terça-feira, 30 de maio de 2023

A QUESTÃO HISTÓRICA ATUAL: SOCIALISMO X CAPITALISMO. PARTE 2 – As oscilações no processo histórico da economia capitalista contemporânea

Creio que já está bem estabelecido na teoria da história que o desenvolvimento econômico acaba forçando transformações no modo de vida social nos pontos em as relações sociais vigentes terminam por ficar em contraposição e por funcionar como barreiras contra o avanço dos novos modos de produção oriundos do próprio desenvolvimento econômico. Essa contradição termina por ser rompida e o modo de produção antigo é, de algum modo, superado. Ou seja, quando as forças de produção se desenvolvem significativamente, criando novas condições e possibilidades para novos desenvolvimentos da capacidade produtiva e da riqueza, este desenvolvimento acaba encontrando algumas barreiras nas próprias estruturas sociais onde ele ocorreu, até um ponto que, necessariamente, força a transformação destas estruturas. Novas devem surgir, mais compatíveis com a realidade e as possibilidades dos novos recursos, das novas tecnologias da economia social, e estas novas estruturas terminam por suplantarem as anteriores, através de conflitos e diversas formas de crises sociais, muitas vezes muito violentas, com grandes revoluções e guerras. Esta é uma tendência inerente à produção social humana em geral, que se manifesta de modo mais definido e incontestável justamente no sistema capitalista, em que vivemos nos últimos séculos. Portanto, é claro que este movimento, que esta dinâmica trans histórica, deve levar à superação também do próprio sistema capitalista, como foi bem indicado por Marx. Eu avalio que este processo já é realmente perceptível no desenvolvimento histórico do capitalismo, sobretudo no período contemporâneo. E é isto que vou tentar explicar abaixo. Entendo ser correto, ou, aceitável, pelo menos, considerar como economia capitalista contemporânea aquela que emerge após a revolução industrial, ou seja, a economia capitalista mundial dos últimos150 anos, aproximadamente. É o período em que a grande indústria e o sistema financeiro capitalistas se desenvolveram aos saltos, se consolidaram e dominaram completamente a economia mundial, conformando um verdadeiro sistema econômico e social capitalista mundial. Este período corresponde à maioridade e ao amadurecimento, digamos assim, do capitalismo mundial e, ao mesmo tempo, ao início e avanço decisivo de sua superação social. Neste período, conceitos e práticas socialistas se implantaram e se desenvolveram dentro do sistema capitalista, mundo afora. E, apesar dos momentos de inflexão liberal, persiste um gradiente socializante positivo, no longo curso deste período do capitalismo contemporâneo, em praticamente todo o mundo. Não vejo como alguém poderia negar que, pelos parâmetros econômicos e sociais mais relevantes, o sistema capitalista mundial é hoje, em geral, mais socialista e menos liberal do que há 150 anos. Certamente, nenhum grande processo de transformação social deste tipo pode ocorrer de modo imediato, como resultado de um ato de revolução política e social apenas e nem se realizar de modo sido linear e homogêneo. Grandes transformações socializantes realmente ocorreram no interior do sistema capitalista mundial neste período que persiste, transformado, mas, até o momento, ainda capitalista. E hoje, depois destes últimos 150 anos de maturidade do capitalismo mundial, já parece suficientemente claro que no processo de desenvolvimento e superação do sistema capitalista há períodos de avanços e regressos, ou seja, flutuações históricas, com períodos com mudanças mais acentuadas de socialização e outros momentos de vitória do liberalismo se sucedendo alternativamente. Tudo indica que estas ondas alternadas têm ocorrido, ocorrem e devem necessariamente ocorrer no desenvolvimento da sociedade capitalista mundial contemporânea, atendendo à lógica econômica e social própria deste desenvolvimento mesmo. A minha primeira percepção deste movimento ondulatório ou pendular, entre avanços socialistas e retomadas liberais, no processo de desenvolvimento e superação do sistema capitalista mundial surgiu nos anos 80 do século passado, no início da onda liberalizante que ainda prevalece até hoje. Antes disto um longo período de crises sistêmicas da economia capitalista, de guerras disseminadas, mundiais, de violentos conflitos sociais e revoluções, foi sucedido por um período exitoso e também longo de estabilização e desenvolvimento socializante dentro do sistema capitalista mundial, que pode ser chamado, sinteticamente, de social democrata. Utilizo este nome como uma marca, que sintetiza os sistemas políticos e as diversas formas de serviços públicos e de instrumentos de controle e de regulação estatais, nacionais e até transnacionais, que foram desenvolvidos sobretudo a partir da segunda guerra mundial. Foi uma fase de importante desenvolvimento social na economia capitalista mundial em geral, mesmo dentro da sua desigualdade brutal. Mesmo assim, andamos um tanto, de algum modo, avançamos, no mundo todo, neste período. Avançamos na regulação financeira e no emprego dos recursos anticíclicos e de proteção social, o que resultou em um bom momento, de décadas, de grande desenvolvimento econômico e melhora acentuada da qualidade de vida das populações em geral, nos centros dominantes do sistema capitalista sobretudo, mas até nas suas periferias. De algum modo, apesar da onda liberal atual, tudo isto ainda persiste, impedindo, pelo menos até o momento, que as crises atuais sejam tão destrutivas como foram aquelas da primeira metade do século passado. Obviamente, não é possível fazer uma análise objetiva do que seria a economia capitalista mundial sem os mais diversos instrumentos de intervenção e regulação do Estado na economia e na vida social em geral que se desenvolveram e se incorporaram no sistema capitalista mundial contemporâneo. Mas, eu sou daqueles que entendem que estes diversos instrumentos socialistas têm se desenvolvido no interior do capitalismo a bem do próprio capitalismo e da humanidade, que hoje vive, obviamente, no sistema capitalista mundial. Os avanços sociais na regulamentação e controle dos mercados e nos sistemas e serviços públicos de proteção e promoção social foram, e continuam sendo, fundamentais e decisivos. Eles evitaram, e estão evitando, mais atrasos no desenvolvimento e verdadeiras regressões da economia social em crises econômicas insolúveis, com conflitos sociais violentos e guerras de grandes proporções destrutivas no nível mundial, ou seja, a repetição, em proporções ainda muito maiores do que a que já tem havido no sistema capitalista mundial contemporâneo. Pode-se dizer, então, que o socialismo salva o capitalismo, temporariamente, ao superá-lo progressivamente, para o bem da humanidade. De fato, as forças destrutivas do modo de produção capitalista, por sua lógica inerente mesmo, são grandes demais e a alternativa