sexta-feira, 30 de maio de 2025
Sala de Situação – Maio 2025 -
A crise econômica sistêmica atual, com a re-emergência fascista e imperialista e alto risco de grandes guerras
E a sua solução histórica.
Em uma grande crise de realização na economia, característica do desenvolvimento capitalista liberal, algumas coisas acontecem, de uma forma mais ou menos conhecida, conforme a história dos últimos séculos indica e a ciência econômica, em geral, identifica. Certamente, em uma grande crise assim, uma série de más decisões e fracassos na condução dos negócios, privados e públicos, são esperados e devem realmente acontecer. Afinal, a recessão, a sucessão de picos recessivos, necessariamente ocorrerá, em uma crise desta natureza, ou seja, muitos empreendimentos privados vão fracassar e as políticas públicas serão insuficientes ou francamente prejudiciais para a recuperação da economia como um todo. Seja qual for o tipo de sandice que você puder imaginar, ela pode acabar acontecendo, resultando sempre no fracasso e na quebra de investimentos, de negócios, de cadeias de produção e consumo e até de setores inteiros da economia, na queima de capital, enfim, e em mais perda da capacidade de compra e de serviços públicos para as massas. Até que um novo ciclo de acumulação e realização possa ocorrer. Não há como escapar disto, pelo caminho ‘natural’ das crises econômicas características de uma economia capitalista liberal. Este processo lembra aquele de podas radicais para que as plantas se desenvolvam ainda mais. Mas, podas radicais podem matar, a economia não é uma planta, as pessoas não são folhas e o custo social das crises econômicas generalizadas é alto demais. Foi justamente por isto que desenvolvemos, dentro do próprio sistema capitalista, as medidas protetivas e anticíclicas, financeiras e sociais, e elas têm sido largamente utilizadas.
Esta crise tem um pilar, a incapacidade do consumo absorver a produção, sobretudo dos novos investimentos, em alguns setores importantes, ou de forma mais generalizada, na economia. Os investimentos fracassam, a economia estagna, a produção decai e alguém tem que pagar por isto. Objetivamente, a população tem que consumir menos. No modelo capitalista liberal isto resulta em um ciclo vicioso realmente muito destrutivo e justamente por isto se justificam as políticas anticíclicas de garantia de renda social, para as camadas populares.
O aprendizado histórico e o desenvolvimento social estão, realmente, nos permitindo lidar com as crises econômicas, em geral, e esta atual em especial, de forma muito mais civilizada e positiva do que seguindo o receituário liberal ou a lógica espontânea do mercado capitalista. Em todo o sistema capitalista mundial e, em especial em seus países mais ricos, desenvolvemos e aplicamos, cada vez mais largamente, desde o segundo quarto do século passado, medidas anticíclicas de proteção dos mercados e das pessoas, assim como medidas gerais de regulação financeira, produtiva e social. Isto explica, no meu entendimento, os resultados atuais muito menos destrutivos, até agora, do que aqueles da grande crise mundial da primeira metade do século passado.
Na crise atual, em vários momentos, a partir de 2007, os governos, no sistema mundial como um todo e especialmente nos países mais ricos e poderosos da aliança hegemônica ligada aos EUA, lançaram algumas dezenas de trilhões de dólares na economia, para alívio da crise, socorro ao sistema financeiro, proteção social e incentivo ao consumo. Isto permitiu que as economias recuperassem em parte suas capacidades de desenvolvimento, ainda que apenas de modo instável e limitado, temporariamente. As medidas adotadas claramente não foram suficientes para eliminar completamente a crise. Tivemos picos recessivos anuais mundiais em 2009 e 2020, algo que não acontecia desde o fim da 2a guerra mundial, e talvez estejamos, já, no caminho de um novo pico recessivo. Além disto, no presente, ao fim de maio de 2025, nos principais países da aliança hegemônica, os recursos anticíclicos parecem estarem chegando ao limite ou terem já se esgotado, sem terem sido capazes de reverter a crise. Os seus déficits públicos estão batendo recordes e com tendências de crescimento insustentáveis e parece cada vez mais difícil continuarem com programas de incentivo econômico. Seja com for, nos EUA, na Inglaterra, no Japão, na Alemanha ou na França, por exemplo, as economias estão realmente enfrentando grandes dificuldades e o que se espera é um crescimento muito baixo ou recessão.
Estamos, portanto, chegando ao momento mais grave, mais dramático e perigoso da crise atual, em que parece que os recursos anticíclicos talvez não possam mais ser utilizados em larga escala. Daí também cresce a importância de entender qual a sua natureza, características e tendências principais.
A crise atual, dos países da aliança hegemônica do sistema capitalista mundial, ocorre ao fim de um processo de muita concentração de riquezas e com taxas de crescimento relativamente baixas, o que resulta, necessariamente, em um processo progressivo de empobrecimento relativo e, ao fim, até em empobrecimento absoluto das massas, levando a grandes limitações e impossibilidades para a ampliação e, até, enfim, na sua redução do seu consumo, em contraste com a riqueza cada vez mais concentrada. Não é possível que isto aconteça sem o aumento da insatisfação da população, que, no entanto, não está consciente das características e causas do seu empobrecimento, da estagnação, degradação e piora da sua qualidade de vida, em chocante oposição com o contínuo desenvolvimento tecnológico e da produção em geral.
Muitas justificativas e fantasmas sociais são erguidos pelas ideologias dominantes para direcionar esta frustração e a raiva das massas neste processo. São os mesmos falsos inimigos de sempre, normalmente os mais rejeitados entre os discriminados, que sofrerão de algum modo o ônus ideológico e social da crise. No interior dos países, as classes, as raças, as religiões, gêneros e outras características de grupos populacionais já, de algum modo, fragilizados e oprimidos, serão alvo de violência ideológica, moral, material, econômica e física, muito mais intensamente do que em tempos de paz econômica e social. No cenário mundial, na relação entre as nações, de certo modo, o mesmo acontece e as proteções institucionais, legais, morais, ou, de qualquer ordem são deixadas de lado. A face mais dura do poder político, geopolítico, econômico e militar, imperialista, tende a se apresentar, em sua realidade bruta. Este é o caldo de cultura do qual nasceu o fascismo e, agora, o neofascismo.
Estamos, agora, entrando no ponto máximo da crise econômica e social atual do sistema capitalista mundial e devemos, portanto, também estar no ponto máximo de avanço das forças neofascistas no mundo. Especialmente nos países da aliança hegemônica, que são o centro da crise. Do ponto de vista econômico e político, no interior destes países, deve estar claro que, agora, a insatisfação popular continuará alta e estará atingindo extremos e que, portanto, está altamente sujeita à manipulação fascista. Ao passo que as medidas anticíclicas não foram capazes de reverter as tendências recessivas e nenhuma medida política, dentro da ordem democrática, pode reverter rapidamente as bases econômicas desta grande insatisfação popular.
Tudo isto leva a um risco cada vez mais alto das guerras como alternativas interessantes e aceitáveis, do ponto de vista ideológico pelo fortalecimento do nacionalismo e a projeção de inimigos externos para as massas frustradas e sem perspectiva. De fato, a ocorrência de guerras e crises políticas graves no interior dos países, aumentou muito desde o início da grande crise econômica atual. As guerras são, infelizmente, formas eficazes de se lidar com as grandes crises econômicas, elas cumprem diversas funções neste sentido, realizando a forma mais direta e brutal de queima de capital, físico e humano, de poda radical no sistema econômico e social.
Na medida em que a crise não se resolve e as medidas anticíclicas encontram seus limites e cobram o seu preço, a posição capitalista liberal, que foi tão vitoriosa nas últimas décadas, resiste a ceder o seu predomínio e abre mão de tudo em sua doutrina, menos da ideologia de acumulação ilimitada da riqueza. Todas as outras liberdades de mercado podem ser e são contestadas, na procura de saídas para a crise, mas insistem e insistirão até o fim que a concentração de riquezas deve persistir o seu curso, livremente. É óbvio que isto é a receita certa para a manutenção e aprofundamento da crise e de todos os seus corolários e consequências.
Estamos, portanto, justamente neste momento extremo em que todas as gentilezas cessam e a estupidez e a virulência da lógica da acumulação livre e ilimitada tende a se mostrar sem retoques, sem meios termos, sem contemporizações.
A ideologia da violência, da dominação e da guerra necessariamente são crescentes nestas condições e é justamente o que vivemos na última década, ou nas duas últimas décadas. Sob qualquer critério que se estabeleça, é claramente identificável o aumento da xenofobia, do nacionalismo e do belicismo. Ao fim, a face mais dura do imperialismo se manifesta, necessariamente neste contexto, e é o que estamos vendo. Seja qual for o resultado das investidas imperialistas atuaia, nada vai conseguir restabelecer a hegemonia absoluta dos EUA e nem muito menos conseguir controlar e reverter a grande crise de realização atual do sistema capitalista mundial, que incide especialmente sobre os EUA, UE e aliados e, também por isto mesmo, o risco das grandes guerras se torna cada vez maior, no atual momento histórico.
Dizem por aí que a história se repete, mas o que primeiro aconteceu como uma tragédia, na repetição se torna uma farsa, uma comédia, um arremedo. Olhando o neofascismo atual, em relação ao fascismo na sua origem, este dito popular parece se confirmar. Mas, na verdade, eu não tenho certeza de o quanto, lá na sua origem e até o desencadear das formas mais extremas do poder fascista, se antes disso, ele não tinha também este traço de farsa descarada, de truques idiotas e perversos executados por atores, mágicos ou palhaços canastrões. Justamente como agora. A arte de enganar o povo faz parte, de qualquer modo, do playbook fascista. O espetáculo e a diversão pode predominar mesmo, até quando as coisas conduzem para as ações mais extremas. E conduzirão. Isto não é exatamente uma escolha, ou um plano bem definido qualquer. Não, muita coisa é realizada justamente pela pressão do momento histórico, cada vez mais forte, no curso de uma grande crise histórica, econômica e social. E, neste curso, os palhaços fascistas vão ficando cada vez mais aterrrorizantes, mais macabros e a ideologia da imposição do poder pela força se mostra necessariamente mais, em sua face mais explícita.
