terça-feira, 15 de abril de 2025
O TARIFAÇO DOS EUA E A CRISE MUNDIAL
A guerra econômica contra a China e o tarifaço generalizado do governo dos EUA construirão, sem dúvidas, marcos importantes na história mundial contemporânea, porque constituem uma etapa, um momento marcante, na intersecção de três crises de alta magnitude sísmica no sistema econômico mundial. A crise final da onda neoliberal, a crise da hegemonia dos EUA e a crise do próprio sistema econômico capitalista mundial.
Depois de muitas idas e vindas, enfim, até o presente, houve um grande aumento generalizado da tarifa de importação dos EUA, contra todos os países, com isenções parciais para apenas alguns produtos tecnológicos e que talvez se estendam para o setor agrário e outros. A China foi o alvo principal do tarifaço estadunidense, a mais atingida, diretamente, com a tarifas de 145% e, indiretamente, com algumas tarifas especiais "do fentanyl", contra as importações do Canadá e do México, que vinham se tornando plataformas da exportação chinesa para os EUA. A China retaliou na mesma moeda, estabelecendo-se, ao fim, tarifas proibitivas, de lado a lado, promovendo, imediatamente, um bloqueio em grande parte do comércio entre os dois países, as duas maiores economias do mundo. Isto romperá, ou tornará mais difíceis, mais custosas, várias cadeias produtivas, mundo afora.
Esta guerra tarifária instituída pelos EUA é, certamente, um dos atos mais dramáticos da grande crise da onda neoliberal, a sua crise final, em que nos encontramos agora. Trata-se, sem dúvida, de um choque recessivo sobre a economia mundial, em geral, e sobre a economia dos EUA, em particular. Este é mais um exemplo de que nos momentos agudos das grandes crises econômicas as maiores irracionalidades, por mais improvisadas, ineficazes, irresponsáveis e disfuncionais que sejam, podem ser implementadas, resultando sempre em queima de capital, quebra de parcelas da economia, recessão, enfim. Quarentenas nacionais por meses sem fim, guerras comerciais e guerras reais, por exemplo, tornam-se muito mais aceitáveis nestes momentos. Tudo isto leva a um fim comum: à recessão. Porque, na lógica interna do sistema capitalista, a recessão, a grande crise recessiva, precisa acontecer, necessariamente. A recessão é a resolução, aguda, destrutiva de uma crise sistêmica na economia capitalista liberal, o caminho que as coisas têm que tomar, naturalmente, dentro deste sistema, até que a crise de fato se resolva.
Estamos numa destas grandes crises no sistema capitalista mundial, atingindo, mais especificamente e fortemente, os seus centros hegemônicos, até então, aqueles que constituem a grande aliança de poder mundial em torno dos EUA. A crise atual ocorre no fim de uma fase, de uma onda, de predomínio liberal no sistema, com o aumento persistente e progressivo da concentração de renda, até chegar aos níveis em que a realização do capital passa a ser marginalmente inviável, assim como foi a grande crise do século passado e é natural que ocorra periodicamente no sistema capitalista. Estamos, hoje, em praticamente todos os países do mundo, nos níveis mais altos de concentração da riqueza, níveis tais que, progressivamente, estão tornando a realização dos investimentos mais difícil e mais dissociada dos interesses e necessidades populares. Esta é a razão fundamental da crise em que nos encontramos desde 2007, marcando o fim da onda neoliberal na economia mundial. Isto parece tão evidente que não deveria ter que ser provado, mas, incrivelmente, parece estar sendo generalizadamente ignorado. De algum modo, parece que isto não pode, ainda, ser devidamente reconhecido.