ao desenvolvimento das estruturas e recursos socialistas no interior do sistema capitalista seriam as grandes crises econômicas ainda mais virulentas e destrutivas e também as guerras, ainda mais frequentes e destrutivas do que já têm sido. Mas, também é fato que parte das estruturas sociais de regulação e direcionamento estratégico do capital financeiro e produtivo e de proteção social, desenvolvidas desde as grandes crises do capitalismo liberal na primeira metade do século passado, no interior dos países e no sistema mundial, se tornaram um tanto anacrônicas e limitantes diante do grande desenvolvimento da economia mundial, que elas próprias tinham permitido até ali. A onda socializante, tão grande e definidora, enfim encontrou seus limites e uma nova onda liberal tomou o sistema capitalista mundial. Isto resultou nas crises dos anos 70 e na solução liberalizante que se implantou e disseminou a partir do início dos anos 80. A onda liberalizante trouxe a quebra de barreiras financeiras e comerciais dos estados nacionais, a desregulamentação e privatização de setores da economia e, especificamente, de relações de trabalho e a eliminação ou redução de instrumentos e recursos de proteção social, e tudo isto resultou em forte globalização financeira e produtiva e em grande desenvolvimento econômico mundial. Apesar de representar perdas muito significativas sobre conquistas de regulação e proteção social do período anterior, esta nova onda liberal, logo acertadamente identificada como neoliberalismo, foi também responsável por uma grande globalização produtiva e financeira mundial e pelo desenvolvimento econômico acelerado que ocorreram a partir de então. Mas, por seu turno, as forças do capitalismo, deixadas livres, no exercício de sua lógica liberal própria ou inerente, resultam necessariamente em grande destrutividade, em crises econômicas prolongadas e sem solução, a não ser com grande queima de capital, empobrecimento, conflitos sociais extremos e guerras. E agora chegamos a este ponto na atual onda liberal da economia mundial. Estamos, novamente, vivendo um longo período de crises econômicas sem solução razoável, com redução do crescimento e empobrecimento de populações nos próprios centros do sistema capitalista mundial e com ampliação da presença e do risco de guerras. Ocorre que o boom econômico desta última onda liberal na economia capitalista mundial foi acompanhado de grande concentração de riquezas, como não poderia deixar de ser, pois isto é da própria natureza da lógica econômica capitalista liberal. E a concentração de riquezas, nos níveis que se atingiu no interior dos diversos países do sistema capitalista mundial, persistindo e se ampliando ao longo das últimas décadas, terminou por nos trazer um grande empobrecimento relativo e até empobrecimento absoluto de massas, o que traz dificuldades progressivas para a própria realização do capital e, consequentemente, a emergência e o acirramento das grandes crises econômicas mundiais que estamos vivendo atualmente. A resposta liberal a este problema é justamente dobrar e triplicar a sua aposta, defendendo, com todos os recursos ideológicos e materiais possíveis, a concentração das riquezas que está no cerne da crise. Apostam que com mais liberalismo, com mais liberdade e poder econômico para os capitalistas, com mais capitalismo, como eles mesmo dizem, vão conseguir vencer as crises que foram criadas justamente por isto mesmo. É claro que fica mais e mais difícil sustentar esta insanidade no tempo, com a persistência e o agravamento das crises, e é por isto mesmo que, nestas condições, as soluções, absolutamente irracionais, delirantes e macabras, do fascismo e da guerra tornam-se mais prováveis, mais aceitáveis e até mesmo mais necessárias para o capitalismo liberal. E é justamente o que estamos vivendo no presente. Este é o fim da atual onda liberal. E cada movimento no cenário econômico e político mundial no momento pode ser bem compreendido dentro deste quadro geral de crise sistêmica do capitalismo no fim da onda liberal atual. Isto está ocorrendo, e deve mesmo ocorrer, porque a roda da acumulação, do investimento e do desenvolvimento capitalistas não pode se realizar. e não se realiza de fato, se não tiver um mercado de consumo de massas florescente e não estagnado ou decadente. E isto tem a ver com a distribuição da riqueza na sociedade. Com o avanço de uma onda liberal os recursos sociais se distribuem mais e mais desigualmente e isto resulta em dificuldades especiais para a realização do ciclo do capital em geral. Nestas condições o investimento cai e se afasta mais das necessidades e interesses populares e o crescimento da economia desacelera ou cai, correspondentemente. Ao contrário de crescimento o que se passa a ver então é a destruição mais acelerada e intensa do capital social. É o ciclo da crise no capitalismo liberal: se investe menos em capital produtivo, se destrói e inutiliza capital e riqueza em ritmo acelerado e o crescimento da economia regride, com o corolário de desgraças sociais que isto traz. As grandes crises capitalistas são caracterizadas, enfim, pela queima de capital, sucateamento acelerado de setores e métodos produtivos, recessão, desemprego e pobreza, que perduram até que um novo ciclo de investimento e inovações possa criar novas condições de desenvolvimento. De fato, uma grande onda liberal resulta, necessariamente, em concentração excessiva e persistente da riqueza, levando a dificuldades também progressivas de realização do próprio capital e isto leva a crises econômicas sistêmicas de muito difícil resolução dentro dos marcos do capitalismo liberal. Neste aspecto, o próprio capitalismo liberal pede o seu fim. Mas apenas através de crises, violência e sofrimento desnecessários. Não conseguindo se realizar de modo sistêmico a economia capitalista liberal tende a exacerbar as suas piores características, insistindo no erro e indo ao delírio para preservar a lógica de concentração da riqueza e os privilégios de poder do capital. Exacerbam a exploração e a concentração de riquezas, o desequilíbrio produtivo, a grande perda de investimentos, a dissociação da produção das necessidades populares e a destruição da natureza, por exemplo, com seus correspondentes de violência e destruição nas sociedades, de aumento da opressão, da pobreza, das guerras e mortes. É sempre necessário lembrar que tudo isto está aí, presente agora, mas, ainda sobre um colchão regulatório e protetor trazido pelas conquistas sociais históricas, desenvolvidas dentro do capitalismo e que persistem ainda hoje, mesmo depois de tantas décadas da onda liberal atual. Em grande parte, foi justamente para controlar estas crises, minorar estes efeitos e reduzir as suas consequências que todo o aparato de regulação e intervenção pública nos mercados financeiros e de proteção social se desenvolveu e se aplica, de um modo ou de outro, disseminadamente no mundo ainda atualmente. E, realmente, é