sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sala de Situação - Segundo Semestre de 2024 A Crise e a Nova Governança Mundial - Parte 1. A Crise Atual no Processo Histórico Contemporâneo: Alguns Dados Comparativos

Parte 1. A Crise Atual no Processo Histórico Contemporâneo: Alguns Dados Comparativos A crise de 2007/2008/2009 foi a recessão mais profunda e mais duradoura dos EUA desde a segunda guerra mundial. A perda foi de mais de 4,5% do PIB nesta que foi chamada de a Grande Recessão. Desde 1960, houve recessão global nos anos de 2009 (-1,4%) e 2020 (-3%). Mas, assim como a queda do PIB global de 2009 começou no final de 2007, a queda do PIB de 2020 começou em 2018. Em todos os casos, obviamente, com um grande peso da recessão norte-americana. Neste período ocorreram grandes desacelerações na taxa de crescimento do PIB global, em 1974 -1975 e de 1980 a 1982, na crise do fim da onda social democrática do pós-guerra, no sistema capitalista mundial. Mas, recessões, mesmo, só aconteceram agora, em 2009 e 2020, na crise liberal, no fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial, momento histórico em que nos encontramos agora. Pondo as coisas num contexto histórico mais amplo, para comparação e análise, estima-se que na grande depressão, entre 1929 e 1932, o PIB mundial caiu 15% e só retornou ao nível pré crise em 1939, quando se iniciou a segunda grande guerra mundial, com o seu grande impacto destrutivo sobre boa parte da economia mundial. De 1950 até a segunda metade da década de 70, ao contrário, houve alto crescimento, em geral, com média em 5% ou mais. Depois, nos anos 80, a média diminuiu para perto de 3%. E se vem se reduzindo ainda mais, aos poucos, desde 2007. Quando se considera a taxa de crescimento anual do PIB real mundial, per capita, no século XX, o período até 1913 é de médio crescimento (1,5%), o período de 1914 a 1949 é de baixo crescimento (0,7%), de 1950 a 1974 é de alto crescimento (3%) e daí até os anos 2000 voltou a ser médio (1,5%). Com certeza está em nível mais baixo agora, desde 2007, já que o crescimento do PIB mundial tem sido menor, progressivamente menor, desde então. Em relação ao comércio exterior registra-se que o seu volume, o valor e a participação no PIB mundial cresceram exponencialmente, desde a segunda metade do século passado, até a crise de 2008. Desde lá o comércio global geral, em termos de volume e valor, continua significativamente crescente, mas de modo muito mais irregular, com quedas importantes em 2007-2010 e 2020-2021. E, em relação ao PIB global, o valor do comércio global se tornou estacionário ou decrescente, desde então, desde 2007/2008. No prisma histórico mais amplo, houve duas ondas de crescimento acentuado do peso do comércio global na economia global, documentadas, nos últimos 2 séculos. A primeira, entre 1860 e 1914, foi seguida por uma queda profunda, no período da grande crise econômica do sistema capitalista liberal mundial do século passado, entre 1913 e 1945, quando atingiu um nível menor do que aquele de 1927, em proporção ao PIB global. A segunda onda de crescimento acentuado do comércio mundial iniciou-se então, a partir de 1945, e veio até 2007, quando entramos novamente em uma grande crise do sistema capitalista liberal mundial. O volume do Investimento Externo Global também cresceu exponencialmente a partir das últimas décadas do século passado, até a crise de 2008. Desde lá está sofrendo muitas oscilações e tem trajetória predominante de queda. Considerando o custo em perdas de vidas humanas, as duas grandes guerras internacionais do século passado, juntas, mataram em torno de 100 milhões de pessoas e a gripe espanhola matou 50 milhões, aproximadamente. Em todo o século XX as guerras mataram em torno de 180 milhões, em uma população de aproximadamente 2 bilhões de pessoas, em todo o mundo. Enquanto, no presente século, até Abril de 2024, a Covid matou algo próximo a 7 milhões e as guerras no século XXI mataram, por enquanto, menos de 5 milhões de pessoas, em todo mundo. Em uma população total de 8 bilhões. Até a pandemia foi bem menos dramática, ainda que isto se deveu, em grande parte, pelas características dos agentes infecciosos, e proporcionalmente, são menos guerras e bem menos violentas, até agora, em relação ao século passado. Isto, com certeza, tem a ver não só com o desenvolvimento geral, mas também, particularmente, com as ações da social-democracia ou do socialismo e do globalismo, desde o pós guerra. Um bom exemplo e uma boa medida disto são os recursos públicos injetados na economia nos pacotes de medidas anticíclicas. Em 2009, o Governo dos EUA assumiu um ônus de USD 0,5 trilhão (3,55% do PIB da época) para resgate de instituições financeiras em crise. O TARP aprovado no congresso para enfrentar a crise foi de 700 bilhões de USD, mais 250 bilhões para a compra de bônus bancários. Mais 156 bilhões do ato de estímulo econômico, de 2008, para a proteção social: transferência de renda, além de aumento do seguro-desemprego, food-stamps e reduções / isenções em impostos. No total, foram mais de 1,5 trilhões de USD injetados na economia americana pelo governo para enfrentar a Grande Recessão. Tudo isto permitiu uma rápida retomada da economia, que foi seguida por um crescimento seguro por 10/11 anos, a partir de 2010. O mesmo foi feito na Europa - Inglaterra, em escala menor em cada país, mas, creio que em seu conjunto foi tão grande ou maior que nos EUA. O combate à recessão de 2020, por seu turno, teve um custo de mais de 3,4 trilhões de USD, nos EUA, desta vez não focalizados no mercado financeiro, mas, que, mesmo assim, terminaram sendo concentradores de renda. Estes recursos injetados pelo governo dos EUA, através do CARES act e do Response and Relief Act, entre outros, em 2020 e 2021, contribuíram para uma recuperação mais acelerada da recessão, apesar dela ter sido mais profunda em 2020 (-2,8% GDP) do que em 2009 (-2,6%). E, mais uma vez isto se repetiu por todo o mundo. Foram, só nos EUA, mais de 5 trilhões, e, no mundo todo, próximo de 15 trilhões de USD, talvez, certamente mais de 10 trilhões, injetados pelos governos nacionais nas economias do conjunto dos países, desde o início da crise econômica atual, em 2007. E este valor continua crescendo, apesar do espaço para novas injeções de trilhões de dólares, para socorro anticíclico, ser cada vez menor. 