sexta-feira, 17 de abril de 2026
Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 4. A questão ideológica contemporânea
1. Anarco capitalismo x Anarco comunismo
A discussão ideológica atual é a discussão entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo. Digo isto no sentido mais profundo da palavra ideológico, em seu sentido mais teleológico e, portanto, de princípios, ou, ideal, se você quiser chamar assim. Esta é a principal questão ideológica do presente, porque é a maior questão de futuro em termos de escolha social humana, de escolha entre alternativas.
Alguns sinais neste sentido já se mostram na realidade. Temos, ou tivemos um Estado embrionário que se organizou de forma confederativa com características anarquistas coletivistas, feministas e ecológicas em Rojava, território Curdo na Síria. E temos, agora, um primeiro governo declarado anarco capitalista, que está no poder executivo da Argentina.
Na crise das enchentes do Rio Grande do Sul, o lema da direita está se tornando: “o povo pelo povo”. O povo por si mesmo, sem necessidade do estado. Justo eles, a direita, que são o sistema em si, aqueles que querem, por todos os meios, conservar o sistema social em que vivemos há séculos, agora que ele parece insustentável, paradoxalmente e em falsidade, se declaram anti sistema.
Atualmente os liberais, conservadores do capitalismo, em seu desespero extremo, estão abdicando dos limites da ordem político-institucional democrática, por não terem mais resposta à crise econômica e social do sistema capitalista mundial, por não terem mais proposta para o mundo, por terem se tornado forças regressivas, neste momento histórico.
Abdicando disto, eles vêm para o terreno revolucionário. Para o terreno da ruptura com a ordem institucional e passada. Ao ponto em que, hoje, parece que são os liberais, é a extrema direita, quem é insurrecional, quem é, pasmem, anarquista. Esse é o nosso terreno, no entanto. O que precisamos fazer para recuperar este espaço e este vetor que é, de fato nosso? Em termos mais profundos, como eu estava dizendo, devemos vencer o debate ideológico.
Para vencermos o debate ideológico, temos que mostrar as diferenças e a superioridade, ideológicas, entre o anarco capitalismo e o anarco comunismo. Cada ideologia, no seu sentido mais profundo, deve visualizar e mostrar o que lhe é próprio, o que é adequado, ou, consequente, aos seus princípios, como o melhor, o mais belo o mais virtuoso ou, pelo menos, como o mais vitorioso, o maior sucesso possível. Devemos vencer a batalha ideológica de fato e não apenas nas mídias. Não que a gente não deva tentar vencer o debate nas mídias burguesas, como se dizia antigamente.
Mas, este debate ideológico aparece, agora, ainda precoce, fora do tempo. E é, realmente, assim, pois está longe das possibilidades reais contemporâneas. Mas, é justamente disto que se trata o debate ideológico profundo, do sentido de futuro que queremos dar à humanidade, ao humano. Vamos, então, tentar dosar isto no tempo. A questão de futuro distante entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo, é a questão presente e de futuro próximo, entre capitalismo liberal e fascismo, por um lado, e social-democracia e socialismo, por outro.
Por razões históricas e conceituais, eu posso afirmar que o liberalismo, quanto mais se torna coerente e radical, na forma “libertária”, ou anarco-liberal, enfim, tanto mais ele se torna autoritário e violento. A liberdade do poder capitalista, sem limite, e a ruptura com a institucionalidade tradicional do ocidente contemporâneo, com a democracia burguesa, necessariamente levam à concentração ilimitada de riqueza e de poder nas mãos dos detentores de riqueza, sem a proteção ou o controle e regulação públicos, do Estado.
Isto se mostra, em qualquer dimensão da vida social que você quiser analisar, como brutal aumento do autoritarismo e do diferencial de poder entre as pessoas. Quem tem dinheiro, quem tem muito dinheiro, pode e deve, por esta ótica, comprar tudo o que quiser e dar a ordem e o sentido a tudo como quiser, sem que ninguém possa interferir em nome do poder público. O poder do dinheiro, do capital, da riqueza, deve se impor sem qualquer limite. No limite, sem Estado algum. É o povo pelo povo. Mas com os ricos mandando. Na segurança pública, por exemplo, cada rico teria seus capangas, suas milícias, e todo o poder seria deles, nos seus territórios. Nas relações de trabalho, em relação ao meio ambiente, no que toca aos costumes, em tudo, do mesmo modo. Cada rico com suas próprias regras. E todos os outros, todos pobres, diante de tanto poder concentrado, terão, sempre, a liberdade de mudar de rico pra trabalhar e se submeter aos seus caprichos. O mercado capitalista, mesmo, não é compatível com esta barbárie. Mas ela é uma consequência lógica da ideologia liberal conservadora, especialmente na sua forma mais explícita ou despudorada, libertariana, anarco-capitalista.