mais do que razoável conceber que a coisa estaria bem pior se não tivéssemos desenvolvido estes conceitos e práticas socialistas no interior do sistema capitalista, mundialmente, e estivéssemos hoje apenas dotados de recursos sistêmicos do capitalismo liberal. Mas, mesmo assim chegamos, enfim, agora a um ponto em que os limites da onda liberal atual já foram atingidos e ela trouxe o sistema capitalista mundial a uma sequência de crises econômicas sem solução razoável, crescimento econômico baixo, aumento de gastos militares, inflação alta e empobrecimento em geral. E isto está acontecendo agora nos próprios centros do sistema capitalista mundial. Chegamos ao ponto em que esta crise precisa encontrar uma solução ou tende a se agravar drasticamente. Não há saída fora de um novo avanço social decisivo, significativo e persistente, no sistema capitalista mundial. Seja como for, ao fim, esta onda liberal também será, e na realidade já está sendo, superada por uma nova onda socializante. O caminho para sairmos da grande crise sistêmica do capitalismo liberal do século passado foi, essencialmente, de ampliação significativa do socialismo no interior do capitalismo, pela onda social democrata que persistiu desde os fins da primeira metade até o início da década de 80 do século passado. E agora iremos para uma nova onda socialista. De fato já estamos no momento em que esta nova onda socialista se ergue, toma corpo e se põe em movimento. Ou seja, a nova onda socializante já começou e se manifesta em pleno avanço sobretudo com o desenvolvimento da China socialista e a incrível expansão da sua influência mundial. Esta nova onda socializante terá mesmo que se alastrar e se impor no restante do mundo para, mais uma vez, salvar o capitalismo de si mesmo e a humanidade do capitalismo. o Tudo indica que seguiremos ainda por algum tempo, necessariamente, pelas razões estruturais indicadas, pendulando entre momentos de mais liberalismo e momentos de mais socialismo no sistema capitalista mundial, mas numa direção consistente de socialização e, ao fim, de superação do próprio capitalismo. Repousam sobre nós, sobre o nosso aprendizado histórico, a responsabilidade e a esperança de conseguirmos reduzir as crises e a violência que está associada a elas, acelerando e facilitando o processo de superação do capitalismo. Tenho repetido muitas vezes que a minha esperança de que o sistema capitalista mundial não venha a nos mergulhar em crises e guerras tão destrutivas quanto ou ainda piores do que aquelas da primeira metade do século passado está embasafa no aprendizado histórico acumulado no processo de lutas e transformações sociais justamente saída das últimas grandes crises do capitalismo liberal, no século passado, e também na emergência da China socialista como potência mundial. A China, por sua doutrina socialista e por sua própria história, não é, até o momento, e não deve mesmo vir ser uma potência imperialista. O estado socialista chinês tem a economia sob sua direção estratégica e não o contrário, o que ocorre no sistema liberal, quando o poder capitalista tem o estado nacional sob seu direcionamento estratégico. Isto significa que a posição e o papel da China nas relações entre as nações não deve ser e não é realmente do mesmo tipo que aquela da Inglaterra ou dos EUA, por exemplo. A história recente das relações internacionais da China, em contraste com aquela dos EUA, mostra isto acima de qualquer dúvida. A guerra nos ronda e ameaça cada vez mais, basta dizer que os orçamentos militares aumentaram significativamente nas economias centrais do sistema capitalista mundial neste mesmo momento em que as suas populações enfrentam o empobrecimento, com a inflação alta e com a estagnação ou recessão da economia. O fascismo também nos ronda mais e tem atacado mais, atualmente no sistema capitalista mundial. E isto infelizmente continuará assim. São formas do último estágio da resposta do capitalismo liberal diante das crises e do estresse social que a concentração de riquezas, as crises econômicas e o empobrecimento necessariamente trazem. A irracionalidade extrema destas respostas é coerente com as irracionalidades próprias, intrínsecas ao sistema capitalista. E a irracionalidade absoluta e desmedida do fascismo e da guerra realmente se tornam aceitáveis para o sistema capitalista liberal quando a se chega ao beco sem qualquer saída socialmente digna ou aceitável, que as grandes crises sistêmicas terminam por representar para o capitalismo liberal A imposição irracional e absurda da violência e da destruição passa a ser razoável, apenas uma extensão a mais da irracionalidade e da violência abusivas que são inerentes ao sistema capitalista.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

A QUESTÃO HISTÓRICA ATUAL: SOCIALISMO X CAPITALISMO. PARTE 1

Em texto anterior eu indiquei aquelas que eu entendo serem as grandes questões, ou encruzilhadas históricas, da nossa época. E destaquei que, em primeiro lugar e sobretudo, a grande questão do nosso tempo histórico ainda é a questão do Socialismo x Capitalismo. Com certeza esta ainda é a questão fundamental do nosso tempo e todas as outras grandes questões de nosso tempo estão inseridas ou condicionadas por esta. E isto persistirá assim enquanto ainda estivermos no sistema econômico e social capitalista. Toda a ilusão de que esta questão já teria sido superada é apenas mais uma expressão da última onda liberal vigente desde os anos 80 do século passado e que, justamente, se aproxima do seu fim na atualidade. No tocante ao presente, a grande questão é, na verdade, Capitalismo Socialista x Capitalismo Liberal. Pois, o socialismo ainda é, também e necessariamente, capitalismo; é capitalismo sob a regulação e controle socialistas e deve ser a fase de transição final do sistema para além do capitalismo, mas, ainda assim, capitalismo. É o que a China nos mostra e eu não tenho o direito de não considerar a China como a forma mais desenvolvida, mais avançada de socialismo no mundo atual. Este deve ser o modo de produção, de organização social mais exemplar do socialismo, portanto, obviamente, não é? Então é isto. O Socialismo Chinês nos mostra com total clareza que é justamente esta transição dentro do capitalismo. A China é socialista porque regula de modo socialista os mercados capitalistas. Desculpem, mas é esta a realidade, por pior que pareça para entender. É simples assim, o controle estratégico e financeiro é do sistema político, estatal, e é dentro deste controle apenas que operam os agentes do mercado. Isto resulta em um sistema econômico e social muito mais consciente, com certeza, que o sistema liberal de domínio estratégico e financeiro da economia pelos capitalistas apenas. Como a China tem mostrado o socialismo é mais consciente e mais eficiente, social e economicamente, e mais ecológico inclusive. Todos estes aspectos se mostram verdadeiros na trajetória chinesa atual e queiram as pessoas ver ou não, elas