segunda-feira, 12 de maio de 2025

CHINA E EUA CHEGARAM A UM ACORDO TARIFÁRIO. O QUE ISTO SIGNIFICA?

Os EUA e a China chegaram a um acordo, uma trégua relativa, dentro da guerra tarifária lançada pelo governo dos EUA, semanas atrás. As tarifas elevadas a níveis absurdos, espetaculares, foram rebaixadas, para 30% sobre os produtos chineses e 10% sobre os produtos estadunidenses, por um período de 90 dias. Desde o início do tarifaço dos EUA houve, sem dúvida, alguma quebra de cadeias de comércio e produção, especialmente entre a China e os EUA. Ainda que o acordo atual ponha um fim nestas quebras, provocadas pelas tarifas extremas, e limite e controle os seus efeitos, o fato é que alguma quebra já ocorreu. No fim, restará, ainda, na verdade, um importante aumento das tarifas de importação dos EUA, impondo um freio nas exportações do mundo para lá e as exportações da China continuarão a ser as mais atngidas, mesmo com a dramática redução de tarifas a que, enfim, se chegou no acordo de ontem. O que acxonteceu neste acordo com a China se repetirá em todos os outros acordos bilaterais que serão feitos pelos EUA ,na sequência. Vai sempre restar um aumento de tarifas bem grande para as importações dos EUA.. Este movimento todo me parece, agora, ter realmente uma estratégia bem executada e não ser apenas um improviso totalmente estúpido. O governo dos EUA reconheceu o duplo déficit, já gigantesco e aceleradamente crescente, das contas públicas e das contas correntes, como uma condição limítrofe, emergencial. Creio que eles estão certos nisso. E resolveu corrigir, o mais rapidamente possível, a trajetória insustentável do crecimento da dívida pública e do déficit comercial. Mas, de forma rápida e com intensidade, isto só pode ser atingido de um modo drástico e trágico, sob muitos aspectos. Para ser simples, tem que cortar fortemente nos gastos públicos e reduzir o consumo popular também fortemente, de modo a reduzir o duplo déficit rápida e intensamente. Estes são justamente os objetivos econômicos imediatos mais importtantess do governo estadunidense e realmente eles estão buscando realizar o necessário para atingi-los. No que toca ao déficit comercial, é óbvio que não é possível aumentar rápida e intensamente as exportações dos EUA no nível necessário para realmente diminuir o déficit. Resta apenas reduzir as importações para o consumo e para a produção. Todo o estardalhaço das blitze tarifárias do governo dos EUA serviu como estratégia para diminuir o impacto emocional do grande aumento das tarifas que, ao fim, ainda persitirá e serviu, também, para provocar um momento circunstanciado de queda extrema, drástica, das importações dos EUA. Tudo isto leva à redução do déficit, é verdade, mas ninguém pode negar o impacto recessivo e inflacionário destas medidas. Enfim, para reduzir o consumo popular, estas são medidas "acertadas". No mesmo sentido e de modo complementar, também estão sendo cortados gastos públcos nos mais diversos serviços e mecanismos de transferência de renda. Obviamente, isto não pode ser atingindo sem um custo social alto, incidindo sobre uma população que já se encontra empobrecida e insatisfeita. Veremos como isto vai se desenrolar na luta social dentro dos próprios EUA. Preciso reiterar que tudo isto corresponde à condição de crise de realização generalizada que acomete a economia dos EUA e do mundo, desde 2007, provocada pelo aumento extremo da concentração de riquezas, que veio ocorrendo desde 1980. A crise está mitigada pelos trilhões de dólares injetados pelos governos na economia, desde então. Mas, agora, como a situação da Europa e dos EUA demonstra, os recursos anticíclicos estão se esgotando. Não haverá solução real da crise sem se resolver suas causas centrais: a extrema concentração de riquezas e a baixa qualidade da coordenação da produção em geral, no interior dos diversos países e no plano global. Não sairemos, de fato, da crise sem uma inversão drástica nas tendências de concentração de renda que dominaram as mais diversas economias nacionais nas últimas décadas e sem um novo salto real no planejamento e organização das economias, em cada país e no mundo, ou seja, sem uma nova etapa de redistribuição de riquezas e de avanço na coordenação da economia mundial. Entendo que estes avanços, ao fim, serão atingidos, de um jeito ou de outro, nos próximos anos e décadas. ainda que sob condições de intensa contradição e disputa, crises sociais e guerras internacionais. Posso identificar esta tendência determinante até mesmo dentro da ação extremamente contrária do governo dos EUA. Em seus resultados secundários, por exemplo. Um resultado secundário do aumento generalizado das tarifas de importação dos EUA e da estratégia agressiva e espalhafatosa com que ele foi feito, já se manifesta claramente e é muito positivo para a humanidade: a importância e o papel real da China socialista no mundo aumentou sensivelmente, desde então. A intensidade e a velocidade dos acordos multilaterais e do avanço das redes de logística e infraestrutura produtiva que estão se desenvolvendo à margem dos EUA, tendo a China como o principal pilar estratégico e motor econômico, ampliou-se fortemente nos últimos dias e seguirá se ampliando nos anos e décadas seguintes. Parece que no curso das conversas para o estabelecimento do acordo comercial entre a China e os EUA, no fim de semana, chegamos a um outro resultado, secundário e positivo, desta postura econômica e estratégica atual do governo dos EUA, rompendo com os fóruns multilaterais. Parece que se criou ali um embrião de um fórum permanente, ou pelo menos duradouro, de negociação e coordenação econômica estratégica entre a China e os EUA. A impressão que isto me dá é tão positiva que eu creio que um fórum assim, se realmente efetivo, nos livra do risco real de grandes guerras abertas, catastróficas, entre as maiores potências mundiais. Muitas pessoas, presas à alguma ilusão ideológica, devem discordar disto. Elas questionariam como é que um fórum entre China e EUA pode se dar à margem das organizações multilaterais, se superimpondo a elas? O fato é que estas organizações multilatererais são realmente limitadas diante das grandes potências mundiais. Um aspecto dos atos de força dos EUA é trazer a realpolitik, a poltica dos poderosos, para a cena, retirando-a dos bastidores. Quem não é iludido sabe que a política dos poderosos sempre termina se impondo, de um modo ou outro, seja no plano econômico, seja no plano geopolíitico, a democracia política e os órgãos de gestão internacionais se mostram frágeis diante destes poderes, que, ao fim, se sintetizam no poderio econômico, tecnológico e científico, determinante tanto no campo financeiro quanto no militar. Isto é uma verdade inegável, assim como é verdade inegável que viveremos em um mundo polarizado entre estas duas grandes potências por um bom tempo adiante. Logo, é muito positivo que elas tenham um canal aberto, um embrião, um balão de ensaio, que seja, de um fórum de coordenação estratégica das suas economias. Um fórum assim. pode constituir um ponto de apoio no salto em direção à melhor coordenação da produção mundial sem detrimento do desenvolvimento das organizações e acordos multilaterais, que é inclusive, um dos enfoque estratégicos principais da China. Isto diminuirá bastante o risco das grandes guerras, a principal ameaça autodestrutiva para a civilização, e que, por outro lado aumenta continuamente, com o aumento do risco das grandes crises recessivas na economia mundial, enquanto não se inverter a tendência à concentração das riquezas e enquanto não se promover uma efetiva redistribuição de riqueza, nos EUA e no mundo em geral.

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