sexta-feira, 28 de julho de 2023
A Necropolítica Antidrogas é (Ir)Responsabilidade do Setor de Saúde
Se algo pode ser chamado de necropolítica com toda razão é a atual política antidrogas. E os agentes de saúde pública têm uma grande responsabilidade nisto, que não pode ser ignorada.
São milhares de mortes e milhões de vidas e famílias destruídas todos os anos em nome da guerra contra as drogas. Um terror constante e uma propaganda contínua fazem a população adotar a violência social extrema como a resposta necessária para um problema fictício.
Não existe um grave problema de saúde pública causado por drogas ilícitas no Brasil.
Mas a ideologia dominante faz parecer que se não houver uma guerra, contínua e sem limites de violência, contra as pessoas envolvidas com drogas, as famílias e a sociedade serão destruídas pela dependência química e pelo uso abusivo, especialmente por parte dos jovens e adolescentes. Haveria um risco elevadíssimo de dano grave à saúde pública e ao próprio sistema social se não houvesse essa guerra civil não declarada, mas contínua.
Falso, isto é falso. Isto é fake news. E assumir isto como uma verdade, repetindo sem parar na cabeça dos nossos jovens e da população em geral, é uma grande irresponsabilidade de todos os formadores de opinião sobre drogas.
Religiosos, agentes de segurança, educadores, influencers digitais e membros da imprensa, todos estes têm o direito de esconder o seu preconceito e a sua má-fé sob o manto da ignorância. Mas os agentes de saúde não. Os agentes de saúde pública não podem esconder as suas posições absurdas e estúpidas nas brumas do desconhecimento. Eles têm a obrigação de saber e são, por isto mesmo, os principais responsáveis (ou, irresponsáveis, se você preferir).
Não é possível ignorar a imensa desproporção entre os danos causados pela guerra às drogas e pelas drogas permitidas em relação aos danos causados pelas drogas proibidas. A opinião pública pode não saber, ou fingir que não sabe, mas os agentes de saúde, especialmente da saúde pública, não podem pretender ignorar que as drogas legais e a guerra às drogas causam muito mais mortes e muito mais dano à saúde pública e à vida social em geral, do que as drogas proibidas. E se eles não podem ignorar esta realidade, mas, ainda assim, se posicionam em alinhamento e dão base para a atual política de drogas no nosso país, é porque os nossos agentes e instituições de saúde pública estão sendo omissos e realmente coniventes com tudo isto.
Nesta questão das drogas, os representantes ciência e da medicina, as instituições de saúde pública do nosso país (e mundo afora) têm cedido, sistematicamente e por décadas, ao preconceito moral e religioso e às necessidades de controle social do sistema, em vez de exercerem suas funções com a responsabilidade técnica requerida. Associações e conselhos de medicina, entre outros e, sobretudo, a Anvisa, têm se posicionado de modo irresponsável, sendo parte relevante da sustentação de uma política assassina, sem base científica e sem racionalidade em termos de saúde pública.
Não há razão médica alguma, sob qualquer prisma, em termos toxicológicos, de risco e de dependência, que possa justificar a legalidade das bebidas alcoólicas e do cigarro e, ao mesmo tempo, a ilegalidade da maconha, por exemplo.
O fato é que os casos de dependência, os casos de adoecimento e as mortes por álcool e cigarro sobrepujam aqueles devidos à maconha em uma escala de dezenas de milhares de vezes. Muitos podem raciocinar que isto se deve ao fato que a maconha é menos utilizada por ser proibida e por isto causa menos dano à saúde pública do que as bebidas alcoólicas e o cigarro. O senso comum pode até pensar assim. Mas, não os profissionais de saúde pública. Nós sabemos que isto ocorre justamente porque os canabinoides são infinitamente menos tóxicos e causam menos dependência do que o álcool e a nicotina. A maior disseminação do uso de maconha, na medida em que compete com estas e outras drogas letais, inclusive medicamentos, leva a ganhos e não a perdas de saúde pública.
Portanto, não é apenas agora, ao proibir a importação de flores de maconha para o uso medicinal, que a Anvisa está sendo irracional e contraditória em relação ao seu mandato de defesa da saúde pública. Não, a irresponsabilidade técnica da Anvisa e da institucionalidade médico-científica, em geral, nesta área, vem de muito antes, vem da própria proibição da maconha. Os Conselhos de Medicina também fazem a sua parte nesta cruzada insana e continuam assediando os médicos prescritores de canabinoides, buscando intimidar e impedir a ampliação do acesso aos produtos de maconha (Cannabis) medicinal aqui no Brasil. Recentemente um colega médico prescritor de Cannabis foi preso e, até onde eu sei, permanece preso, de modo arbitrário, enquanto escrevo este texto.
Parece que agora há um grande esforço para se tentar separar o uso medicinal dos canabinoides do seu uso recreacional ou social. Acreditam que a regulamentação deve buscar traçar limites rigorosos para separar a medicina da droga.
Isto é uma tolice e uma burrice, com consequências trágicas.
Não é possível separar completamente os usos medicinais e sociais ou recreacionais da erva e de seus derivados. E não há justificativa objetiva para a proibição da maconha de modo algum.
Ao proibir e criminalizar um agente neuro e psicoativo de baixo risco e permitir o livre uso de outros de risco muito mais alto, a Anvisa e toda a institucionalidade médica atuam contra o seu mandato social e contra a própria ciência. Por covardia ou por má-fé, sustentam a proibição de algo mais seguro e endossam a liberdade de uso de algo muito mais arriscado e danoso para a saúde e a qualidade de vida das populações. Para se adequarem aos padrões ideológicos e aos preconceitos da sociedade, estas instituições de saúde pública têm que virar as costas e abandonar o seu conhecimento e a sua responsabilidade. E é isto justamente o que elas têm feito ao longo das últimas décadas.
A absurdidade do ponto de vista técnico é cada vez mais evidente e, a cada dia, o equívoco da proibição da maconha em uma sociedade que permite o uso de cigarros e bebidas alcoólicas é mais gritante. Os principais riscos à saúde apontados pelo uso da erva como droga social se mostram inconsistentes e sem comprovação científica. Um bom exemplo é o alegado aumento do risco de esquizofrenia devido ao uso de maconha. Nunca foi suficientemente comprovado e as pesquisas mais recentes indicam que não existe. Ao contrário, a experiência clínica mostra que a maconha, os canabinoides, podem ser um excelente recurso para o tratamento dos casos de esquizofrenia e também para o tratamento dos quadros psicóticos por outras causas, como o autismo e a doença de Alzheimer, por exemplo. Com uma toxicidade também infinitamente mais baixa do que os medicamentos antipsicóticos, correntemente adotados nestes casos.
Só há realmente uma posição médica responsável em relação à regulamentação da maconha e esta é a ampla liberação do seu uso social, além do medicinal. Qualquer coisa diferente disto é uma concessão irresponsável das autoridades e instituições médicas ao preconceito e à ignorância, cuja consequência são dezenas de milhares de prisões injustas e mortes desnecessárias, todos os anos no nosso país.
domingo, 16 de julho de 2023
A superação do capitalismo. O processo econômico histórico e seus fundamentos: ego e sistema
A história nos permite concluir que o capitalismo é uma forma de organização da produção e da vida da social em geral, uma forma do sistema social, que permite, promove e, até, assegura o desenvolvimento das forças produtivas da humanidade, ainda que de modo muito contraditório e violento. De fato, o capitalismo tem propiciado o desenvolvimento econômico da humanidade, com uma escala, uma aceleração e uma intensidade que, ao que parece, nunca existiu antes na história conhecida das civilizações.
De um modo sintético, é certo dizer que a dinâmica econômica capitalista, em sua estrutura essencial mesma, promove o aumento geral da riqueza humana. Com o livre mercado, a competição entre os interesses privados, a luta de cada indivíduo, de cada família e de cada empresa pelos seus interesses próprios ou exclusivos, resulta em aumento progressivo da produção social, ou seja, da riqueza de todos. A livre competição e a livre acumulação capitalistas promovem alguma racionalidade econômica na alocação dos recursos sociais e impulsionam o desenvolvimento da produtividade social, da ciência e da tecnologia, da riqueza social, enfim. Isto ocorre porque, sem o desenvolvimento constante, há também um constante risco, a quase certeza, de que qualquer empreendimento capitalista será superado por outros no mercado, até sucumbir completamente. Um dos aspectos centrais da lógica econômica capitalista é este impulso à reprodução e acumulação de capital que a competição no mercado impõe às empresas, ao centros de produção capitalistas e, por extensão, também aos centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
É claro também que esta lógica que impulsiona ao desenvolvimento da produção só pode se realizar de fato em um mercado consumidor igualmente expansionista. Ou seja, a economia capitalista é, inexoravelmente, uma economia de massas expansionista. A economia capitalista apenas se realiza através do consumo das massas e, para ser mais preciso, do consumo das massas em expansão. A economia capitalista, portanto, ao contrário de modos de produção anteriores, tem como condição intrínseca a produção em massa expansiva, logo, correspondentemente, o consumo de massas também expansivo, apesar das crises sistêmicas periódicas e da paradoxal pobreza que o sistema capitalista também produz e reproduz constantemente.
