sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 3. As Guerras no Processo Histórico Contemporâneo

1. A Guerra na Crise Econômica Sistêmica Capitalista: Efeito e Causa, Causa e Efeito Em uma crise econômica sistêmica capitalista, a guerra tem racionalidades econômicas absolutamente perversas. Mas, inquestionáveis, na lógica liberal, ou, capitalista em geral. É uma forma segura de um governo queimar capital e dar uso a uma mão de obra excedente no âmbito da crise, é um investimento num setor produtivo com demanda segura, criada por ele mesmo. Dentro desta lógica, a guerra é uma forma racional para se resolverem, ou ajudar a se resolverem, as crises econômicas capitalistas liberais. É o que chamam de” keynesianismo de guerra”. Mas, sobretudo, é uma forma de destruir recursos produtivos físicos e humanos, de destruir capital e quebrar cadeias de produção e circulação de mercadorias, fazendo e justificando o trabalho mais sujo, mas destrutivo, da crise econômica. E, quase sempre angariando grande apoio popular, pois o povo raramente se opõe ao “Príncipe” quando ele decreta guerra num momento de crise econômica capitalista. É uma sabedoria popular estúpida, mas verdadeira, dentro da crise. Funciona bem para isto. E é, portanto, quase que uma condição de natureza que, no aprofundar-se da atual crise da economia neoliberal mundial e, sobretudo, ocidental, a guerra seja cada vez mais defendida e, efetivamente, ampliada. No momento, a limpeza étnica sionista na Palestina prossegue, com o apoio das grandes potências ocidentais e sem maiores oposições reais, sem que o mundo consiga fazer qualquer coisa efetiva para deter ou impedir, por mais que muitos, em nome da razão e da dignidade humana, se manifestem e protestem contra. Ninguém consegue deter também a guerra proxi da Otan versus a Rússia, na Ucrânia, que parece longe do fim e com alto risco de se ampliar. E uma guerra, proxi ou direta, dos EUA contra o Irã parece estar apenas no começo. Nestes e em outros conflitos armados internacionais, milhares, talvez, dezenas de milhares, de pessoas morrem todos os dias. Jovens, em especial, são, assim, assassinados e trilhões e trilhões em recursos produtivos são simplesmente destruídos, cotidianamente, nos campos de guerra. E o risco que isto se amplie para níveis ainda mais catastróficos é, realmente, cada vez maior. 2. A Importância da Guerra da Ucrânia e da Vantagem Estratégica da Rússia Na perspectiva estratégica, geopolítica, ou, do poder na arena mundial, imediatamente, é incontestável que o conflito mais importante, de longe, é o da Ucrânia. Muito mais que a guerra da Palestina. A guerra da Ucrânia é a mais importante do momento, a mais emblemática da polarização do mundo atual. E hoje é a Rússia que tem uma vantagem militar no front ucraniano. Isto, também não me parece passível de contestação. Mas se arma no presente uma outra guerra, já bem possível e, talvez, provável, no mar do Sul da China, em Taiwan. Esta, sim, se ocorrer, será a guerra decisiva da atual situação de polarização geopolítica mundial. Tomara que sejamos capazes de evitá-la. Acredito que a iminente derrota na Ucrânia terá algum efeito dissuasivo nas pretensões da aliança do Oeste Global ou coletivo, OTAN e associados, especialmente aqueles do sudeste e sul da Ásia e Oceania. Hoje já terão sido mais de 100 mil mortos e centenas de milhares de feridos entre ucranianos e russos imolados nos campos cerimoniais macabros da guerra, como os mortos em sacrifícios religiosos antigos. São mais de cem mortes por dia, em alguns dias mais de 1000, segundo os dados divulgados de lado a lado, ao mesmo tempo que milhas e milhas de infraestrutura residencial e produtiva são continuamente destruídas. Nos campos cerimoniais macabros da guerra. Na Palestina já terão sido mais de 30 mil mortos e 70 mil feridos e milhões desalojados, deslocados de suas casas. E mais destruição da infraestrutura, da economia, da vida social. A irracionalidade disto tudo não pode ser nunca ignorada ou diminuída. Isto é um absurdo e uma estupidez somente equivalente aos grandes sacrifícios humanos que são documentados ou atribuídos a certas religiões e Estados da antiguidade. Tudo justificado por alguma racionalidade, alguma crença, alguma certeza imposta pelos senhores da guerra, pelos senhores da morte. Eles têm sempre certeza que é preciso matar e destruir, em nome de algo superior. Uma necessidade divina, uma necessidade da pátria ou do Estado. Eles têm certeza que sem o sacrifício absurdo, bárbaro, alucinado, daquelas vidas, algo pior necessariamente resultaria. Eles são