sexta-feira, 16 de maio de 2025

O PROCEDIMENTO IDEOLÓGICO E A FUNÇÃO DA PROJEÇÃO IDEAL

A atividade humana é dirigida por objetivos projetados, em um nível muito específico, especial. Nós projetamos o objeto da produção, da atividade, do trabalho, no produto que buscamos realizar. Isto é tão simples quanto definidor, específico da nossa espécie, pelo menos nos limites que nós conhecemos até o presente. Sob diferentes aspectos, autores que eu respeito sustentam que nós, os humanos, diferimos de outras espécies de seres vivos porque projetamos nossa atividade antes de realizá-la, de tal modo, com tal nível de consciência, sistematização e continuidade que se pode chamar a nossa atividade produtiva de dirigida por fins ou por projetos. Isto distinguiria seguramente a atividade produtiva humana ou seja, o trabalho humano, de qualquer modo, das atividades vitais de produção e reprodução da vida dos outros seres vivos, em geral. Na contemporaneidade há uma forte tendência cultural de questionamento a esta excepcionalidade da nossa espécie, pelos mais diversos motivos. Por outro lado, é inquestionável que a ideia de projeto pode ser admitida em outras níveis de codificação que não seja aquela da consciência humana, como por exemplo, no código genético. É realmente difícil contestar completamente a ideia de que há um projeto no código genético. Não podemos, contudo, falar em ideologia ou qualquer forma de projeção ideal no nível do código genético. E podemos deixar este assunto de lado, por enquanto. O fato é que são os resultados reais da nossa atividade que atestam suas características e demonstram, de modo incontrastável, a nossa excepcionalidade. Nós fazemos projetos mentais e registros, por códigos e imagens, das nossas atividades e seus resultados pretendidos e os comunicamos entre nós, criticamos e desenvolvemos estes projetos e as atividades vinculadas a eles, conforme os seus resultados, desde formas muito rudimentares da existência humana, desde a pré- história da nossa espécie. Pelas características mesmas desta atividade dirigida por projetos, ela permite e forja, de algum modo, o próprio desenvolvimento. Isto é o que, ao fim, constitui a técnica, a tecnologia, a produção científica, enfim. E isto é parte determinante da nossa história .Mesmo as pessoas que, decepcionadas com a humanidade, ou entendendo melhor o mundo dos animais, suas linguagens e formas de vida, questionam a nossa excepcionalidade, não podem negar a distinção absolutamente radical nestes aspectos. Na cultura em geral, ou, pelo menos naquela em que eu me formei, uma forma extremamente dominante de lidar com esta excepcionalidade humana está nas ideologias religiosas. As ideologias religiosas terão, em geral, um mito de origem. Haveria alguma força, alguma origem, alguma determinação superior, talvez, exatamente, alguém que planejou, que projetou, de um modo ou de outro, a nossa excepcionalidade, da nossa espécie, ou ao menos daquela tribo ou nação de cada religião. Esta determinação seria a fonte da nossa diferença em relação às outras espécies de animais e, até, em relação à natureza em geral. Não é meu objetivo agora analisar as ideologias religiosas, seja das religiões dominantes na minha cultura, seja de religiões em geral. Mas quis destacar aqui bastante claramente esta diferença radical entre esta ideologia religiosa e o reconhecimento objetivo da nossa distinção em relação aos seres naturais em geral. Somos distintos pelas características da nossa atividade produtiva, pelo desenvolvimento tecnológico da produção, do qual é indistinguível o desenvolvimento da linguagem em geral, da linguagem escrita e da matemática, em especial, assim como dos outros sistemas de codificação da informação e de comunicação, ao longo da nossa história. Alguns diriam que somos diferentes por termos rompido com as formas naturais de sexualidade e reprodução, resultando no desenvolvimento da família. Não é possível questionar a importância central da formação e desenvolvimento da estrutura social, decisiva, da família. Mas não é possível ignorar a adequação da estrutura familiar a certas condições de produção e reprodução da vida humana que não são, elas mesmas, o nosso natural, ou originário. A família, tudo indica, se desenvolveu em conjuto e em consonância com as bases da produção agrícola e artesanal, nas origens da nossa história atual. Algo que é constumeiramente datado por volta de 20 a 10 mil anos atrás. Ainda que não seja possível reduzir toda a complexidade psicossocial da família, dos diversos modelos de família, ao desenvolvimento do sistema produtivo, mas também não é possível dissocia-la completamente deste processo histórico de desenvolvimento. A família, algum modelo de família, especialmente, é sempre um valor ideológico alto e vamos considerar isto em outro momento. Agora nosso objetivo é apenas contestar a sustentação da família como fundante da própria humanidade. Esta é uma formulação ideológica extremamente forte, com um valor absoluto, e é, por isto mesmo, parte integral das ideologias religiosas, morais e politicas, em geral. Mas, isto não é verdadeiro. A família não é a estrutura fundante da excepcionalidade humana. Não, para nós, esta excepcionalidade está na nossa própria atividade vital, no nosso trabalho coletivo e na transformação das nossas próprias vidas, com a transformação das nossas condições de vida. São as características desta atividade que criam uma história humana, e, nesta história, uma perspectiva de desenvolvimento. Diferentes formas de organização da sexualidade e da reprodução da vida dos indivíduos se criam, se estabelecem e se transformam também, neste longo processo histórico. Sabemos disto. A nossa excepcionalidade não é, por origem, espiritual, racional, moral, religiosa ou devida a uma ética da família, ainda que nada disto seja desprezível, ao contrário. Ela é devida ao nosso processo produtivo coletivo que, por suas próprias características, se torna um processo histórico auto produtivo. Nós transformamos e criamos, enfim, as condições em que vivemos, de tal modo que, por todos os meios e em todas as dimensões, transformamos e criamos a nós mesmos, coletivamente. Podemos dizer que criamos a nós mesmos pelo tanto que transformamos as nossas condições de vida e estabelecemos bases para formas tão diferentes de vida humana, com um encadeamento histórico progressivamente mais forte, ainda que a nossa base genética e, portanto, os nossos corpos e seus limites vitais, sigam os mesmos. Algo que, talvez, a emergência da genética dos autismos já esteja a questionar. Até a nossa genética estaria modificando-se em função do nosso desenvolvimento tecnológico e das transformações no modo de vida humana, em geral. É, às vezes, um tanto vertiginosa esta forma de auto reconhecimento que projeta um sem fim e sem limites para o ser humano. Tudo se transforma e tudo se modifica, nenhuma base ou estrutura é sólida o bastante para nos limitar, absolutamente. Nenhuma razão superior, nenhuma fórmula ética, nenhum princípio moral, nenhum padrão ou ideal de família, de sociedade, de economia, ou algo assim. Até mesmo a nossa estrutura vital mais fundamental pode estar sendo modificada, já, pelo nosso desenvolvimento tecnológico e, de um certo modo, isto me parece ser realmente inevitável, pelo nível de transformação das nossas