estão sendo forçadas a ver. O que não podemos é acreditar que o socialismo se dá ou se daria de um modo quase instantâneo, em um ato revolucionário que criaria um absoluto antes e depois e não em um verdadeiro processo histórico de transformação social. Muito ingenuamente, grande parte da teoria e da práxis política, social e econômica do século passado e ainda deste início de século pensa assim, concebendo que o socialismo seria um modo de produção completamente diferente do capitalista implantado imediatamente por uma revolução social e política. Esta ingenuidade, este equívoco teórico e prático, é, com certeza um dos principais motivos do fracasso de grande parte das experiências socialistas do século passado. Acreditavam que através da revolução socialista chegariam de modo quase imediato ao sistema comunista. Confundiam assim a transição socialista com seu ponto de chegada possível ou desejável. Não, o socialismo é um processo de transformação do sistema social capitalista, que, como tal, como ensinam os mestres da dialética, surge por dentro do sistema, por suas contradições. Ou seja, no longo curso da história capitalista, desde seu início e, de modo mais evidente, com o seu desenvolvimento e maturação e, ainda mais, na fase de sua superação, progressivamente o socialismo se desenvolve, se fortalece e se realiza. O socialismo é o processo de superação do capitalismo. Assim foi identificado na teoria e assim está acontecendo na prática, em um processo que se mostra mais perceptivelmente desde os anos de 1850 na Europa e ao fim no mundo praticamente todo, e que tem dois marcos recentes inquestionáveis no crescimento e predomínio sistêmico da social democracia a partir do fim da segunda guerra mundial e na ascensão contemporânea da China. Qualquer pessoa que compare, com um olhar realista, as sociedades, os países, no longo curso da história, com toda certeza tem que notar que os últimos 150 anos foram anos de aumento da socialização, aumento de aspectos socialistas, em geral, no seio do sistema capitalista mundial. Apesar de todas as flutuações e movimentos históricos em contrário, é impossível não reconhecer o surgimento e grande difusão e desenvolvimento de instrumentos, instituições, regulações e práticas sociais socialistas no sistema capitalista neste último século e meio, A ideologia e a prática socialistas, em contrário às puramente liberais, se manifestam, por exemplo, nos serviços públicos de amplo acesso social nas áreas de saúde e educação básica, na proteção do meio ambiente, nas regras e nos sistemas de proteção aos trabalhadores com relação às condições de trabalho e na previdência social, assim como nas instituições e medidas de regulação e controle dos mercados capitalistas pelo estado, pelo setor público. Tudo isto se desenvolveu e se consolidou fortemente no sistema capitalista contemporâneo mundo afora. Estas características se desenvolveram especialmente nos países mais poderosos do sistema, mas, de fato, realmente se espalharam, de algum modo, mundo afora, de tal modo que não é nem mesmo mais possível pensar o sistema capitalista atual sem estas características socialistas que surgiram e se desenvolveram no seu interior neste grande período histórico recente. Assim é e assim será progressivamente mais. Mesmo que existam grandes diferenças entre os países nestes aspectos, não é contestável que, no interior de cada país, este gradiente ou esta tendência socializante se manifesta de modo claro no período referido. Sim, em geral os países mostram evolução nos seus níveis de educação e assistência à saúde das populações através de recursos e serviços públicos dos estados nacionais. Neste período, sistemas públicos de previdência social e de proteção aos trabalhadores, assim como de assistência social e de renda mínima foram implantados, se desenvolveram e se mantiveram apesar dos momentos de retrocesso. Ainda que em condições muito diferentes entre os diversos países, em geral cada país realmente está melhor hoje do que há 150 anos e os estados em geral fortaleceram sua atuação direta e regulação sobre os serviços ao público e também sobre os mercados em geral. De fato, neste período, mais e mais mecanismos de intervenção e controle públicos foram desenvolvidos e implantados no sistema capitalista mundialmente e nada disto está no ideário liberal capitalista em sua origem ou por princípio. Parece muito estranho falar isto ao fim de uma onda liberal que nos trouxe a grandes crises econômicas e sociais mundiais e a grandes perdas e retrocessos para as populações trabalhadoras e pobres e para desenvolvimento social em geral em grande parte do mundo. Mas, olhando no longo da história, nestes últimos 150 anos realmente o gradiente é visível, mesmo com os limites, as barreiras e os retrocessos reais que também ocorreram neste mesmo período. Estamos falando, portanto, de um processo real de socialização do sistema capitalista e a emergência da China socialista no cenário mundial é o ato decisivo, no presente, deste processo mundial de desenvolvimento e transformação e superação do sistema social capitalista. Processo que continuará, agora mais aceleradamente, sejam quais forem as conjunturas futuras com uma única exceção: a destruição da China pela guerra. Caso isto não ocorra, o processo histórico de socialização do capitalismo se intensificará e acelerará nas próximas décadas. Para o bem da humanidade. Na questão central do presente, que realmente persiste sendo aquela do socialismo x capitalismo, está incluída a questão do risco de guerras em geral, sobretudo, das grandes guerras mundiais e do risco real que elas trazem para a existência da civilização e da própria humanidade. Será apenas com o avanço da socialização que as grandes guerras mundiais que nos ameaçam atualmente poderão ser evitadas. As guerras eventualmente são formas extremas de se resolverem as grandes crises econômicas dentro da lógica liberal capitalista. As guerras realizam uma grande queima de recursos e vidas humanas que de outro modo não seriam justificadas e isto, por incrível que pareça, pode ser a solução para crises econômicas. Não que se planejem guerras como resposta às crises econômicas, mas, certamente, as grandes crises econômicas tornam as guerras mais prováveis e aceitáveis e, por fim, realmente elas respondem às necessidades destrutivas do sistema capitalista nas grandes crises econômicas. E assim a guerra, a absurda e assassina guerra, o delírio de violência e de abuso, de agressão e de destruição de recursos e vidas, este delírio de violência destrutiva se impõe como uma necessidade do sistema, como se tivesse a inevitabilidade de um fenòmeno natural além do nosso controle social. Na atualidade esta necessidade se mostra mais presente e ameaçadora. Uma guerra regional de grandes proporções ocorre na Europa, enquanto o mundo inteiro se reagrupa com o declínio relativo das potências ocidentais diante da emergência da China. Os ânimos