Parece mesmo ser um percurso natural ou espontâneo da economia capitalista que, ao fim de uma onda liberal, com a extrema concentração da riqueza social, persistente e progressiva, seguem-se dificuldades incontornáveis de realização do capital produtivo, no comércio, nos investimentos, na renda, no emprego, em áreas mais ou menos extensas, até atingir o nível de crise e, enfim, das grandes crises generalizadas. Com o seu corolário de, ainda mais, fracassos, empobrecimento, insatisfações e frustrações, até o nível do desespero, largamente disseminadas na sociedade, mas atingindo, obviamente, de modo muito desigual as diversas classes de pessoas, impondo-se de modo muito mais brutal sobre os mais pobres, ou, excluídos de qualquer outro modo, contra os quais muitas vezes, ou necessariamente, ainda se viram a revolta e o ódio dos demais na sociedade. As classes populares se encontram, neste momento, ao fim de um longo processo em que perderam, progressivamente mais, o acesso aos melhores bens e serviços frutos do novo desenvolvimento social. Um longo período de perda progressiva da sua renda relativa, pela concentração da riqueza, e perda de serviços e recursos públicos, em que acabam mesmo objetivamente empobrecidas, em comparação a anos e décadas atrás. A crise de realização generalizada acentua todas estas perdas progressivas, disseminadamente, nas camadas populares que vão terminar também por perder, fortemente, uma perspectiva positiva de futuro e ver o desespero crescer no seu meio. O apego às piores ideologias religiosas, nacionalistas, xenófobas, racistas, violentas e bélicas,deverá mesmo aumentar.
Estas são formas de escape da situação objetiva e de manipulação e dominação das massas pelos ricos e poderosos que, ao fim do longo processo de concentração, obviamente, não querem abrir mão disto e vão lutar, com força, por manter e seguir ampliando seu poder e riqueza. Mas, manter e ainda ampliar isto, nos extremos em que a concentração já se encontra, não parece possível dentro das ordens normais de funcionamento da sociedade e da economia. É realmente peculiar deste momento que, agora, as forças socializantes apareçam como os melhores defensores da segurança e da estabilidade no sistema, enquanto os donos do poder procurem se mostrar como os mais disruptivos e anti sistema. O fato é que eles não podem mais se impor, não podem impor mais perdas às massas e mais concentração de riqueza e poder, sem o uso de recursos de exceção e força.
O fascismo que sempre está aí, de certo modo, no capitalismo liberal, disfarçado nas luvas de pelica da democracia, da justiça e da ordem, agora vem à tona, de um modo ou de outro, vem à tona em sua brutalidade mais explícita. O povo é ainda mais jogado contra ele mesmo, no interior dos países e entre países. O ódio explícito aumenta e passa a predominar em alguns extratos da sociedade e da mídia. As frustrações e o ódio generalizados são direcionados para alvos estes falsos, mas muito reais. As notícias e os espetáculos de violência e mortes lavam as almas de muitos, ou, pelo menos, lhes dão algo para se agarrar dentro do desespero e estes extremos de violência fratricida, estúpida e desumana continuarão mobilizando a memória coletiva e os espíritos individuais por um bom tempo, seja por serem expurgados ou exaltados. Seja como for, a solução capitalista liberal das grandes crises de realização generalizada, que são esperadas ao fim de uma onda liberal na economia capitalista, a solução pela imposição de maiores sacrifícios, de mais perdas econômicas e de todos os seus corolários, sobre as massas, que já vêm em uma sequência longa de perdas, não se faz facilmente, sem os recursos ao fascismo e à guerra, ou de algum modo, em síntese, sem a imposição do poder pela força bruta.
A imposição mais extrema do poder, de mais concentração de riqueza e poder sobre o seu nível já extremado, não pode se fazer sem a maior explicitação, sem a maior exposição da sua brutalidade e violência. Isto se torna uma necessidade para impor os maiores sacrifícios ao povo que já está empobrecido . Além disto, aqueles que acumularam tanto em riqueza e poder não querem, obviamente, ceder e redirecionar a economia para ganhos populares na distribuição da riqueza. em renda, recursos e serviços, ao contrário, é mesmo natural e espontâneo que tanta concentração de riqueza e poder queira mesmo se exercer de modo mais pleno, sem os limites institucionais ou legais, nacionais e internacionais.
Por outro lado, neste momento, quaisquer que sejam as ações acertadas, para reversão da concentração de riqueza ou de recuperação e melhora de acesso a recursos e serviços públicos para as massas populares, elas não podem, contudo, reverter a situação de empobrecimento imediatamente e, portanto, o seu valor, em geral, não será percebido no tempo relativamente curto dos ciclos eleitorais. Razão porque, nestes períodos, fascistas e imperialistas serão eleitos e reeleitos e, se possível, tomarão o poder de assalto, pelos motivos que indiquei acima e porque isto é da natureza do fascismo. E é por isto que, hoje, ele ronda as sociedades centrais da aliança hegemônica do capitalismo mundial, bem mais do que nas últimas, muitas, décadas.
Atualmente nós estamos em um nível realmente extremo de desigualdade, dentro das principais economias no sistema capitalista mundial, depois de um longo processo de contínua concentração de riqueza nas últimas 6 a 7 décadas. Não há como ignorar o quanto isto tem cobrado de empobrecimento e perdas de recursos em geral para as massas populares nos países hegemônicos do sistema mesmo. Esta é, sem dúvida, uma base certa, segura, para a crise generalizada, como descrevi acima. Estamos em uma crise deste padrão nos últimos quase 20 anos, nas economias centrais da aliança hegemônica. Mas, é preciso entender, não podemos ignorar de modo algum, que ela está contida, controlada, mitigada, em todos os seus mecanismos e efeitos, pelas redes de proteção social e de regulação financeira já existentes, desenvolvidas ao longo de décadas e séculos, e pelas medidas anticíclicas adotadas, com o uso abundante de recursos públicos injetados na economia, em nível recorde, muito acima do que qualquer precedente. É por isso que não temos de fato uma depressão ou algo parecido. Nos EUA e no mundo, até agora, o que tivemos foi a queda das taxas de crescimento, em média, nos últimos18 anos, aproximadamente, e com os 2 picos recessivos anuais, passageiros, nesse período. Tudo o que se pode referir em termos de crise econômica e social e politica, que se pode esperar da condição atual, como descrito acima, está, de certo modo ocorrendo, mas de maneira bem atenuada, ainda.
Efetivamente estamos, no entanto, chegando ao extremo da crise justamente agora. E, portanto, podemos esperar que todas as suas consequências devem ainda piorar, nos países hegemônicos mesmo. Os limites dos déficits fiscais estão sendo atingidos e as apostas de muitos governos seguem sendo na concentração, ainda maior, de riquezas. Assim a crise não será resolvida lá, ao contrário, e isto atinge todo o mundo, de um modo ou de outro.
A isto se soma ainda a crise de perda da hegemonia estadunidense na economia mundial. Nas condições atuais, ambas as crises são inevitáveis e o que eles estão fazendo nos EUA, agora, apenas acelera estes dois processos, de muitos modos. A massa se empobrece com a imposição de tarifas de importação, pois os preços sobem, e também com serviços públicos sendo cortados, enquanto os impostos para os mais ricos estão sendo aliviados. Como nada disto é resolutivo, é previsível que mais cortes nos gastos públicos, nas importações e na capacidade de consumo popular terão que ser impostos logo mais adiante. Tudo isto significa, enfim, mais empobrecimento para grandes massas nos EUA, algo que já vem acontecendo, há algum tempo, lá e também na Europa.
As intervenções de socorro nas crises foram efetivas, até o momento, e permitiram, contudo, que a economia seguisse fluindo bem, ao fim, ainda que com crescimento relativamente baixo e picos recessivos. Talvez, a história se repita mesmo, agora, de modo menos trágico, mais enfraquecido, também, pelo aprendizado histórico, de modo que aquilo que foi tão destrutivo agora já não tem mais que ser, porque já aprendemos a reagir. Parece ser esta a realidade atual e nada de tão desesperador, a nível mundial, ainda não aconteceu, no curso da crise atual, em comparação com aquela anterior, da primeira metade do século passado. Aos trancos e barrancos, a humanidade, por enquanto, ainda segue um curso de desenvolvimento e pacificação, um processo de transformação e evolução histórica, dentro do sistema capitalista mundial.
Agora não parece haver, contudo, nem nos EUA ou na Europa e nem nos demais países aliança hegemônica, força econômica ou política para reverter, de fato, as tendências de crise generalizada, com as suas mais trágicas consequências, como aquelas vividas pela humanidade no século passado. O aprendizado histórico, dentro da própria aliança hegemônica, nos trouxe até aqui, nesta condição ainda positiva, dado o extremo de concentração de riquezas que se atingiu, já. As ferramentas e instituições de regulação, proteção social e anti crise, implantadas no sistema, impediram o pior até agora, mas parece que estão no limite e não são capazes de resistir às tendências persistentes da crise, dentro da opção evidente pela persistência e ampliação, ainda mais, da concentração de rendas, nos governos da aliança hegemônica, ou pelo menos, no governo dos EUA atual. A persistência de níveis muito baixos de crescimento econômico e de picos recessivos nestes países parece que será o novo normal, por um tempo ainda relativamente longo, cobrando o preço social que estou tentando destacar. Mas, incrivelmente e para a sorte de todos nós, a antiga aliança hegemônica, já não o é mais hegemônica. Ou, pelo menos, já tem que dividir esta hegemonia. Já existe um novo subsistema econômico, ou um novo polo dentro do sistema econômico capitalista mundial atual, que se projeta progressivamente mais e que realmente já tem força para dividir a hegemonia com o polo dominante antigo. Escrevo isto não no sentido militar ou mesmo geopolítico, mas, primordialmente, no sentido econômico, que ao fim, nas condições atuais é inquestionavelmente determinante para estes outros níveis também. Não há vitória militar, hoje, que não seja, no fim das contas, uma vitória tecnológica e industrial. A China, as parcerias e as alianças para o desenvolvimento, da China com o Sudeste Asiático, com a Ásia Central, com a Rússia, com a África, com o Oriente Médio, com a América Latina, com a Europa, a inciativa Belt and Road, os Brics, tudo isto, tendo sempre a China como centro, já tem a vitalidade econômica e, por via de consequência, geopolítica e militar, para sustentar e dirigir a economia mundial e a humanidade, como um todo, contra, para fora e para além da crise e das suas consequências mais destrutivas a que, de outro modo, parece que inevitavelmente, o sistema capitalista mundial seria conduzido pela aliança hegemônica dos EUA.