condições objetivas de trabalho, comunicação e vida, em geral, que esta transformação tecnológica já realizou e segue realizando, cada vez mais intensamente. Certamente é em busca de segurança e estabilidade que se estatuem, com pretensões absolutas, aos princípios morais, às fórmulas éticas e aos ideais, em geral. A família, a moral, a ética, são para sempre. Talvez, mas não certamente não esta ética, esta moral, esta família, estas religiões, não, tudo isto vai perecer e se modificar no tempo, como tudo o que veio antes, neste sentido. Ainda assim, somos seres morais e projetamos nossas ações, em geral, com graus diferentes de consciência e controle, também no plano ético. Tomamos em consideração, realizamos, de qualquer modo, juízos éticos e decisões morais em cada uma das nossas atividades. Cada ação nossa, considerada no tempo, é uma escolha entre alternativas morais. Poderíamos, em geral, fazer alguma outra coisa, mesmo nas condições mais restritas de vida. Fazemos escolhas, sempre, que envolvem a nossa vida individual e os coletivos imediatos e mediatos em que estamos envolvidos. Este é o sentido moral ineliminável das escolhas e da ações humanas. Nas ações cotidianas mesmo, continuamente, fazemos escolhas morais definidoras, firmamos condutas e padrões de comportamento, de relacionamentos e de modos de viver em geral. Não há como escapar disto, seja com qual grau de consciência e liberdade que fazemos estas escolhas, o fato é que fazemos. E também é fato que faremos estas escolhas no corpo do processo coletivo, dentro dele e com as condições e meios coletivamente desenvolvidos e reproduzidos. Limitados, portanto, às questões que o coletivo, naquele tempo histórico, tem diante de si e com as respostas coletivas possíveis , por mais únicos que cada um de nós seja. Ao nos colocarmos as questões cotidianas, em todas as dimensões da nossa vida, de alguma maneira, estamos simultaneamente no plano individual extremo, dos nossos interesses mais egoístas, assim como no plano dos interesses coletivos, dos grupos mais imediatos, em que vivemos diretamente nossas relações e realizamos nossas atividades, até os coletivos mais gerais e éticos, políticos, religiosos, sendo a própria humanidade como um todo, ou alguma forma de universalidade humana ideal, o ponto máximo ou extremo neste sentido. Então, ao agir, em cada ato, seja ele grandioso e disruptivo, ou um ato pequeno e repetitivo de nosso cotidiano, nós escolhemos o modo de ser humano, de nós mesmos, dos grupos a que nós temos e ao modo de ser humano em geral. Na prática. Somos nós e apenas nós que reproduzimos tudo isto que está aí, da forma em que está. A responsabilidade não pode ser de mais ninguém. É, inexoravelmente, de cada um de nós. E é por isso que somos seres morais, sem escapatória. A escolha moral é, de algum modo, como atividade humana, regida por fins, por projetos. Projetos, neste caso, de nós mesmos, de nossa dignidade, de nosso proceder, do nosso relacionamento, do nosso conviver, da nossa família, da nossa sociedade, do nosso mundo, do nosso ser humano. Então, inexoravelmente, também, teremos projeções ideais nestes âmbitos a reger as nossas escolhas morais e ações. Devemos reconhecê-las, devemos trazê-las à consciência, devemos submetê-las à crítica racional e empírica, como fazemos com tudo o mais que projetamos e realizamos. Mas, aqui, isto parece completamente impossível, como avaliar racional e empiricamente os efeitos, os resultados mais profundos, das diversas ideologias que competem, por exemplo, sobre os padrões de sexualidade e os modelos de família ou das relações de trabalho e distribuição de riqueza e poder nas sociedades? E, pior ainda, como avaliar isto dentro do caos geral das vidas cotidianas, da luta pela vida, pelo bem estar, pelo reconhecimento, pela riqueza ou pelo poder, do dia a dia? É difícil, mas a gente opera estas avaliações, de modo mais ou menos consciente, em cada escolha diária nossa. E cada sociedade e até a humanidade como um todo, escolhe a si mesma, decide seu rumo, deste modo, pelas escolhas reiteradas de cada um de nós, dentro das condições materiais do seu tempo. E, com grande dificuldade e contradição, a humanidade evoluiu neste caminho, ou seja, se desenvolve também, positivamente, neste sentido, no longo curso da nossa história. Devemos considerar, ao avaliar cada projeção ideal que, de algum modo, determina e direciona nossas escolhas, como ela se insere nesta cadeia histórica e na escala das projeções. Tudo tem uma história pretérita, que deve ser reconhecida e avaliada criticamente, e tudo terá uma história adiante, cada projeção ideal estará, necessariamente, se vier a se realizar, em uma sequencia histórica real, que deve ser previamente compreendida e bem estabelecida na própria idealidade, como projeto. Devemos nos esforçar ao máximo, portanto, para identificar quais os ideais ou princípios que podem ou devem nortear as nossas escolhas morais e as relações pessoais e coletivas, em geral, na sua sequência de realização possível. Com certeza alguns ideais são realizáveis no presente e em um futuro próximo e como caminho ou trajeto para aquelas que somente podem se projetar para tempos muito mais longos, até se perdendo, de fato, na bruma de tempos indetermináveis adiante. Entender isto e estabelecer as ordens de realização possíveis e, portanto, as alternativas reais do presente e do futuro próximo em consonância com os melhores ideais ou projeções futuras, distantes. É preciso entender que muitas vezes haverá grande contradição aparente entre caminho e meta ideal, mas devemos estar preparados para isto e nunca podemos nos render neste ponto ao idealismo. Por exemplo, num mundo sob a realidade e o risco de violência e abuso entre nações, aquela que mais busca a paz, que mais afirma a paz terá, talvez, que se armar muito fortemente o suficiente para não ser dominada ou destruída. É assim hoje, sabemos disto. Outro aspecto fundamental, de máxima importância, que também se refere ao processo de estabelecimento e realização de idealidades éticas ou morais, é o fato que apenas podemos ter certos ideais devidamente compreendidos e as suas projeções postas como objetos e metas de projetos em uma escala realizável, não apenas como idealidade ou fantasia mitológica ou racional,, quando a sua maturação histórica atingir certo nível. A questão mais imediata da ideologia ética em geral, a universalidade humana como crfitério e verdadeiro lócus de decisão e atuação moral, só pode de fato ser entendida e tomada como objeto e objetivo, real e não fantasioso e ilusório, na medida em que a própria humanidade se desenvolve objetivamente como uma universalidade real, uma sociedade humana universal, constituída na integração da produção e no intercâmbio humano em todas as dimensões a nível mundial, de fato. Este é, portanto, como se poderia mesmo esperar, pelas características fundantes do nosso ser, um processo em que o desenvolvimento objetivo e a construção ideológica das escolhas morais se fazem um ao outro, no curso da nossa história, sempre, lembro, com grandes contradições e idas e vindas, mas, ao que parece, com este sentido de desenvolvimento, no longo curso de nossa história.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

A CRISE ATUAL E A QUESTÃO IDEOLÓGICA DO SISTEMA: CAPITALISMO X SOCIALISMO?