beligerantes estão sendo incrementados na OTAN e aliados e podem mesmo ser a última resposta que eles buscarão para o seu declínio relativo, o qual está em curso nas últimas décadas e que se acelerou nos últimos anos. E, obviamente os antagonistas também se armarão mais. Um dos mais terríveis resultados da guerra na Ucrânia é que os investimentos macabros nas máquinas de guerra aumentaram mundo afora e até a Alemanha e o Japão já entraram nesta febre belicista. As consequências destas e outras decisões absurdas devidas à guerra da Ucrânia já se manifestam e vão se manifestar ainda em desaceleração e atraso no desenvolvimento social e empobrecimento das populações dos países mais diretamente afetados como aqueles da Europa. Tornando as grandes guerras mundiais ainda mais prováveis e aceitáveis. Certamente o alvo final deste esforço de guerra está definido pelo confronto histórico e ideológico entre capitalismo liberal e socialismo. A possibilidade da guerra da OTAN e aliados contra a China e aliados, portanto, está na ordem do dia no nosso tempo e é a questão central na perspectiva geopolítica contemporânea. Neste plano e na atualidade nada mais importante, portanto, do que evitar esta guerra dos Estados Unidos e seus aliados contra a China. O pacifismo volta a ser uma posição política necessária no mundo atual e o avanço inquestionável e decisivo do socialismo surge como a única resposta possível para a drástica crise econômica e social das economias capitalista, fora das grandes guerras mundiais. A questão da contraposição entre a preservação ou a destruição progressiva, ilimitada e talvez irrecuperável da natureza e das próprias condições naturais de vida humana na terra também está envolvida ou incluída nesta questão do capitalismo liberal x o socialismo. É claro, é manifesto, que na lógica propriamente capitalista, em seu núcleo econômico mais próprio, ou seja, na lógica econômica própria do capitalismo, a preservação da natureza não é um objetivo nem um resultado necessariamente considerado. Hoje existem, é claro, muitas empresas capitalistas que têm a preservação e recuperação do meio ambiente natural em sua visão e algumas também em sua prática. Mas isto não altera a lógica do sistema capitalista e, certamente, esta lógica não considera, em seu núcleo, a preservação da natureza. Ou seja, na equação de desempenho, no resultado financeiro, na taxa de lucros, na distribuição de dividendos, em geral, não se considera o desempenho ecológico das empresas e dos investimentos. E não há nada que se possa fazer para mudar isto dentro da ideologia e da prática econômicas liberais e nem no anarco liberalismo como ideologia. Seguindo este raciocínio é apenas o socialismo que pode nos salvar do cataclismo ecológico total. E é isto mesmo. O sistema capitalista não é e não pode ser estruturalmente comprometido com a preservação da natureza e os avanços neste sentido dentro do capitalismo devem ser considerados como os demais avanços da ideologia e das práticas de regulação social ou pública da atividade econômica fora, em contrário, ou, para além, dos mecanismos de mercado. E, portanto devem ser igualmente considerados avanços do socialismo dentro do capitalismo. Em cada momento histórico foram as lutas sociais dos trabalhadores, dos oprimidos, dos excluídos e dos conscientes que conquistaram estes avanços sociais contra a ideologia e as práticas do capitalismo liberal. E, por lado, estes avanços foram possibilitados pelo reconhecimento histórico, objetivo, de limites e até da própria inviabilização do capitalismo, por suas regras ou leis próprias, tanto pelas crises econômicas verdadeiramente destrutivas que assim se formam periodicamente, quanto pelo caráter desumano e abusivo das relações sociais na base do modelo de capitalismo liberal. A socialização progressiva, que se mostra com segurança, como estou afirmando, desde o fim da chamada revolução industrial, é um movimento, um processo histórico, longo, com marchas e contra marchas ou oscilações em sentidos contrários, mas com um sentido predominante claramente manifesto neste período em praticamente em todo o mundo, dentro dos países e também no plano internacional. Esta percepção não nega que estamos ainda no fim de uma onda liberalizante do sistema capitalista mundial. Nem nega nenhuma das grandes consequências históricas que resultaram, na atualidade, desta onda liberal do sistema: o aumento da desigualdade social e até mesmo da pobreza, crises econômicas sucessivas e sem solução razoável, redução do crescimento econômico e recessões, guerras e aumento do gasto militar, reemergência das ideologias e movimentos políticos nazistas e fascistas. E tudo isto é mesmo condizente e coerente com a lógica central do capitalismo liberal ou do sistema capitalista, quando deixado por si mesmo. Esta lógica é concentradora de riquezas e necessariamente levará, após um período de anos ou algumas décadas de crescimento econômico, a crises sistêmicas da economia capitalista. Crises que só podem ser solucionadas, dentro do capitalismo liberal, com a desaceleração do crescimento, recessão. com destruição de capital e empobrecimento de grandes massas populacionais. Este é o resultado e o caminho para a solução das crises econômicas no capitalismo liberal. Todo o arsenal de políticas anticíclicas e de proteção social que hoje são acionadas nestas crises são, também, parte do processo de socialização da sociedade capitalista que vivemos nos últimos 150 anos, ou seja, desde quando o capitalismo atingiu a sua maioridade, após a revolução industrial. Sobretudo a partir do fim da primeira metade do século passado o sistema econômico capitalista sofreu e continua sofrendo regulações e intervenções contrárias à lógica capitalista liberal e é somente em função destas intervenções que o sistema capitalista ainda está de pé, dada a destrutividade intrínseca à sua lógica caso deixada sem controles, livre, como os liberais sempre querem. Todos estes temas têm que ser muito melhor descritos e analisados, mas creio que já indiquei aqui acima de modo suficiente, ainda que muito sucintamente, porque o confronto entre capitalismo e socialismo, ou entre capitalismo liberal e capitalismo socialista, ainda é a questão principal ou central ou definidora no sistema social contemporâneo. Já no tocante ao futuro, como projeção ideológica do futuro humano, devemos considerar que a questão mais importante de nossa época histórica é a contraposição entre anarco comunismo e anarco capitalismo, ou, no limite, entre anarquismo e fascismo, pois, no limite o socialismo deve resultar na anarquia comunista e o capitalismo liberal, na realidade, ou o anarco capitalismo, em ideologia ou logicamente, resultam, necessariamente, em fascismo., Mas isto será objeto de textos posteriores.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

A POLÍTICA ANTIDROGAS VIGENTE NO BRASIL É UMA FERIDA ABERTA SANGRANDO CONSTANTEMENTE NO MEIO DA NOSSA SOCIEDADE.