Uma das principais ideologias políticas do momento ainda é a ideia de que estamos em grande risco, nas áreas de maior influência dos EUA, de sermos dominados por ideologias e potências externas autoritárias, em face da democracia liberal em que, pretensamente, vivemos, ou, deveríamos viver. Esta é uma visão fake ou iludida da realidade histórica. Primeiro, é falso que o sistema mundial sob a hegemonia dos EUA seja democrático. Isto é falso no nível propriamente mundial, ou internacional, onde o poder militar e econômico se impõe diante de um sistema normativo e de governança embrionário, ainda. É falso, também, no nível nacional, dos diversos países, onde formas de ditaduras e democracias fake são abundantes e, de fato, predominantes no sistema sob a hegemonia dos EUA. Nem mesmo nos próprios EUA, hoje, se pode falar com toda a segurança que esteja em uma democracia. Hoje o poder lá se exerce por atos imperiais do executivo e a estrutura institucional está sendo constrangida ao máximo. Isto é correspondente à natureza da crise atual, com sua determinação econômica bem definida, dado o nível de extremo de concentração da riqueza que já se atingiu lá e dada a resposta que os bilionários no poder estão dando, como era de se esperar.
A resposta liberal, como está se mostrando, pode negar todos os princípios do liberalismo, menos a ideologia de que a acumulação do capital deve ser completamente livre e incentivada, independente do nível de concentração de riquezas. Já chegamos a um extremo de desigualdade, lá, e ainda estão impondo mais, porque, com certeza, este será um resultado da nova isenção de impostos somada à nova política de taxas de importação nos EUA. Tudo isto só poderá aprofundar a crise nos EUA. O que só incentivará ainda mais a via autoritária e o conflito interno, lá. A crise entre o governo dos EUA e o sistema educacional do país, em geral, e as Universidades, em particular, é mais do que um sintoma disto tudo, é um elo razoavelmente bem conhecido da decadência de potências na história da humanidade, da qual faz parte a ocorrência de algum declínio acadêmico e científico e fuga de cérebros.
Consideramos, até aqui, muito centralmente, a associação do aumento progressivo da desigualdade social, da desigualdade na renda ou na distribuição da riqueza social com a emergência de crises econômicas generalizadas, crises de realização e acumulação do capital, crises recessivas, que são características do fim de uma onda de liberalização na economia capitalista, como foi, e ainda está sendo, neste fim da onda neoliberal. Crise que, ainda que esteja muito mitigada, traz os seus corolários de ascensão do autoritarismo, do fascismo, como é ascensão atual do neofascismo e as suas consequências geopolíticas. O nosso foco eram as economias centrais, dominantes e, especialmente, a principal economia do sistema capitalista mundial, a economia dos EUA. É bem diferente quando a gente considera uma sociedade como a nossa, o Brasil. Aqui vivemos sempre, com poucas flutuações, os níveis de desigualdade mais extremos, sempre acima dos piores níveis atingidos nos piores momentos históricos nos países centrais da aliança hegemônica dos EUA .
Não é de se estranhar que aqui a gente tenha uma economia capitalista relativamente protraída, com o freio de mão sempre mais ou menos puxado, condenada a voos de galinha, no máximo. Esta é a nossa história. Não é de se estranhar que, aqui, a democracia seja uma farsa mais explícita e dolorosa, mais constantemente e mais violentamente negada, na realidade cotidiana.
Aquilo que a gente abomina e deve mesmo abominar, que nos leva à vergonha e até ao desespero, quando temos ciência de um genocídio, de um holocausto, da execução e eliminação sistemática e continuada de povos, nações, etnias, grupos sociais, atingindo os civis e até as crianças, mesmo quando ocorre em terras distantes, é, no entanto ainda prática cotidiana aqui mesmo no nosso país, contra parcelas do povo brasileiro. Os níveis de violência econômica e social, o uso de assassinatos e de tortura, que se praticam aqui no Brasil, na imposição do poder, são, sempre, ainda, muito além do que é aceitável em uma democracia, para os padrões civilizatórios dos países centrais. Violência extrema, econômica, étnica, jurídica, policial, de gênero, criminal e interpessoal, sempre compõem o nosso cotidiano, nossa vida social, em níveis inaceitáveis para padrões civilizados. Somos, por isto mesmo, uma vergonha, para nós mesmos e para a humanidade civilizada, do mesmo modo que, hoje, Israel é. Porque somos, em nosso cotidiano, um estado e uma sociedade de genocidas, assassinos e torturadores. Ou, pelo menos, uma sociedade que é obrigada a conviver com o abuso, a violência, os assassinatos e a tortura, como se isto como se fosse inexistente e com os seus perpetradores como se fossem homens de bem. É assim que é, aqui no Brasil e em vários outros países, é assim no dia a dia. Abusadores, violentos, assassinos e torturadores, fascistas, estão em postos de poder nas polícias e nas forças armadas, em conselhos e associações profissionais, em instituições médicas e jurídicas, e nas práticas cotidianas disseminadas em todo o sistema. O abuso, o desrespeito, a ameaça, a coação, a violência física, a tortura e os assassinatos ainda são práticas policiais, jurídicas, sociais, corporativas, políticas, econômicas, muito presentes no cotidiano de nossas cidades e campos e ninguém que tenha os olhos abertos pode negar isto. A democracia, em condições assim, só pode mesmo ser uma farsa dolorosa, uma ideologia perversa, como uma religião ou um ideal moral qualquer, aquilo que deveríamos ter e não temos, aquilo que deveríamos ser e não somos. Além da dor da nossa realidade miserável, a gente ainda tem a culpa de não atingir os níveis da civilização dos países ricos ou desenvolvidos no sistema.
Não quero ser pretensioso e obstinado o suficiente para colocar tudo isto na conta da extrema desigualdade na distribuição da riqueza social que é imposta aqui no Brasil e em grande parte dos países colonizados. Mas, não é possível negar como tudo isto é bastante coerente com esta condição econômica permanente na nossa história. A extrema desigualdade permanente realmente impede que a economia capitalista se desenvolva com um grau razoável de autonomia aqui e assim continuamos sempre tributários das potências dominantes, sempre limitados no poder de compra das massas locais, sempre em ciclos de avanços e grandes derrocadas. Uma economia que pode até chegar a ser pujante, circunstancialmente, mas com ganhos muito limitados para as massas e que termina sempre resultando em ciclos de grande perda e empobrecimento. Parece que o fascismo é uma forma natural ou até necessária à imposição do poder, nessas condições de desigualdade extrema, o fascismo político aberto, nos nossos momentos de ditadura capitalista, ou o fascismo nosso cotidiano, na polícia, no judiciário, na medicina, na mídia, nos serviços e nas pessoas, no dia a dia, mesmo nos nossos momentos de democracia. A violência econômica extrema se impõe, quase que necessariamente, por meios extremamente violentos. Aqui, a democracia, o estado democrático de direito, é quase sempre impotente, grande parte do tempo é apenas uma esperança ou uma verdadeira farsa diante desta base de violência extrema no nosso sistema econômico. E é por isto que aqui as práticas do fascismo sempre estão presentes em um nível inaceitável para os países democráticos, civilizados. A relação entre a violência política e a violência econômica, entre nós, também se mostra no fato de que os dois golpes de estado efetivos mais recentes, aqui no Brasil, ocorreram justamente quando a desigualdade social atingia um mínimo histórico e, ambos, foram muito bem sucedidos em impor uma política econômica de intenso aumento da concentração da riqueza. Tanto nos anos 60 do século passado, como nos anos 10 do nosso século, foi justamente isto o que aconteceu, o golpe veio para interromper e reverter o ciclo de redistribuição de riqueza que tinha atingido o máximo aceitável pelos detentores do poder aqui.
Talvez se deva fazer, agora, a seguinte pergunta: então os próprios países ricos, democráticos e civilizados e o sistema, como um todo, não podem mesmo regredir ao nível de desigualdade, corrupção e violência dos países secundários e subalternos no sistema mundial, como é o caso do Brasil? Ao invés de nós, aqui e nos outros países da periferia, avançarmos para os níveis mais civilizados dentro do sistema capitalista mundial e ao invés do sistema, como um todo, seguir avançando em sentido civilizatório, o que nós estamos vendo não é justamente o contrário, a regressão dos países centrais à condição de economias de extrema desigualdade e diversas formas de neofascismo político e, quem sabe, de um neofeudalismo econômico?
A minha resposta tem sido sempre não e, consistentemente, não, ainda que a gente tenha que passar pelo avanço ainda maior do fascismo nos países centrais da aliança dos EUA e ainda que a gente tenha que passar por grandes guerras que naturalmente daí sucederão. Estamos em um nível alto de risco de que isto realmente aconteça. Está acontecendo, já. Mas, ainda em um nível limitado. O fascismo não se impôs abertamente em nenhum destes países e provavelmente isto não acontecerá. A guerra, por enquanto, é “apenas” comercial ou econômica, em geral, ou está limitada à Ucrânia, Palestina, Congo e mais uma ou outra guerra localizada deste tipo, aqui e ali, com o número de mortes ainda limitados, diante dos números do século passado, por exemplo. Mas, todo mundo sente que estamos realmente em um risco maior, como naquela situação grave em que idiotas, sentados cada qual em seu barril de pólvora, se provocam mutuamente. Algo muito ruim pode ocorrer a qualquer momento. Mas, não parece que vai ocorrer agora, ainda, pelo menos.
Ainda que isto ocorresse, a solução de uma crise econômica capitalista de realização generalizada, como a atual, não pode ser e não será de regressão a uma condição geral de maior desigualdade e formas mais autoritárias e violentas de imposição do poder. Ao contrário, justamente ao contrário. Mesmo que a gente tenha que passar por um franco momento neo facista, de real imposição autocrática, aberta, do poder, em alguns países da aliança dos EUA, e mesmo que isto nos conduza a guerras bem maiores e mais destrutivas que as atuais, a saída da crise atual se dará por um novo ciclo de redistribuição de riquezas e de avanços socializantes no sistema econômico e social mundial, em geral.
Efetivamente, eu não acredito nem mesmo que a gente sequer vá passar por estes dramas mais extremos, ainda que o risco tenha aumentado muito e seja crescente. Os meus motivos para esta análise, ao fim, se concentram na própria natureza da economia capitalista e no seu estágio atual de desenvolvimento, como um sistema econômico mundial.