Um outro efeito secundário das recentes ações agressivas do governo dos EUA sobre a economia mundial, se apresenta no rompimento com as regras e o norte ideológico estabelecidos por eles mesmos, desde a fundação da ordem contemporânea global, no fim da segunda guerra mundial e ainda mais, com a onda neoliberal de globalização. As regras do sistema e o seu sentido liberalizante foram colocadas em questão, ou melhor, foram diretamente negadas pelo governo dos bilionários nos EUA. Aqueles que mais propugnaram por estas regras e idéias liberalizantes e que deveriam ser os maiores defensores desta ordem, agora, são justamente os que mais diretamente a confrontam e negam. Isto estava presente, mais ou menos explicitamente, em tudo o que tenho escrito desde o início desta crise das tarifas de importação dos EUA, ou melhor, desde o início das guerras da Ucrânia e de Gaza . Mas, este aspecto merece um destaque à parte, porque suas consequências interessam em especial a um debate ideológico ainda crucial em nosso tempo e que permanecerá assim no futuro próximo, ainda mais e mais acentuadamente. Não é possível negar a força, o impacto ideológico de uma mudança de postura tão grande. A concepção que separa o estado do mercado, a política do business, tão cara a toda a ideologia liberal e democrática, é frontalmente negada pelas ações do governo dos EUA, o antigo campeão mundial da ideologia capitalista e democrática. Para entender mais esta contradição aguda da situação atual, devemos, como sempre, buscar as suas causas, para além da superficialidade das impressões emocionais ou pessoais que, no fundo nada explicam. Isto não se deve a uma natureza autocrática, neofacista, do governo atual dos EUA, ainda que ele tenha esta característica, em comum com um grande número de movimentos e líderes políticos neofacistas de vários países no mundo atual. Certamente, é de se esperar algo deste padrão no bojo das grandes crises econômicas: as regras são contestadas pelo poder e as farsas ideológicas e políticas são dispensadas quando se torna necessário agir no limite, o poder se exerce de qualquer jeito, sem máscaras. Para o governo dos EUA a crise se apresenta, agora, na forma do dilema do duplo déficit, o governo gasta mais do que arrecada e o país compra mais do que vende, e isto não para de crescer, aceleradamente. Esta é a razão e a justificativa para as ações excepcionais do governo. Um estado emergencial devido ao nível gigantesco e à velocidade acelerada de crescimento do duplo déficit na economia americana. Mas esta crise atual vem de antes, de longo período, já, de quase 20 anos de crise econômica, com dificuldades disseminando-se na economia mundial, em vários pontos, desde então, resultando em níveis mais baixos de crescimento econômico e com a presença de pícos recessivos, apesar dos momentos de retomada e bons ganhos nos mercados. A crise do duplo déficit dos EUA se entende mais facilmente neste contexto de uma grande crise de realização generalizada, mas ainda bem controlada com o lançamento episódico de trilhões e trilhões de dólares nas economias pelos governos, mundo afora, desde 2008. Como eu tenho insistido, sempre, a origem principal desta crise está na extrema desigualdade na distribuição da riqueza social, que se atingiu ao fim da onda neoliberal iniciada nos anos 1980. e só será realmente resolvida com a sua reversão. Até por isto mesmo, o impacto ideológico das últimas ações do governo estadunidense é de grande importância e se reverterá em mais um efeito secundário importante para a superação da onda neoliberal por uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial. Todo o mundo de defensores do sistema capitalista, até mesmo os seus ideólogos mais recalcitrantes, são forçados a reconhecer que a forte intervenção estatal nos mercados pode ser e é requerida, conforme as condições de momento da economia, do sistema. Nessas condições ninguém pode continuar, facilmente, nutrindo ilusões de que os mercados são realmente autoreguláveis e autoregulados e que esta seria, senão a realidade, pelo menos o norte ideológico, o ideal do qual deveríamos sempre nos aproximar. Esta fantasia absurdamente dissociada da realidade histórica é, no entanto, parte fundamental da alma, do núcleo da ideologia capitalista. Segundo esta ideologia o estado não pode interferir nas regras próprias do mercado, elas devem atuar e se desenvolver livremente, pelos próprios mecanismos do mercado e, nem muito menos o estado deve atuar diretamente empreendendo no mercado. Esta ideologia tem vitalidade real e continuará a ter, de algum modo, sempre enquanto persistirmos no sistema capitalista. Temos que trata-la em sua contraditoriedade real, pois é certo que em diversos momentos liberalizantes em diversas economias nacionais e, de um modo geral, no sistema capitalista mundial, a economia floresceu, digamos assim. Mas, talvez, não mais do que nos períodos socializantes, dentro deste mesmo sistema capitalista mundial. Independente disto, o fato é que a ideologia capitalista liberal sofreu um forte revés quando os seus principais representantes, os bilionários no governo nos EUA, são obrigados a agir da forma mais intervencionista e protecionista, destruindo, com a força da realidade, toda a infinidade de páginas escritas e vídeos gravados pelos defensores do "livre mercado". Temos que lidar de fato com a contradição real de que o livre mercado não é e é necessário atualmente. Sim, seria tolo tentar ignorar, de qualquer modo, que a maior economia de mercado emergente, a grande potência capítalista emergente no mundo, é a China socialista. A contradição evidente nos termos é um enigma real para todos nós. E com certeza para a China também. Eles têm, no entanto, conseguido dar as respostas certas, de maneira inquestionavelmente brilhante, acertadas de modo muito além do que é, ou, era, comum, em toda a história do sistema capitalista mundial, com certeza. Talvez o único evento similar tenha sido a ascensão da produção, riqueza e do padrão de vida social nos EUA e nos países ricos da Europa, ao longo do período socializante, de grande redistribuição da riqueza social, do início dos anos 1950 até o fim dos anos 1970. Mas, o impacto do desenvolvimento Chinês atual já se mostra muito maior, até porque estamos em um nível tecnológico acima, mas, principalmente, porque o salto de desenvolvimento social foi mais intenso e a duração e constância deste avanço na China já é muito maior e continua avançando. E, não se pode negar, não é um avanço do capitalismo como se conheceu no sistema até agora. Tem muita coisa diferente no sistema econômico chinês. Diferente e melhor, cada vez menos gente consegue teimar contra isto. Não vou entrar em detalhes sobre este ponto agora. Queria apenas destacar que houve mais um ganho da ideologia socialista, socializante, de qualquer modo, sobre a ideologia liberal, quando os maiores heróis desta ideologia são obrigados a rasgar os véus da fantasia e investir contra a pretensão de uma liberdade absoluta dos mercados. O contraponto disto também é paradoxal, contraditório também, como toda a realidade. É o fato que a maior força de defesa do mercado e das liberdades de comércio e investimento no mundo se tornou a China socialista, onde, certamente, não impera a liberdade absoluta dos mercados, dos capitalistas, do comércio e dos investimentos, não impera o modelo liberal capitalista e nem o modelo social democrático. A China encontrou um modelo que mantém o controle estratégico e financeiro do sistema no setor público. Até agora é assim. E, com base nos seus planos, o estado é um ator mais ou menos presente em todos os setores da economia, que, no entanto, persiste como economia de livre mercado, dentro dos limites e sob o direcionamento da atuação estratégica do estado. E realmente poucos podem contestar que está funcionando bem assim, muito melhor que todos os outros modelos até agora implementados nas mais diversas economias nacionais, do mundo todo, em nossa história recente, pelo menos. Vai ser muito mais difícil sustentar as ideologias capitalistas liberais agora, diante da sua negação pelos seus próprios heróis, coagidos pela crise, e da grande vitória da China, socialista, no cenário mundial. E isto também é bastante compatível com o fato que estamos já no ápice da crise de fim da onda neoliberal e que iremos, já estamos indo, para uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial.