fracassados, eles são incompetentes. Eles são estúpidos até onde não pode mais. Mas, têm suas razões. A celebração macabra do então secretário de estado norteamericano, tocando guitarra num pub da Ucrânia foi um espetáculo assustadoramente cínico e impiedosamente icônico. Ele estava celebrando a guerra. Ele estava celebrando com seus chegados da Ucrânia, que eles vão receber mais dezenas bilhões de dólares em armamento norte-americano para continuarem morrendo em defesa da hegemonia da aliança USA-EU e da OTAN. Estão tragicamente sacrificando dezenas, centenas de milhares de jovens ucranianos, além de grande parte do território e da capacidade produtiva da Ucrânia, neste altar macabro, como mártires da hegemonia ocidental. Enquanto do outro lado também, dezenas, centenas de milhares de jovens estão sacrificando as suas vidas, no altar sacrificial da soberania russa. De fato, a própria existência da Otan é contrária à carta das Nações Unidas, que pressupunha uma força mundial de imposição da não agressão entre os povos. A ONU está morta. Viva a ONU! Ou qualquer outra forma de organização pública mundial, com o mandato da paz e com força para interferir realmente nas situações de guerra no mundo. 3. A Continuidade da Guerra e o Necessário Avanço do Socialismo Uma coisa que agora todos nós temos certeza, nesta guerra, é que ela vai continuar. Existem forças mundiais capazes de fazer a guerra terminar, mas parece que elas não estão interessadas nisto. As punições impostas à economia russa não funcionaram porque ela teve para onde escoar toda a sua produção e continuar alimentando a sua economia com os produtos que ela precisa para prosseguir com o seu esforço de guerra. E está sendo bem sucedida nisto. É claro que isto comprova a incontestável fragilidade objetiva, material, econômica, militar e política da aliança do Ocidente Global, para impor a sua vontade no cenário mundial. Isto simplesmente não é mais possível. As grandes potências que se aproveitaram do baixo preço do combustível e outros produtos russos e aumentaram exponencialmente suas exportações para a Rússia, podiam impor ao Estado russo, a paz como condição. Do mesmo modo as potências ocidentais poderiam impor à Ucrânia a paz. Facilmente. Mas não parecem estar interessados nisto. Ao contrário, o Ocidente, eu creio, está realmente mais propenso à guerra, de um modo quase inelutável, dada a convergência da grande crise econômica do fim da onda (neo)liberal, que ainda estamos vivendo, e a perda da hegemonia econômica dos EUA e do Ocidente Global no mundo. A guerra aparece como uma resposta, como uma solução aceitável ou até desejável para estes dois grandes problemas que confluem dramaticamente sobre as potências ocidentais. Até agora não estavam conseguindo lidar de fato com a crise econômica e não há como evitar o seu declínio relativo em face da ascensão da China socialista e de potências associadas. Não conseguiram lidar com a crise porque os instrumentos anticíclicos aplicados não atingiram o lado da distribuição de renda, da (re)conquista de direitos e serviços públicos para as massas. O receituário para o combate às grandes crises econômicas do capitalismo está razoavelmente bem estabelecido e ele não pode prescindir do avanço social, socialista ou social-democrático, em geral, como ocorreu no século passado, a partir dos anos 30 e, sobretudo, a partir de 1945. Vamos, certamente, passar por uma onda de avanço social-democrático e socialista, no mundo em geral. No século passado, até acharmos este caminho, a crise nos custou 2 grandes guerras mundiais e uma pandemia totalmente destruidora, com mais de 150 milhões de mortes. Neste século, no fim da onda liberal atual, talvez a gente não precise passar por caminhos tão destrutivos. Até agora ainda não tivemos guerras totais com a destrutividade do século passado e a até a pandemia atual foi muito menos letal. Mas, a crise ainda está aí e as guerras nos espreitam cada vez mais. O poder dos Estados dos países democráticos e liberais é cada vez mais bélico. Estão gastando cada vez mais com armas e defendem a guerra, defendem as guerras, como a da Ucrânia e a da Palestina, sem constrangimentos. Como defenderam todas as anteriores em que os EUA se envolveu. Defendem as guerras como necessárias, quando elas atendem aos seus interesses. Do mesmo modo que defendem e promovem as revoluções, os golpes de Estado e as ditaduras, quando atendem aos seus interesses. Não é de se estranhar que, na condição de crise e desafios extremos para o capitalismo ocidental, ele reagisse com toda a sua virulência, ao