Vamos considerar primeiro o estágio atual da economia mundial, ou, do sistema, ainda, capitalista, mundial. A integração da produção, das cadeias produtivas, financeiras e de consumo, mundiais, de um modo especial com o desenvolvimento das tecnologias digitais e da internet, a integração internacional, econômica e social, associada a todos estes desenvolvimentos, tudo isto se coloca como uma rede de proteção, com a força e o poder da necessidade econômica e da vida cotidiana, contra os delírios fascistas, imperialistas e belicistas que já estão em alta, nos centros hegemônicos de poder, e ainda estarão por um bom tempo. Com relação à lógica própria do capitalismo, o fato é que ela impele ao desenvolvimento e mundialização da produção, mesmo que, em certos momentos, isto seja contrário à vontade expressa de seus representantes. Portanto, a violência econômica e militar da imposição imperialista é, ela também, apenas mais um limite, ou, uma forma limitada, para o desenvolvimento econômico mundial, para o desenvolvimento do sistema econômico mundial, e, como tal, deve ser negada pelo próprio avanço do sistema. Parece, claramente, muito difícil a aliança hegemônica dos EUA optar pela guerra imperialista sem limites, contra a Rússia e a China, porque o nível de desenvolvimento e integração da economia mundial já não é mais compatível com a postura imperialista e belicista plena, dos séculos 19 e 20, quando o sistema capitalista mundial ainda engatinhava em termos de sua integração mundial, comparado à realidade atual. Como consequência, por exemplo, as próprias corporações capitalistas transnacionais, dos setores produtivos, do comércio e aquelas do próprio sistema financeiro mundial vão se contrapor, ainda que com muitas contradições, às piores tendências do governo dos EUA contra a mundialização da produção e em favor das guerras. A posição geopolítica e econômica contra a mundialização é, hoje, muito mais anacrônica do que era há 100 anos e isto se mostra e se mostrará, mais ainda nos próximos anos, nas decisões estratégicas de mercado.
Nada disto seria, talvez, suficiente para evitar o pior da crise mundial, se não houvesse, já, se desenvolvido, dentro do próprio sistema capitalista mundial, um polo complementar e alternativo ao poder hegemônico dos EUA. As piores previsões distópicas, a possibilidade de um longo período, de várias décadas ou até mais de um século, com a permanência de extremos de desigualdade dentro dos centros da aliança dos EUA e com a regressão de todo o sistema para um longo período de domínio do fascismo, com guerras mais ou menos generalizadas e contínuas, tudo isto seria mais provável se não houvesse o polo chinês a se contrapor à tendência da crise, nos EUA e nos outros países principais da aliança hegemônica, arrastar todo o mundo para catástrofes e perdas civilizatórias sucessivas.
A China se contrapõe às tendências mais destrutivas da economia dos EUA na atualidade, simplesmente por ser tão grande no sentido econômico que já é capaz de funcionar como um ponto de apoio para que todo o mundo não tenha que desmoronar, acompanhando uma perda mais extrema na economia estadunidense. De certo modo, o tarifaço do governo dos EUA só reforça esta realidade. Enquanto o governo dos EUA dificulta a integração mundial e chantageia todo o mundo, para pagar as suas contas e para continuar aumentando os ganhos dos mais ricos por lá, o mundo, de um modo geral, encontra na China um parceiro, forte o suficiente e seguro o suficiente, para fazer negócios e alianças estratégicas e atravessar a crise dos EUA de modo mais seguro e positivo o possível. Eventualmente, até, com maior desenvolvimento econômico e ganhos sociais consistentes. Tudo isto afasta as piores possibilidades de expansão e aprofundamento extremos da crise econômica e social, mundialmente, e vai reverberar em favor dos próprios EUA, que não podem, e certamente não querem, se isolar do mundo ou de grandes parcelas do mundo. Ao contrário, todos nós queremos, ainda que de modos extremamente contraditórios, todos nós queremos a integração mundial. Ela é um bem e uma conquista de todos nós.
Além do peso econômico e estratégico que a China já exerce dentro do sistema capitalista mundial, a maior segurança que hoje nós temos, hoje, é que trata-se de uma economia socialista. Não há como negar que a grande economia, aquela que realmente faz frente e está ultrapassando a hegemonia dos EUA no sistema capitalista mundial, é um país socialista. Esta é uma novidade histórica absoluta, muito diferente, por exemplo da condição limitada e secundária da economia do subsistema soviético no século passado. Isto muda tudo e realmente tudo está mudando, agora.
Todos nós temos que estar atentos a isto, dentro do melhor entendimento que pudermos.
As coisas não acontecem na história por nenhum plano que a gente conheça ou possa pressupor, mas, também não é certo dizer que as coisas aconteçam por acaso na história Podemos predizer e atuar no que está em nosso alcance, pelo conhecimento e recursos que temos, e só. Não é um acaso que a China socialista seja a nação que emerge como potência contra hegemônica, neste momento da história, em face aos EUA.
É evidente que a posição da China, sob alguns dos principais aspectos estratégicos não é aquela dos EUA no sistema capitalista mundial. É melhor. As formas de parceria, de financiamento e de negociação, até agora, se mostraram, em geral, melhores com os chineses do que com os europeus e os estadunidenses. Isto ficou claro, já, para uma grande parte dos países. O desenvolvimento chinês está se estendendo, especialmente para o terceiro mundo, de uma maneira bem mais generosa e produtiva do que sob o imperialismo europeu e, especificamente, sob o imperialismo inglês e estadunidense. Não há dúvidas sobre isto, a não ser no nível da propaganda.
Não há dúvidas também, e isto é correlativo ao ponto anterior, que a posição da China é historicamente, bem menos belicista e bem mais de cumprimento dos acordos e das determinações dos órgãos da governança mundial. A perspectiva que a China anuncia é de ampliação das parcerias internacionais e de desenvolvimento da comunidade internacional para um futuro compartilhado. Este nível de responsabilidade histórica com a humanidade, trans geracional, certamente não pode ser atingida de uma perspectiva capitalista liberal, onde o lucro privado tem que ter o lugar de dominância inquestionável e ilimitada, sobre toda a ordem social. A superioridade da responsabilidade social é também da superioridade da responsabilidade ecológica, pois, ao capitalismo liberal é impossível estabelecer os limites necessários à lógica do lucro ilimitado, também no que toca aos riscos e efeitos de poluição e destruição ambiental. A experiência histórica das últimas décadas confirma tudo isto, mostrando como o caminho estratégico que a China descortina para a humanidade é bem superior ao dos EUA e sua aliança hegemônica.
Estas são as razões pelas quais eu posso predizer que vamos avançar em uma nova onda socializante, de modo bem mais suave do que foi no século passado. E, também, de modo muito mais intenso. Podemos prever, sem muita dúvida, que a integração e coordenação da economia mundial e as instituições e serviços de coordenação e governança mundial, em geral, terão um salto qualitativo em relação ao que se viu sob o domínio da hegemonia capitalista dos EUA. Hoje, todo este sistema vacila, mostra sua fragilidade e sua impotência diante das necessidades imperialistas no momento da crise. Mas esta é, apenas, a situação de momento que, justamente, será superada na superação da crise atual.
sexta-feira, 16 de maio de 2025
O PROCEDIMENTO IDEOLÓGICO E A FUNÇÃO DA PROJEÇÃO IDEAL
A atividade humana é dirigida por objetivos projetados, em um nível muito específico, especial. Nós projetamos o objeto da produção, da atividade, do trabalho, no produto que buscamos realizar. Isto é tão simples quanto definidor, específico da nossa espécie, pelo menos nos limites que nós conhecemos até o presente. Sob diferentes aspectos, autores que eu respeito sustentam que nós, os humanos, diferimos de outras espécies de seres vivos porque projetamos nossa atividade antes de realizá-la, de tal modo, com tal nível de consciência, sistematização e continuidade que se pode chamar a nossa atividade produtiva de dirigida por fins ou por projetos. Isto distinguiria seguramente a atividade produtiva humana ou seja, o trabalho humano, de qualquer modo, das atividades vitais de produção e reprodução da vida dos outros seres vivos, em geral. Na contemporaneidade há uma forte tendência cultural de questionamento a esta excepcionalidade da nossa espécie, pelos mais diversos motivos. Por outro lado, é inquestionável que a ideia de projeto pode ser admitida em outras níveis de codificação que não seja aquela da consciência humana, como por exemplo, no código genético. É realmente difícil contestar completamente a ideia de que há um projeto no código genético. Não podemos, contudo, falar em ideologia ou qualquer forma de projeção ideal no nível do código genético. E podemos deixar este assunto de lado, por enquanto. O fato é que são os resultados reais da nossa atividade que atestam suas características e demonstram, de modo incontrastável, a nossa excepcionalidade. Nós fazemos projetos mentais e registros, por códigos e imagens, das nossas atividades e seus resultados pretendidos e os comunicamos entre nós, criticamos e desenvolvemos estes projetos e as atividades vinculadas a eles, conforme os seus resultados, desde formas muito rudimentares da existência humana, desde a pré- história da nossa espécie. Pelas características mesmas desta atividade dirigida por projetos, ela permite e forja, de algum modo, o próprio desenvolvimento. Isto é o que, ao fim, constitui a técnica, a tecnologia, a produção científica, enfim. E isto é parte determinante da nossa história .Mesmo as pessoas que, decepcionadas com a humanidade, ou entendendo melhor o mundo dos animais, suas linguagens e formas de vida, questionam a nossa excepcionalidade, não podem negar a distinção absolutamente radical nestes aspectos.
Na cultura em geral, ou, pelo menos naquela em que eu me formei, uma forma extremamente dominante de lidar com esta excepcionalidade humana está nas ideologias religiosas. As ideologias religiosas terão, em geral, um mito de origem. Haveria alguma força, alguma origem, alguma determinação superior, talvez, exatamente, alguém que planejou, que projetou, de um modo ou de outro, a nossa excepcionalidade, da nossa espécie, ou ao menos daquela tribo ou nação de cada religião. Esta determinação seria a fonte da nossa diferença em relação às outras espécies de animais e, até, em relação à natureza em geral. Não é meu objetivo agora analisar as ideologias religiosas, seja das religiões dominantes na minha cultura, seja de religiões em geral. Mas quis destacar aqui bastante claramente esta diferença radical entre esta ideologia religiosa e o reconhecimento objetivo da nossa distinção em relação aos seres naturais em geral.
Somos distintos pelas características da nossa atividade produtiva, pelo desenvolvimento tecnológico da produção, do qual é indistinguível o desenvolvimento da linguagem em geral, da linguagem escrita e da matemática, em especial, assim como dos outros sistemas de codificação da informação e de comunicação, ao longo da nossa história.