terça-feira, 13 de maio de 2025

A CRISE DE REALIZAÇÃO GENERALIZADA, A NOVA ONDA SOCIALIZANTE, O MUNDO BIPOLAR E A POSIÇÃO DO BRASIL

A avaliação de que estamos em uma crise de realização na economia mundial desde em 2007 no sistema capitalista mundial está embasada na identificação que foi aí que começou um processo depressivo na economia mundial que resultou em uma recessão global, ou seja, em taxa de crescimento negativo, abaixo de zero, da economia mundial. É claro que esta variação é muito dependente da variação na economia dos EUA, que ainda é, ou era, a maior economia nacional do mundo. Foi a primeira vez que isto ocorreu desde o fim da segunda guerra mundial. E abriu-se aí um período de níveis menores de crescimento, em grandes centros da economia mundial, com a propensão para novas crises e picos recessivos no sistema. Isto tudo é bastante coerente com um período longo de crise de realização generalizada, o que é, por sua vez, também bastante coerente com, deve mesmo resultar de, um período, longo, de intensa concentração da riqueza social. E foi justamente isto o que aconteceu, ao fim, na onda neoliberal, pelo nível extremo de concentração a que chegou-se, já em 2007, e que veio se acentuando em pontos centrais do sistema, tanto nos EUA, como na Europa, por exemplo. Os recursos de trilhões de dólares, lançados pelos diversos governos, especialmente nos próprios EUA e Europa, mitigaram os efeitos desta grande crise, até agora. Mas, claramente não foram suficientes para afastar completamente as crises da economia, apesar de bons períodos de retomadas de crescimento da produção, mercados e bolsas. Isto é justamente a condição da crise mitigada pelos recursos anticíclicos, de socorro financeiro e social em que nos encontramos agora. E ainda bem que é assim e não mais no padrão que foi na primeira metade do século passado. Mas, estamos em uma situação cada vez mais difícil e será ainda assim, enquanto não for radicalmente revertida a tendência de concentração da riqueza nestes grandes centros da economia mundial. Parece claro que isto já está em curso na China, desde 2014 os dados indicam, pelo menos, o fim da onda de crescimento da desigualdade econômica lá. A paralização e reversão do crescimento da concentração de riquezas Isto terá que ocorrer, também e rapidamente, nos EUA e na Europa e mundo afora, na verdade. E irá ocorrer, nos próximos anos e décadas. Ainda que a gente passe por grandes crises e até mesmo maiores guerras, isto irá acontecer, pois é a necessidade do sistema, o que se representa, de modo realista, eu creio, pela imagem de que após uma onda liberal segue-se uma onda socializante no sistema econômico capitalista mundial, ou, pelo menos, dentro das economias nacionais centrais do sistema, ou, dito de outro modo, após uma onda de concentração de riqueza, segue-se uma de redistribuição da riqueza no sistema, necessariamente. E iremos, a seguir, já estamos, é verdade, indo numa nova onda socializante, na medida mesma em que a onda neoliberal está acabando, nesta sucessão de crises. As necessidades do sistema econômico mundial se impõem, de certo modo, cada vez mais, sobre quaisquer particularidades e peculiaridades locais e nacionais. Isto é, e será progressivamente uma contradição a ser superada. Temos cada vez mais, um sistema econômico mundial, fundado, no entanto, em economias nacionais, atreladas a unidades políticas nacionais legalmente autônomas e independentes. Esta independência é falsa e, progressivamente, mais falsa na medida em que avança a integração produtiva e financeira, científica e tecnológica global, em que avança a globalização. E este avanço é necessário, não se pode, no limite, na lógica própria do sistema econômico capitalista mundial, e a ainda menos de um sistema socialista, parar a globalização. Ela é necessária e positiva e todos a desejamos. Mas, a economia fundada em estados nações se acomoda e se contrapõe a este sistema global. Em momentos críticos esta contraposição vai aparecer mais explícita e dramática. É o exemplo claro do tarifaço e, na verdade, de toda a doutrina do governo atual dos EUA. Como dizem na roça, farinha pouca, o meu pirão primeiro, no limite do confronto por dinheiro ou poder, realmente, acaba toda a gentileza. É, contudo, apenas como força desvanecente que as economias nacionais se impõem, a globalização é necessária e inevitável ao sistema capitalista e, de um modo mais profundo, à própria produção humana. A integração da produção e das finanças no mundo prosseguirá, contra qualquer barreira artificial e momentânea que qualquer economia nacional possa antepor a este desenvolvimento. Mas, no tempo histórico o momentâneo pode durar muito tempo para uma vida pessoal, isto sempre é bom ter em mente. E o fato histórico mais evidente no momento é que temos e teremos, ainda, um período relativamente longo. diante de nós, em que o sistema econômico capitalista mundial estará completamente polarizado pelas duas grandes potências atuais, duas economias nacionais tão preponderantes que, realmente se destacam muito em relação aos outros. Para exemplificar, hoje, os EUA têm 28% do patrimônio de todas as empresas listadas em bolsas, globalmente, enquanto a China representa 40% da produção industrial global. É uma condição de polarização forte e decisiva, pois está em jogo aí, não apenas e nem principalmente, a hegemonia no sistema mundial, mas também o próprio modelo, forma ou destino do sistema. A vitória da China é uma expressão da vitória do socialismo, por mais que se conteste este fato. Em dois aspectos centrais isto deve se demonstrar, na integração da economia mundial e no seu redirecionamento para necessidades populares, logo, maior coordenação da produção e distribuição da riqueza. Na realidade estamos saindo de um mundo efetivamente unipolar, um mundo em que o predomínio econômico e militar da aliança em torno dos EUA era realmente incontestável, ainda que este poder real se fizesse, também, pelo recurso aos e desenvolvimento dos mecanismos e instituições multilaterais. Não é de se estranhar que, apenas iniciada a grande crise atual, no final da primeira década deste século, os EUA e alguns de seus principais aliados progressivamente se afastaram destes mecanismos e instituições multilaterais e passaram a afirmar um nacionalismo crescente e crescentemente contraditório com o sistema mundial globalizado, tentando afirmar um poder que, efetivamente, já não têm. Estamos, realmente, saindo do mundo com predomínio unipolar e entrando em um sistema de predomínio bipolar. Uma transição longa se dará, por meio de um processo de polarização de dois subsistemas de predomínio, em todos os campos estratégicos no mundo. O predomínio dos EUA e seus aliados diretos deverá ser progressivamente desinflado e, correlativamente, o predomínio da China e seus aliados, deverá se ampliar progressivamente, em todos os campos estratégicos, repito, por um bom tempo adiante. Tomemos, por exemplo, as gravíssimas questões do predomino sobre a internet e as tecnologias de informação em geral e no campo militar. Em todos estes aspectos a hegemonia da aliança estadunidense perde realidade objetiva a cada dia, mas ainda vivemos num mundo com grande domínio dos EUA e aliados nestas duas áreas e assim será nos próximos, longos, anos. Não é difícil antever a gravidade destas transições estratégicas e os grandes riscos que elas trazem. Mas também parece claro que não é possível deter esta transição e que ela é realmente muito positiva para a humanidade. Também não é possível a ninguém, a nenhum país, a nenhuma economia nacional, minimamente relevante no mundo, ficar realmente neutra ou pretender ter uma posição realmente autônoma nesta bipolarização do sistema mundial. Ao contrário, diante de todas as questões estratégicas no mundo, hoje, já, e progressivamente mais, vamos ter que escolher entre um lado ou outro, inevitavelmente. Como sempre, este intenso processo de transformação histórica também se dá e se dará por meio de agudas contradições. De fato, as economias da China e dos EUA são, hoje, muito integradas e complementares e isto não tem como ser eliminado na prática. Ainda bem. Quanto mais as economias nacionais se integrarem nos sistemas mundiais de produção e distribuição, melhor para o desenvolvimento geral economia, da humanidade, em geral, e menor a chance das grandes guerras internacionais que ainda hoje nos assombram tão terrivelmente. Então, certamente o mais inteligente para todos nós, para cada país minimamente relevante, para o Brasil, sobretudo, o mais inteligente é jogar na integração mundial geral, realmente globalizante e globalista, no sentido econômico de maior e melhor coordenação da economia mundial e, quando as decisões antagônicas tiverem que ser feitas, e terão sempre, de certo modo, cada vez mais, que serem feitas, que a gente se alie ao lado de maior progresso para a própria integração mundial, planejamento e coordenação da produção mundial e melhor distribuição da riqueza e do poder social. Na verdade não há outro caminho, no sentido histórico mais amplo e, no momento histórico atual e nos anos e décadas seguintes, é realmente esta a onda que prevalecerá. Quanto mais cedo e mais decididamente estivermos neste caminho, neste sentido ou neste lado, acertado, melhor será para nós aqui no Brasil e para a humanidade em geral.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