1. A Causa Básica do Neoimperialismo, do Neofascismo e das Guerras Creio que a China continua patrocinando as soluções pacíficas. Enquanto representantes do grande capital abertamente têm fomentado guerras e conflitos. É o que eu esperava mesmo. O poder capitalista está desesperado e em um beco sem saída. A guerra se apresenta como alternativa palatável. Todos os que pensam apenas sob o prisma geopolítico podem mais facilmente aderirem, também, ao espírito belicista e, até, à propaganda da guerra. Mas, muito cuidado tem que ser tomado aqui, para a gente não cair no moralismo humanista, ou um humanismo moralista, como queiram. A guerra, as guerras, a guerra civil e as grandes guerras internacionais, tudo isto é parte da nossa realidade e não temos porque temer ou repudiar isto em absoluto. Pode ser necessário. Quando não resta outra alternativa, na impossibilidade de se defender de outra maneira, toda pessoa e grupo social termina por lançar mão da violência ou termina se submetendo a ela. Aquele que está sendo oprimido, aquele que está sendo ameaçado em sua existência ou dignidade, aquele que está sendo abusado, como pedir que não reaja com violência? Ao contrário, esta violência é bem vinda, é libertadora, é humanizante. Historicamente, no plano do sistema mundial, temos que entender quais são as razões profundas da guerra na contemporaneidade e dos conflitos sociais e políticos crescentes mundo afora. Sempre vão existir motivações ideológicas aparentes ou populares, mas sempre existirão também as razões socio-econômicas estruturantes. E uma densa camada de razões intermediárias, políticas e geopolíticas, por exemplo. Não é possível ignorar que a condição de esgotamento da onda neoliberal no sistema capitalista mundial está subjacente a toda essa ebulição bélica e de conflitos internos e internacionais. As condições de realização do capital estão muito apertadas. A classe trabalhadora teve a sua renda e os seus direitos reduzidos em grandes proporções e, agora, isto mesmo faz com que a roda da acumulação capitalista produza muito mais atrito. Estamos em uma grande crise econômica, característica de um extremo de concentração da riqueza nas grandes economias capitalistas centrais do mundo. É óbvio que é do empobrecimento, relativo e absoluto, das classes trabalhadoras, muito mais do que do crescimento da migração, que vem toda esta tensão em relação a migrantes e toda a xenofobia que ela despertou. Isso não nasce de um projeto ideológico da extrema direita, isto se torna um projeto ideológico de extrema direita porque não é possível o capitalismo liberal dar uma resposta resolutiva à crise econômica, já que a imensa concentração da riqueza é a razão básica desta crise e é impossível ao liberalismo econômico conservador abrir mão dos princípios de livre acumulação e concentração de riqueza e poder econômico, que o caracterizam. Ao contrário, eles querem é mais. E é aí que a solução absurda da guerra passa a ser mais razoável para as elites. Da mesma maneira que parece razoável para uma parte das massas frustradas, sem perspectiva, empobrecidas, identificar os migrantes como os grandes causadores dos seus problemas ou apenas endereçar contra eles a sua raiva, o seu ódio. O fascismo e a guerra são duas faces da mesma moeda, são respostas disfuncionais, destrutivas, monstruosas, do capitalismo à sua crise. Foi contra estes três monstros: a crise econômica e o fascismo e a guerra, decorrentes, que a grande onda socializante, a onda social democrática, se você quiser, se formou e emergiu no mundo antes da metade do século passado. Não será diferente agora. Mas, agora será uma onda mais socializante. O aspecto mais central desta guinada nas oscilações da economia capitalista mundial, o seu principal indicador, é, ao fim, a distribuição da riqueza social. Índice de Gini e outros, a participação dos 1 e 10% mais ricos e dos 50% mais pobres. Mas, especialmente a participação dos 50% mais pobres na riqueza e na renda sociais. Pois este é o indicador mais direto de sua capacidade de consumo, de seu poder de compra, fator determinante na crise de realização da economia liberal. Estamos, agora, nos principais países do mundo, nos piores níveis de distribuição da riqueza social, desde o fim da segunda guerra. Isto leva a uma dificuldade real de realização do capital. A própria concentração de riqueza e poder que está na base da ideologia liberal leva a isto. Daí este estresse todo. Esta é a causa mais profunda da emergência da guerra e do fascismo e de tantas mortes desnecessárias. Mas, temos que entender isto desde a sua base real, econômica e não apenas aparente, financeira ou política, por exemplo. Se trata sempre daquilo que os indivíduos têm que poupar, têm que ceder de seu trabalho e produto para a concentração de recursos e a realização da produção e desenvolvimento, coletivos. O capitalismo, por paradoxal que isto seja, é uma forma efetiva, ainda que de baixa eficiência e alto custo social, de se realizar esta equação. E, é óbvio, os erros do capitalismo vão ficando cada vez mais evidentes com o desenvolvimento tecnológico, ou seja, com o desenvolvimento da riqueza humana.

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