segunda-feira, 7 de abril de 2025
O TARIFAÇO DOS EUA foi um choque recessivo (revisto)
O TARIFAÇO DOS EUA foi um choque recessivo, com o objetivo fundamental de diminuir o consumo do povo nos EUA.
O mais importante objetivo econômico imediato do governo dos EUA é diminuir o duplo déficit, comercial e fiscal, que realmente estava completamente insustentável.
Em 2024 o déficit fiscal (ou déficit orçamentário = o que o governo arrecada menos o que o governo gasta) foi de 1,8 trilhão de USD, o que representou pouco mais de 6% do PIB do país. E o déficit comercial (o que o país exporta menos o que o país importa) foi de quase 1 trilhão de USD, ou seja, 3% do PIB.
A dificuldade para financiar este duplo déficit, de quase 10% do PIB, foi se tornando progressivamente maior e potencialmente insuportável, pois estamos num contexto mundial em que o Japão e a China, os dois países que são os maiores detentores de títulos da dívida pública americana (os Treasuries), estão se desfazendo deles. A China, que já teve quase USD 1,4 trilhão, está vendendo seus treasuries desde 2022 e fechou 2024 com um estoque de USD 750 bilhões. Já o Japão fechou 2024 com um estoque de USD 1 trilhão, uma queda de mais de 8% em comparação com 2023..
O aumento drástico das tarifas de importação busca atender primeiramente ao objetivo de reduzir rápida e intensamente o déficit comercial e facilitar o financiamento geral da dívida americana. E é muito provável que este objetivo seja atingido. Trata-se de medida extrema, correspondente à situação extrema em que a economia americana se econtra, mas com um custo econômico e social também extremamente alto e um grande potencial disruptivo para a economia do mundo inteiro e, principalmente, dos próprios EUA.
Além de forçar um melhor equilíbrio na balança comercial dos EUA, o tarifaço de 02 de Abril, tem outros objetivos, adicionais, e muito menos seguros de serem atingidos.
Segundo, o objetivo de arrecadar um pouco mais com os impostos de importação, melhorando também o déficit fical e a rolagem da dívida. Isto vai depender, no entanto, da intensidade do efeito recessivo deste choque tarifário. Terceiro, o objetivo de reindustrializar os EUA que nos últimos 40 anos, o período neoliberal, perdeu grande parte do seu parque industrial e hoje tem a maior parte e do seu PIB ligado às atividades gerenciais e financeiras, enquanto a sua produção industrial, hoje, é menos da medade da produção chinesa. Com este aumento de tarifas, o capitalismo norte americano também busca, obviamente, conter a economia chinesa, para impedir a continuidade de seu crescimento acelerado e que ela logo tome a hegemonia global. A China foi, efetivamente, a economia mais atingida, com mais de 54% de tarifas de importação cumulativas contra os produtos chineses e outros tantos contra o Canadá e o México que serviam, cada vez mais, como plataformas para a exportação de produtos chineses para os EUA. Contudo, já é tarde para isto e a tentativa de demonstração de força do império norteamericano agora, mais uma vez, deve resultar na exposição mais evidente da sua fraqueza relativa. Qualquer um que estude a história das grandes hegemonias no sistema capítalista mundial sabe que, faça os EUA o que quiser, sem uma guerra de grandes proporções, ou melhor, sem uma guerra apocalíptica, sem uma guerra atômica entre os EUA e a China, o avanço chinês e a superação final do papel hegemôniuco dos EUA no mundo é completamente imparável.
De fato, todos têm grandes interrogações sobre os efeitos de médio e longo prazo deste tarifaço dos EUA e da guerra comercial que se instala e aprofunda, com a resposta dos países atingidos, como a própria China que devovelveu, à moda confuciana ou no melhor da teoria de jogos, na mesma moeda, sem aumentar o ataque, mas sem recuar nenhum milímetro também. O que já sabemos, no entanto, com certeza, é que os mercados financeiros, nos EUA e mundo afora, estão apresentando grandes quedas, por dias sucessivos. Além dos mercados financeiros, também alguns preços indicativos da expectativa de produção mundial estão em queda significativa. A economia toda dos EUA, parece que estava inflada e está desinchando sendo desinchada à força. As previsões atuais já indicam grande probabilidade de recessão em 2025 nos EUA e no mundo.
