolice. No meu raciocínio esta foi uma das variáveis determinantes para prever que não haveria golpe fascista em 2022 / 2023. O Estado Maior norte-americano não deu o de acordo, eles não aderiram à aventura fascista aqui, naquele momento. E, sem a autorização e o comando do império, a força avassalada não atua. É assim e não me parece que temos, como eu disse, como sair disto por conta própria, nos tornando uma potência militar nos próximos anos ou décadas. E nem devemos mesmo ir por este caminho miserável. A nossa fraqueza, aqui, talvez nos facilite a encontrar o caminho certo. A princípio devemos ser pacifistas, pois é do nosso máximo interesse. Devemos ser pacifistas sim, devemos defender intransigentemente a paz, pois não temos, objetivamente, nenhum interesse em entrar em guerras de lado algum. Mas sabemos, por vias muito diferentes, que não podemos estar indefesos, desarmados, neste cenário de guerras e possibilidades crescentes de guerras. Vamos, então, todos, entrar na corrida bélica que a condição atual parece nos impor? Não, não podemos e não devemos fazer isto. Ao contrário, devemos incentivar, desenvolver e aproveitar as possibilidades e os ganhos da paz socialista, sobre o predomínio do conflito, disseminado e sem controle, da crise imperialista capitalista que estamos vivendo. A formação de uma força mundial, de governança e militar, é fundamental para isto. É a saída legítima e digna para o Brasil e para todos os países submetidos às superpotências bélicas. Nós não queremos e não devemos ir por este caminho estúpido e bárbaro de nos armarmos até os dentes para atacar os outros povos. Essa demência tem que acabar e não vai ser numa corrida amalucada e desesperadora para que cada país dominado adquira os níveis das superpotências militares, para poder livremente atacar e se defender no campo geopolítico. A corrida armamentista, essa insanidade, está, no entanto, na rationale de grande parte dos pensadores militares, geopolíticos, estrategistas e economistas mundiais. Uma aceleração da corrida insana pelo maior poder militar. Obviamente isto não pode dar em algo bom. Mas os cretinos, os cínicos, com toda a sua razão, defendem este tipo de corrida assassina, mutuamente suicida. Agora me parece bem claro que, se tem algo que pode e vai reduzir este ímpeto militarista, mutuamente destrutivo e suicida, será, paradoxalmente, ou surpreendentemente, justamente a constituição de uma força militar mundial, da capelita militar mundial, com força de pronta ação igual ou superior àquela de qualquer país ou aliança militar. Este é o sentido final do delírio do meu pai no seu leito de morte. E hoje isto me parece realmente a melhor racionalidade possível diante dos desafios em que estamos. Sobretudo do ponto de vista de todos nós, países e povos secundários e submetidos ao poderio militar alheio. Para nós, não é interessante apenas aumentar as nossas forças militares, para competir no cenário mundial. Não vamos conseguir nada com isto, a não ser dentro de uma aliança. E não é interessante para nós entrar em nenhuma aliança militar e nem fomentar uma corrida armamentista, como está em curso no mundo agora. Precisamos desescalar estes movimentos e não jogar mais recursos neles. Em defesa dos interesses dos nossos povos, nós sabemos que temos que propor e conquistar a paz e não as guerras. Precisamos avançar na governança global e não na sua fragmentação e negação como está em curso no mundo, agora. No século passado isto foi conquistado à custa de guerras e catástrofes sociais que resultaram em mais de 150 milhões de mortes. E, infelizmente, foi uma conquista ainda muito formal apenas, e muito limitada na realidade, sem os meios para estabelecer o que propunha fazer, sem os instrumentos para fazer cumprir o seu mandato. A ONU fracassou. Mas, até o seu fracasso, foi um sucesso. Basta ver o aumento do comércio internacional e do investimento externo desde a sua criação. Até agora tivemos, no mundo em geral, muito menos mortes por conta de uma pandemia e por conta das guerras do que aconteceu no século passado. Mas, ainda não saímos da crise. Agora precisamos ir adiante e além da ONU.