O anarquista não quer o peso do Estado nas costas da sociedade, não quer corruptos e perdulários, adoradores de privilégios, aproveitadores e oportunistas sem qualquer sintonia com os interesses públicos, fingindo de servidores da nação, enquanto a parasitam que nem sanguessugas. Ninguém quer isto e o anarquista menos que todos os outros. Nós temos horror e ódio a isto. A bandeira libertária é, de fato, a nossa. Somos anarco comunistas, no entanto. E isto é justamente o oposto do libertarianismo capitalista. Entendemos que o anarquismo é uma conquista social e, como eles fazem, também a projetamos como forma ou modo de vida social futura ou ideal, se você quiser assim chamar. Mas, seja como for, uma conquista social, uma ordem social superior coletivamente estabelecida, conquistada, construída e que somente como tal pode ter existência. É algo para além do socialismo. É a ideologia totalmente contrária ao liberalismo capitalista radical.
2. Socialismo x Capitalismo liberal
A gente pode chegar ao anarquismo por duas vias, pela via da crítica ao Estado e pela via da crítica ao Mercado. Esta é uma frase verdadeira em sua essência, sendo a ideia, ou projeção, da anarquia, aquela de uma sociedade para além do Estado e do Mercado, da superação tanto do Estado quanto do Mercado, é muito razoável que a crítica radical de um ou de outro sejam vias possíveis para se chegar ao anarquismo. Mas, só se pode chegar de fato, ao anarquismo, se se supera esta parcialidade crítica. A crítica ao Estado tem que levar também à crítica do Mercado, assim como a crítica ao Mercado tem que levar também à crítica do Estado. Senão, não é anarquismo, não é a doutrina da anarquia.
Uma coisa, no entanto, é o caminho da teoria e outra é o caminho da realidade.
A ideologia liberal capitalista radical, libertariana ou anarco-capitalista, não é, não pode ser, a ideologia anarquista radical ou verdadeira, já que ela, em sua lógica mesma, desemboca na máxima concentração de poder possível nas mãos dos detentores da riqueza, do poder econômico ou até, especificamente, financeiro. Nem pode ser o caminho objetivo, histórico, para uma sociedade de pessoas livres.
Eu cheguei à compreensão de que, objetivamente, só se pode chegar à anarquia pela via socialista. Conceitualmente, por óbvio, porque vivemos em uma sociedade capitalista, o mundo vive, ainda, em um sistema capitalista mundial e a anarquia certamente será a superação desta porra toda. Nunca, jamais, a Anarquia foi projetada como a manutenção do atual sistema econômico e político, como ele se apresenta na modernidade, ou, na contemporaneidade, mas sim como a sua superação e, até mesmo, como a sua negação ou destruição.
Do ponto de vista teórico é possível fantasiar o aprofundamento do liberalismo, o capitalismo liberal puro, a liberdade plena de mercado, ou qualquer nome que se queira dar a isto, é possível fantasiar, mas a sua implantação não significaria nenhum avanço na superação do status quo social da humanidade hoje. Ao contrário, significaria o retrocesso a um modelo como aquele do capitalismo, por exemplo, do século XIX e início do século XX, que nos levou às imensas crises econômicas e sociais e às monstruosas guerras da primeira metade do século XX.
O aprofundamento, a radicalização do liberalismo leva, necessariamente, a crises econômicas e sociais violentas e destrutivas, guerras internacionais extremas e autoritarismo político extremo. Como estamos vivendo no presente. Por isto, também, o socialismo é o único caminho real para o anarquismo.
A ideologia liberal capitalista radical, libertariana ou anarco-capitalista, não é, não pode ser, a ideologia anarquista radical ou verdadeira, já que ela desemboca na máxima concentração de poder possível nas mãos dos poderosos detentores da riqueza, do poder econômico ou até, especificamente, financeiro. Nem pode ser o caminho objetivo, histórico, para uma sociedade de pessoas livres.