Alguns diriam que somos diferentes por termos rompido com as formas naturais de sexualidade e reprodução, resultando no desenvolvimento da família. Não é possível questionar a importância central da formação e desenvolvimento da estrutura social, decisiva, da família. Mas não é possível ignorar a adequação da estrutura familiar a certas condições de produção e reprodução da vida humana que não são, elas mesmas, o nosso natural, ou originário. A família, tudo indica, se desenvolveu em conjuto e em consonância com as bases da produção agrícola e artesanal, nas origens da nossa história atual. Algo que é constumeiramente datado por volta de 20 a 10 mil anos atrás. Ainda que não seja possível reduzir toda a complexidade psicossocial da família, dos diversos modelos de família, ao desenvolvimento do sistema produtivo, mas também não é possível dissocia-la completamente deste processo histórico de desenvolvimento. A família, algum modelo de família, especialmente, é sempre um valor ideológico alto e vamos considerar isto em outro momento. Agora nosso objetivo é apenas contestar a sustentação da família como fundante da própria humanidade. Esta é uma formulação ideológica extremamente forte, com um valor absoluto, e é, por isto mesmo, parte integral das ideologias religiosas, morais e politicas, em geral. Mas, isto não é verdadeiro. A família não é a estrutura fundante da excepcionalidade humana. Não, para nós, esta excepcionalidade está na nossa própria atividade vital, no nosso trabalho coletivo e na transformação das nossas próprias vidas, com a transformação das nossas condições de vida. São as características desta atividade que criam uma história humana, e, nesta história, uma perspectiva de desenvolvimento. Diferentes formas de organização da sexualidade e da reprodução da vida dos indivíduos se criam, se estabelecem e se transformam também, neste longo processo histórico. Sabemos disto.
A nossa excepcionalidade não é, por origem, espiritual, racional, moral, religiosa ou devida a uma ética da família, ainda que nada disto seja desprezível, ao contrário. Ela é devida ao nosso processo produtivo coletivo que, por suas próprias características, se torna um processo histórico auto produtivo. Nós transformamos e criamos, enfim, as condições em que vivemos, de tal modo que, por todos os meios e em todas as dimensões, transformamos e criamos a nós mesmos, coletivamente. Podemos dizer que criamos a nós mesmos pelo tanto que transformamos as nossas condições de vida e estabelecemos bases para formas tão diferentes de vida humana, com um encadeamento histórico progressivamente mais forte, ainda que a nossa base genética e, portanto, os nossos corpos e seus limites vitais, sigam os mesmos. Algo que, talvez, a emergência da genética dos autismos já esteja a questionar. Até a nossa genética estaria modificando-se em função do nosso desenvolvimento tecnológico e das transformações no modo de vida humana, em geral. É, às vezes, um tanto vertiginosa esta forma de auto reconhecimento que projeta um sem fim e sem limites para o ser humano. Tudo se transforma e tudo se modifica, nenhuma base ou estrutura é sólida o bastante para nos limitar, absolutamente. Nenhuma razão superior, nenhuma fórmula ética, nenhum princípio moral, nenhum padrão ou ideal de família, de sociedade, de economia, ou algo assim. Até mesmo a nossa estrutura vital mais fundamental pode estar sendo modificada, já, pelo nosso desenvolvimento tecnológico e, de um certo modo, isto me parece ser realmente inevitável, pelo nível de transformação das nossas condições objetivas de trabalho, comunicação e vida, em geral, que esta transformação tecnológica já realizou e segue realizando, cada vez mais intensamente. Certamente é em busca de segurança e estabilidade que se estatuem, com pretensões absolutas, aos princípios morais, às fórmulas éticas e aos ideais, em geral. A família, a moral, a ética, são para sempre. Talvez, mas não certamente não esta ética, esta moral, esta família, estas religiões, não, tudo isto vai perecer e se modificar no tempo, como tudo o que veio antes, neste sentido.
Ainda assim, somos seres morais e projetamos nossas ações, em geral, com graus diferentes de consciência e controle, também no plano ético. Tomamos em consideração, realizamos, de qualquer modo, juízos éticos e decisões morais em cada uma das nossas atividades. Cada ação nossa, considerada no tempo, é uma escolha entre alternativas morais. Poderíamos, em geral, fazer alguma outra coisa, mesmo nas condições mais restritas de vida. Fazemos escolhas, sempre, que envolvem a nossa vida individual e os coletivos imediatos e mediatos em que estamos envolvidos. Este é o sentido moral ineliminável das escolhas e da ações humanas. Nas ações cotidianas mesmo, continuamente, fazemos escolhas morais definidoras, firmamos condutas e padrões de comportamento, de relacionamentos e de modos de viver em geral. Não há como escapar disto, seja com qual grau de consciência e liberdade que fazemos estas escolhas, o fato é que fazemos. E também é fato que faremos estas escolhas no corpo do processo coletivo, dentro dele e com as condições e meios coletivamente desenvolvidos e reproduzidos. Limitados, portanto, às questões que o coletivo, naquele tempo histórico, tem diante de si e com as respostas coletivas possíveis , por mais únicos que cada um de nós seja.
Ao nos colocarmos as questões cotidianas, em todas as dimensões da nossa vida, de alguma maneira, estamos simultaneamente no plano individual extremo, dos nossos interesses mais egoístas, assim como no plano dos interesses coletivos, dos grupos mais imediatos, em que vivemos diretamente nossas relações e realizamos nossas atividades, até os coletivos mais gerais e éticos, políticos, religiosos, sendo a própria humanidade como um todo, ou alguma forma de universalidade humana ideal, o ponto máximo ou extremo neste sentido. Então, ao agir, em cada ato, seja ele grandioso e disruptivo, ou um ato pequeno e repetitivo de nosso cotidiano, nós escolhemos o modo de ser humano, de nós mesmos, dos grupos a que nós temos e ao modo de ser humano em geral. Na prática. Somos nós e apenas nós que reproduzimos tudo isto que está aí, da forma em que está. A responsabilidade não pode ser de mais ninguém. É, inexoravelmente, de cada um de nós. E é por isso que somos seres morais, sem escapatória.
A escolha moral é, de algum modo, como atividade humana, regida por fins, por projetos. Projetos, neste caso, de nós mesmos, de nossa dignidade, de nosso proceder, do nosso relacionamento, do nosso conviver, da nossa família, da nossa sociedade, do nosso mundo, do nosso ser humano. Então, inexoravelmente, também, teremos projeções ideais nestes âmbitos a reger as nossas escolhas morais e ações. Devemos reconhecê-las, devemos trazê-las à consciência, devemos submetê-las à crítica racional e empírica, como fazemos com tudo o mais que projetamos e realizamos. Mas, aqui, isto parece completamente impossível, como avaliar racional e empiricamente os efeitos, os resultados mais profundos, das diversas ideologias que competem, por exemplo, sobre os padrões de sexualidade e os modelos de família ou das relações de trabalho e distribuição de riqueza e poder nas sociedades? E, pior ainda, como avaliar isto dentro do caos geral das vidas cotidianas, da luta pela vida, pelo bem estar, pelo reconhecimento, pela riqueza ou pelo poder, do dia a dia? É difícil, mas a gente opera estas avaliações, de modo mais ou menos consciente, em cada escolha diária nossa. E cada sociedade e até a humanidade como um todo, escolhe a si mesma, decide seu rumo, deste modo, pelas escolhas reiteradas de cada um de nós, dentro das condições materiais do seu tempo. E, com grande dificuldade e contradição, a humanidade evoluiu neste caminho, ou seja, se desenvolve também, positivamente, neste sentido, no longo curso da nossa história.
Devemos considerar, ao avaliar cada projeção ideal que, de algum modo, determina e direciona nossas escolhas, como ela se insere nesta cadeia histórica e na escala das projeções. Tudo tem uma história pretérita, que deve ser reconhecida e avaliada criticamente, e tudo terá uma história adiante, cada projeção ideal estará, necessariamente, se vier a se realizar, em uma sequencia histórica real, que deve ser previamente compreendida e bem estabelecida na própria idealidade, como projeto. Devemos nos esforçar ao máximo, portanto, para identificar quais os ideais ou princípios que podem ou devem nortear as nossas escolhas morais e as relações pessoais e coletivas, em geral, na sua sequência de realização possível. Com certeza alguns ideais são realizáveis no presente e em um futuro próximo e como caminho ou trajeto para aquelas que somente podem se projetar para tempos muito mais longos, até se perdendo, de fato, na bruma de tempos indetermináveis adiante. Entender isto e estabelecer as ordens de realização possíveis e, portanto, as alternativas reais do presente e do futuro próximo em consonância com os melhores ideais ou projeções futuras, distantes. É preciso entender que muitas vezes haverá grande contradição aparente entre caminho e meta ideal, mas devemos estar preparados para isto e nunca podemos nos render neste ponto ao idealismo. Por exemplo, num mundo sob a realidade e o risco de violência e abuso entre nações, aquela que mais busca a paz, que mais afirma a paz terá, talvez, que se armar muito fortemente o suficiente para não ser dominada ou destruída. É assim hoje, sabemos disto.
Outro aspecto fundamental, de máxima importância, que também se refere ao processo de estabelecimento e realização de idealidades éticas ou morais, é o fato que apenas podemos ter certos ideais devidamente compreendidos e as suas projeções postas como objetos e metas de projetos em uma escala realizável, não apenas como idealidade ou fantasia mitológica ou racional,, quando a sua maturação histórica atingir certo nível. A questão mais imediata da ideologia ética em geral, a universalidade humana como crfitério e verdadeiro lócus de decisão e atuação moral, só pode de fato ser entendida e tomada como objeto e objetivo, real e não fantasioso e ilusório, na medida em que a própria humanidade se desenvolve objetivamente como uma universalidade real, uma sociedade humana universal, constituída na integração da produção e no intercâmbio humano em todas as dimensões a nível mundial, de fato. Este é, portanto, como se poderia mesmo esperar, pelas características fundantes do nosso ser, um processo em que o desenvolvimento objetivo e a construção ideológica das escolhas morais se fazem um ao outro, no curso da nossa história, sempre, lembro, com grandes contradições e idas e vindas, mas, ao que parece, com este sentido de desenvolvimento, no longo curso de nossa história.
quarta-feira, 14 de maio de 2025
A CRISE ATUAL E A QUESTÃO IDEOLÓGICA DO SISTEMA: CAPITALISMO X SOCIALISMO?