São estes os motores internos da economia capitalista para o desenvolvimento da produção e para a ampliação do consumo das massas, ou seja, para o aumento da riqueza geral das sociedades. E com certeza são eles que fizeram, e ainda fazem, a vitalidade histórica do capitalismo.
Mas, o capitalismo, por suas contradições e insuficiências, é profundamente exploratório, injusto e também destrutivo e, ao desenvolver a produtividade social, ao desenvolver os meios de produção da humanidade, cria também as condições para que o modo de produção socialista progressivamente o supere. O capitalismo desenvolve os meios, os recursos materiais e intelectuais, os sistemas de produção e as bases científicas e tecnológicas para a produção social de nível superior, mais consciente e organizada, garantindo um desenvolvimento mais seguro e a prosperidade mais ampla e disseminada na sociedade.
Por sua estrutura econômica mesma, o capitalismo pressiona para a acumulação constante dos capitais privados, tendendo, portanto, necessariamente, à concentração de riquezas. A acumulação ilimitada, através da livre competição no mercado, tende a produzir uma imensa concentração das riquezas acumuladas na mãos dos capitalistas e, objetivamente, de um número relativamente pequeno destes. Há, portanto, um impulso constante para a concentração dos ganhos de riqueza nas mãos de poucos e, correspondentemente, a restrição da riqueza nas mãos das massas. Além disto, o direcionamento estratégico da produção através da livre competição das empresas privadas no mercado capitalista resulta em um alto grau de irracionalidade geral no sistema produtivo e a própria alocação dos recursos produtivos exclusivamente por mecanismos de mercado termina sendo muito falha, envolvendo o sistema em crises frequentes, algumas de alta destrutividade sistêmica.
O sistema capitalista mundial é marcado por altos níveis de pobreza e violência, que lhe são estruturais. As guerras são constantes. Nas grandes crises econômicas o capitalismo mostra, para além de qualquer dúvida, as suas grandes falhas e o seu fracasso na alocação e na reprodução dos recursos sociais de produção. Mas, ainda assim, a economia capitalista consegue, contudo, persistir em desenvolvimento acelerado, quando consideramos o longo curso da história.
Eu entendo que isto só tem sido possível pelos instrumentos socialistas que se desenvolveram dentro do sistema econômico capitalista mundial.
Essas tendências autodestrutivas para o sistema econômico mundial e as suas terríveis consequências sociais, inerentes à lógica própria da economia capitalista, têm sido mitigadas e corrigidas com conquistas sociais que controlam e reparam as desigualdades de riqueza e poder e as desordens econômicas que a alocação incorreta dos recursos e o próprio empobrecimento relativo das massas causam. O socialismo se desenvolve dentro e em contraposição ao capitalismo. Como uma necessidade para um mínimo de estabilidade social e para própria subsistência do sistema de produção social mundial e, simultaneamente, surge como o desenvolvimento da nova forma social, do novo sistema social e a superação do próprio capitalismo.
Considerando-se os últimos 150 anos, por exemplo, não há como negar que tenha sido um período de grande socialização do capitalismo. Não há dúvidas que, neste período, se desenvolveram, dentro do sistema capitalista mundial, muitos recursos de proteção e de promoção social e de regulação pública das finanças e da produção. Este é justamente o período de consolidação de um sistema econômico-social capitalista mundial. Um período de imenso desenvolvimento científico, tecnológico e produtivo e de grande integração da economia mundial, que pode ser chamado de capitalismo contemporâneo ou sistema capitalista mundial contemporâneo. Neste período há também um incontestável crescimento de recursos e instrumentos de controle social da produção, assim como de proteção e promoção dos grupos desprotegidos pela dinâmica social capitalista.
Todos sabemos que estes recursos e instrumentos só se desenvolvem de modo parcial e contraditório dentro do sistema capitalista mundial, através de lutas e conflitos sociais, muitas vezes extremos, com grandes idas e vindas, ganhos e perdas históricas, tanto no interior dos países quanto no plano internacional. Mas, também é óbvio que, no cômputo geral, eles realmente se desenvolveram muito neste período e de tal modo que parece evidente que o sistema capitalista mundial chegou até aqui por causa do desenvolvimento destes recursos públicos regulatórios. Sem estes instrumentos e recursos a pobreza e as crises teriam sido muito piores ainda e as guerras, civis e internacionais, ainda mais frequentes e destrutivas.
A economia socialista, como a experiência chinesa comprova, é capaz de produzir uma melhor alocação de recursos, com maior benefício social, através da associação entre o controle estratégico e financeiro pelo Estado e um bom funcionamento da economia de livre de mercado, nos outros níveis da economia. O socialismo, com o funcionamento do livre mercado submetido ao direcionamento do planejamento central da economia e ao forte controle regulatório e financeiro estatal, conseguiu produzir uma alocação mais efetiva dos recursos produtivos sociais, uma alocação mais produtiva e mais segura, de modo a promover o desenvolvimento contínuo e acelerado por período de tempo que ainda não havia sido conquistado na história das potências capitalistas.
É o que a experiência chinesa mostra, sem sombra de dúvidas.
A experiência social-democrata nos países centrais e até mesmo as tentativas extemporâneas de implantação do comunismo já mostravam essa possibilidade, ainda que de modo muito limitado e irresolutivo. Com certeza não pareciam respostas suficientes para o sistema econômico mundial, E, quando as forças produtivas mundiais deram novos saltos, as estruturas sociais-democratas e o comunismo precoce surgiram como limites e foram envolvidos e vencidos pela nova onda liberal, pela onda neoliberal, desde o início dos anos 80 do século passado.
Neste mesmo tempo a experiência socialista chinesa decolava para um período de desenvolvimento produtivo e social continuado e acelerado sem precedentes na história contemporânea. Isto foi possível pela análise correta da realidade econômica mundial do seu tempo e pela correta compreensão do caráter do socialismo, como sendo uma economia de transição e superação do capitalismo, ainda dentro do sistema capitalista mundial, ainda capitalista, portanto.
A grande potência emergente no mundo atual é socialista. Sim, a China é socialista e foi justamente pelo reconhecimento consciente de sua condição socialista que ela arrancou e persistiu em desenvolvimento contínuo e acelerado nos últimos mais de 40 anos. A China, na virada da década de 1970 para 80, reconheceu que era impossível e irracional tentar implantar o comunismo no país naquele momento histórico, era impossível pelos recursos disponíveis, era impossível pelo nível de desenvolvimento naquela época e também porque é impossível e irracional tentar implantar o comunismo em um só país, ou numa parcela limitada e secundária do sistema capitalista mundial.
O comunismo deve pressupor um desenvolvimento ainda bem maior das forças produtivas em toda a humanidade e uma integração mundial também muito mais ampla e intensa do que aquela que havia no final dos anos 1970. E até mesmo do que já temos na atualidade.
Portanto, a China e o mundo, obviamente, teriam que passar por um período de transição de muitas décadas ou de alguns séculos, pelo menos.
A China teria que ser ainda capitalista por um longo tempo. Mas, colocando a dinâmica capitalista de mercado sob o controle estratégico e financeiro do Estado socialista. E foi isto que propiciou o sucesso econômico contínuo e intenso da China, desde então e até os dias de hoje.
Este sucesso já não pode ser ignorado. E ele expõe, com uma clareza equivalente àquela da luz solar, incontestável, que o controle estratégico e financeiro da economia, por forças sociais além do mercado, realmente pode ser, é, mais efetivo que a regulação apenas pelo mercado. A história do sistema capitalista contemporâneo já mostrava, aliás, que a regulação pública é, na verdade, necessária para a simples continuidade do sistema, dada a gravidade dos desequilíbrios e das crises do sistema que, sem esta regulação, assolariam ainda mais a economia mundial. Mas, ainda restava muita dúvida. Muitas vezes parecia que esta regulação apenas criava mais problemas e entraves na economia e que a liberdade do mercado seria o único recurso realmente eficaz na regulação da economia. Ao contrário, o que a história já nos mostrava é que o capitalismo deixado por si mesmo termina se mostrando um sistema com muitos erros na alocação dos recursos sociais de produção e com uma tendência inexorável para a desigualdade extrema e para grandes crises econômicas cíclicas, com consequências muito danosas para o próprio desenvolvimento econômico e catastróficas para a sociedade, sobretudo para os trabalhadores e pobres. Na verdade não teríamos chegado até aqui sem os diversos recursos e instrumentos públicos de regulação econômica e proteção social que se desenvolveram nos últimos 150 anos.
Tudo isto que estava ainda um tanto obscurecido, confuso e incerto até a ascensão inquestionável da China socialista, agora não pode mais ser posto em dúvida.