Os palhaços macabros que estão no governo dos EUA, da Argentina, assim como aquele que presidiu o Brasil e outros da mesma extirpe, mostram isto com clareza. Atrás do discurso libertário vem o uso inconstitucional das forças de repressão, da opressão violenta, da repressão ilegal, do fascismo.
Nós anarquistas queremos realmente o povo pelo povo, queremos o ordenamento social, queremos os poderes na mão do povo, queremos o poder público radical, o povo no poder, sem qualquer sombra de dúvidas. Mas, é óbvio, isto só pode advir da superação do capitalismo. Sem isto, a diminuição do poder político termina se tornando, necessariamente, aumento do poder do capital, do poder dos ricos, dos muito ricos, especialmente, e não aumento do poder popular, ao contrário.
Há um bom tempo eu já vinha postulando que a grande questão ideológica do nosso tempo, no seu sentido mais profundo, enquanto projeção teleológica, é a questão da anarquia e, portanto, a contraposição entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo. Algo que parecia completamente dissociado da realidade, até bem pouco tempo. Mas agora já temos um primeiro governante na história moderna a se proclamar anarquista e, de repente, isto mostra que realmente há uma questão significativa aí e agora a gente já pode e deve falar sobre anarquismo e anarquia, sem parecer apenas uma loucura excêntrica, sem qualquer contato com a realidade.
Eu entendo que o anarco-liberalismo é verdadeiramente o liberalismo consequente, coerente com sua doutrina e, portanto, brutal. Não é de se estranhar que algo assim venha a surgir nas condições atuais de crise final da onda neoliberal no sistema capitalista mundial, em que estamos desde fins da década passada. A resposta liberal, neste momento, é aquela de redobrar a aposta e impor um maior poder do mercado e uma maior concentração de riquezas, por um lado, e, por outro, impor mais perdas de direitos, serviços e renda aos trabalhadores. Esta é a solução natural ou espontânea das crises no modelo liberal e o anarco-liberalismo é, apenas, a proposição radical deste modelo, com maior integralidade, mais pureza, ou, menos concessões.
Nas condições sociais contemporâneas normais não há como implantar e manter algo assim, sem uma contrapartida de grande aumento da violência institucional e politica por parte do Estado contra a sociedade. O liberalismo extremo e, portanto, o anarco-liberalismo, terminam no fascismo.
Não é possível negar a semelhança, a proximidade e as identidades ideológicas entre os movimentos fascistas do século passado e a extrema direita no mundo hoje, na Argentina, nos EUA e no Brasil, por exemplo. E isto não é um acaso, é a expressão da solução liberal extrema para a grande crise econômica e social em que estamos metidos, para onde nos trouxe exatamente a onda (neo)liberal, iniciada na década de 80 do século passado. Como foi o próprio liberalismo, pela grande concentração de riqueza e poder que promoveu, que nos trouxe a esta crise, não será pela via liberal que a superaremos, senão com custos sociais extremos, destruição em massa, na forma de crises econômicas, grandes guerras e crises ecológicas extremas.
3. Democracia x Autoritarismo
Se o embate ideológico (de futuro) é aquele da anarquia, no entanto, o grande embate ideológica do presente, no mundo ocidental, continua sende a questão da democracia. Nada parece ser mais consensual e inquestionável no mundo ocidental, seja nos países ricos ou em seus vassalos, do que a ideologia da democracia. Ainda que isto esteja um tanto abalado hoje em dia, pelo avançar da crise, como estou descrevendo.
Os democratas, os sociais-democratas, dos países dominantes no sistema, do chamado Norte ou Oeste Global, hoje, ainda se agarram à retórica da democracia contra o autoritarismo, do estado democrático de direito, contra as ditaduras e os governos considerados de exceção ou ilegítimos. Esta parece ser a sua justificativa última para tudo e qualquer coisa, na defesa da sua hegemonia e dos privilégios dela, na economia mundial e na geopolitica.
Até mesmo os radicais da direita, que estão sempre no limiar de ultrapassar essa retórica, ainda se servem dela, também. Defendem o aprofundamento do receituário liberal, que, nos moldes atuais só pode ser imposto por estados de exceção, apoiados em medidas extra-constitucionais, ditaduras e fascismo. Mas, ainda assim, se servem do discurso de defesa da democracia e da liberdade, contra a ditadura e o autoritarismo.