Para ser mais preciso, estamos, agora, no início do ponto máximo desta crise de fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Mas, ela está, ainda, muito controlada, mitigada, abafada, pelas medidas anticíclicas e de proteção social, largamente postas em movimento, em vários momentos, desde 2008. Ainda bem que, há muito tempo, pelo menos desde a segunda metade do século passado, certamente não vivemos mais em uma economia propriamente liberal, no capitalismo mundial. Mesmo com a onda neoliberal, vivemos, hoje, em um sistema muito menos liberal, ou seja, muito menos capitalista, ou muito mais socializado, do que nos fins do século 19 e na primeira metade do século 20. Não fossem os recursos anticíclicos regulatórios e de proteção social e o custo econômico e humano desta grande crise atual já teria sido muito maior. Mas, estes recursos não foram e não serão, jamais, suficientes para reverter e resolver a crise, de fato. Isto só poderá ser alcançado, como foi no século passado, com uma, nova e maior, inflexão socializante no sistema capitalista mundial, com progressivos ganhos reais de renda e recursos para a população trabalhadora e com maior coordenação da economia mundial.
O tarifaço e a política geral do atual governo dos EUA, com cortes drásticos em serviços públicos, jogam no sentido exatamente oposto, de dissociação das economias, no plano mundial, e de mais perdas de renda e recursos para as classes populares, internamente. Não só nos EUA, mas em todos os antigos centros de poder do mundo capitalista, estamos chegando em limites insustentáveis para a implantação de novas medidas anticíclicas eficazes. Os orçamentos públicos já estão muito pressionados e o mau uso dos recuros de socorro, que foram anteriormente lançados na economia, levou a uma concentração ainda maior da riqueza no interior destes países. Em geral, a política dominante entre eles, hoje, é, realmente, de conteção e corte das despesas com os serviços e recursos populares e aumento de gastos militares. Certamente, já não há mais muita margem para medidas anticíclicas num contexto destes. Contudo, o povo nestes países já vem perdendo capacidade de consumo e qualidade de vida há anos, décadas até. Impor mais perdas não vai ser fácil. E não vai resolver a crise. Ao contrário, ações assim só a aprofundam e aceleram, imediatamente, criando um ciclo vicioso destrutivo, intensificando também o risco dos maiores conflitos e perdas sociais, seja pela recessão, seja por guerras.
Todas estas ameaças e riscos se tornam cada vez mais prováveis, mas, não tenho dúvidas que a crise atual do sistema capitalista mundial só será resolvida com o avanço, e não com o retrocesso, da socialização e mundialização da produção e da vida social e entendo que, efetivamente, isto já está em curso, representado, justamente, sobretudo, pela ascensão da China socialista e pelo seu papel numa nova economia mundialmente integrada.
Tudo indica que já é tarde para se conter o avanço chinês na hegemonia mundial e as tentativas de demonstração de força do império estadunidense resultam no aprofundamento e na exposição mais evidente da sua fraqueza relativa. Na improvisação, o governo dos EUA muda o decreto do tarifaço a todo momento, mas, uma coisa é certa, ele representa uma ruptura dos EUA com a ordem econômica que vigiu até aqui, fortemente desenvolvida justamente no curso da onda neoliberal e sob a hegemonia deles. Com isto, estão se levantando suspeitas generalizadas contra a liderança, a estabilidade e a confiabilidade dos EUA, em termos econômicos e estratégicos mundiais. Isto só intensifica a desconfiança na moeda e na economia dos EUA, em geral, e acelera a redução da posição da sua dívida pública e do dólar nas funções de reserva e de padrão monetário mundiais. Estas tendências já estavam em curso e, agora, inevitavelmente se aceleraram muito e a queda relativa do poder econômico dos EUA terá que ser acompanhada da queda do seu poder geopolítico.
A arrogância estúpida que os EUA demonstram agora, seja na arena econômica, seja na cena política, as reações destemperadas do governo americano, o seu tom impositivo e intimidador para com todos os outros países, tudo isto se parece com os rugidos de um leão velho, que já sentiu que é incapaz de deter o tempo, apesar de ainda poder amedrontar e ferir. Quem perde o poder costuma reagir com desespero, realmente, mas, também pode aprender a conviver com a divisão de hegemonia no mundo real. E isto também já está a caminho.