Um outro efeito secundário das recentes ações agressivas do governo dos EUA sobre a economia mundial, se apresenta no rompimento com as regras e o norte ideológico estabelecidos por eles mesmos, desde a fundação da ordem contemporânea global, no fim da segunda guerra mundial e ainda mais, com a onda neoliberal de globalização. As regras do sistema e o seu sentido liberalizante foram colocadas em questão, ou melhor, foram diretamente negadas pelo governo dos bilionários nos EUA. Aqueles que mais propugnaram por estas regras e idéias liberalizantes e que deveriam ser os maiores defensores desta ordem, agora, são justamente os que mais diretamente a confrontam e negam.
Isto estava presente, mais ou menos explicitamente, em tudo o que tenho escrito desde o início desta crise das tarifas de importação dos EUA, ou melhor, desde o início das guerras da Ucrânia e de Gaza . Mas, este aspecto merece um destaque à parte, porque suas consequências interessam em especial a um debate ideológico ainda crucial em nosso tempo e que permanecerá assim no futuro próximo, ainda mais e mais acentuadamente.
Não é possível negar a força, o impacto ideológico de uma mudança de postura tão grande. A concepção que separa o estado do mercado, a política do business, tão cara a toda a ideologia liberal e democrática, é frontalmente negada pelas ações do governo dos EUA, o antigo campeão mundial da ideologia capitalista e democrática.
Para entender mais esta contradição aguda da situação atual, devemos, como sempre, buscar as suas causas, para além da superficialidade das impressões emocionais ou pessoais que, no fundo nada explicam. Isto não se deve a uma natureza autocrática, neofacista, do governo atual dos EUA, ainda que ele tenha esta característica, em comum com um grande número de movimentos e líderes políticos neofacistas de vários países no mundo atual. Certamente, é de se esperar algo deste padrão no bojo das grandes crises econômicas: as regras são contestadas pelo poder e as farsas ideológicas e políticas são dispensadas quando se torna necessário agir no limite, o poder se exerce de qualquer jeito, sem máscaras.
Para o governo dos EUA a crise se apresenta, agora, na forma do dilema do duplo déficit, o governo gasta mais do que arrecada e o país compra mais do que vende, e isto não para de crescer, aceleradamente. Esta é a razão e a justificativa para as ações excepcionais do governo. Um estado emergencial devido ao nível gigantesco e à velocidade acelerada de crescimento do duplo déficit na economia americana. Mas esta crise atual vem de antes, de longo período, já, de quase 20 anos de crise econômica, com dificuldades disseminando-se na economia mundial, em vários pontos, desde então, resultando em níveis mais baixos de crescimento econômico e com a presença de pícos recessivos, apesar dos momentos de retomada e bons ganhos nos mercados. A crise do duplo déficit dos EUA se entende mais facilmente neste contexto de uma grande crise de realização generalizada, mas ainda bem controlada com o lançamento episódico de trilhões e trilhões de dólares nas economias pelos governos, mundo afora, desde 2008. Como eu tenho insistido, sempre, a origem principal desta crise está na extrema desigualdade na distribuição da riqueza social, que se atingiu ao fim da onda neoliberal iniciada nos anos 1980. e só será realmente resolvida com a sua reversão.
Até por isto mesmo, o impacto ideológico das últimas ações do governo estadunidense é de grande importância e se reverterá em mais um efeito secundário importante para a superação da onda neoliberal por uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial. Todo o mundo de defensores do sistema capitalista, até mesmo os seus ideólogos mais recalcitrantes, são forçados a reconhecer que a forte intervenção estatal nos mercados pode ser e é requerida, conforme as condições de momento da economia, do sistema. Nessas condições ninguém pode continuar, facilmente, nutrindo ilusões de que os mercados são realmente autoreguláveis e autoregulados e que esta seria, senão a realidade, pelo menos o norte ideológico, o ideal do qual deveríamos sempre nos aproximar. Esta fantasia absurdamente dissociada da realidade histórica é, no entanto, parte fundamental da alma, do núcleo da ideologia capitalista. Segundo esta ideologia o estado não pode interferir nas regras próprias do mercado, elas devem atuar e se desenvolver livremente, pelos próprios mecanismos do mercado e, nem muito menos o estado deve atuar diretamente empreendendo no mercado. Esta ideologia tem vitalidade real e continuará a ter, de algum modo, sempre enquanto persistirmos no sistema capitalista. Temos que trata-la em sua contraditoriedade real, pois é certo que em diversos momentos liberalizantes em diversas economias nacionais e, de um modo geral, no sistema capitalista mundial, a economia floresceu, digamos assim. Mas, talvez, não mais do que nos períodos socializantes, dentro deste mesmo sistema capitalista mundial.
Independente disto, o fato é que a ideologia capitalista liberal sofreu um forte revés quando os seus principais representantes, os bilionários no governo nos EUA, são obrigados a agir da forma mais intervencionista e protecionista, destruindo, com a força da realidade, toda a infinidade de páginas escritas e vídeos gravados pelos defensores do "livre mercado".
Temos que lidar de fato com a contradição real de que o livre mercado não é e é necessário atualmente. Sim, seria tolo tentar ignorar, de qualquer modo, que a maior economia de mercado emergente, a grande potência capítalista emergente no mundo, é a China socialista. A contradição evidente nos termos é um enigma real para todos nós. E com certeza para a China também. Eles têm, no entanto, conseguido dar as respostas certas, de maneira inquestionavelmente brilhante, acertadas de modo muito além do que é, ou, era, comum, em toda a história do sistema capitalista mundial, com certeza. Talvez o único evento similar tenha sido a ascensão da produção, riqueza e do padrão de vida social nos EUA e nos países ricos da Europa, ao longo do período socializante, de grande redistribuição da riqueza social, do início dos anos 1950 até o fim dos anos 1970. Mas, o impacto do desenvolvimento Chinês atual já se mostra muito maior, até porque estamos em um nível tecnológico acima, mas, principalmente, porque o salto de desenvolvimento social foi mais intenso e a duração e constância deste avanço na China já é muito maior e continua avançando. E, não se pode negar, não é um avanço do capitalismo como se conheceu no sistema até agora. Tem muita coisa diferente no sistema econômico chinês. Diferente e melhor, cada vez menos gente consegue teimar contra isto.
Não vou entrar em detalhes sobre este ponto agora. Queria apenas destacar que houve mais um ganho da ideologia socialista, socializante, de qualquer modo, sobre a ideologia liberal, quando os maiores heróis desta ideologia são obrigados a rasgar os véus da fantasia e investir contra a pretensão de uma liberdade absoluta dos mercados.
O contraponto disto também é paradoxal, contraditório também, como toda a realidade. É o fato que a maior força de defesa do mercado e das liberdades de comércio e investimento no mundo se tornou a China socialista, onde, certamente, não impera a liberdade absoluta dos mercados, dos capitalistas, do comércio e dos investimentos, não impera o modelo liberal capitalista e nem o modelo social democrático. A China encontrou um modelo que mantém o controle estratégico e financeiro do sistema no setor público. Até agora é assim. E, com base nos seus planos, o estado é um ator mais ou menos presente em todos os setores da economia, que, no entanto, persiste como economia de livre mercado, dentro dos limites e sob o direcionamento da atuação estratégica do estado. E realmente poucos podem contestar que está funcionando bem assim, muito melhor que todos os outros modelos até agora implementados nas mais diversas economias nacionais, do mundo todo, em nossa história recente, pelo menos.
Vai ser muito mais difícil sustentar as ideologias capitalistas liberais agora, diante da sua negação pelos seus próprios heróis, coagidos pela crise, e da grande vitória da China, socialista, no cenário mundial. E isto também é bastante compatível com o fato que estamos já no ápice da crise de fim da onda neoliberal e que iremos, já estamos indo, para uma nova onda socializante no sistema capitalista mundial.
terça-feira, 13 de maio de 2025
A CRISE DE REALIZAÇÃO GENERALIZADA, A NOVA ONDA SOCIALIZANTE, O MUNDO BIPOLAR E A POSIÇÃO DO BRASIL
A avaliação de que estamos em uma crise de realização na economia mundial desde em 2007 no sistema capitalista mundial está embasada na identificação que foi aí que começou um processo depressivo na economia mundial que resultou em uma recessão global, ou seja, em taxa de crescimento negativo, abaixo de zero, da economia mundial. É claro que esta variação é muito dependente da variação na economia dos EUA, que ainda é, ou era, a maior economia nacional do mundo. Foi a primeira vez que isto ocorreu desde o fim da segunda guerra mundial. E abriu-se aí um período de níveis menores de crescimento, em grandes centros da economia mundial, com a propensão para novas crises e picos recessivos no sistema. Isto tudo é bastante coerente com um período longo de crise de realização generalizada, o que é, por sua vez, também bastante coerente com, deve mesmo resultar de, um período, longo, de intensa concentração da riqueza social. E foi justamente isto o que aconteceu, ao fim, na onda neoliberal, pelo nível extremo de concentração a que chegou-se, já em 2007, e que veio se acentuando em pontos centrais do sistema, tanto nos EUA, como na Europa, por exemplo.
Os recursos de trilhões de dólares, lançados pelos diversos governos, especialmente nos próprios EUA e Europa, mitigaram os efeitos desta grande crise, até agora. Mas, claramente não foram suficientes para afastar completamente as crises da economia, apesar de bons períodos de retomadas de crescimento da produção, mercados e bolsas. Isto é justamente a condição da crise mitigada pelos recursos anticíclicos, de socorro financeiro e social em que nos encontramos agora. E ainda bem que é assim e não mais no padrão que foi na primeira metade do século passado. Mas, estamos em uma situação cada vez mais difícil e será ainda assim, enquanto não for radicalmente revertida a tendência de concentração da riqueza nestes grandes centros da economia mundial. Parece claro que isto já está em curso na China, desde 2014 os dados indicam, pelo menos, o fim da onda de crescimento da desigualdade econômica lá. A paralização e reversão do crescimento da concentração de riquezas Isto terá que ocorrer, também e rapidamente, nos EUA e na Europa e mundo afora, na verdade. E irá ocorrer, nos próximos anos e décadas. Ainda que a gente passe por grandes crises e até mesmo maiores guerras, isto irá acontecer, pois é a necessidade do sistema, o que se representa, de modo realista, eu creio, pela imagem de que após uma onda liberal segue-se uma onda socializante no sistema econômico capitalista mundial, ou, pelo menos, dentro das economias nacionais centrais do sistema, ou, dito de outro modo, após uma onda de concentração de riqueza, segue-se uma de redistribuição da riqueza no sistema, necessariamente. E iremos, a seguir, já estamos, é verdade, indo numa nova onda socializante, na medida mesma em que a onda neoliberal está acabando, nesta sucessão de crises.