As questões ideológicas entre anarco-capitalismo e anarco-comunismo e nem mesmo aquelas entre o capitalismo liberal e o socialismo não se apresentam claramente no presente. O pensamento dominante, as forças hegemônicas ainda colocam as coisas com a forma um tanto ilusória, um tanto farsante, um tanto real ou honesta, da defesa da democracia e da liberdade em contraposição à autocracia e ao autoritarismo.
Esta é a forma como 100% dos ideólogos e dos agentes do poder hegemônico, da aliança do Oeste ou Norte Global, justificam as suas escolhas e posições no cenário mundial atual. Eles estão agindo em defesa da democracia e da liberdade contra o autoritarismo e a autocracia, apoiando a Ucrânia contra a Rússia, apoiando Israel contra a Palestina e até quando estão criando barreiras e impondo medidas de guerra comercial ou abolindo redes sociais fora do seu controle, como o Tik Tok.
Mas, eu não quero discutir a hipocrisias e as contradições neste discurso. Eu quero tomá-lo pelo seu melhor valor, como todo discurso ideológico merece ser considerado. Como ideologia, propriamente. A ideologia democrática liberal. As liberdades democráticas, os direitos civis formalmente estabelecidos e o poder do Estado controlado. Não é mesmo isto? As eleições parlamentares e executivas regulares e confiáveis. A segurança da imposição das leis e a divisão de poderes entre judiciário, parlamento e governo executivo. Tudo isto estaria em jogo e tudo isto seria perdido se os líderes do Oeste Global, os senhores imperialistas no sistema capitalista mundial atual, não reagissem e não impusessem derrotas contra a ascensão do eixo autoritário.
A gente se acostumou a aceitar a democracia como valor absoluto. Mas, certamente, não existe valor absoluto. Este é um dos grandes aprendizados filosóficos que todos precisamos atingir. Realmente não existem valores absolutos. Ate mesmo a vida, com toda a força de sua plenitude, sendo algo absolutamente único, pessoal e insubstituível, não é, na verdade, um valor absoluto. Nada melhor que a situação de guerra para exemplificar isto. Quantos não estão indo agora, espontaneamente, por vontade, por desejo próprio, colocar a sua vida em risco extremo, ou até entregar a sua vida à certeza da morte, em nome do seu país, porque o seu Estado está em guerra com outro Estado, outro país. Entregam a sua vida e tiram a vida de outros sem qualquer motivo pessoal real, mas pela simples ideia de um país em guerra contra outro. Falo aqui especificamente daqueles que vão espontaneamente para a guerra, não dos que são forçados a isto. Não importa, na verdade, que hoje o recrutamento seja muito mais difícil na Ucrânia, por exemplo, segundo as notícias. O fato é que já morreram várias dezenas de milhares de pessoas, de jovens, sobretudo, e eles continuam a ser incentivados pelos seus países e pelo mundo todo, de certo modo, a continuarem a matar e morrer nos campos de guerra. Não é nem mesmo possível saber um número próximo da realidade dos mortos nos campos de batalha na Ucrânia, tamanha é a guerra de desinformação. Certamente são várias dezenas, talvez algumas centenas de milhares de jovens que já morreram e continuarão a morrer em nome de valores mais altos que a própria vida.
Tudo isto prova, sem qualquer sombra de dúvidas, que nem a vida é um valor absoluto para nós, para os humanos, em geral. Mas, a doutrina anarquista sempre foi e sempre será a favor da vida e da dignidade, humanas, e é por isto que estabeleceu, em alguma parte, que, em uma guerra entre Estados, em uma guerra de ocupação ou imperialista, o verdadeiro herói é o desertor. Neste sentido anarquista podemos entender bem como um dos maiores, ou o maior herói norte-americano na guerra do Vietnã, foi o grande campeão de Boxe, Muhammad Ali, que se recusou a lutar contra quem realmente não era seu inimigo, não era inimigo do seu povo.
Se a própria vida não é e não pode ser um valor absoluto, muito menos valores ideológicos ou políticos, como a liberdade ou a democracia devem ser tomados como absolutos. Nunca foram, nunca serão, isto simplesmente não existe. Não existem valores absolutos e toda vez que você aceitar uma doutrina qualquer de valores absolutos, você aceitará uma submissão a uma imposição ideológica contra você mesmo.
Tudo realmente é relativo e vamos conversar sobre isto.
A liberdade, ó minha alma, a liberdade. Quem pode amar mais a liberdade do que um anarquista? Mas só um tolo pode acreditar na liberdade burguesa ou capitalista como a melhor ou a única possível, como um valor ou modelo absoluto de liberdade. Afinal, de qual liberdade você está falando, caralho?