Uma questão importante a se decidir é: quem vai pagar por isto?
Internamente nos EUA, a opção do governo dos bilionários é clara, obviamente: todos pagam, menos os bilionários. Todos pagam com os inevitáveis aumentos de preço e os bilionários serão recompensados com diminuição de impostos. Este é o plano deles.
Ocorre que esta crise tem a concentração excessiva, extrema, da renda entre os seus fatores de origem. Aumentar o erro não vai corrigi-lo.
É mais do que fundamental compreender este fato histórico: estamos hoje, em praticamente todas os países do mundo, nos níveis mais altos de concentração da riqueza, níveis tais que tende a dissociar radicalmente os investimentos dos interesses e necessidades populares e a realização dos investimentos extremamente mais difícil. Esta é a razão fundamental da crise em que nos encontramos desde 2007, marcando o fim da onda neoliberal na economia mundial. Esta crise tem sido mitigada com sucessivas intervenções anti-cíclicas com o dispêndio de dezenas de trilhões de dólares. Não fossem os recursos anticíclicos regulatórios e de proteção social e o custo econômico e humano desta grande crise seria muito maior. Mas estes recursos não são suficientes para reverter e resolver de fato a crise. Isto só poderá ser alcançado com uma nova inflexação socializante no sistema capitalista mundial, com ganhos reais de renda e recursos para a população trabalhadora e com maior coordenação da economia mundial.
O tarifaço e a política geral do atual governo dos EUA, com grandes cortes em serviços públicos, jogam no sentido exatamente oposto, na dissociação das economias no plano mundial e em mais perdas de renda e recursos para as classes populares. Contudo, o povo nos EUA já vem perdendo capacidade de consumo e qualidade de vida há anos, décadas até. Impor mais perdas não vai ser fácil. E não vai resolver a crise. Ao contrário, ações assim só aprofundam a crise imediatamente, criando um ciclo vicioso destrutivo. Analistas econômicos perspicazes já falam até na possibilidade de guerra civil nos EUA. Certamente o conflito interno vai aumentar muito lá. E isto aumenta muito também o risco de grandes guerras envolvendo os EUA, pois, no limite, a guerra é a última justificativa para a grande destruição de riqueza e empobrecimento, que estão querendo impor sobre o povo nos EUA.
De qualquer modo, eu não tenho dúvidas que esta crise do sistema capitalista mundial, assim como ocorreu com a grande crise do sistema no século passado, só será resolvida com o avanço, e não com o retrocesso, da socialização e mundialização da produção e da vida social. E isto também já está em curso, representado, sobretudo, pela ascensão da China socialista e pelo seu papel numa nova economia mundialmente integrada.
O tarifaço quebrou a confiança que os EUA conquistou com a globalização e terá, sem qualquer dúvida, o efeito de reduzir o crescimento econômico nos EUA, eventualmente de joga-lo na recessão. Como resultado deste ato tresloucado o mundo se dissociará mais dos EUA e. inevitavelmente, se aproximará mais da China. Isto já está acontecendo. Ainda bem. A sensação que me dá é que este tarifaço é mais um ato que marca, que define e que aprofunda a substituição da grande locomotiva da economia mundial. Estamos vendo isto acontecer diante dos nossos olhos. No curso da onda neoliberal o império dos EUA liderou a globalização financeira e um certo nível de integração mundial da produção e da vida social, mas também nos trouxe à mais extrema desigualdade social e a uma grande crise econômica que, agora, se aprofunda fortemente . A China socialista por seu turno, que está assumindo a dianteira do desenvolvimento tecnológico mundial, com uma economia voltada para a prosperidade comum e investindo maciçamente na logística de transportes e comunicação em todo o mundo, com uma pespectiva geopolítica de respeito às especificidades locais e à formação de parcerias econômicas com ganho mútuo, praticamente já lidera a integração da produção mundial em um novo nível, muito superior ao das décadas passadas .
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