CHINA E EUA CHEGARAM A UM ACORDO TARIFÁRIO. O QUE ISTO SIGNIFICA?

Os EUA e a China chegaram a um acordo, uma trégua relativa, dentro da guerra tarifária lançada pelo governo dos EUA, semanas atrás. As tarifas elevadas a níveis absurdos, espetaculares, foram rebaixadas, para 30% sobre os produtos chineses e 10% sobre os produtos estadunidenses, por um período de 90 dias. Desde o início do tarifaço dos EUA houve, sem dúvida, alguma quebra de cadeias de comércio e produção, especialmente entre a China e os EUA. Ainda que o acordo atual ponha um fim nestas quebras, provocadas pelas tarifas extremas, e limite e controle os seus efeitos, o fato é que alguma quebra já ocorreu. No fim, restará, ainda, na verdade, um importante aumento das tarifas de importação dos EUA, impondo um freio nas exportações do mundo para lá e as exportações da China continuarão a ser as mais atngidas, mesmo com a dramática redução de tarifas a que, enfim, se chegou no acordo de ontem. O que acxonteceu neste acordo com a China se repetirá em todos os outros acordos bilaterais que serão feitos pelos EUA ,na sequência. Vai sempre restar um aumento de tarifas bem grande para as importações dos EUA.. Este movimento todo me parece, agora, ter realmente uma estratégia bem executada e não ser apenas um improviso totalmente estúpido. O governo dos EUA reconheceu o duplo déficit, já gigantesco e aceleradamente crescente, das contas públicas e das contas correntes, como uma condição limítrofe, emergencial. Creio que eles estão certos nisso. E resolveu corrigir, o mais rapidamente possível, a trajetória insustentável do crecimento da dívida pública e do déficit comercial. Mas, de forma rápida e com intensidade, isto só pode ser atingido de um modo drástico e trágico, sob muitos aspectos. Para ser simples, tem que cortar fortemente nos gastos públicos e reduzir o consumo popular também fortemente, de modo a reduzir o duplo déficit rápida e intensamente. Estes são justamente os objetivos econômicos imediatos mais importtantess do governo estadunidense e realmente eles estão buscando realizar o necessário para atingi-los. No que toca ao déficit comercial, é óbvio que não é possível aumentar rápida e intensamente as exportações dos EUA no nível necessário para realmente diminuir o déficit. Resta apenas reduzir as importações para o consumo e para a produção. Todo o estardalhaço das blitze tarifárias do governo dos EUA serviu como estratégia para diminuir o impacto emocional do grande aumento das tarifas que, ao fim, ainda persitirá e serviu, também, para provocar um momento circunstanciado de queda extrema, drástica, das importações dos EUA. Tudo isto leva à redução do déficit, é verdade, mas ninguém pode negar o impacto recessivo e inflacionário destas medidas. Enfim, para reduzir o consumo popular, estas são medidas "acertadas". No mesmo sentido e de modo complementar, também estão sendo cortados gastos públcos nos mais diversos serviços e mecanismos de transferência de renda. Obviamente, isto não pode ser atingindo sem um custo social alto, incidindo sobre uma população que já se encontra empobrecida e insatisfeita. Veremos como isto vai se desenrolar na luta social dentro dos próprios EUA. Preciso reiterar que tudo isto corresponde à condição de crise de realização generalizada que acomete a economia dos EUA e do mundo, desde 2007, provocada pelo aumento extremo da concentração de riquezas, que veio ocorrendo desde 1980. A crise está mitigada pelos trilhões de dólares injetados pelos governos na economia, desde então. Mas, agora, como a situação da Europa e dos EUA demonstra, os recursos anticíclicos estão se esgotando. Não haverá solução real da crise sem se resolver suas causas centrais: a extrema concentração de riquezas e a baixa qualidade da coordenação da produção em geral, no interior dos diversos países e no plano global. Não sairemos, de fato, da crise sem uma inversão drástica nas tendências de concentração de renda que dominaram as mais diversas economias nacionais nas últimas décadas e sem um novo salto real no planejamento e organização das economias, em cada país e no mundo, ou seja, sem uma nova etapa de redistribuição de riquezas e de avanço na coordenação da economia mundial. Entendo que estes avanços, ao fim, serão atingidos, de um jeito ou de outro, nos próximos anos e décadas. ainda que sob condições de intensa contradição e disputa, crises sociais e guerras internacionais. Posso identificar esta tendência determinante até mesmo dentro da ação extremamente contrária do governo dos EUA. Em seus resultados secundários, por exemplo. Um resultado secundário do aumento generalizado das tarifas de importação dos EUA e da estratégia agressiva e espalhafatosa com que ele foi feito, já se manifesta claramente e é muito positivo para a humanidade: a importância e o papel real da China socialista no mundo aumentou sensivelmente, desde então. A intensidade e a velocidade dos acordos multilaterais e do avanço das redes de logística e infraestrutura produtiva que estão se desenvolvendo à margem dos EUA, tendo a China como o principal pilar estratégico e motor econômico, ampliou-se fortemente nos últimos dias e seguirá se ampliando nos anos e décadas seguintes. Parece que no curso das conversas para o estabelecimento do acordo comercial entre a China e os EUA, no fim de semana, chegamos a um outro resultado, secundário e positivo, desta postura econômica e estratégica atual do governo dos EUA, rompendo com os fóruns multilaterais. Parece que se criou ali um embrião de um fórum permanente, ou pelo menos duradouro, de negociação e coordenação econômica estratégica entre a China e os EUA. A impressão que isto me dá é tão positiva que eu creio que um fórum assim, se realmente efetivo, nos livra do risco real de grandes guerras abertas, catastróficas, entre as maiores potências mundiais. Muitas pessoas, presas à alguma ilusão ideológica, devem discordar disto. Elas questionariam como é que um fórum entre China e EUA pode se dar à margem das organizações multilaterais, se superimpondo a elas? O fato é que estas organizações multilatererais são realmente limitadas diante das grandes potências mundiais. Um aspecto dos atos de força dos EUA é trazer a realpolitik, a poltica dos poderosos, para a cena, retirando-a dos bastidores. Quem não é iludido sabe que a política dos poderosos sempre termina se impondo, de um modo ou outro, seja no plano econômico, seja no plano geopolíitico, a democracia política e os órgãos de gestão internacionais se mostram frágeis diante destes poderes, que, ao fim, se sintetizam no poderio econômico, tecnológico e científico, determinante tanto no campo financeiro quanto no militar. Isto é uma verdade inegável, assim como é verdade inegável que viveremos em um mundo polarizado entre estas duas grandes potências por um bom tempo adiante. Logo, é muito positivo que elas tenham um canal aberto, um embrião, um balão de ensaio, que seja, de um fórum de coordenação estratégica das suas economias. Um fórum assim. pode constituir um ponto de apoio no salto em direção à melhor coordenação da produção mundial sem detrimento do desenvolvimento das organizações e acordos multilaterais, que é inclusive, um dos enfoque estratégicos principais da China. Isto diminuirá bastante o risco das grandes guerras, a principal ameaça autodestrutiva para a civilização, e que, por outro lado aumenta continuamente, com o aumento do risco das grandes crises recessivas na economia mundial, enquanto não se inverter a tendência à concentração das riquezas e enquanto não se promover uma efetiva redistribuição de riqueza, nos EUA e no mundo em geral.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