Agora, a gente precisa dar ainda um passo adiante e aceitar que além de nada ser absoluto, tudo é contraditório. Coisas tão simples de se perceber, mas tão difíceis de se aceitar. Eu cheguei, depois de muito lidar com a análise da realidade e com alguma ajuda do DMT, ao recurso ao pensamento paradoxal, sem constrangimentos e resolutivamente. Não posso deixar de aceitar isto e estabelecer isto como um valor cognitivo ou eurístico e até mesmo como base para a certeza, ainda que seja tudo tão incerto.
No caso da liberdade, o que eu sempre digo é que nós os anarquistas somos mais libertários que os liberais, temos que ser, pela natureza do nosso negócio. Somos anarquistas, “porra”, não somos liberais capitalistas. Não nos misturem com isto, com este pensamento unilateral e historicamente derrotado. Eles querem a liberdade da guerra. Eles, hoje, aliás, querem e precisam da guerra, os capitalistas, os liberais. A resposta econômica liberal à crise leva à necessidade da guerra e a economia militar parece ser até uma forma de saída da crise, porque é uma demanda impositiva, forçada,. Mas o seu sentido é apenas destrutivo e ela terá como consequência, no mínimo, o atraso no desenvolvimento e acesso a mais e melhores recursos produtivos para o atendimento das necessidades e desenvolvimento das potencialidades das pessoas. Que é o que faz o verdadeiro crescimento. A guerra é inútil e destrutiva. Mas, o sistema capitalista mundial agora busca a guerra, como uma solução, assim como busca o anarco-capitalismo, como uma resposta.
É certo, portanto, que eles falarão em nome da liberdade para apenas desembocarem em mais e mais autoritarismo e violência.
O verdadeiro paradoxo anarquista, da questão da liberdade, não é este, no entanto, e sim o fato de que a maior liberdade se dá no maior controle e o fato inverso que de que no menor controle, ou, no maior descontrole a gente encontra a menor liberdade.
4. Elogio crítico da via social-democrática
É claro, e não deve haver qualquer dúvida, que o avanço social-democrático e o avanço socialista de todo o sistema econômico capitalista mundial deve e só pode, realmente, ocorrer, com o avanço também do globalismo e da governança global. Isto é correspondente ao processo progressivo de integração mundial das economias nacionais e necessário para sua continuidade e avanço. E esta força é, ao fim, insuperável. Mesmo com todos os esforços geopolíticos de guerra comercial e com as guerras físicas, ao fim isto se imporá, como tem ocorrido, no sistema capitalista mundial contemporâneo, apesar dos períodos de grave crise e regressão momentânea. A integração econômica mundial prossegue e continuará assim, mesmo que momentaneamente seja contraposta por forças contrárias imperativas, como são as recessões mundiais e as grandes guerras, por exemplo. A força integrativa prosseguirá e a globalização mundial não será detida e nem é mesmo possível desfazer o nível atual de integração, a não ser a custos muito altos, como temos visto a própria Europa pagar agora, por conta da guerra contra a Rússia.
Temos a possibilidade de sairmos da situação atual de crise pela via da maior socialização e maior desenvolvimento da governança global ou pela via do aprofundamento da crise e da ampliação e generalização das guerras.
É claro que não podemos ficar presos aos limites democráticos do Estado capitalista. Isto não interessa a ninguém, a não ser aos que realmente se beneficiam dele. Mas não podemos confundir aqui a teoria com a prática.