limite, para além de qualquer racionalidade e dignidade humanas. Não é de se estranhar que o fascismo renasça no centro do capitalismo mundial (EUA – EU) e tenha vitórias políticas nestes centros hegemônicos da civilização, no sistema capitalista mundial contemporâneo. Eles estão em decadência e ameaçados de todos os modos. A resposta pela violência política explicita, pela xenofobia, pelo nacionalismo, pelo isolacionismo e pelas guerras é quase natural, neste caminho estúpido. Assistimos atônitos e amedrontados, assustados, esta escalada macabra. E impotentes. Não podemos, ninguém pode, parece, impedir estas tragédias anunciadas, como as outras que se anunciam pela via das crises ecológicas e pela própria evolução tecnológica. Não dentro do sistema capitalista mundial, na ordem liberal que vige nas últimas décadas. É necessária, é impositiva, uma nova guinada, uma nova onda, à esquerda, uma nova onda de socialização. É necessária ao próprio sistema econômico, produtivo, capitalista mundial. Não há outras alternativas senão o avanço da socialização. Apenas catástrofes econômicas, bélicas, ecológicas e tecnológicas se apresentam como futuro próximo, caso a ideologia liberal conservadora ainda se imponha, ainda mantenha o predomínio nos cenários econômicos e políticos mundiais. 5. O Caminho Civilizatório: A Derrota do Fascismo e do Imperialismo na AL e no Mundo Não é de se estranhar que a gente veja a ascensão de forças verdadeiramente fascistas ao poder de países hegemônicos, na atualidade. Também não é de se estranhar que aqui, nas Américas, o poderio imperialista dos EUA queira se fortalecer e se fazer impor, de todo modo. Na ausência dos meios para exercer a hegemonia econômica restam as imposições de poder cultural, político e militar. Mas, por mais potentes que sejam as influências políticas e culturais (pensemos só no controle que os EUA de fato ainda têm sobre as mídias tradicionais e sobre as mídias sociais no Brasil, por exemplo), diante da ausência de hegemonia econômica real, elas tendem a declinar a se enfraquecer e não têm mais como sustentar uma posição efetiva de poder do império, em relação aos seus vassalos. Isto está acontecendo agora, aqui no Brasil e em todo o mundo, em toda a América em particular. A presença militar dos EUA e os temas de segurança ampliam a sua presença na realidade política dos nossos países. Novas desestabilizações da segurança pública e da política aqui nas Américas, portanto, devem estar mesmo no nosso radar. É o que está acontecendo e é previsível. Caso os EUA e a Europa marchem decididamente em direção mais e mais social-democrata, ou seja, no seu sentido mais profundo, mais socialista, certamente o risco de guerras generalizadas diminuirá muito, pois, o seu vetor econômico se desfará ou terá a sua força muito reduzida, a crise econômica será realmente superada, finalmente, e não apenas protraída, como ainda está agora. E sem o vetor econômico para a guerra, até o vetor geopolítico perde sentido de ser. Com as economias das potências ocidentais voltando a crescer e a qualidade de vida voltando a melhorar para as suas populações, ninguém vai querer guerras. A disputa contra o fascismo continua válida, portanto, em cada metro do território mundial. Em todo lado a vitória do liberal-fascismo é um risco maior para todos nós, pelo aprofundamento da crise econômica e pelo risco, pela ameaça ou realidade, das guerras, de mais e maiores guerras. Analisando as coisas como estão agora e como têm decorrido, na comparação histórica, entre o século atual e o passado, por exemplo, aparece bem consistente um progresso socializante e civilizatório no período, associado aos avanços sociais-democráticos do século passado e à globalização neoliberal das últimas 04 décadas. Houve grandes avanços produtivos, tecnológicos, em todo este período dos últimos 80 anos, de 1945 até o presente. Um período, por pior que seja, de muito mais paz e de expansão da prosperidade em escala mundial, em comparação aos 80 anos anteriores, por exemplo. Com certeza. Tudo isto, contudo, ainda com um contingente de violência, miséria, exploração e exclusão que só se faz mais e mais absurdo, diante dos avanços tecnológicos e gerais, do período contemporânneo. Foi um período de mais paz e prosperidade, com certeza, mas também, ainda, um período de tanta violência desnecessária, tanta opressão e abuso, que não dá para aceitar, de modo algum. Isto tem que acabar, tem que seguir diminuindo, certamente. O caminho civilizatório deve prosseguir. E prosseguirá.

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