A NATUREZA DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL ATUAL

Parece mais do que razoável que a economia capitalista, chegada a um nível extremo de desigualdade na distribuição da riqueza, enfrente condições cada vez mais difíceis de realização, quando, como se pode dizer, a economia não gira, ou gira, mas cada vez com maior dificuldade. O fato é que o mercado de consumo popular realmente importa muito para a realização dos empreendimentos capitalistas, em geral. O capitalismo é uma economia de massas, produção em massa e também, necessariamente, consumo de massas. Há aqui uma das contradições internas do sistema capitalista, ele promove, naturalmente, a concentração das riquezas, ilimitadamente, mas depende do consumo das massas. Precisa de dinheiro novo, livre, na mão das massas, para girar a roda dos investimentos e do desenvolvimento da produção. Mas, a lógica própria do capitalismo liberal, pelo mecanismo real dos mercados, leva a uma concentração progressiva e ilimitada da riqueza social. Isto a história comprovou mais uma vez, agora, com a onda neoliberal. E também se comopovou novamente que, chegado a um certo nível desta concentração da riqueza, a economia capitalista começa a ratiar, começa a entrar em crise, ou em sucessões de crises. São crises de realização do capital, mais ou menos, generalizadas. Elas realmente existem e são realmente inevitáveis na economia capitalista liberal. Nós atingimos, nas últimas décadas, níveis extremamente altos de concentração de riquezas, os máximos históricos desde que se começaram a mensurar estes dados, nas mais diversas economias nacionais e, principalmente, nas maiores economias do mundo. Na história recente os níveis de concentração da riqueza social nestas economias começaram a cair nos anos 40 e atingiram os seus mínimos, por volta dos anos 70 do século passado, passando a subir, novamente, desde o início dos anos 80. Foi a onda neoliberal que está, justamente, se encerrando agora, em crises sucessivas, desde 2007. A economia não gira mais com facilidade, as crises se sobrepõem, intercaladas com períodos de bonança e até bom desenvolvimento, promovidos pela injeção, na economia mundial, de recursos públicos anticíclicos e de proteção e promoção social abundantes, da ordem de algumas dezenas de trilhões de dólares. Mas, a crise continua aí. Retorna mordendo os calcanhares. Nestas condições, medidas extremas, pouco eficazes e muitas vezes francamente estúpidas e prejudiciais, incluindo quarentenas generalizadas por tempo indefinido, guerras tarifárias e guerras reais, são e vão ser mais aceitáveis e realmente implementadas, provocando novos momentos recessivos e grandes perdas reais na economia, em geral, e nos recursos para as massas, em especial. Com isto, a crise se aprofunda. E, agora, os recursos anticíclicos estão se esgotando., o endividamento público atingiu níveis difíceis de sustentar, na ordem atual. Na verdade, a solução liberal para a crise seria simplesmente deixa-la acontecer. Ela seria a cura, por si própria, dos desvios e dos vícios presentes na economia Isto tem lá a sua verdade. Mas o custo humano, social, disto é alto demais. No século passado foram mais de 150 milhões de pessoas mortas diretamente nos eventos associados às crises econômicas de então, que tinham o mesmo caráter das atuais E nas condições atuais o risco destrutivo é ainda muito mais extremo. Não é de se estranhar que estejamos vendo se repetir agora a estratégia liberal de enfrentamento final da crise, antes das grandes guerras reais: a guerra tarifária. Foi assim na virada do século XIX para o XX e se repete agora. A referência do governo atual dos EUA às medidas daquela época é explícita. Eles não sabem quais foram as consequências disto no século passado? Sabem, mas não têm outra saída. Porque só há uma saída real para esta crise extrema da economia capitalista liberal atual. A saída para esta crise da extrema concentração de riquezas é, obviamente, a sua reversão. A negação real e profunda da doutrina liberal. De fato, eles aceitam a guerra com muito mais naturalidade e facilidade do que aceitam a redistribuição da riqueza. Mas, não é de guerra que o mundo está precisando e não é com guerra que a gente vai sair da crise, é com a redistribuição da riqueza. Em todo o mundo o padrão de consumo das massas está achatado, comprimido. No terceiro mundo, ainda hoje, persistem as condições de vida tantas vezes subhmanas, condições de pobreza e indignidade extremas e no mundo rico as condições de vida das massas em geral só pioraram nas últimas décadas. Agora vamos começar a reverter tudo isto, de novo, como foi no século passado, a partir dos anos 30 e principalmente pós 1945. Parece que isto caracteriza um movimento ondular no processo histórico do sistema econômico capítalista mundial, onde tivemos e vamos ter, ainda adiante, ondas sucessivas de liberalização e de socialização. Correspondendo, ao fim, a momentos de maior concentração e de maior distribuição da riqueza social. Talvez estas ondas estejam, estarão presentes em qualquer economia social muito complexa, com sistema de trocas e produção em massa desenvolvidos. No sistema capitalista, agora, isto me parece muito claro e deverá persistir assim enquanto ainda estivermos neste sistema. Seja como for, creio que é bem razoável concluir que, nas condições históricas recentes e atuais, o fim de uma onda liberal na economia capitalista, termina, necessariamente, em grandes crises econômicas sistêmicas. Estamos, portanto, no presente, em uma grande crise deste padrão, no sistema econômico capitalista mundial. Atenuada pelas medidas anticíclicas e de proteção, mas efetivamente presente e preocupante, desde então. Agora estamos chegando ao ápice desta crise, em seus momentos mais decisivos e resolutivos. Daqui basicamente só temos dois caminhos, ou aprofundar a crise, com mais recessão, empobrecimento e guerras, ou, a mudança de rumos para a maior redistribuição de riquezas e melhor coordenação da economia mundial. Ao fim, iremos, para a nova onda socializante, como foi no século passado. Esta seria uma tendência predominante, imanente à própria lógica contraditória do desenvolvimento social capitalista: que uma onda socialista suceda uma onda liberal, em um nível sempre mais elevado. Então, me parece certo que iremos agora, que estamos indo, de fato, para um nível de socialização da economia mundial bem superior àquele que se forjou na segunda metade do século passado. O que guarda correspondência com o estágio atual de desenvolvimento e integração da produção e da vida social mundial, em geral. Há uma única hipótese real para isto não acontecer e é ela sobretudo que temos que evitar agora: a possiblidade de crises cataclísmicas com verdadeiro rebaixamento civilizatório, seja pelas grandes guerras, seja pela crise climática. Desde que eventos destrutivos realmente cataclísmicos, com grande perda civilizatória generalizada no mundo não aconteçam, as próprias necessidades do sistema promoverão, de um jeito ou de outro, as mudanças em direção socializante, nos dois aspectos principais que estou indicando, de redistribuição da riqueza social e de maior e melhor coordenação da economia mundial. Mas, não será, ainda, a onda de fim da economia de mercado capitalista. Estaremos em um momento mais avançado, mas ainda estarão presentes características determinantes do capítalismo e podemos, portanto, prever, no futuro, novas flutuações liberalizantes, de restauração capítalista liberal e concentração de riquezas, seguidas de novas crises gerais, também superadas por novas ondas socializantes. Pelo menos enquanto ainda estivermos em um sistema mundial capitalista. Creio que estes ciclos e as suas crises terão uma dramaticidade, ou, pelo menos, uma destrutividade real cada vez menor, na medida mesmo do desenvolvimento socializante do sistema, devido ao maior nível de consciência, de controle consciente da economia social que a economia socialista traz em relação ao capitalismo liberal. Uma prova disto será a resolução da crise atual que deve ser bem menos dolorosa que a do século passado, ainda que ela vá nos custar muito caro ainda, nos próximos anos e talvez décadas adiante.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