Havia um instinto, digamos assim, anarquista em mim, desde sempre. Mas, foi numa forma de ortodoxia marxista onde eu encontrei fundamentos e um caminho intelectual para dar desenvolver este meu instinto anarquista. Como se pode ver, o paradoxo sempre foi um grande companheiro da minha vida, da minha consciência. A ontonegatividade da política, era assim que chamávamos esse caráter, essa condição, inerentemente negativa, perversa, ou alienada, estranhada, como queiram dizer, da política. A política, enquanto tal, como nós a conhecemos e como ela é, na realidade, é sempre uma usurpação da vida social livre e ativa, dos indivíduos livres e ativamente associados na vida produtiva e social em geral. É sempre uma forma de poder sobre os indivíduos, alheia a eles, imposta e ilegítima. Curiosamente, temos que concluir, temos que aceitar, e novamente fazemos elogio ao raciocínio paradoxal, que a democracia, como forma mais desenvolvida, como a melhor forma, de política (ou a pior, exceto todas as demais, como dizia um poderoso imperialista), a mais perfeita, para quem aceita este termo, forma de política, deve ser, também, logicamente, a mais perversa, a mais negativa, a mais destrutiva até, se você quiser. O violento antagonismo político que marca os embates democráticos pode bem servir de exemplo disto, especialmente em momentos de crise. É curioso ver como as democracias mais tradicionais, em geral, fracassaram fortemente no manejo da situação de pandemia. Foi tudo errado e mal feito, em grande parte das melhores e maiores democracias do mundo ocidental. Com certeza, o estúpido embate político democrático foi uma das causas mais importantes deste fracasso, aqui no Brasil e no mundo ocidental em geral. Parece que isto é um fato que muito dificilmente pode ser contestado. Com certeza, o embate político, ideológico e irracional, criou imensas dificuldades para respostas nacionais integradas, coerentes, efetivas e bem executadas, nestas grandes democracias.
Outro bom exemplo desta irracionalidade pode ser dado pela trajetória de PT e PSD na política brasileira. Os dois partidos eram muito mais próximos um do outro, ideologicamente, do que eles gostariam de se reconhecer. Ao menos nas suas origens, em suas pretensões ideológicas, eles eram, ambos, sociais-democratas. Mas precisavam se contrapor, politicamente. Este foi, na minha análise, um dos vícios maiores da nossa arquitetura política naquela época. Estes dois partidos emergentes que, por suas posições ideológicas, eram irmãos ou, pelo menos, colaboradores, ainda que críticos um ao outro, se tornaram inimigos, antagonistas principais no cenário político nacional. Para mim isso é mais uma evidência do caráter intrinsecamente negativo, perverso, da política. Algo que estava no DNA do grupo filosófico do qual eu estava mais próximo àquela época.
A irracionalidade original de se submeter os destinos do ordenamento social, através do peso do Estado, ao crivo eleitoral, em que se entrega os desígnios sociais ao estamento político de modo indeterminado, indefinido e, até, ilimitado, pelo período de vigência do mandato político conquistado nas eleições, isso, que parece ser uma grande, insuperável virtude da democracia, submete a sociedade à visão, às vontades, aos delírios e às perversões dos políticos de momento, com as eleições como o único momento de controle e manifestação da vontade popular. Não é difícil ver que isto se torna uma batalha constante, pelo poder, pelas benesses e pelas vantagens que advém de uma posição política, mesmo que transitória. Os que estão no poder farão de tudo para permanecer e os que estão fora farão de tudo para derrubar os outros e subir. Dentro e fora das regras legais do jogo.
Aqui no Brasil, por exemplo, a perseguição e a morte fazem parte de um submundo da politica. Em grande parte do mundo é assim. Mas, vamos admitir a idealidade burguesa da democracia dentro das regras do jogo. Isto termina sendo um modo de dominação e de manipulação sobre as massas populares que parecem incapazes, impotentes, para tomar o poder em suas próprias mãos. Então os representantes políticos fazem este papel em nosso nome, com nossa autorização, dada nas eleições. Não importa com quanta mentira, com quanta manipulação da mídia e do poder judiciário, nem com quanta imposição do poder econômico. Dentro das regras do jogo democrático tudo isto é aceito, de algum modo. Faz parte da estrutura social e do jogo politico. A mentira, as fake news, são constitutivas da democracia, em sua melhor forma, não apenas das degenerações da democracia. Mentir, manipular as informações, iludir e dar falsas perspectivas para o público faz parte do jogo politico democrático.
A ideia singela do ideal democrático é que a liberdade de expressão política e a disputa eleitoral honesta seriam suficientes para garantir que as más condutas fossem punidas e o caminho do melhor bem comum terminasse se impondo, ao passo que todos os outros sistemas não teriam esta virtude. Não posso, talvez, falar em relação aos países dominantes no sistema capitalista mundial contemporâneo. Mas, posso falar do prisma do resto do mundo, de certo modo. E, aqui, nada disto se sustenta, de fato. Nem a plenitude da liberdade de expressão, por exemplo, é realmente garantida, em lugar algum, e não é errado ter limites para isto, temos é que discuti-los para deliberar conscientemente sobre eles. Nem a continuidade das eleições parece realmente suficiente para garantir a punição das más condutas políticas e para encontrar o caminho do melhor bem comum. Ao contrário, muitas vezes parece que, no terceiro mundo, como se chamava antigamente, somos sempre condenados aos piores fracassos nestas áreas.