Hoje está claro, estamos vendo, que a China socialista deu passos significativos para a superação do capitalismo enquanto os países que persistiram pretendendo realizar uma transição completa e imediata, contra a economia de mercado, ou, imediata, terminaram em becos sem saída e regrediram. E, também agora, já podemos entender, com segurança, o significado e os limites da onda neoliberal do final do século passado, que está findando agora. É apenas um movimento ondular característico do processo de desenvolvimento socialista do sistema capitalista mundial. A onda neoliberal da economia mundial representou uma resposta do sistema aos desafios econômicos do momento e deve agora ceder espaço completo à nova onda socialista que já está em franco crescimento no mundo, capitaneada pelo grande desenvolvimento da China e pelo seu papel de locomotiva na integração econômica e social mundial.
De fato, nenhuma economia se beneficiou mais da onda neoliberal e da nova globalização que a economia socialista chinesa, Tanto que chegamos finalmente ao ponto em que os liberais, que propugnaram pela globalização, agora regridem para ideologias de desintegração da economia mundial, para o nacionalismo, a xenofobia e o fascismo.
É claro que os meios de produção atuais, incluindo as tecnologias de informação e comunicação são muito mais adequadas à economia socialista. Não há como negar que os meios de produção atuais permitem muito melhores níveis de informação social geral e, portanto, de eficiência do planejamento central. O mesmo se pode falar do desenvolvimento teórico e prático dos instrumentos e recursos do sistema financeiro e de regulação e gestão econômica em geral, assim como do nível tecnológico e da integração transnacional da produção social mundial. Tudo isto interessa ao socialismo e tudo isto é, já, condição e resultado do próprio socialismo. É o desenvolvimento do socialismo dentro e em contradição com o capitalismo.
Por tudo isto, me parece bem seguro que avançaremos agora ainda mais aceleradamente e intensamente no sentido da superação socialista do capitalismo. Não vamos regredir de um sistema econômico de desenvolvimento das forças produtivas humanas, para um de baixa tecnologia e desenvolvimento. Ao contrário, hoje já é o socialismo que nos permite e progressivamente será ainda mais o socialismo que nos permitirá o crescimento continuado e a prosperidade disseminada.
Foi o desenvolvimento da humanidade no capitalismo que nos permitiu o conhecimento dos fundamentos da ciência da história e é este desenvolvimento que agora nos permite uma segurança alta para afirmar que nós não vamos regredir do capitalismo para um sistema social de baixa produtividade e que não promova o desenvolvimento material da humanidade.
Agora realmente já me parece bem seguro avaliar que nós, a humanidade, não vamos regredir de um sistema que propicie o desenvolvimento continuado da produção, o desenvolvimento científico e tecnológico da produção social.
A partir do desenvolvimento do sistema capitalista a nível mundial, planetário, com a progressiva globalização e integração mundial, as possibilidades de uma regressão deste nível ficam circunscritas a crises absolutamente catastróficas que atinjam, simultaneamente e de modo completamente destruidor, todos os países centrais na produção e desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade. Portanto, mesmo diante dos riscos, atualmente muito altos, de catástrofes militares e ecológicas, parece muito pouco provável que se destruam as bases da continuidade do desenvolvimento da humanidade, as suas bases científicas e tecnológicas e a capacidade produtiva da humanidade em geral. Não, o nível e a extensão do desenvolvimento da produtividade humana e da integração do sistema econômico mundial os tornam resistentes, mesmo a forças destrutivas extremas. Tomemos, por exemplo, o ocorrido com as grandes guerras europeias e mundiais da primeira metade do século passado. Desde então, ao contrário de regredir, as forças produtivas da humanidade se desenvolveram ainda mais intensa e aceleradamente e o conhecimento, a tecnologia e a própria produção se tornaram ainda mais integrados mundialmente, ainda mais globalizados.
O nível do desenvolvimento econômico, científico e tecnológico a que já chegamos e a sua vasta extensão e integração transnacional em todo o mundo no permitem resistir contra a regressão mesmo diante de crises de ainda mais extensa e intensa destrutividade. E, por fim, o socialismo se desenvolve dentro do sistema capitalista e contra o sistema capitalista, exatamente porque ele nos garante a continuidade do desenvolvimento da humanidade, contra as contradições e a destrutividade, inerentes ao capitalismo.
E não regrediremos também porque o desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia, o desenvolvimento da riqueza, o desenvolvimento dos meios de produção da humanidade, enfim, correspondem a desejos antropológicos muito profundos, talvez os mais profundos e mais fortes desejos dos seres humanos em geral.
O desenvolvimento material da humanidade é uma necessidade crucial para os indivíduos em geral, inscrita nas estruturas fundamentais do ego, mesmo que não tenhamos consciência disto.
Na medida em que nosso ego está comprometido com a sua realização pessoal mesma, ele também está comprometido com o desenvolvimento de toda a humanidade. Isto porque o trabalho é a força social que faz o sistema humano desenvolver-se. É pelo trabalho que se desenvolvem as próprias forças produtivas sociais e as condições de existência e realização de cada ser humano. Esta é uma determinação crucial da humanidade, do ser social humano, que se apresenta em nossa longa história e que torna-se claramente perceptível justamente com o desenvolvimento capitalista.
Nós, a humanidade, somos fruto do nosso trabalho presente e historicamente acumulado. E é este processo que nos faz, que nos realiza, e cria novas possibilidades de ser. Esta característica, este impulso autoprodutivo do nosso ser, através do trabalho social, é uma força vital de importância máxima para cada ser humano, pois corresponde às mais altas expectativas do nosso ego de se manifestar livre e ativamente na realidade, de se desenvolver e, ao mesmo tempo, de atender ao compromisso com a reprodução e desenvolvimento dos nossos descendentes e da humanidade em geral.
O desenvolvimento produtivo da humanidade é o desenvolvimento de cada um de nós, ao menos enquanto possibilidade e projeção de futuro e nós nos identificamos, pelas forças mais profundas do ego, com a perspectiva do desenvolvimento da humanidade e de que, pelo nosso esforço, nós mesmos e os nossos filhos e netos tenhamos melhores recursos, melhores meios e condições de produção e existência que nós tivemos no passado.
Portanto, o desenvolvimento produtivo e social da humanidade é algo realmente inscrito em nossos interesses egóicos mais profundos, com a mesma força, profundidade e sentido que a perpetuação da espécie é inscrita no gen.
De fato, alguns dos mais fortes desejos do nosso ego convergem para o impulso ao desenvolvimento social. Entre os mais nobres, como aqueles de ser reconhecido, amado, respeitado e de deixar uma marca na história, do mesmo modo que entre os mais perversos, como aqueles desejos de dominação e opressão, de ganância, de ódio e de inveja, E vamos, como ego, desejar infinitamente nos perpetuar na história, na cultura, na sociedade, no sistema, de algum modo, perpetuar o nosso ser e a nossa cultura, o nosso trabalho, a nossa razão e a nossa ideologia.
O ego se realiza no sistema. No trabalho e em toda a nossa vida cotidiana. Com tudo o que isto significa de sacrifício e de realização, de prazer e dor.
Não é possível de fato eliminar nunca completamente o interesse individual e o interesse social no nosso ser, nunca, eles estão sempre intrinsecamente presentes no nosso ego, no nosso ser, ou na nossa alma, como queiram. É, portanto, no nosso ego, muito antes que no mercado, que a mão mágica do sistema imprime seu selo e nos faz dar a ele aquilo que cada um procura para si mesmo. Isto foi identificado por Hegel, nas sombras, no lusco fusco do seu idealismo, como a astúcia da razão.
O desenvolvimento da humanidade nos interessa de modo absolutamente vital, muito maior do que aquele que aparece. Somos compromissados com isto em um nível mais alto que se possa imaginar, mais do que com as religiões ou as pátrias, por exemplo. É a isto que nós, em geral, dedicamos as nossas vidas, sabendo ou não. Porque, de fato, é isto que fazemos todos os dias no nosso trabalho, nas nossas relações sociais, na nossa vida cotidiana. Aí se encontram o heroísmo e a mesquinharia das pessoas comuns, sobre os quais toda a nossa história é construída.
terça-feira, 27 de junho de 2023
Ideologia Socialista x Ideologia Capitalista: A Questão da Guerra
Todas as áreas da vida social atual são afetadas, ainda que desigualmente, pela disputa entre o socialismo e o capitalismo. Entre as diversas questões cruciais do nosso tempo, a questão da guerra e a questão ecológica são, com certeza, questões práticas, políticas, econômicas e ideológicas realmente universais e limítrofes. São verdadeiras questões existenciais, como dizem hoje em dia no cenário geopolítico, mas, não por ameaçarem a existência de um país apenas e, sim, de toda a humanidade, ou, pelo menos, desta civilização. São, por isso mesmo, questões que, no presente, não podem ser ignoradas de modo algum. E são também questões em que a ideologia socialista se diferencia da ideologia capitalista, de modo direto e inequívoco.
Vamos considerar agora a questão da guerra e a questão ecológica será o foco de texto posterior.