EPIDEMIA DE AUTISMO? A frequência do AUTISMO cresce na sociedade. Muito intensamente, nas últimas décadas e anos. O Governo CONSERVADOR dos EUA classifica este fato como sendo uma EPIDEMIA DE AUTISMO e inicia um programa de pesquisa para identificar quais são os fatores externos, as "toxinas", que estariam causando esta epidemia. Por outro lado, grupos IDENTITARISTAS parecem querer negar o grande crescimento da frequência de autistas nas nossas sociedades. E jogam o peso deste crescimento no aumento de diagnósticos. Acredito que ambos estão certos de algum modo. Certamente houve aumento de diagnósticos de autismo nos últimos anos. Isto se tornou um fato do cotidiano, em geral, e ainda haverá expansão dos diagnósticos em grupos populacionais com menor incidência. Mas, para mim, parece indubitável que está havendo um aumento real da incidência, até perceptível no cotidiano. Eu também identifico fatores externos que podem funcionar como GATILHOS, como desencadeadores, do quadro de autismo e de regressões. Hipóxia no parto, quadros infecciosos do Sistema Nervoso Central, traumas, incluindo psíquicos, e toxinas propriamente ditas, estão entre os possíveis fatores. O governo conservador dos EUA quer identificar as VACINAS entre estas toxinas ou, possivelmente, entre as principais toxinas desencadeadoras do AUTISMO. E quer identificar aí, nas toxinas em geral e nas vacinas em especial, a CAUSA do aumento da frequência do autismo. Confundem possível gatilho com causa. Eu creio que está bem estabelecido EPIDEMIOLOGICAMENTE que a VACINAÇÃO da população infantil NÃO É CAUSA DE AUMENTO DE AUTISMO, porque, em sociedades contemporâneas, quando as taxas de vacinação permaneceram estáveis ao longo de anos, as taxas de autismo continuaram crescendo. Ninguém pode negar que a etiologia, a CAUSA PRINCIPAL, dos autismos é GENÉTICA. Parece que nem identitaristas nem conservadores estão preparados para reconhecer que é esta causa, então, que está aumentando. Sim, as alterações, as características genéticas dos autismos é que estão cada vez mais frequentes, cada vez mais presentes nas nossas crianças, na nossa sociedade. Esta é a explicação que me parece, de longe, a mais razoável e coerente com os conhecimentos atuais. O significado disto, as suas possíveis causas e consequências, tudo isto é matéria para muita elaboração e estudo daqui pra frente. Mas, eu já fico muito, MUITO FELIZ, mesmo, por estar contribuindo para trazer aos autistas, à família autista, a possibilidade do TRATAMENTO COM PRODUTOS DE CANNABIS, com canabinoides, com THC e com CBD. São recursos eficientes no controle de sintomas e positivos para o desenvolvimento global e não são tóxicos, ou, seja, são de máxima segurança, quando comparados aos potenciais de toxicidade e adoecimento muito altos com os medicamentos hoje adotados. Ainda existem, infelizmente, muitas barreiras de preconceito e de ignorância que privam muitos desta alternativa efetiva e segura. Tem um sistema todo montado pra impedir a informação verdadeira de se espalhar e ainda tem dificuldades de acesso. Mas, aos poucos, a realidade de ganhos clínicos e segurança de uso se dissemina, de mãe pra mãe, de autista pra autista.