O tarifaço quebrou parte da confiança que os EUA conquistaram e terá, sem qualquer dúvida, o efeito de reduzir o crescimento econômico no país, eventualmente de jogá-lo na recessão. Como resultado destes atos tresloucados, o mundo se dissociará mais dos EUA e. inevitavelmente, se aproximará mais da China. Isto já está acontecendo. Ainda bem. Enquanto os EUA forçam para desintegrar as instituições mundiais e desestabilizam os mercados mundiais, a China está construindo a maior rede internacional de transportes e estruturas produtivas de toda a história. Parece que os EUA estão sonhando em fazer uma reindustrialização dos anos 1970 e enquanto isto a China está tomando a liderança da inovação tecnológica em todas as áreas. Enquanto os EUA estão desestruturando e reprimindo as suas universidades, a pesquisa e o ensino, em geral, a China está assumindo a dianteira segura na pesquisa científica mundial. É inevitável perceber a transição da hegemonia mundial e já é possível visualizar a transição histórica profunda que isto representa. O império dos EUA lideraram um certo nível de globalização, de integração mundial da produção, das finanças e da vida social, intensificada com a onda neoliberal, que, no entanto, nos trouxe à mais extrema desigualdade social e a esta grande crise econômica atual. A China socialista, por seu turno, praticamente já lidera a integração da produção mundial em um novo nível, muito superior, com uma economia voltada para a prosperidade comum e investindo maciçamente na logística de transportes e comunicação em todo o mundo, com uma perspectiva geopolítica de respeito às especificidades locais e à formação de parcerias econômicas com ganho mútuo.
O tarifaço é mais um ato que marca, que define e que aprofunda, esta substituição da grande locomotiva da economia mundial. Estamos vendo isto acontecer diante dos nossos olhos. A China representa a força ascendente mas, por um tempo longo para as nossas vidas, ainda que um curto período histórico, teremos que viver, inevitavelmente, em um mundo sob forte disputa bipolar, com os dois sistemas integrados, mas em competição e confronto muito mais acirrados, porque mais desenvolvidos e decisivos historicamente, do que aqueles da aliança de poder dos EUA contra a URSS e seus aliados. A contradição se torna mais aguda, mais intensa. O mundo altamente integrado da economia mundial atual, muito mais do que no período soviético, terá, no entanto, que se desenvolver, agora, dentro de uma tensão hegemônica bipolar, tornando cada vez mais inevitável escolher entre um dos dois sistemas em disputa cada vez mais aberta e intensa.
Já era assim, em grande medida, e agora ficará ainda mais.
A posição da multilateralidade por princípio é acertada, mas não resolve o problema e, de fato, tanto o estado quanto os agentes econômicos dos diversos países vão ter que fazer estas escolhas binárias, em várias áreas estratégicas. entre dos dois países e sistemas . É certo que o multilateralismo, até agora, teve sempre uma dimensão de farsa, assim como a democracia capitalista sempre tem um tom de farsa, já que o poder efetivo se impõe, no interior dos países e na ordem mundial. A atual aparente grosseria do governo dos EUA, compatível com a dimensão extrema da crise, apenas escancara isto, chamando a realpolitik ao mundo, mais uma vez. Seja como for, desconsiderada a hipótese da guerra absoluta, cujo resultado de extrema destruição não permite prever vencedor, a tendência é de que a hegemonia chinesa se sobreponha cada vez mais aos EUA, pelo próprio oportunismo inerente ao mercado capitalista e, dadas as condições objetivas de integração mundial atuais, também é certo que a resolução deste novo confronto bilateral pela hegemonia mundial levará a um nível mais alto e verdadeiro de multilateralismo, ou, melhor e mais precisamente, de efetiva mundialização.