O capitalismo está, em toda a sua história, inequivocamente ligado a guerras e ao imperialismo entre as nações, assim como também está ligado, dentro das nações, a todas as formas econômicas e políticas possíveis de dominação e exploração. Pode-se até alegar que as formas sociopolíticas mais próprias ao capitalismo são a democracia política e, inclusive, a social-democracia. Mas, ninguém pode negar que o capitalismo, conviveu, e convive bem até hoje, com todas as formas de exploração e de abuso de ordem econômica e política, incluindo ditaduras, tiranias e escravidão. E também não se pode negar que, em toda a história do capitalismo, sempre houve algum tipo de imperialismo e colonialismo entre os países no mundo.
Não era mesmo de se esperar algo diferente de uma ideologia do conflito e da violência, ou, da paz imposta pelo conflito e pela violência.
Preciso explicar isto.
A economia capitalista liberal é a economia da livre competição e da liberdade de acumulação. A acumulação ilimitada é, incontestavelmente, um fundamento do liberalismo capitalista, ou, simplesmente, do capitalismo. Isto leva a desequilíbrios de poder extremos no interior de cada país, ao mesmo tempo que sustenta e promove um sistema de grande desigualdade também entre os povos ou nações no mundo. A dominação e a exploração entre entre as classes no interior de cada país e entre os países no mundo são, portanto, inerentes à lógica econômica capitalista. De fato, a imposição de poder é mais do que aceitável, ou, desejável, é algo é necessário no sistema capitalista. É próprio ao modo de produção capitalista. A ideologia capitalista é uma ideologia de dominação, travestida de libertação. Hoje podemos ver isto melhor. A liberdade de acumulação capitalista é, ao fim, a liberdade de dominação e exploração, é a livre dominação do poder dos capitalistas na sociedade e dos países imperialistas no mundo.
Não é de se estranhar, portanto, que as guerras entre países sejam frequentes ou constantes no sistema capitalista mundial. Ao contrário, é óbvio que, no capitalismo, o poder internacional ainda se impõe através do militarismo e da guerra. No limite, a hegemonia entre as nações no capitalismo é conquistada e imposta pela força, por meios econômicos e pela guerra propriamente dita. Ações de guerra imperialista tanto econômicas quanto militares são, realmente, inerentes ao sistema capitalista e constantes na sua história. Também parece muito razoável concluir que o capitalismo também tende a nos levar a grandes guerras todas as vezes que o sistema apresenta maiores tensões, como nas grandes crises econômicas. Por isto as guerras terminam sendo bem justificadas e bem-aceitas no sistema capitalista. De algum modo elas são realmente necessárias, neste sistema. São necessárias como instrumentos de poder e são necessárias também como forma de queima intensiva de capital físico e humano, como parte, portanto, da solução liberal das grandes crises econômicas capitalistas.
Não se pode negar, por outro lado, que as guerras são fenômenos trans históricos, com presença em todos os períodos da história e nem se pode dizer que, neste aspecto, o sistema capitalista contemporâneo seja pior do que as formas sociais anteriores na história. Isto, contudo, não pode nos impedir de enxergar a barbárie absurda e inaceitável da guerra. Absurdo que, obviamente, é tão maior quanto maior for o nosso desenvolvimento em geral.
A guerra é uma forma legal, justificada, organizada e sistematizada, quase ritualizada, de destruição e de assassinatos coletivos. Principalmente de jovens. Como não reconhecer nisto um máximo de absurdidade e estupidez? Como não lembrar dos sacrifícios humanos nos rituais de culturas ancestrais? E como isto pode ser justificado ainda hoje? Não, não pode, e a guerra é realmente injustificável. Tem que ser, por todos os meios, impedida historicamente, como, em algum tempo, os sacrifícios cerimoniais o foram.
Hoje, na guerra mais amplamente divulgada, uma das forças armadas envolvidas diretamente no conflito utiliza uma tática militar chamada de “moedor de carne”. Isto mesmo, é um moedor de carne humana. É o sistema operando para a morte, diretamente, sem qualquer limite. E todos os que falam em nome da sacralidade da vida humana agora se calam ou, no máximo, murmuram impotentes. No sistema atual, como antes, a guerra é, de algum modo, aceita e justificada.
Mas, de fato a guerra não pode ser aceita, não pode jamais ser justificada e sua absurdidade extrema tem sempre que ser denunciada e condenada. Outros caminhos têm que ser abertos para que as guerras se tornem impossíveis, ou, pelo menos, muito improváveis, ao contrário do sistema atual em que as guerras são muito mais do que prováveis, são necessárias.
A ideologia capitalista sempre busca fazer parecer que os seus erros estruturantes, como este, são condições da própria natureza humana e, de tal modo fundamentais, que a tentativa de corrigi-los levaria a algo pior ainda. E os becos sem saída de tentativas de socialismo do século passado pareciam dar razão à ideologia liberal capitalista de modo que a guerra, a dominação e a exploração capitalistas até pareceram serem realmente inevitáveis e insuperáveis. Mas, como sustentei em textos anteriores, a roda da história já girou de novo e não estamos mais no momento de ascensão do liberalismo e derrocada do socialismo soviético. Ao contrário, estamos no momento de esgotamento da onda neoliberal e de ascensão da China socialista.
E, por isto mesmo, já podemos ver melhor.
Os que se posicionam pela paz não são inocentes idealistas e os que a defendem a necessidade absoluta ou natural da guerra não são realistas e nem analistas estratégicos brilhantes. Esses sistemas de morte e destruição não são inerentes ao nosso ser e tolo é quem imediatamente aceita a guerra como uma fatalidade da natureza humana.
Ao contrário, com o avanço do socialismo deve avançar também a possibilidade e a probabilidade da paz.
A perspectiva e a posição socialistas, sob o prisma geopolitico, são aquelas do internacionalismo e do globalismo. Sim, por favor, prestem atenção, o socialismo é, internacionalista e globalista do ponto de vista econômico, do ponto de vista social em geral e do ponto de vista geopolítico em específico. Em sua essência ou lógica própria, o socialismo é uma forma de integração econômica e social transnacional. Portanto, em sua lógica própria o socialismo não estimula a guerra entre as nações, ao contrário, o socialismo deve trabalhar, de modo árduo e persistente, pela paz entre as nações.. Em sua perspectiva ideológica a economia socialista é a globalizada, é integrada mundialmente o que corresponde e é, pode-se dizer, até imposto pelos meios de produção atuais.
Deposito nisto as minhas melhores esperanças de que transitaremos para a nova onda socializante, agora que estamos no fim da atual onda liberal, com menos dor e sofrimento sociais do que foi no século passado, apesar de estarmos, sob outros aspectos em condições muito semelhantes agora.
A integração mundial geral das cadeias produtivas, dos sistemas financeiros, dos mercados consumidores e até mesmo da cultura e do trabalho é realmente muito maior agora, no início do século XXI, do que no início, ou, até em relação a todo o século XX.
É bastante curioso e emblemático ver como os países e as forças ideológicas que propugnaram pela globalização na década de 80 do século passado, atendendo a uma necessidade do capitalismo, dos interesses econômicos ou financeiros do sistema, agora têm uma posição antiglobalização, contrária ao avanço da internacionalização econômica e social e contrária aos sistemas e instituições de regulação mundiais. Campeões do internacionalismo, do globalismo e da globalização regridem drasticamente agora ao nacionalismo, ao excepcionalismo, à xenofobia e ao fascismo. Como expliquei em textos anteriores, nada há a estranhar aqui também. Isto é simplesmente correspondente ao momento atual do sistema capitalista mundial Isto é realmente necessário, dado o momento atual de fim da grande onda liberal que vivemos desde os anos 1980.
Ao contrário das grandes potências capitalistas e, em especial, em contrário aos EUA, a potência hegemônica no sistema capitalista mundial, a China propõe e tem conseguido estabelecer relações multilaterais de ganho mútuo mundo afora. Não é a toa que a China é hoje o maior parceiro comercial de mais de 130 países e também estende e intensifica suas parcerias com investimentos financeiros e projetos de infraestrutura, em uma rede mundial cada vez mais ampla. É, no plano econômico e geopolítico, a doutrina socialista de ganho mútuo, de ganha-ganha, em contraposição à doutrina capitalista de ganho unilateral e de dominação.
Com certeza ninguém pode dizer que o socialismo garantirá o fim das guerras entre países. A história mostra que no processo de transição do capitalismo os países podem viver momentos de revolução armada e tomada violenta do poder. Isto muitas vezes ocorre justamente em um momento de guerra, quando um estado se enfraquece e a revolta popular cresce muito. Portanto, muitas vezes o estado socialista já nasce em guerra com outro país. E, além disso, dentro do sistema capitalista nenhum país jamais estará livre de se envolver em guerras. A não ser que não tenha soberania.
Infelizmente estamos ainda imersos em guerras e em imposição violenta de poder. Portanto, a revolução armada e até a guerra entre países ainda podem ser inevitáveis.