As necessidades do sistema econômico mundial se impõem, de certo modo, cada vez mais, sobre quaisquer particularidades e peculiaridades locais e nacionais. Isto é, e será progressivamente uma contradição a ser superada. Temos cada vez mais, um sistema econômico mundial, fundado, no entanto, em economias nacionais, atreladas a unidades políticas nacionais legalmente autônomas e independentes. Esta independência é falsa e, progressivamente, mais falsa na medida em que avança a integração produtiva e financeira, científica e tecnológica global, em que avança a globalização. E este avanço é necessário, não se pode, no limite, na lógica própria do sistema econômico capitalista mundial, e a ainda menos de um sistema socialista, parar a globalização. Ela é necessária e positiva e todos a desejamos. Mas, a economia fundada em estados nações se acomoda e se contrapõe a este sistema global. Em momentos críticos esta contraposição vai aparecer mais explícita e dramática. É o exemplo claro do tarifaço e, na verdade, de toda a doutrina do governo atual dos EUA. Como dizem na roça, farinha pouca, o meu pirão primeiro, no limite do confronto por dinheiro ou poder, realmente, acaba toda a gentileza. É, contudo, apenas como força desvanecente que as economias nacionais se impõem, a globalização é necessária e inevitável ao sistema capitalista e, de um modo mais profundo, à própria produção humana.
A integração da produção e das finanças no mundo prosseguirá, contra qualquer barreira artificial e momentânea que qualquer economia nacional possa antepor a este desenvolvimento. Mas, no tempo histórico o momentâneo pode durar muito tempo para uma vida pessoal, isto sempre é bom ter em mente. E o fato histórico mais evidente no momento é que temos e teremos, ainda, um período relativamente longo. diante de nós, em que o sistema econômico capitalista mundial estará completamente polarizado pelas duas grandes potências atuais, duas economias nacionais tão preponderantes que, realmente se destacam muito em relação aos outros. Para exemplificar, hoje, os EUA têm 28% do patrimônio de todas as empresas listadas em bolsas, globalmente, enquanto a China representa 40% da produção industrial global.
É uma condição de polarização forte e decisiva, pois está em jogo aí, não apenas e nem principalmente, a hegemonia no sistema mundial, mas também o próprio modelo, forma ou destino do sistema. A vitória da China é uma expressão da vitória do socialismo, por mais que se conteste este fato. Em dois aspectos centrais isto deve se demonstrar, na integração da economia mundial e no seu redirecionamento para necessidades populares, logo, maior coordenação da produção e distribuição da riqueza.
Na realidade estamos saindo de um mundo efetivamente unipolar, um mundo em que o predomínio econômico e militar da aliança em torno dos EUA era realmente incontestável, ainda que este poder real se fizesse, também, pelo recurso aos e desenvolvimento dos mecanismos e instituições multilaterais. Não é de se estranhar que, apenas iniciada a grande crise atual, no final da primeira década deste século, os EUA e alguns de seus principais aliados progressivamente se afastaram destes mecanismos e instituições multilaterais e passaram a afirmar um nacionalismo crescente e crescentemente contraditório com o sistema mundial globalizado, tentando afirmar um poder que, efetivamente, já não têm. Estamos, realmente, saindo do mundo com predomínio unipolar e entrando em um sistema de predomínio bipolar. Uma transição longa se dará, por meio de um processo de polarização de dois subsistemas de predomínio, em todos os campos estratégicos no mundo. O predomínio dos EUA e seus aliados diretos deverá ser progressivamente desinflado e, correlativamente, o predomínio da China e seus aliados, deverá se ampliar progressivamente, em todos os campos estratégicos, repito, por um bom tempo adiante. Tomemos, por exemplo, as gravíssimas questões do predomino sobre a internet e as tecnologias de informação em geral e no campo militar. Em todos estes aspectos a hegemonia da aliança estadunidense perde realidade objetiva a cada dia, mas ainda vivemos num mundo com grande domínio dos EUA e aliados nestas duas áreas e assim será nos próximos, longos, anos. Não é difícil antever a gravidade destas transições estratégicas e os grandes riscos que elas trazem. Mas também parece claro que não é possível deter esta transição e que ela é realmente muito positiva para a humanidade. Também não é possível a ninguém, a nenhum país, a nenhuma economia nacional, minimamente relevante no mundo, ficar realmente neutra ou pretender ter uma posição realmente autônoma nesta bipolarização do sistema mundial. Ao contrário, diante de todas as questões estratégicas no mundo, hoje, já, e progressivamente mais, vamos ter que escolher entre um lado ou outro, inevitavelmente. Como sempre, este intenso processo de transformação histórica também se dá e se dará por meio de agudas contradições. De fato, as economias da China e dos EUA são, hoje, muito integradas e complementares e isto não tem como ser eliminado na prática. Ainda bem. Quanto mais as economias nacionais se integrarem nos sistemas mundiais de produção e distribuição, melhor para o desenvolvimento geral economia, da humanidade, em geral, e menor a chance das grandes guerras internacionais que ainda hoje nos assombram tão terrivelmente. Então, certamente o mais inteligente para todos nós, para cada país minimamente relevante, para o Brasil, sobretudo, o mais inteligente é jogar na integração mundial geral, realmente globalizante e globalista, no sentido econômico de maior e melhor coordenação da economia mundial e, quando as decisões antagônicas tiverem que ser feitas, e terão sempre, de certo modo, cada vez mais, que serem feitas, que a gente se alie ao lado de maior progresso para a própria integração mundial, planejamento e coordenação da produção mundial e melhor distribuição da riqueza e do poder social. Na verdade não há outro caminho, no sentido histórico mais amplo e, no momento histórico atual e nos anos e décadas seguintes, é realmente esta a onda que prevalecerá. Quanto mais cedo e mais decididamente estivermos neste caminho, neste sentido ou neste lado, acertado, melhor será para nós aqui no Brasil e para a humanidade em geral.
segunda-feira, 12 de maio de 2025
CHINA E EUA CHEGARAM A UM ACORDO TARIFÁRIO. O QUE ISTO SIGNIFICA?
Os EUA e a China chegaram a um acordo, uma trégua relativa, dentro da guerra tarifária lançada pelo governo dos EUA, semanas atrás. As tarifas elevadas a níveis absurdos, espetaculares, foram rebaixadas, para 30% sobre os produtos chineses e 10% sobre os produtos estadunidenses, por um período de 90 dias.
Desde o início do tarifaço dos EUA houve, sem dúvida, alguma quebra de cadeias de comércio e produção, especialmente entre a China e os EUA. Ainda que o acordo atual ponha um fim nestas quebras, provocadas pelas tarifas extremas, e limite e controle os seus efeitos, o fato é que alguma quebra já ocorreu. No fim, restará, ainda, na verdade, um importante aumento das tarifas de importação dos EUA, impondo um freio nas exportações do mundo para lá e as exportações da China continuarão a ser as mais atngidas, mesmo com a dramática redução de tarifas a que, enfim, se chegou no acordo de ontem. O que acxonteceu neste acordo com a China se repetirá em todos os outros acordos bilaterais que serão feitos pelos EUA ,na sequência. Vai sempre restar um aumento de tarifas bem grande para as importações dos EUA..
Este movimento todo me parece, agora, ter realmente uma estratégia bem executada e não ser apenas um improviso totalmente estúpido.
O governo dos EUA reconheceu o duplo déficit, já gigantesco e aceleradamente crescente, das contas públicas e das contas correntes, como uma condição limítrofe, emergencial. Creio que eles estão certos nisso. E resolveu corrigir, o mais rapidamente possível, a trajetória insustentável do crecimento da dívida pública e do déficit comercial. Mas, de forma rápida e com intensidade, isto só pode ser atingido de um modo drástico e trágico, sob muitos aspectos. Para ser simples, tem que cortar fortemente nos gastos públicos e reduzir o consumo popular também fortemente, de modo a reduzir o duplo déficit rápida e intensamente.
Estes são justamente os objetivos econômicos imediatos mais importtantess do governo estadunidense e realmente eles estão buscando realizar o necessário para atingi-los. No que toca ao déficit comercial, é óbvio que não é possível aumentar rápida e intensamente as exportações dos EUA no nível necessário para realmente diminuir o déficit. Resta apenas reduzir as importações para o consumo e para a produção. Todo o estardalhaço das blitze tarifárias do governo dos EUA serviu como estratégia para diminuir o impacto emocional do grande aumento das tarifas que, ao fim, ainda persitirá e serviu, também, para provocar um momento circunstanciado de queda extrema, drástica, das importações dos EUA. Tudo isto leva à redução do déficit, é verdade, mas ninguém pode negar o impacto recessivo e inflacionário destas medidas. Enfim, para reduzir o consumo popular, estas são medidas "acertadas". No mesmo sentido e de modo complementar, também estão sendo cortados gastos públcos nos mais diversos serviços e mecanismos de transferência de renda. Obviamente, isto não pode ser atingindo sem um custo social alto, incidindo sobre uma população que já se encontra empobrecida e insatisfeita. Veremos como isto vai se desenrolar na luta social dentro dos próprios EUA.
Preciso reiterar que tudo isto corresponde à condição de crise de realização generalizada que acomete a economia dos EUA e do mundo, desde 2007, provocada pelo aumento extremo da concentração de riquezas, que veio ocorrendo desde 1980. A crise está mitigada pelos trilhões de dólares injetados pelos governos na economia, desde então. Mas, agora, como a situação da Europa e dos EUA demonstra, os recursos anticíclicos estão se esgotando. Não haverá solução real da crise sem se resolver suas causas centrais: a extrema concentração de riquezas e a baixa qualidade da coordenação da produção em geral, no interior dos diversos países e no plano global. Não sairemos, de fato, da crise sem uma inversão drástica nas tendências de concentração de renda que dominaram as mais diversas economias nacionais nas últimas décadas e sem um novo salto real no planejamento e organização das economias, em cada país e no mundo, ou seja, sem uma nova etapa de redistribuição de riquezas e de avanço na coordenação da economia mundial. Entendo que estes avanços, ao fim, serão atingidos, de um jeito ou de outro, nos próximos anos e décadas. ainda que sob condições de intensa contradição e disputa, crises sociais e guerras internacionais. Posso identificar esta tendência determinante até mesmo dentro da ação extremamente contrária do governo dos EUA. Em seus resultados secundários, por exemplo.