terça-feira, 22 de abril de 2025

A GRANDE CRISE MUNDIAL

A GRANDE CRISE MUNDIAL As coisas estão num movimento intenso, no plano mundial, agora, mais do que em qualquer outro momento durante a minha vida. E eu não sou exatamente novo, tenho 61. Posso sentir a eletricidade do momento histórico na minha pele. O momento é crítico, é agudo. Da minha parte, pela minha formação, até, eu tenho a obrigação de analisar este momento, da forma mais séria, mais realista, mais concreta o possível. O que de fato está acontecendo agora? Porque idiotas e pilantras absolutos estão no poder nos países com maior renda percapita do mundo, hoje? Na aliança EUA-EU, propagadores da guerra anunciam todo dia o aumento dos gastos militares e o investimento nas mais poderosas armas que conseguirem. Isto não necessariamente vai terminar em grandes guerras, mas é um risco a mais, certamente. As grandes blitze tarifárias do governo dos EUA já são um ato de guerra e a guerra comercial contra a China já vinha de antes, num claro conflito pela hegemonia no sistema mundial.. Mas, tem algo mais determinante, que vem antes, na determinação deste momento crítico. É a crise econômica do fim da onda neoliberal. Isto tem muito pouca gente vendo, contudo. Praticamente ninguém, apesar de ser tão evidente. Às vezes o óbvio é tão claro que cega as pessoas, ou as pessoas estão cegas por outros fatores e não veem, o fato é que enxergam, mas não são capazes de ver. Toda onda liberal no sistema econômico leva, inevitavelmente, a uma concentração da riqueza, progressiva e ilimitada, isto está na essência da lógica econômica liberal e a história comprova. A onda neoliberal não foi diferente. Chegamos, agora, a um nível extremo de concentração da riqueza, nos países mais ricos mesmo, até um ponto em que fica muito difícil a economia seguir girando. Uma crise de realização generalizada é esperada nestas circunstâncias. Em minha análise, já estamos nesta grande crise desde 2007. A solução liberal, ou natural, desta crise no sistema capitalista se dá através de grandes recessões, desemprego, empobrecimento, quebras de setores da economia e grandes crises sociais, incluindo guerras. Neste momento as decisões mais estúpidas, improvisadas, corruptas, arriscadas e destrutivas podem ser e vão, necessariamente, serem tomadas, sempre levando à recessão. A crise atual está controlada, ainda, pelos mecanismos anticíclicos, de regulação da economia e proteção social, mas eles estão se esgotando. A crise só será superada de fato, com a redistribuição da riqueza e o avanço no controle social da produção e finanças mundiais, quer dizer, com uma nova onda socializante no sistema, como ocorreu no século passado, mesmo que para isto tenhamos que passar pela imensa destrutividade das grandes depressões e guerras, que devem ocorrer, se o sistema persistir no caminho liberal. Se não entendemos esta condição econômica de base, não podemos entender o risco crescente de guerras, ou o ascenso da uma extrema direita, nacionalista, neofascista, onde despontam clowns, cínicos, canalhas explícitos como líderes políticos que, enfim, falam "a linguagem do povo” que está doutrinado a direcionar suas frustrações, por ter ficado à parte do grande desenvolvimento na fase final da onda neoliberal, mais pobre e sem perspectivas do que há décadas atrás, contra um inimigo forjado, seja a ideologia queer, seja as políticas globalistas, sejam os migrantes ou, um país estrangeiro. Estas figuras estúpidas, grosseiras e grotescas, que passaram a ocupar grande espaço no cotidiano político do mundo ocidental, são um produto e um veículo da crise econômica. Seu desígnio é levar adiante, impor, pela farsa e pela força, a doutrina liberal, mesmo quando ela só pode conduzir ao aprofundamento da crise, que já está no seu extremo. São as bestas do apocalipse, mesmo, e são personagens inevitáveis em uma situação como esta em que estamos. A crise precisa ser aprofundada, dentro da lógica econômica liberal, para ser resolvida. Eles são veículos para acelerar isto. São os líderes políticos apropriados para conduzir à crise, à recessão e à guerra. A doutrina liberal é a doutrina própria, profunda ou essencial do capitalismo e eles acertadamente apontam como sendo socialismo, tudo o que sai deste caminho estreito e estúpido. De fato, desde as primeiras conquistas de direitos coletivos dos trabalhadores, desde o primeiro ato de seguro dos depósitos bancários, desde as primeiras ações afirmativas, de reparação e promoção social, estamos saindo do capitalismo, mesmo que sejam estas medidas justamente que estão salvando o capitalismo das crises mais extremas e destrutivas, ainda hoje. E acontecerá assim novamente. As tentativas de manutenção, a todo custo, da ordem, da ideologia, liberal, no sistema capitalista mundial, resultarão em ainda mais derrotas, em mais fracassos econômicos e geopolíticos dos países mais ricos do sistema. É da lógica mesma desta condição que, pressionados ao limite os seus líderes, mesmo os que agora falam em paz, logo serão os maiores arautos da guerra. Mas, em contraposição, o sistema econômico tem, já, na China, socialista, um ponto de apoio suficiente para ultrapassar esta crise do fim da onda neoliberal, de modo muito menos destrutivo do que foi ao fim da onda liberal no século passado. Não é mais possível evitar a hegemonia da China no sistema capitalista mundial, ela já é real em tantas áreas, na indústria e no desenvolvimento técnico-científico, enfim, ao menos temos claro que viveremos um período de hegfemonia dividida entre os dois grandes polos, China e EUA. Os EUA, representam o poder que está sendo superado e, por isto mesmo, investem, desesperadamente mais, na imposição bruta de poder e na quebra dos sistemas de controle transnacionais. A vitória da China, nesta guerra comercial, que já aparece bastante segura, também acelerará a superação de todo o sistema imperialista estadunidense e terá que, em contrapartida, levar rapidamente, também, a novas estruturas, novos sistemas, de gestão transnacional da economia mundial e também à melhor distribuição de renda, assim como da riqueza e do poder reais, no mundo e dentro das sociedades. Posso dizer isto pelas necessidades do sistema econômico e pelo histórico recente da China, seja no plano geopolítico e estratégico, em nível mundial, seja pelo prisma, mais do que fundamental, e sempre esquecido ou negado sob a ideologia liberal, da distribuição de riqueza. É fato que na onda neoliberal a concentração de riqueza na China cresceu exponencialmente, atingindo níveis muito próximos daquela dos EUA Mas, também é verdade que, desde 2014, ela parou de crescer e, recentemente, começou a regredir na China, enquanto persistiu aumentando nos EUA. A tendência, na China, já é, explicitamente, de maior redistribuição, com um foco mais intenso no consumo doméstico, enquanto nos EUA, agora, os bilionários lutam com garras e dentes para manterem e aprofundarem seus ganhos, socializando as perdas. Seja como for, é sempre bom lembrar que países como o Brasil têm concentração de riquezas muito maior do que aquela da China ou dos EUA.