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 1. A Crise Atual no Processo Histórico Contemporâneo: Alguns Dados Comparativos

Parte 1. A Crise Atual no Processo Histórico Contemporâneo: Alguns Dados Comparativos A crise de 2007/2008/2009 foi a recessão mais profunda e mais duradoura dos EUA desde a segunda guerra mundial. A perda foi de mais de 4,5% do PIB nesta que foi chamada de a Grande Recessão. Desde 1960, houve recessão global nos anos de 2009 (-1,4%) e 2020 (-3%). Mas, assim como a queda do PIB global de 2009 começou no final de 2007, a queda do PIB de 2020 começou em 2018. Em todos os casos, obviamente, com um grande peso da recessão norte-americana. Neste período ocorreram grandes desacelerações na taxa de crescimento do PIB global, em 1974 -1975 e de 1980 a 1982, na crise do fim da onda social democrática do pós-guerra, no sistema capitalista mundial. Mas, recessões, mesmo, só aconteceram agora, em 2009 e 2020, na crise liberal, no fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial, momento histórico em que nos encontramos agora. Pondo as coisas num contexto histórico mais amplo, para comparação e análise, estima-se que na grande depressão, entre 1929 e 1932, o PIB mundial caiu 15% e só retornou ao nível pré crise em 1939, quando se iniciou a segunda grande guerra mundial, com o seu grande impacto destrutivo sobre boa parte da economia mundial. De 1950 até a segunda metade da década de 70, ao contrário, houve alto crescimento, em geral, com média em 5% ou mais. Depois, nos anos 80, a média diminuiu para perto de 3%. E se vem se reduzindo ainda mais, aos poucos, desde 2007. Quando se considera a taxa de crescimento anual do PIB real mundial, per capita, no século XX, o período até 1913 é de médio crescimento (1,5%), o período de 1914 a 1949 é de baixo crescimento (0,7%), de 1950 a 1974 é de alto crescimento (3%) e daí até os anos 2000 voltou a ser médio (1,5%). Com certeza está em nível mais baixo agora, desde 2007, já que o crescimento do PIB mundial tem sido menor, progressivamente menor, desde então. Em relação ao comércio exterior registra-se que o seu volume, o valor e a participação no PIB mundial cresceram exponencialmente, desde a segunda metade do século passado, até a crise de 2008. Desde lá o comércio global geral, em termos de volume e valor, continua significativamente crescente, mas de modo muito mais irregular, com quedas importantes em 2007-2010 e 2020-2021. E, em relação ao PIB global, o valor do comércio global se tornou estacionário ou decrescente, desde então, desde 2007/2008. No prisma histórico mais amplo, houve duas ondas de crescimento acentuado do peso do comércio global na economia global, documentadas, nos últimos 2 séculos. A primeira, entre 1860 e 1914, foi seguida por uma queda profunda, no período da grande crise econômica do sistema capitalista liberal mundial do século passado, entre 1913 e 1945, quando atingiu um nível menor do que aquele de 1927, em proporção ao PIB global. A segunda onda de crescimento acentuado do comércio mundial iniciou-se então, a partir de 1945, e veio até 2007, quando entramos novamente em uma grande crise do sistema capitalista liberal mundial. O volume do Investimento Externo Global também cresceu exponencialmente a partir das últimas décadas do século passado, até a crise de 2008. Desde lá está sofrendo muitas oscilações e tem trajetória predominante de queda. Considerando o custo em perdas de vidas humanas, as duas grandes guerras internacionais do século passado, juntas, mataram em torno de 100 milhões de pessoas e a gripe espanhola matou 50 milhões, aproximadamente. Em todo o século XX as guerras mataram em torno de 180 milhões, em uma população de aproximadamente 2 bilhões de pessoas, em todo o mundo. Enquanto, no presente século, até Abril de 2024, a Covid matou algo próximo a 7 milhões e as guerras no século XXI mataram, por enquanto, menos de 5 milhões de pessoas, em todo mundo. Em uma população total de 8 bilhões. Até a pandemia foi bem menos dramática, ainda que isto se deveu, em grande parte, pelas características dos agentes infecciosos, e proporcionalmente, são menos guerras e bem menos violentas, até agora, em relação ao século passado. Isto, com certeza, tem a ver não só com o desenvolvimento geral, mas também, particularmente, com as ações da social-democracia ou do socialismo e do globalismo, desde o pós guerra. Um bom exemplo e uma boa medida disto são os recursos públicos injetados na economia nos pacotes de medidas anticíclicas. Em 2009, o Governo dos EUA assumiu um ônus de USD 0,5 trilhão (3,55% do PIB da época) para resgate de instituições financeiras em crise. O TARP aprovado no congresso para enfrentar a crise foi de 700 bilhões de USD, mais 250 bilhões para a compra de bônus bancários. Mais 156 bilhões do ato de estímulo econômico, de 2008, para a proteção social: transferência de renda, além de aumento do seguro-desemprego, food-stamps e reduções / isenções em impostos. No total, foram mais de 1,5 trilhões de USD injetados na economia americana pelo governo para enfrentar a Grande Recessão. Tudo isto permitiu uma rápida retomada da economia, que foi seguida por um crescimento seguro por 10/11 anos, a partir de 2010. O mesmo foi feito na Europa - Inglaterra, em escala menor em cada país, mas, creio que em seu conjunto foi tão grande ou maior que nos EUA. O combate à recessão de 2020, por seu turno, teve um custo de mais de 3,4 trilhões de USD, nos EUA, desta vez não focalizados no mercado financeiro, mas, que, mesmo assim, terminaram sendo concentradores de renda. Estes recursos injetados pelo governo dos EUA, através do CARES act e do Response and Relief Act, entre outros, em 2020 e 2021, contribuíram para uma recuperação mais acelerada da recessão, apesar dela ter sido mais profunda em 2020 (-2,8% GDP) do que em 2009 (-2,6%). E, mais uma vez isto se repetiu por todo o mundo. Foram, só nos EUA, mais de 5 trilhões, e, no mundo todo, próximo de 15 trilhões de USD, talvez, certamente mais de 10 trilhões, injetados pelos governos nacionais nas economias do conjunto dos países, desde o início da crise econômica atual, em 2007. E este valor continua crescendo, apesar do espaço para novas injeções de trilhões de dólares, para socorro anticíclico, ser cada vez menor. 