Não é certo, contudo, dizer que estas sejam guerras socialistas. Não são e o socialismo é realmente pacifista e globalista. A integração econômica e social mundial é inerente à ideologia socialista, que propõe a prosperidade para todos e o desenvolvimento social geral em cada país e no mundo. Isto está em sua lógica interna. E, portanto, esta deve ser uma condição intrínseca e um propósito constante do seu movimento.
Estamos agora num daqueles momentos em que a ideologia encontra a realidade como necessidade ou oportunidade. Sim, eu entendo que o pacifismo socialista é uma necessidade do momento histórico.
A ameaça de grandes guerras voltou a assombrar o sistema social mundial agora mais do que em qualquer outro momento das últimas 3 décadas, com certeza, e, talvez, das últimas 7 décadas.
Para exemplificar, no momento presente a Europa e os US enfrentam queda no crescimento ou recessão e inflação alta. E qual a resposta que eles estão dando? Cortes nos gastos sociais e anticíclicos e aumento dos gastos militares. O resultado disto só pode ser mais dificuldade para sair da crise econômica, mais pobreza, mais crises sociais e mais guerras. O que significa também que o fascismo crescerá como alternativa política e a democracia será ainda mais tripudiada e falsificada nestes países centrais do sistema capitalista mundial.
São duas as maiores forças convergentes que fazem a ameaça da guerra aumentar muito agora: a grande crise econômica do fim da onda liberal, que estamos vivendo desde 2007 e a decadência relativa dos EUA, no sistema mundial e internamente, em face da ascensão da China. Talvez a gente deva incluir aí também a consequência imediata disto, a elevação da contraposição entre capitalismo e socialismo no sistema mundial a um novo nível com a ascensão da China.
A crise sem solução no liberalismo, cujas respostas só aprofundam o problema e jogam todo o seu peso nas costas dos perdedores, levando ao aumento da pobreza e da miséria; o aparente esgotamento das ferramentas anticíclicas, com a recessão e a inflação golpeando simultaneamente; tudo isto pressiona ainda mais o sistema e põe ainda mais gás na ideologia xenófoba e militarista mundo afora. Mas não é só uma questão ideológica, é também uma resposta objetiva à crise econômica.
Com a guerra, como com as quarentenas generalizadas da pandemia, pode-se justificar o injustificável: a paralisação parcial da economia, a quebra de setores e regiões, o desemprego, o grande aumento da pobreza. Estas são, realmente, tanto características da crise quanto respostas necessárias às grandes crises econômicas do capitalismo, ao menos em sua essência liberal. No momento mais crítico da crise econômica capitalista a guerra se torna, portanto, uma alternativa até adequada e aceitável para a sociedade, para a economia social em geral, como foi a quarentena generalizada por tempo ilimitado recentemente, Algo absurdo, mas que, diante do absurdo da crise econômica sem solução, pareceu muito razoável e realmente necessário. O certo é que os sem emprego e sem renda que pipocaram pelo mundo ocidental afora não perguntam o que foi a causa, eles têm uma resposta tranquilizadora e não econômica: “foi a pandemia; não foi a concentração das riquezas, não foi a ganância e a estupidez, foi um fenômeno natural, foi a pandemia”. Pois bem, com certeza, as grandes guerras têm o mesmo efeito moral. Justificam o injustificável, a grande queima de capital, de vidas humanas e de recursos materiais, assim como as quebras generalizadas, o desemprego e a pobreza. Não é verdade?
A decadência dos EUA é evidente. O modelo de globalização que eles próprios impuseram, as crises econômicas sem solução das últimas décadas e uma das piores respostas à pandemia do mundo, levaram a um crescimento assustador da degradação econômica e social, material e humana, da pobreza e da miséria, nos EUA, nas últimas décadas, e ainda mais nos últimos anos. A sua inevitável perda de hegemonia ou de poder no cenário mundial também está acontecendo de modo intenso e acelerado no momento. E é óbvio que tudo isto aumenta muito o risco dos EUA se apoiarem mais e mais no seu poder militar, promovendo ainda mais guerras do que já fizeram nos últimos 70 anos. Não foram poucas, ao contrário, o número de guerras com participação direta e promovidas pelos EUA depois da segunda guerra mundial é assustador. E tende a piorar agora. Pois, agora não há uma boa solução imediata para os EUA no modelo capitalista. Ao contrário, as apostas na concentração de renda e na desindustrialização estão cobrando seu preço e não será fácil reverter tudo isto e nem ao menos de conter os seus danos.
Enquanto isto, com todas as dificuldades da pandemia e da crise mundial a China continua mantendo um crescimento bem maior; E estende e aprofunda suas alianças comerciais e sua integração produtiva e financeira com o mundo todo.
Os impulsos para a guerra, que vêm da crise econômica e da perda de hegemonia dos EUA, com a ascensão da China no mundo, tomam um caráter ainda mais ameaçador pelo fato que, ao fim, o conflito entre EUA e China é e será, de qualquer modo, o conflito entre capitalismo e socialismo, que se apresenta em movimento intenso e acelerado agora e assim será ainda mais nos próximos anos, nas próximas décadas. A questão existencial que se coloca e se colocará cada vez mais para o sistema capitalista, não é apenas aquela de substituição do centro imperialista do sistema, mas de sua sobrevivência histórica.
Hoje já parece bastante evidente que, sob quaisquer indicadores sociais ou econômicos a China já superou os EUA ou está em um caminho inexorável para o fazer. E a vitória histórica da China é, queiram as pessoas ou não, uma imensa vitória histórica do socialismo dentro do sistema capitalista mundial. Uma vitória que, obviamente, influencia e influenciará cada vez mais o mundo todo, tanto pela força econômica da própria integração mundial, da globalização, assim como pela força do exemplo moral do caminho chinês.
Esta vitória é inevitável, a não ser que o sistema mergulhe em guerras autodesttrutivas extremas. Não é, no entanto, de estranhar que, dadas as condições atuais, as forças dominantes no sistema se alinhem enfim para uma solução absurda e estúpida assim. O socialismo deve resistir à guerra de todo modo. Não há ganho possível para o socialismo com a guerra. Uma grande guerra entre dois blocos liderados pela China e pelos EUA só pode resultar em uma grande regressão, não apenas recessão econômica e destruição da integração mundial, mas de fato uma grande regressão civilizatória. Ou seja, uma regressão no próprio caminho do socialismo. O socialismo deve resistir à guerra de todo modo e deve buscar os caminhos socialistas, de solução globalizante, o desenvolvimento dos fóruns e instrumentos internacionais para o estabelecimento e a garantia da paz.
Aquilo que no século passado só ocorreu depois da primeira e da segunda guerras mundiais, nós temos que conseguir, agora, já, antes que seja tarde, desta vez para evitar a guerra e não para consolidar o seu resultado e restabelecer o caminho da paz, da integração e do desenvolvimento mundial.
A minha esperança de que agora a gente realmente consiga evitar as grandes guerras, como eu já disse, repousa no aumento da integração econômica e social transnacional e também no fato que a grande potência ascendente no momento é a China socialista, Mas isto não garante nada e a conquista da paz parece realmente ser uma tarefa histórica de todos nós agora.
A guerra mundial só interessa ao capitalismo e ao imperialismo.
segunda-feira, 19 de junho de 2023
Minha Experiência Mística Com o DMT
Eu sou ateu desde a adolescência. Mas, nas primeiras vezes que fumei a changa, talvez por influência de amigos que viam deuses, divindades espirituais etc, eu senti aquela forte sensação de transcendência, de estar sendo transportado para o além. Só que eu me segurei nos meus calcanhares, pensando: deixa de ser tolo, Paulo, vc vive é aqui e agora e não no além! Voltei então para mim mesmo e tive uma viagem incrível e brilhante sobre as necessidades do Ego, que até hoje me ilumina.
Mas, ficou uma pulga atrás da orelha, sobre a questão da transcendência e de Deus, que me incomodava toda vez que fumava a Changa.
Isso se resolveu quando, um bom tempo depois, fumando a Changa novamente, ela sussurrou no meu ouvido este 'hino' que me solucionou todas estes incômodos ou dúvidas:
"Este Ser que está aí ao teu lado é Deus,
Você é Deus.
Todo Ser é Deus,
Cada Ser é Deus,
Deus é o Universo,
O Universo é Deus."
Percebem que aí não há transcendência, nem seres imaginários ou fantásticos, nem moral alguma, nem nada além da pura e bruta realidade. Quase que se pode dizer que o que este hino ensina é simplesmente que tudo o que existe É. Simples assim. E isto é Deus. Eu, você e os nossos inimigos. O pássaro e o verme, a estrela e a pedra. O assassino, a vítima e a testemunha. O mentiroso e o verdadeiro, o justo e o bandido. Tudo é Deus.