Um resultado secundário do aumento generalizado das tarifas de importação dos EUA e da estratégia agressiva e espalhafatosa com que ele foi feito, já se manifesta claramente e é muito positivo para a humanidade: a importância e o papel real da China socialista no mundo aumentou sensivelmente, desde então. A intensidade e a velocidade dos acordos multilaterais e do avanço das redes de logística e infraestrutura produtiva que estão se desenvolvendo à margem dos EUA, tendo a China como o principal pilar estratégico e motor econômico, ampliou-se fortemente nos últimos dias e seguirá se ampliando nos anos e décadas seguintes.
Parece que no curso das conversas para o estabelecimento do acordo comercial entre a China e os EUA, no fim de semana, chegamos a um outro resultado, secundário e positivo, desta postura econômica e estratégica atual do governo dos EUA, rompendo com os fóruns multilaterais. Parece que se criou ali um embrião de um fórum permanente, ou pelo menos duradouro, de negociação e coordenação econômica estratégica entre a China e os EUA. A impressão que isto me dá é tão positiva que eu creio que um fórum assim, se realmente efetivo, nos livra do risco real de grandes guerras abertas, catastróficas, entre as maiores potências mundiais. Muitas pessoas, presas à alguma ilusão ideológica, devem discordar disto. Elas questionariam como é que um fórum entre China e EUA pode se dar à margem das organizações multilaterais, se superimpondo a elas? O fato é que estas organizações multilatererais são realmente limitadas diante das grandes potências mundiais. Um aspecto dos atos de força dos EUA é trazer a realpolitik, a poltica dos poderosos, para a cena, retirando-a dos bastidores. Quem não é iludido sabe que a política dos poderosos sempre termina se impondo, de um modo ou outro, seja no plano econômico, seja no plano geopolíitico, a democracia política e os órgãos de gestão internacionais se mostram frágeis diante destes poderes, que, ao fim, se sintetizam no poderio econômico, tecnológico e científico, determinante tanto no campo financeiro quanto no militar. Isto é uma verdade inegável, assim como é verdade inegável que viveremos em um mundo polarizado entre estas duas grandes potências por um bom tempo adiante. Logo, é muito positivo que elas tenham um canal aberto, um embrião, um balão de ensaio, que seja, de um fórum de coordenação estratégica das suas economias. Um fórum assim. pode constituir um ponto de apoio no salto em direção à melhor coordenação da produção mundial sem detrimento do desenvolvimento das organizações e acordos multilaterais, que é inclusive, um dos enfoque estratégicos principais da China. Isto diminuirá bastante o risco das grandes guerras, a principal ameaça autodestrutiva para a civilização, e que, por outro lado aumenta continuamente, com o aumento do risco das grandes crises recessivas na economia mundial, enquanto não se inverter a tendência à concentração das riquezas e enquanto não se promover uma efetiva redistribuição de riqueza, nos EUA e no mundo em geral.
sexta-feira, 9 de maio de 2025
A NATUREZA DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL ATUAL
Parece mais do que razoável que a economia capitalista, chegada a um nível extremo de desigualdade na distribuição da riqueza, enfrente condições cada vez mais difíceis de realização, quando, como se pode dizer, a economia não gira, ou gira, mas cada vez com maior dificuldade. O fato é que o mercado de consumo popular realmente importa muito para a realização dos empreendimentos capitalistas, em geral. O capitalismo é uma economia de massas, produção em massa e também, necessariamente, consumo de massas. Há aqui uma das contradições internas do sistema capitalista, ele promove, naturalmente, a concentração das riquezas, ilimitadamente, mas depende do consumo das massas. Precisa de dinheiro novo, livre, na mão das massas, para girar a roda dos investimentos e do desenvolvimento da produção. Mas, a lógica própria do capitalismo liberal, pelo mecanismo real dos mercados, leva a uma concentração progressiva e ilimitada da riqueza social. Isto a história comprovou mais uma vez, agora, com a onda neoliberal. E também se comopovou novamente que, chegado a um certo nível desta concentração da riqueza, a economia capitalista começa a ratiar, começa a entrar em crise, ou em sucessões de crises. São crises de realização do capital, mais ou menos, generalizadas. Elas realmente existem e são realmente inevitáveis na economia capitalista liberal. Nós atingimos, nas últimas décadas, níveis extremamente altos de concentração de riquezas, os máximos históricos desde que se começaram a mensurar estes dados, nas mais diversas economias nacionais e, principalmente, nas maiores economias do mundo. Na história recente os níveis de concentração da riqueza social nestas economias começaram a cair nos anos 40 e atingiram os seus mínimos, por volta dos anos 70 do século passado, passando a subir, novamente, desde o início dos anos 80. Foi a onda neoliberal que está, justamente, se encerrando agora, em crises sucessivas, desde 2007.
A economia não gira mais com facilidade, as crises se sobrepõem, intercaladas com períodos de bonança e até bom desenvolvimento, promovidos pela injeção, na economia mundial, de recursos públicos anticíclicos e de proteção e promoção social abundantes, da ordem de algumas dezenas de trilhões de dólares. Mas, a crise continua aí. Retorna mordendo os calcanhares. Nestas condições, medidas extremas, pouco eficazes e muitas vezes francamente estúpidas e prejudiciais, incluindo quarentenas generalizadas por tempo indefinido, guerras tarifárias e guerras reais, são e vão ser mais aceitáveis e realmente implementadas, provocando novos momentos recessivos e grandes perdas reais na economia, em geral, e nos recursos para as massas, em especial. Com isto, a crise se aprofunda. E, agora, os recursos anticíclicos estão se esgotando., o endividamento público atingiu níveis difíceis de sustentar, na ordem atual. Na verdade, a solução liberal para a crise seria simplesmente deixa-la acontecer. Ela seria a cura, por si própria, dos desvios e dos vícios presentes na economia Isto tem lá a sua verdade. Mas o custo humano, social, disto é alto demais. No século passado foram mais de 150 milhões de pessoas mortas diretamente nos eventos associados às crises econômicas de então, que tinham o mesmo caráter das atuais E nas condições atuais o risco destrutivo é ainda muito mais extremo. Não é de se estranhar que estejamos vendo se repetir agora a estratégia liberal de enfrentamento final da crise, antes das grandes guerras reais: a guerra tarifária. Foi assim na virada do século XIX para o XX e se repete agora. A referência do governo atual dos EUA às medidas daquela época é explícita. Eles não sabem quais foram as consequências disto no século passado? Sabem, mas não têm outra saída. Porque só há uma saída real para esta crise extrema da economia capitalista liberal atual. A saída para esta crise da extrema concentração de riquezas é, obviamente, a sua reversão. A negação real e profunda da doutrina liberal. De fato, eles aceitam a guerra com muito mais naturalidade e facilidade do que aceitam a redistribuição da riqueza. Mas, não é de guerra que o mundo está precisando e não é com guerra que a gente vai sair da crise, é com a redistribuição da riqueza. Em todo o mundo o padrão de consumo das massas está achatado, comprimido. No terceiro mundo, ainda hoje, persistem as condições de vida tantas vezes subhmanas, condições de pobreza e indignidade extremas e no mundo rico as condições de vida das massas em geral só pioraram nas últimas décadas. Agora vamos começar a reverter tudo isto, de novo, como foi no século passado, a partir dos anos 30 e principalmente pós 1945.
Parece que isto caracteriza um movimento ondular no processo histórico do sistema econômico capítalista mundial, onde tivemos e vamos ter, ainda adiante, ondas sucessivas de liberalização e de socialização. Correspondendo, ao fim, a momentos de maior concentração e de maior distribuição da riqueza social. Talvez estas ondas estejam, estarão presentes em qualquer economia social muito complexa, com sistema de trocas e produção em massa desenvolvidos. No sistema capitalista, agora, isto me parece muito claro e deverá persistir assim enquanto ainda estivermos neste sistema. Seja como for, creio que é bem razoável concluir que, nas condições históricas recentes e atuais, o fim de uma onda liberal na economia capitalista, termina, necessariamente, em grandes crises econômicas sistêmicas. Estamos, portanto, no presente, em uma grande crise deste padrão, no sistema econômico capitalista mundial. Atenuada pelas medidas anticíclicas e de proteção, mas efetivamente presente e preocupante, desde então. Agora estamos chegando ao ápice desta crise, em seus momentos mais decisivos e resolutivos. Daqui basicamente só temos dois caminhos, ou aprofundar a crise, com mais recessão, empobrecimento e guerras, ou, a mudança de rumos para a maior redistribuição de riquezas e melhor coordenação da economia mundial.
Ao fim, iremos, para a nova onda socializante, como foi no século passado.
Esta seria uma tendência predominante, imanente à própria lógica contraditória do desenvolvimento social capitalista: que uma onda socialista suceda uma onda liberal, em um nível sempre mais elevado. Então, me parece certo que iremos agora, que estamos indo, de fato, para um nível de socialização da economia mundial bem superior àquele que se forjou na segunda metade do século passado. O que guarda correspondência com o estágio atual de desenvolvimento e integração da produção e da vida social mundial, em geral. Há uma única hipótese real para isto não acontecer e é ela sobretudo que temos que evitar agora: a possiblidade de crises cataclísmicas com verdadeiro rebaixamento civilizatório, seja pelas grandes guerras, seja pela crise climática. Desde que eventos destrutivos realmente cataclísmicos, com grande perda civilizatória generalizada no mundo não aconteçam, as próprias necessidades do sistema promoverão, de um jeito ou de outro, as mudanças em direção socializante, nos dois aspectos principais que estou indicando, de redistribuição da riqueza social e de maior e melhor coordenação da economia mundial. Mas, não será, ainda, a onda de fim da economia de mercado capitalista. Estaremos em um momento mais avançado, mas ainda estarão presentes características determinantes do capítalismo e podemos, portanto, prever, no futuro, novas flutuações liberalizantes, de restauração capítalista liberal e concentração de riquezas, seguidas de novas crises gerais, também superadas por novas ondas socializantes. Pelo menos enquanto ainda estivermos em um sistema mundial capitalista. Creio que estes ciclos e as suas crises terão uma dramaticidade, ou, pelo menos, uma destrutividade real cada vez menor, na medida mesmo do desenvolvimento socializante do sistema, devido ao maior nível de consciência, de controle consciente da economia social que a economia socialista traz em relação ao capitalismo liberal. Uma prova disto será a resolução da crise atual que deve ser bem menos dolorosa que a do século passado, ainda que ela vá nos custar muito caro ainda, nos próximos anos e talvez décadas adiante.
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