Mas, eu quero dialogar também com o melhor da ideologia democrática e, portanto, com as visões dos países dominantes também.
Vale perguntar, logo de saída: o melhor da democracia, se eu pudesse lhes retirar também a condição de países imperialistas, resultaria nas condições sociais superiores que se viu nestes centros, das décadas do pós segunda guerra mundial para cá, de um modo ou de outro? Persistiriam os ganhos sociais ou, ao contrário de estarem mais ligados à superioridade da sua democracia e da sua superestrutura institucional em geral, estariam mais ligados mesmo é às vantagens econômicas da posição imperialista no mundo?
Mas, enfim, seja como for, de um modo ou de outro, para os povos locais dos países imperialistas, de fato, alguma forma de social-democracia se impôs, se estabeleceu, dando o tom da vida social desde os anos seguintes à segunda guerra mundial e persistindo, em grande medida, mesmo depois de décadas da onda neoliberal. Ainda hoje, é a institucionalidade social-democrática que dá estrutura à vida social, política e econômica, inclusive, na grande maioria destes países. Seria ingênuo tentar contestar isto e imaginar que, com a onda neoliberal, as grandes potências dominantes no sistema capitalista mundial tenham aberto mão da superestrutura social democrática, completamente. Vamos repetir mais uma vez, os sistemas de proteção social e de regulação da economia que se desenvolveram no século passado não foram completamente abandonados ou eliminados, mesmo após as quase 5 décadas da onda neoliberal. Mesmo assim, a superestrutura social democrática ainda é predominante nestes países, incluindo os EUA.
Tudo isto se mostra com evidência nas situações de crise social de grandes proporções, como as que vivemos, no sistema mundial e, sobretudo, no oeste ou norte global e associados, nos últimos 15-20 anos. Estamos no fim desta onda neoliberal e por isto vemos as formas mais extremas de imposição do liberalismo, ou do interesse comum do capital, do poder financeiro, enfim, ressurgirem e buscarem levar aos limites máximos a destruição desta superestrutura social democrática. Como a condição dos países imperialistas mundiais atuais é de inexorável decadência relativa e de perda substancial de poder no mundo, com certeza isto coloca riscos ainda maiores de eles debandarem para estas experiências sociais liberais conservadoras mais extremas, de caráter fascista e belicista, por exemplo.
Mas, isto não é necessário e a vitória, uma nova vitória da social-democracia, nestes territórios, pode ser suficiente para evitar este risco. Mesmo com ganhos e perdas eleitorais, o fascismo não conseguirá se impor no centro do mundo, desde que a social-democracia se reestabeleça nestes locais. O reestabelecimento das diretrizes sociais-democratas lá, agora, é muito útil para que a paz mundial e a continuidade de desenvolvimento social sejam melhor garantidos.
A retomada da produção e do trabalho social organizado, em nível mundial, são condições inelutáveis para a vida social atual, para o nível de industrialização e de desenvolvimento tecnológico, atuais, por exemplo. Só uma nova valorização do trabalho social e da dignidade social dos trabalhadores, real, material e subjetiva, em termos de condições e qualidade de vida pode ser uma base firme e, ao mesmo tempo, um produto de uma economia social sustentável e em desenvolvimento.
Nestes grandes centros hegemônicos do mundo, as conquistas sociais-democratas podem e devem ser retomadas e renovadas, revistas e recriadas, nas condições tecnológicas e no momento atual da globalização produtiva e social. Isso será positivo para o mundo em geral. Eles se assegurarão, assim, uma saída sustentável da crise econômica em que estão metidos desde 2008 e isto permitirá uma menor adesão ao belicismo, ao nacionalismo e ao fascismo nestes países.
Mas, nada evitará a sua decadência relativa no cenário econômico e geopolítico mundial, com todas as perdas, inclusive econômicas que se tem com isto. Eles terão que saber lidar com isto, eles terão que aprender a tirar as garras de cima de outras nações, que ainda mantêm em seus esquemas de exploração. Só há um modo de fazer isto sem que seja a imposição de novo império e uma simples renovação dos esquemas mundiais de exploração e opressão: a via socialista, que é, deste modo, também, a via de continuidade, de ampliação, de aprofundamento e desenvolvimento da social-democracia.
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