1. A Causa Básica do Neoimperialismo, do Neofascismo e das Guerras Creio que a China continua patrocinando as soluções pacíficas. Enquanto representantes do grande capital abertamente têm fomentado guerras e conflitos. É o que eu esperava mesmo. O poder capitalista está desesperado e em um beco sem saída. A guerra se apresenta como alternativa palatável. Todos os que pensam apenas sob o prisma geopolítico podem mais facilmente aderirem, também, ao espírito belicista e, até, à propaganda da guerra. Mas, muito cuidado tem que ser tomado aqui, para a gente não cair no moralismo humanista, ou um humanismo moralista, como queiram. A guerra, as guerras, a guerra civil e as grandes guerras internacionais, tudo isto é parte da nossa realidade e não temos porque temer ou repudiar isto em absoluto. Pode ser necessário. Quando não resta outra alternativa, na impossibilidade de se defender de outra maneira, toda pessoa e grupo social termina por lançar mão da violência ou termina se submetendo a ela. Aquele que está sendo oprimido, aquele que está sendo ameaçado em sua existência ou dignidade, aquele que está sendo abusado, como pedir que não reaja com violência? Ao contrário, esta violência é bem vinda, é libertadora, é humanizante. Historicamente, no plano do sistema mundial, temos que entender quais são as razões profundas da guerra na contemporaneidade e dos conflitos sociais e políticos crescentes mundo afora. Sempre vão existir motivações ideológicas aparentes ou populares, mas sempre existirão também as razões socio-econômicas estruturantes. E uma densa camada de razões intermediárias, políticas e geopolíticas, por exemplo. Não é possível ignorar que a condição de esgotamento da onda neoliberal no sistema capitalista mundial está subjacente a toda essa ebulição bélica e de conflitos internos e internacionais. As condições de realização do capital estão muito apertadas. A classe trabalhadora teve a sua renda e os seus direitos reduzidos em grandes proporções e, agora, isto mesmo faz com que a roda da acumulação capitalista produza muito mais atrito. Estamos em uma grande crise econômica, característica de um extremo de concentração da riqueza nas grandes economias capitalistas centrais do mundo. É óbvio que é do empobrecimento, relativo e absoluto, das classes trabalhadoras, muito mais do que do crescimento da migração, que vem toda esta tensão em relação a migrantes e toda a xenofobia que ela despertou. Isso não nasce de um projeto ideológico da extrema direita, isto se torna um projeto ideológico de extrema direita porque não é possível o capitalismo liberal dar uma resposta resolutiva à crise econômica, já que a imensa concentração da riqueza é a razão básica desta crise e é impossível ao liberalismo econômico conservador abrir mão dos princípios de livre acumulação e concentração de riqueza e poder econômico, que o caracterizam. Ao contrário, eles querem é mais. E é aí que a solução absurda da guerra passa a ser mais razoável para as elites. Da mesma maneira que parece razoável para uma parte das massas frustradas, sem perspectiva, empobrecidas, identificar os migrantes como os grandes causadores dos seus problemas ou apenas endereçar contra eles a sua raiva, o seu ódio. O fascismo e a guerra são duas faces da mesma moeda, são respostas disfuncionais, destrutivas, monstruosas, do capitalismo à sua crise. Foi contra estes três monstros: a crise econômica e o fascismo e a guerra, decorrentes, que a grande onda socializante, a onda social democrática, se você quiser, se formou e emergiu no mundo antes da metade do século passado. Não será diferente agora. Mas, agora será uma onda mais socializante. O aspecto mais central desta guinada nas oscilações da economia capitalista mundial, o seu principal indicador, é, ao fim, a distribuição da riqueza social. Índice de Gini e outros, a participação dos 1 e 10% mais ricos e dos 50% mais pobres. Mas, especialmente a participação dos 50% mais pobres na riqueza e na renda sociais. Pois este é o indicador mais direto de sua capacidade de consumo, de seu poder de compra, fator determinante na crise de realização da economia liberal. Estamos, agora, nos principais países do mundo, nos piores níveis de distribuição da riqueza social, desde o fim da segunda guerra. Isto leva a uma dificuldade real de realização do capital. A própria concentração de riqueza e poder que está na base da ideologia liberal leva a isto. Daí este estresse todo. Esta é a causa mais profunda da emergência da guerra e do fascismo e de tantas mortes desnecessárias. Mas, temos que entender isto desde a sua base real, econômica e não apenas aparente, financeira ou política, por exemplo. Se trata sempre daquilo que os indivíduos têm que poupar, têm que ceder de seu trabalho e produto para a concentração de recursos e a realização da produção e desenvolvimento, coletivos. O capitalismo, por paradoxal que isto seja, é uma forma efetiva, ainda que de baixa eficiência e alto custo social, de se realizar esta equação. E, é óbvio, os erros do capitalismo vão ficando cada vez mais evidentes com o desenvolvimento tecnológico, ou seja, com o desenvolvimento da riqueza humana.