Os hipócritas e os psicopatas, os fascistas e seus aceclas atribuem às drogas e aos drogados a violência e as mortes que esta política cria. Estes pilantras e dementes afirmam que o maconheiro é um coautor das mortes no conflito armado do tráfico de drogas. Mas ninguém ouviu o maconheiro falar que quer esta guerra às drogas. Os ignorantes e os mal intencionados repetem constantemente que as drogas só trazem dor e sofrimento, doença e morte para os drogados e suas famílias. Falsários, vocês sabem que as drogas que causam mais destruição e morte na nossa sociedade são o álcool e o cigarro. E vocês deveriam saber que a maconha, por exemplo, tem um risco menor para a saúde, muito menor que estas drogas legalizadas e também do que os remédios psiquiátricos em geral. É muito difícil se fazer uma avaliação do risco real de cada droga para a saúde e para a sociedade, caso todas fossem legalizadas, mas eu sempre tive a impressão que os riscos da cocaína não seriam muito maiores do que aqueles das bebidas alcoólicas ou do cigarro, ou de opiáceos, por exemplo. E pode-se dizer com segurança que os riscos de violência e destruição diretamente ligadas à produção, ao comércio e consumo da maconha e algumas outras drogas ilegais são muito menores que daquelas diretamente ligadas às drogas que são legais hoje no Brasil. Enquanto a massa é induzida a usar químicas danosas, que causam forte dependência e realmente podem estar no centro de vidas destruídas de diversas maneiras, eles querem dizer que os drogados são pessoas derrotadas ou decadentes. Mas eles sentam no próprio rabo para apontar o do inimigo. Acontece que o inimigo aí são milhares e milhares, são milhões de usuários de drogas ilegais, pessoas que têm sua liberdade e a sua dignidade desrespeitadas pelo preconceito e pela ignorância. Preconceito e ignorância que servem como mantos para a perseguição social. Então, vejam bem, a justificativa para a criminalização e a guerra às drogas não pode ser de saúde pública. Toda a conversa, de esquerda ou de direita, que pretende justificar a criminalização de drogas por razões de saúde pública, é uma falácia, sem ninguém nem se dar ao trabalho de sustentar. É uma irresponsabilidade geral que sustenta as políticas atuais de violência e morte para o combate às drogas. Uma irresponsabilidade geral que todos os anos resulta em milhares de prisões, mortes e outras formas de violência, como uma ferida que sangra sem parar no meio da nossa sociedade. Os perversos e os iludidos afirmam que o tráfico de drogas é violento e que portanto os usuários da droga são financiadores desta violência. Mas todos sabem que no ato de compra e venda de drogas não há, necessariamente, mais violência do que no ato de compra e venda em geral, ou, especificamente, na compra e venda de cigarro, ou de bebidas alcoólicas ou de remédios neuro psiquiátricos. A violência, não tem que estar presente na compra ou na venda das drogas. Só um completo idiota ou alguém que teve a mente martelada por mentiras a vida toda pode se negar a entender isto. Pois é, a verdade é que hoje, no Brasil e no mundo ocidental em geral, em toda essa questão das drogas, a maior violência e destruição de vidas vem da proibição.