Uma outra vez, muito tempo depois, faz uns 6 meses, eu tomei muito chá de Ayuasca, muito mesmo, do mais forte, do mel, e fumei a changa uma meia hora depois, quando a viagem começou. É algo incrível, que recomendo pra fortes. Porque aí vc viaja mesmo e por muito tempo. Pois bem, nessa onda bem longa e muito forte mesmo, não só a Changa falou comigo, mas desta vez a gente conversou de verdade. Eu perguntei pra ela: Mas, então vc não vai me mostrar o além, as tais divindades que os outros vêem? E eu pedi a ela: me mostra! Mas, ela respondeu, rindo pra mim: pra você não! E eu ri, eu entendi, ri e falei: vc está certa!
E ficamos, novamente, em paz. Eu e o DMT. ❤️
Ideologia Socialista x Ideologia Capitalista
Ao concentrar a nossa atenção no aspecto ideológico, imediatamente a gente se transpõe para a perspectiva trans histórica e projeta o pensamento no futuro, para além do imediato. Pensamos, neste aspecto, necessariamente, num futuro de médio e de longo prazo, onde colocamos nossas melhores e mais generosas projeções para a humanidade. Isto que no idealismo está posto na forma de princípios absolutos ou ideais, religiosos ou filosóficos, e que, para nós, são pontos de chegada, possíveis e desejáveis, no nosso projeto histórico de ser. Este é o plano em que se localizam todas as questões ideológicas, sob qualquer aspecto simbólico, normativo ou representacional, legal, moral ou institucional das relações entre as pessoas, inclusive, obviamente, as relações de poder e força.
Mas, antes de avançar num plano teleológico mais longínquo, ainda que ele seja o mais propriamente ideológico, sinto que eu preciso tratar da questão ideológica no nível do presente e do futuro próximo. Ou seja, preciso tratar da oposição entre socialismo e capitalismo no plano ideológico. Isto inclui também a contraposição entre socialismo e fascismo, na medida que o fascismo é uma forma extrema e extremamente perversa do capitalismo liberal, uma forma extrema de imposição do poder dos capitalistas sobre toda a sociedade, que surge e ressurge nos momentos extremos de crise do sistema capitalista mundial.
As relações capitalistas, as formas capitalistas de produzir, distribuir e consumir, se conectam e se atravessam, se imbricam, enfim, com todas as outras relações sociais na nossa sociedade. Na mesma medida, todas as questões identitárias, de direitos humanos, de liberdades e de democracia, a questão ecológicas e todas as outras grandes questões sociais do nosso tempo têm relação com a questão histórica entre socialismo e capitalismo e, em geral, terão melhor ou pior encaminhamento e solução em função do processo de superação do capitalismo pelo socialismo.
Do ponto de vista ideológico o socialismo é superior ao capitalismo em todos estes aspectos, ainda que isto pareça contra intuitivo num mundo em que os países capitalistas ocidentais, dominantes no sistema mundial atual, aparecem como os mais avançados em termos de respeito à pauta identitária e aos direitos humanos. Pode ser que isto seja verdade, mas, é bem mais verdade que os países capitalistas não se resumem aos dominantes ou ricos. E, muito ao contrário do melhor padrão europeu ou canadense, o que predomina no sistema capitalista mundial não é o respeito aos direitos humanos ou a uma pauta identitária etc.
O socialismo é superior ao capitalismo liberal no plano ideológico, sob todos os aspectos mais relevantes, e isto se prova pela história mesmo. A história está seguindo um curso coerente com a superação do capitalismo pelo socialismo, justamente porque o socialismo é melhor do que o capitalismo. Progressivamente isto se mostra mais presente na realidade e mais seguro em sua veracidade.
A superioridade ideológica do socialismo se dá desde as dimensões mais básicas ou profundas, na base econômica mesma da sociedade, no cerne do modo de produção e distribuição de bens, simplesmente por que o socialismo propõe a comunhão de esforços e o respeito mútuo onde o capitalismo liberal propõe a competição e a imposição do poder.
A ideia motora forte do capitalismo liberal, o verdadeiro cerne desta ideologia, é ideia da liberdade econômica capitalista: a livre propriedade, a liberdade de mercado e a liberdade de acumulação ilimitada. Mas, ainda que estas ideias de liberdade capitalistas possam ter um alto valor ideológico próprio, o que é questionável, elas realmente se tornaram os ideais moventes de todo o já longo curso da história capitalista quando se associaram à ideia de que a riqueza de todos cresce através da livre competição capitalista, através da ‘mão mágica’ do mercado. E cresce mais do que em todos os modos de produção anteriores.
Realmente não parece ser razoável questionar se o capitalismo está ou não relacionado a um grande desenvolvimento das forças produtivas da humanidade. Sob este aspecto, no capitalismo, realmente realizamos um grande desenvolvimento humano. E estamos todos, pelo nosso ego mesmo, vinculados ideologicamente r emocionalmente a este processo, Ele corresponde também a desejos pessoais nossos muito profundos, que nos ligam aos nossos descendentes e ao humano em geral. O desenvolvimento da humanidade, o desenvolvimento científico, tecnológico, produtivo, material, nos interessa a todos, ainda que não tenhamos consciência clara disto.
Bem antes de Smith e de forma ideologicamente ainda mais poética e emblemática, Mandeville, já tinha identificado que, com a livre competição, os vícios pessoais levariam a maiores benefícios públicos, de tal modo que, assim, “os pobres de amanhã serão mais ricos que os ricos de hoje”. O ângulo destacado pelo autor da Fábula das Abelhas permite identificar virtudes essenciais ou muito desejáveis de um sistema social e que são verdades, ainda que parciais e contraditórias, no sistema capitalista. Isto corresponde diretamente a profundos desejos humanos, arraigados nas dimensões do ego e até mesmo na própria natureza genética do nosso ser biológico. Queremos reproduzir e proteger as gerações futuras. Queremos que nossos filhos e os filhos dos seus filhos desenvolvam as suas capacidades, se realizem, tenham uma vida boa e segura. Isto é intuitivo e natural a todos nós e certamente percebemos como virtude de um sistema social ele ser capaz de produzir isto. Eu entendo que esta é, de fato, uma grande fortaleza do sistema capitalista que, por sua lógica mesma, ainda que de modo muito contraditório, tem produzido este resultado histórico. E enquanto ainda se puder acreditar que neste sistema, melhor do que em qualquer outro, os filhos dos nossos filhos serão mais ricos do que nós, ele ainda terá um forte sentido histórico e um forte apelo ideológico, correspondente.
Além disto, obviamente, a proposta ideológica do capitalismo permite, propicia ou promove a livre inciativa individual, o risco e a responsabilidade pessoais e, com isto, libera e intensifica a dinâmica, o movimento, de empreendimentos e trajetórias pessoais no sistema. E isto certamente também tem correspondência com desejos, também profundos, de liberdade pessoal e de justiça em relação aos esforços e às escolhas pessoais. Parece que aí se encontra uma resolução muito virtuosa dos desejos, próprios e inelimináveis do nosso ego, de liberdade e autoafirmação, por um lado, e de justiça, de justa retribuição a cada indivíduo pelo seu valor, pelo outro.
A ideologia capitalista parece trazer uma aliança muito forte mesmo entre os nossos maiores desejos e as nossas melhores expectativas. A devida recompensa ao esforço pessoal, que a impessoalidade do mercado parece garantir, resultaria no melhor desenvolvimento da humanidade e no maior benefício de todos. O livre egoísmo de cada um resultaria em ser a melhor base da justiça e o melhor caminho para o bem de todos.
Estas são, no entanto, verdades apenas parciais e muito contraditadas pela própria lógica econômica capitalista. As ideias fortes de liberdade e desenvolvimento se ligam realmente à história do capitalismo, mas, ela também está ligada a uma realidade de opressão e de crises, de pobreza e de guerras. É historicamente incontestável que a lógica capitalista leva a crises sistêmicas periódicas de grande intensidade, levando a grandes perdas econômicas e crises sociais extremas E isto se manifesta tão mais intensa e claramente quanto mais plenamente esta lógica se realizar, ou seja, quanto mais liberal a economia for. E também está mais do que óbvio, pela longa história, que o capitalismo liberal não é especialmente justo e que, ainda hoje, nem os mínimos de liberdade, segurança e dignidade pessoais são plenamente garantidos na maior parte sistema capitalista mundial contemporâneo.
O capitalismo realiza seus melhores desígnios ideológicos de modo muito parcial e contraditório. No capitalismo, a liberdade e o desenvolvimento, a justiça e o mérito pessoal são frequentemente transformados em opressão e atraso, injustiça, humilhação, crises e violência para massas enormes de pessoas. E, no fim, o sistema todo se corrompe e se atrasa.
E tem que ser assim, pois isto está mesmo na própria lógica econômica capitalista.