Assim chegamos à terceira crise que confere dimensão histórica especial ao tarifaço do governo dos EUA e à sua guerra econômica contra a China. As tendências principais, ou, certamente, as mais inquestionáveis, impostas ao processo histórico pelo mecanismo capitalista, são aquelas de desenvolvimento da produção e da produtividade humana, de desenvolvimento da produção científica e tecnológica de massas e de mundialização, com progressiva integração da produção, das finanças, da economia e da vida social, em geral, a nível mundial. À custa de crises econômicas terríveis, de guerras e todo tipo de barbárie e destruição, o capitalismo cumpre o seu desígnio deste modo. Até o ponto em que este próprio desenvolvimento levará à superação do modo de produção capitalista. E isto também já está em curso.
Não pode haver dúvida real da existência de uma inflexão socializante, seja sob qual for a bandeira política ou ideológica, em todo o sistema capitalista mundial, a partir dos anos 1930 e, sobretudo, a partir do fim da grande guerra do século passado. Mesmo com a onda neoliberal, grande parte dos recursos de proteção social, de regulação dos mercados e anticíclicos, desenvolvidos deste então, estão aí em pleno funcionamento e se desenvolvendo. Não fosse isto e a crise mundial estaria muitas vezes pior neste momento. Do ponto de vista ideológico, no entanto, muitas visões, de diversos espectros políticos, realmente consideraram as vitórias políticas e a globalização neoliberais como uma derrota cabal, ou quase isto, do movimento socialista, A derrocada completa do comunismo soviético, ainda no início do período neoliberal, parecia ter selado, inapelavelmente, esta via, às custas de uma das maiores tragédias sociais dos últimos tempos, com grandes aumentos, absurdamente altos e duradouros, da mortalidade na grande maioria das antigas repúblicas soviéticas e adjacências, ao longo da década de 90. Algo verdadeiramente impensável com a tecnologia e o nível cultural deles naquela época. Mas, deram em um beco sem saída. O comunismo, ali, foi sacrificado e o povo punido, amargamente. Foi, no entanto, um sacrifício estratégico, como o golpe de judô. A superação completa do capitalismo só poderia ser atingida após um processo de transição longo, sobretudo se considerarmos o desenvolvimento da produtividade no mundo naquela época e, particularmente, nos países comunistas de então. Além disso, ela jamais aconteceria, ou acontecerá, em um só país, ou apenas em um grupo de países secundários na economia mundial. Hoje é bem mais fácil reconhecer estes pontos, a história da China nas últimas décadas é a evidência maior e, agora, o socialismo, que ficou derrotado naquele momento, derrota o capitalismo dos EUA, em todos os campos relevantes do próprio capitalismo.
É preciso reconhecer, a história agora demonstra, portanto, que o socialismo é, tem que ser, necessariamente, ainda, capitalismo. É o processo e a fase histórica final de superação do capitalismo, o momento mais crítico, mais intenso, extremo e desenvolvido da contradição capitalista, cujo processo de resolução coincidirá, em grande medida, com o processo de mundialização progressiva da vida humana. O processo de superação final do capitalismo deverá se dar por um período socialista ainda relativamente longo, em que o capitalismo se encontrará em suas contradições mais extremas. Por mais extremas, intensas e críticas eu não quero dizer necessariamente, nem objetivamente, mais violentas ou mais destrutivas, ao contrário até. É possível, como disse um poeta, que este mundo acabe não com uma grande explosão, mas com uns gemidos, apenas.
Neste longo período socialista, que, de certo modo, apenas começa agora, mas no qual avançamos progressiva e aceleradamente, a economia se integrará mundialmente, ainda mais e mais conscientemente, e as forças produtivas continuarão a serem desenvolvidas de modo ainda mais intenso e muito mais seguro, com muito melhor controle das crises e desvios do mercado, com progressiva coordenação mundial.
Estas me parecem, realmente, projeções seguras das linhas de tendência predominantes no curso da história do sistema capitalista contemporâneo. Mas devo reconhecer que o fim destas projeções ainda é distante no tempo histórico e, portanto, elas podem ser tratadas como apenas ideologia. E não há nada de errado nisso. Que seja então, uma ideologia. Se você tem outra melhor, que apresente.
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