domingo, 15 de janeiro de 2023

GEN, EGO E SISTEMA

Introdução Tenho afirmado, já há alguns anos que há três elementos determinantes na nossa constituição como indivíduos humanos. Estes três determinantes são o GEN, o EGO e o SISTEMA. Poderíamos chamar estes três determinantes de CÓDIGO GENÉTICO, PSIQUÊ E SOCIEDADE. Mas eu prefiro os três primeiros nomes. Gen e código genético se equivalem evidentemente, neste contexto de uso. E GEN é o termo mais sintético e universalmente utilizado, neste sentido que eu adoto. O termo mais preciso para o que eu tenho em mente seria genoma, talvez, mas gen é a sua unidade e conceito fundamental e por isso o escolhi. E eu creio que Ego é preferível a Psiquê, já que, em uma visão sintética, a psiquê inclui todos os elementos do nosso processamento psíquico, ou emocional, e Ego se refere à consolidação ou resolução limitadamente consciente deste processamento em decisões e atitudes que, ao fim, realmente constituem a nossa existência, o nosso ser, a cada momento. E que são nossa biografia real. E prefiro sistema a sociedade porque aquele tem uma conotação mais forte ou mais rica na atualidade. Talvez o melhor seja dizer que se trata do sistema social. Do ponto de vista operacional ou científico se pode falar muito bem em sistema econômico, ou sistema cultural, por exemplo, como subdivisões ou angulações específicas do sistema social. Mas, talvez o meu maior objetivo ao usar o termo sistema preferencialmente a sociedade é porque assim fica mais fácil de focalizar nas questões centrais de comunicação entre (a sociedade ou) o sistema e o ego (ou a psiquê). Características específicas dos três determinantes É muito importante considerar as características específicas destes determinantes e, portanto, suas influências, ou, como já dito, sua participação na constituição do nosso ser. Em primeiro lugar parece correto considerar que estes três determinantes constitutivos do nosso ser operam, todos, pela sua permanência ou perpetuação, o que significa exatamente, genericamente falando, a sua reprodução; ou seja, a sua subsistência no tempo e, nesta, a sua reprodução e, portanto, relativa perpetuação. Vou tentar explicar melhor. Parodiando os estudiosos da genética das populações pode-se dizer que o genoma quer se reproduzir e assim se perpetuar e que os seres vivos, os seres complexos determinados por gens, querem subsistir e se reproduzir, como um veículo da reprodução do seu patrimônio genético específico. Do mesmo modo pode-se dizer que o ego quer a sua perpetuação, por sua afirmação e permanência na história, na cultura, na sociedade, ou, sistema, como queiram chamar. É claro que muitos autores identificam este desejo fundamental, intrínseco ou essencial do ego, mas, para mim. o texto mais destacado e que eu estou praticamente reiterando aqui é o Banquete, do Platão. A fundamentalidade desta determinação, tanto do gen quanto do ego, tanto do corpo quanto da alma, é bem identificada, no texto de Platão, como a força e a energia do amor, a força erótica. Eu disse, num texto anterior. que o ego, como representante ou posição ativa da psiquê ou alma, é o que nos liga ao social, à história e ao futuro. E nos liga nos impulsionando a nos realizarmos e nos encrustarmos no ser social, na reprodução material e espiritual, econômica e cultural, da sociedade, do sistema deixando a nossa contribuição e marca no caminho do humano futuro. Desde a mais humilde existência até as realizações pessoais mais impactantes e marcantes da história são conduzidas, em parte, por esta determinação do ego. Em sua dimensão mais heroica e cultural pode-se dizer que o que o ego quer está estampado na frase de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Este pode bem ser um discurso do ego. No sentido de: “ninguém chega ao humano a não ser passando por mim”! De uma forma mais metafórica pode-se dizer então que cada ego busca se afirmar como o caminho verdadeiro, o “patrimônio genético” cultural do presente e, sobretudo, do futuro humano bom ou verdadeiro. Quanto ao sistema social, ainda que possa ser difícil compreender as suas múltiplas dimensões e as características da determinação que cada uma delas nos impõe e como elas terminam por nos constituir, creio que nenhuma pessoa minimamente informada em relação à história, ou sociologia ou antropologia, enfim, ninguém mais, pelo menos ninguém que não esteja enfiado na ignorância e no delírio, mais ninguém não compreende que somos determinados e constituídos pelo sistema social em que vivemos. Ao delinear o papel do ego já, necessariamente, estamos considerando também o papel do sistema social, pois o ego só existe realmente na interação social, ou seja, em um determinado sistema social. Apenas para não deixar grandes lacunas, neste momento inicial da nossa reflexão, estamos falando aqui, ao falar em sistema social, do trabalho, do sistema produtivo, da linguagem, de toda a comunicação e cultura em sentido restritivo. Podemos também usar o termo cultura, em seu sentido mais amplo, como o sinônimo do que aqui chamamos de sistema social ou de sociedade. Também economia pode ser utilizada como sinônimo de sistema social ou sociedade, como emprego aqui, no sentido de uma economia social, propriamente. Não pode haver qualquer dúvida que o sistema social também tem forças imensas para, ou seja, “se direciona para”, ou, ainda, “pretende”, se perpetuar como tal. Reproduzir-se e se manter com suas características essenciais. E, obviamente, “resiste” à mudança, à transformação real. Estamos atribuindo algumas características de subjetividade a esta dimensão social, do ser humano. Ao sistema social. Bom, nós demos estes acentos, metaforicamente e logicamente, ao gen, então certamente podemos dar os mesmos acentos subjetivos ao sistema social. E podemos considerar mesmo que a permanência, a duração, a continuidade e eventualmente a reprodução são mesmo características ontológicas gerais e realmente fundamentais e presentes nos seres e em diversas de suas dimensões. Com suas características específicas, gen, ego e sistema também têm estas características, também são assim. Mas, talvez, essa observação de generalidade ontológica tenha agora um efeito mais confundidor do que esclarecedor, dadas as especificidades e complexidades próprias, e muito próprias mesmo, do que estamos considerando aqui. Paradoxo dos determinantes do nosso ser. São absolutos e ao mesmo tempo parciais, limitados e superáveis A análise estrutural que estou fazendo aqui tem sentido para nos esclarecer e orientar quanto à nossa atuação e possibilidades, na nossa própria existência, no mundo. Tanto no sentido pessoal quanto no sentido coletivo, histórico ou social. Neste aspecto, e sempre que tratamos deste tema, é imprescindível destacar, desde o primeiro momento que estes três determinantes são constitutivos de nosso ser, mas, é também contra eles que nós nos formamos ao longo da vida. Curiosamente estes determinantes são e não são absolutos. Por exemplo, é claro que qualquer ser humano que seja portador de uma anomalia genética extrema terá imensas limitações e, eventualmente nem mesmo conseguirá subsistir. Mas também é certo, por exemplo, que uma pessoa