A ideologia liberal propõe o desenvolvimento econômico e a prosperidade sociais, tendo como base a liberdade e a responsabilidade individuais, através da livre competição no mercado, o que garantiria ainda a justiça, na proporcionalidade dos ganhos ao mérito pessoal. Mas isto ocorre na realidade apenas através de muita opressão e exploração, de crises econômicas e conflitos sociais extremos e de guerras. Ao fim, a ideologia liberal reconhece que tudo isto é mesmo inevitável, mas sustenta que, mesmo assim, o caminho e as respostas capitalistas liberais são as únicas possíveis, ou, pelo menos, as melhores possíveis. De fato, a ideia de que a livre competição no mercado capitalista é a melhor forma de garantir o desenvolvimento e a justiça sobrevive enquanto não se assegura que é possível algo melhor. Mas, eu vejo que a história contemporânea tem se encarregado de nos demonstrar esta possibilidade e o seu caminho.
Nos últimos 150 anos houve incontestável avanço de conquistas sociais dentro do sistema capitalista, transformando-o, controlando suas distorções e melhorando a qualidade de vida e a dignidade das massas trabalhadoras, mesmo ainda dentro das perversões do sistema capitalista. Neste período histórico é clara a diferença em favor do desenvolvimento e implantação de recursos, práticas e instituições socializantes dentro do sistema capitalista mundial, apesar dos atrasos e das perdas sociais, que ocorrem em momentos de retorno de um maior predomínio do liberalismo no sistema. E, em alguma medida, é apenas por isto que a sociedade realmente se desenvolveu intensamente neste período. É isto mesmo. Foram os instrumentos, a ideologia e a prática socialistas, que se desenvolveram dentro do sistema econômico capitalista contemporâneo, que garantiram o grande desenvolvimento produtivo e social contemporâneo, apesar de todas as terríveis crises que também ocorreram no período. Estas crises são próprias do capitalismo e teriam sido mais frequentes e certamente muito mais intensas se não fossem empregados os recursos socialistas que o sistema capitalista mundial adotou progressivamente nestes últimos 150 anos. Os sistemas públicos de regulação financeira e estratégica da economia e os serviços e institutos públicos de proteção e promoção social foram e continuam sendo fundamentais para tudo de bom que aconteceu no capitalismo contemporâneo, reduzindo a intensidade das crises e permitindo uma vida mais digna, ou menos indigna, para as massas.
Creio que estas verdades se manifestam claramente quando fazemos o simples exercício mental de conceber o que seriam estas crises econômicas e suas consequências sociais sem a existência destes recursos socialistas, numa comparação com o capitalismo puramente liberal e com as respostas realmente liberais às crises econômicas e sociais.
Na realidade histórica a socialdemocracia e o próprio socialismo se apresentaram como alternativas ao capitalismo liberal. Mas, durante algum tempo pareceu que a socialdemocracia só era realmente possível nos países centrais e dominantes e que o socialismo estava condenado ao fracasso. Estamos, no entanto, em outro momento já. A roda da história já girou um tanto mais e agora já podemos ver o sucesso socialista superar os feitos do capitalismo liberal em todos esses aspectos. A ideologia e a prática socialistas estão superando aquelas capitalistas, como era esperado, como está indicado na ciência da história. A velocidade, a aceleração, a intensidade e a continuidade do crescimento econômico da China comprovam, mais uma vez, que existem alternativas sociais superiores, em geral, economicamente e socialmente, em relação ao modelo liberal de capitalismo. Esta conquista histórica, assim como aquelas da socialdemocracia nos anos 40 a 80 do século passado, indicam que a ideologia socialista realmente está correta, que é possível o controle público da economia com prosperidade social e sem crises sistêmicas extremamente destrutivas. Acredito, portanto, que hoje, mesmo que muitos ainda não consigam ver, já há uma história real e bem concreta de ganhos econômicos e sociais da socialdemocracia e do socialismo no modelo chinês que podem muito bem serem contrastados com a alternativa liberal, seja de períodos anteriores, seja com atual onda liberal no sistema capitalista mundial. Estamos, de fato no fim desta onda liberal atual e, mais uma vez, se comprova o quanto a alternativa liberal é destrutiva e nos leva a ciclos de empobrecimento, crises econômicas e sociais extremas e guerras.
A ideologia socialista é superior porque, sob uma maior gestão estratégica pública e com melhor regulação e colaboração tanto internacional quanto no interior das nações, a economia pode realmente ser muito mais racional e efetiva e trazer desenvolvimento e ganhos sociais muito maiores do que o que a economia capitalista liberal consegue produzir, através do conflito dos interesses privados no mercado. E se antes tínhamos apenas a ciência para nos afirmar isto, agora já temos um bom tanto da história ao nosso lado também. O socialismo cresce dentro do sistema capitalista no longo curso da história contemporânea porque sem ele o capitalismo é destrutivo demais e ameça tanto a vida e a dignidade das pessoas quanto o desenvolvimento e a própria existência da humanidade, negando todas as melhores promessas da ideologia econômica liberal. Não é, pois, apenas, nem sobretudo, porque é moralmente superior que o socialismo deve se impor na economia mundial. Ao contrário, é só porque ele é mais efetivo economicamente que ele pode realmente ser superior moralmente. Não fosse assim nunca passaria de idealismo. De fato, a própria possibilidade do desenvolvimento econômico, do desenvolvimento das capacidades produtivas da humanidade, de desenvolvimento do ser humano em geral, é melhor assegurada pelo socialismo ou, certamente, é muito melhor assegurada pelo socialismo do que pelo capitalismo liberal. E, por isso, a conjunção dos valores de desenvolvimento social e de proteção e promoção das gerações futuras, que são tão próprios aos determinantes antropológicos, genéticos e do nosso ego, se mostra muito melhor assegurada no socialismo do que no capitalismo.
É claro que isto que eu tratei aqui não responde diretamente a várias questões ideológicas centrais do nosso tempo, relativas à liberdade pessoal e ao controle social, as questões de democracia e autoritarismo, as questões identitárias, a questão ecológica, entre outras questões sociais e históricas cruciais do campo ideológico atual. Mas, como não poderia deixar de ser, todas elas estão bastante ou, até, essencialmente, vinculadas à questão do modo de produção social, e, portanto, à questão da oposição ideológica entre socialismo e capitalismo e serão consideradas no desenvolvimento desta análise, em textos seguintes.
quarta-feira, 7 de junho de 2023
Minhas reflexões epidemiológicas finais sobre a Covid
No curso da pandemia, desde o seu início e até agora, eu assumi posições muito contraditórias com àquelas que foram reconhecidas como verdades científicas aqui no Brasil e no mundo ocidental em geral. Como eu continuo sustentando estas minhas posições sobre o problema, eu achei que valia a pena tentar fazer uma síntese e uma avaliação delas, como me apareceram ao longo do tempo, no curso da pandemia.
1. Na Europa, nos EUA, aqui no Brasil e em vários outros países houve uma reação inicial de pânico e confusão que resultou em maior disseminação da doença, especialmente nos grupos de maior risco, por exemplo, dentro dos próprios hospitais. Isto persistiu durante todo o curso da epidemia e se agravou muito com a principal estratégia epidemiológica adotada nestes países
2.. Hoje parece bem claro que neste aspecto destacaram-se, muito fortemente, dois grupos de países no mundo. Em geral, a resposta epidemiológica dos países do ocidente (Europa e Américas) foi muito diferente daquela do mundo oriental (Ásia).
Ambos os grupos de países recomendaram e buscaram impor a aplicação de medidas de proteção individual como álcool nas mãos e máscara nas faces. Creio que é razoável afirmar que em ambos também se aplicaram, circunstancialmente, bloqueios totais de circulação localizados, na forma de lockdowns Mas, realmente houve uma diferença fundamental no próprio centro da estratégia epidemiológica adotada para controlar a doença até o desenvolvimento e aplicação em massa da vacina em cada um destes grupos de países.
A estratégia central ou única do mundo ocidental, digamos assim, da Europa em geral, dos EUA e da América Latina, foi de isolamento social e de quarentena generalizada, ou seja, de tentativa de controle da transmissão do vírus pela paralisação generalizada da sociedade, da economia e da vida social, nestes países. Já a estratégia central do mundo oriental, digamos assim, por exemplo, da China, da Korea e do Vietnam, entre outros, foi a tentativa de controle da transmissão por isolamento dos doentes, dos portadores e, eventualmente, até dos contatos, identificados por vigilância epidemiológica, com testagem em massa.
3. Desde o início, e em todo o curso da doença, esteve claro para mim que não havia base material, epidemiológica, para justificar a paralisação completa da vida social em função da pandemia, pois, isto teria um custo social desproporcionalmente alto e com eficácia potencialmente muito baixa, pois seria irrealizável ou muito falho em sua aplicação. Desde o princípio também ficou claro que a estratégia que resultava em maior efetividade no controle da disseminação da doença era justamente aquela mais consistente com a teoria epidemiológica, isto é, o controle baseado na vigilância epidemiológica, com identificação e isolamento de doentes e contaminados.
Na minha avaliação os dados de disseminação e mortalidade, sejam aqueles iniciais, ou na progressão da epidemia, realmente indicavam uma gravidade menor do que seria necessário para justificar uma parada geral da economia e da vida social em todo o mundo, ou, em cada país, por tempo indeterminado, até a aplicação em massa da vacina. No Brasil estes dados estão, como todos sabemos, entre os piores do mundo e expressam uma tragédia social de grandes proporções. Por um período, durante a pandemia, devido a um erro na base de dados dos cartórios do site Transparência, que depois foram atualizados retrospectivamente, eu cheguei a considerar que os resultados aqui no Brasil não seriam tão ruins. Mas, mesmo considerando os nossos dados corrigidos, considerando, portanto, os dados reais daqui do Brasil e do mundo, que hoje temos disponíveis com mais segurança, eu continuei sempre avaliando que a estratégia de isolamento social, de quarentena generalizada, não era acertada. Ao contrário, era um tipo de delírio tecnocrático, sem consistência epidemiológica com relação ao risco e às características de transmissão da Covid e, por isto mesmo, também sem qualquer consonância com a realidade social e econômica da vida humana em geral.
Desde Abril de 2020, a própria OMS reconhecia a vigilância epidemiológica com testagem em massa como o núcleo estratégico central no controle da pandemia, mas, nos países da Europa e Américas em geral essas medidas foram completamente ignoradas, negligenciadas, ou postergadas e mal aplicadas, Ao contrário, em seu detrimento, a tentativa de quarentena generalizada é que foi a estratégia central adotada.
4. Até onde eu analisei, os dados mundiais não deixam dúvida que a estratégia de vigilância epidemiológica se mostrou muito superior à estratégia de quarentena generalizada em todos os aspectos epidemiológicos e econômico-sociais. Parece que, enfim, a estratégia de paralisação da vida social por tempo indeterminado se mostrou realmente absurda e irrealizável ou muito falha na grande maioria dos países em que foi tentada, resultando nos piores índices de mortalidade pela Covid e também nos piores resultados econômicos.
5.No mundo ocidental prevaleceu, portanto, uma reação inadequada, equivocada, com muita confusão e pânico, travestidos de verdade e responsabilidade científica e política. Este foi um fenômeno de grave irracionalidade com consequências extremamente danosas em termos de adoecimento e mortes, pela própria Covid e outras causas, e também de agravamento das crises socioeconômicas e suas terríveis consequências.
6. A ocorrência deste fenômeno de grave irracionalidade social em alguns dos países centrais, dominantes, no sistema social mundial atual, chama muito a atenção e se associa, no meu entendimento, a características socioculturais e políticas destes países, mas, também, justamente, à gravidade das crises econômico-sociais que vivemos agora. As quarentenas generalizadas foram instrumentos da crise, digamos assim, trazendo uma recessão sistêmica, aprofundando as crises econômicas e sociais, mas aparentemente, apenas por razões não econômicas e inevitáveis, de saúde pública. Mas, não é bem assim, né? Por um lado, a resposta oriental mostrou que não era necessário provocar tal recessão para lidar bem com a pandemia e, por outro, a paralisia da vida econômica e social pela quarentena generalizada, em geral, não trouxe bons resultados de saúde pública, no controle da pandemia, ao contrário.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
A PAZ É O CAMINHO: A QUEDA DO IMPÉRIO AMERICANO E O AVANÇO DO SOCIALISMO MUNDIAL
Estamos vendo os momentos finais da hegemonia ou do império do EUA, que se seguiu, e deu continuidade, ao império da Inglaterra. De acordo com a análise de Ray Dalio, uma das últimas etapas na sucessão de hegemonias no capitalismo mundial é a substituição da moeda internacional. E isto está justamente ocorrendo diante dos nossos olhos.
É claro que quando um poder hegemônico está em decadência cada ato de força da sua parte corre o risco de se voltar diretamente contra ele, demonstrando, consolidando e aprofundando a sua fraqueza. E é isso mesmo que ocorreu com as sanções econômicas que os americanos tentaram impor contra a Rússia. Os efeitos negativos estão se manifestando diretamente nos próprios EUA e nos países da Europa, que estão se colocando como vassalos dos EUA. Inflação e queda no crescimento econômico, empobrecimento e crises sociais, esta é a colheita da aliança Ocidental. Do outro lado, a economia russa vai bem e só cresceram, numa resposta forte e imediata, os acordos para tracas internacionais sem o uso de dólar. Acordos neste sentido estão ocorrendo agora, até entre o Irã e a Corea do Sul, por exemplo, e eles se disseminam rapidamente mundo afora, de um modo inesperado e impossível até muito pouco tempo atrás. Especialmente o comércio de petróleo está saindo da área de influência e controle, ao fim, do dólar. Obviamente, isto é um golpe tremendo contra a força do dólar e, correlativamente, a hegemonia dos EUA no mundo.
Se a análise de Dalio estiver correta este processo termina sendo acompanhado por grandes guerras.
Mas, eu tenho dito, repetidamente, que eu acredito que este processo será bem menos violento e destrutivo agora do que aquele das grandes crises econômicas e guerras europeias e mundiais da primeira metade do século passado. E baseio esta esperança em dois pontos, sobretudo: no aprendizado histórico que estas grandes tragédias sociais nos trouxeram e no fato que a maior potência emergente e que está substituindo os EUA na hegemonia da economia e, logo, da vida social mundial é a China socialista.
Ou seja, deposito minhas esperanças no processo histórico de socialização do sistema capitalista mundial, que se aprofundou e desenvolveu decididamente a partir das grandes crises econômicas e guerras da primeira metade do século passado. É, mais uma vez, o avanço decidido e incontrastável do socialismo no sistema capitalista mundial que pode nos salvar de crises e violência ainda muito maiores do que as que já estamos vivendo no mundo atualmente.
Parte importante disto é o reconhecimento de que o socialismo é vencedor no processo histórico mundial e que a colaboração e integração entre os povos e é algo positivo, realmente, para todos. A globalização da produção e da vida social em geral verdadeiramente devem representar ganhos para toda a humanidade. A violência e a destrutividade que se apresentam no sistema global, no presente, com empobrecimento e guerras, não se devem à integração econômica e social mundial, ao contrário, mas, são expressões da violência e destrutividade próprias do capitalismo na sua etapa atual.
Ainda assim o avanço e a hegemonia chinesas se mostram, progressivamente, em todos os aspectos relevantes da economia mundial, desde os indicadores de educação e produção científica até os de patentes e desenvolvimento produção, assim como nas trocas e no investimento internacionais. Não há como deter este processo, a não ser através de guerra destrutiva. Não sendo a China socialista um país imperialista, não tem pretensões colonizadoras expansionistas, mas, mesmo assim, os EUA vão procurar manter as condições de guerra atuais e criar mais condições de guerra, pois, não há alternativa para a perda final da sua hegemonia mundial, que de fato já está em curso e avançada.
No momento, além da participação na guerra da Ucrânia e outras guerras mundo afora, os EUA exercem, com variado sucesso, ações destrutivas de guerra econômica contra muitos países, diretamente, do modo mais violento, destruindo economias e chantageando nações inteiras, através dos bloqueios econômicos e financeiros, como contra Cuba, contra Venezuela, contra o Irã, entre outros países. Agora, com a Rússia, é que isto fracassou completamente, acelerando a própria decadência do poder hegemônico dos EUA. E, talvez, a guerra econômica mais importante do momento é a tentativa dos EUA de bloquear o acesso da economia chinesa aos chips e à tecnologia para a produção de chips mais avançados, seja de empresas americanas, seja no mercado internacional. Neste caso, mais uma vez, parece que o feitiço está virando contra o feiticeiro. A China está acelerando seu desenvolvimento e são as empresas de chips e outros setores da economia dos EUA que estão enfrentando mais dificuldades.
Estes são exemplos de ações contra os povos e contra a economia mundial em geral, contra a globalização e o desenvolvimento, ações unilaterais e abusivas de poder e controle da nação hegemônica, mas que já não se sustentam e começam a dar resultados contrários em todos os lados.
A ameaça das guerras cresce com a deterioração da hegemonia americana, com o aumento da sua impotência no campo econômico e político, a sua força militar se torna o seu último recurso de poder.. Mas, o desenvolvimento econômico precisa da paz. O desenvolvimento social precisa da paz. Os imperialistas e os liberais em geral se unem para sustentar a guerra. Em contrário estão as forças da própria globalização da economia mundial e a força da China socialista nesta economia e na geopolítica no mundo globalizado, polarizando uma ação sistêmica de defesa e avanço do sul global contra o imperialismo, o colonialismo, a xenofobia e o fascismo.
Estamos no caminho, com certeza difícil e tempestuoso, da transição, simultaneamente, para além da grave crise econômica mundial atual, que já persiste há mais de uma década, da perda de hegemonia dos EUA e do avanço socialismo mundial. E a paz deve voltar a ser uma grande bandeira política e ideológica mundial. Precisamos garantir que a paz se mantenha pelo menos nos níveis das décadas passadas. Precisamos evitar que a guerra seja proclamada e adotada como solução para a crise sem saída do capitalismo atual e da hegemonia dos EUA.
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