que tenha uma genética longelínea e de musculatura forte, propícia para certos esportes, mas que não pratique qualquer atividade física e tenha uma alimentação inadequada, eventualmente se tornará obesa ou fraca e inadequada para qualquer esporte. E o inverso também é verdade, até certo limite. Parece razoável concluir que, de qualquer modo, jamais estamos livres do que determina o nosso código genético, mas também não estamos submetidos irremediavelmente a estas determinações, a não ser em seus extremos. Por exemplo, não podemos, hoje, pelas nossas determinações genéticas, viver mais que 140 anos, mas, certamente, podemos prolongar ou reduzir em muito a nossa existência biológica, a nossa vida, dentro deste limite genético, pelo modo como vivemos. E, creio que em um tempo já vislumbrável, ampliaremos também os limites genéticos à duração da nossa vida. O mesmo se pode dizer, com toda certeza, das determinações do sistema. Ainda que sejam de ordem e se dêem por mecanismos completamente diferentes, todos nós também nos fazemos, nos formamos como pessoas, dentro de um sistema social específico e inevitavelmente somos constituídos pelas condições que este sistema nos determina. Obviamente isto vai depender de quando e onde nascemos e vivemos. Somos, de algum modo muito profundo, aquilo que a nossa posição social e histórica nos determina. Recordo agora um exemplo simples que gostava de dar para alunos: certamente ninguém podia ser um piloto de avião antes do fim do século XIX e início do seculo XX, simplesmente porque o avião e outros meios para isto ainda não tinham sido desenvolvidos. Não, pelo menos, no sistema social conhecido, em lugar algum do mundo, até então. E, hoje em dia, certamente, grande parte da humanidade não pode sequer se imaginar, ou apenas pode se imaginar nesta posição, de piloto de avião, dada a sua condição, a sua posição, no sistema social. Mas, se a primeira determinação é absoluta, a segunda nem tanto. E, mais ainda, o que mais nos importa aqui, sobretudo, é que o sistema é constantemente reproduzido, mas também confrontado pelos indivíduos em suas posições individuais, em suas ações de vida, e é historicamente transformado, de muitas maneiras e por muitos processos históricos diferentes. Então, o que eu quero dizer é que nós somos determinados e constituídos pelo gen e pelo sistema, inexoravelmente, mas também é contra eles que nos formamos e realizamos. Sobre o ego é o mesmo, também o ego e seus desígnios fundamentais nos determinam de modo inelutável e também é contra os desejos do ego que todos nós agimos e nos formamos na vida. Mas de modo completamente diferente de como o gen e o sistema atuam, pois o ego, ou a psiquê, é o que nos liga ao mundo social e a nós mesmos, de todos os modos. É como a linguagem chega a nós, por exemplo. Através do ego ou psiquê individual. É o que filtra todas as informações e processa todas as emoções e sentimentos, pensamentos e ideias que são os seus próprios constituintes. Mas, mesmo nessa sua condição peculiaríssima, também a determinação do ego é de se perpetuar, se perpetuar na sociedade, na cultura humana, de algum modo. O ego deseja se realizar no sistema, deixar nele sua marca, seja ela qual for e ainda aquela de encaminhar o humano, de projetar e realizar o humano, de algum modo, está também em todos nós. E essa determinação também se impõe em nós, como um absoluto relativo em nós, assim como ocorre com aquelas do gen e do sistema social. Também essa determinação se impõe sobre nós com a força do absoluto e também é contra ela que nós nos realizamos ao longo da vida. Também não podemos evitar as determinações do ego, não pelo menos nos limites de que alguma posição do ego sempre será a nossa realidade em cada momento da existência. Mas, também como nos outros determinantes, não estamos inelutavelmente circunscritos aos determinantes do ego. Não, nós educamos o nosso ego e, com certeza, o forjamos ao longo da vida, também o combatendo. Três dimensões ou níveis de interesse presentes em toda escolha existencial Então, essa massa energética de emoções e sentimentos, pensamentos e ideias, ancorada, constituída, em uma existência biológica, se propõe a agir. E age. Estas são, digamos assim, as determinações ou as tarefas fundamentais do ego - decidir e agir. Sempre tendo em consideração três conjuntos de interesses ou necessidades, muitas vezes contraditórios entre si: aqueles do próprio indivíduo, os dos grupos aos quais ele pertence e aqueles do coletivo social maior ou, ao fim e profundamente, os da humanidade em geral. Ao agir, ou, antes, ao decidir sobre qualquer ação realmente relevante, com conteúdo existencial realmente significativo, qualquer um de nós considerará os seus interesses individuais, os interesses dos grupos sociais aos quais pertence e, simultaneamente, considerará também os interesses de um nível mais elevado de coletividade, que, representa, de qualquer modo, a humanidade, ou o que ele representa neste lugar de universalidade humana. E esta é a posição do ego, pois este é o desejo do ego, ser parte da cultura humana, contribuir para o futuro humano deixando sua marca cultural, seja ela qual for, neste caminho. Aqueles que como eu compreendem esta dimensão universalista do nosso ego identificam a própria humanidade ou o futuro humano, como este universal, este valor universal sempre projetado na escolha do ego. A tal ponto que a figura do Deus único, monoteísta, pode ser compreendida como uma metáfora, uma ilusão, posta neste lugar fundamental da humanidade, antes de termos a consciência do que ele é. As questões históricas da nossa época Acredito que até aqui eu consegui reiterar os principais determinantes e alguns fundamentos que devem, enfim, ancorar as minhas análises, decisões e atitudes. Mas isto não teria qualquer valor se não servisse para o reconhecimento e o enfrentamento das questões que realmente importam para o presente e, ainda mais, para o futuro humano. Em texto anterior eu já havia me atrevido a identificar quais são as grandes questões, ou encruzilhadas históricas da nossa época: 1. Socialismo x Capitalismo, ou melhor dizendo, Capitalismo Socialista x Capitalismo Liberal, no tocante ao presente, pois, socialismo é, também e necessariamente, capitalismo, é fase de transição do capitalismo, é capitalismo sob a regulação socialista, mas ainda capitalismo. Ou, no tocante ao futuro, como projeção ideológica do futuro humano: anarco comunismo x anarco capitalismo, ou, no limite, fascismo, pois, no limite, anarco capitalismo é, resulta em, fascismo, necessariamente. Nesta questão está envolvida ou incluída também a questão da preservação x destruição progressiva e ilimitada da natureza e das próprias condições naturais de vida humana na terra. Está aí também incluída a questão do risco das grandes guerras mundiais e, novamente, do risco real que elas trazem para a própria existência da humanidade. 2. A questão da Opressão e Abuso do poder dominante contra os povos, etnias, grupos sociais e práticas divergentes na sociedade x o respeito à diversidade e o multiculturalismo. Aqui estão inscritas as questões também do controle social x as liberdades pessoais e de grupos diversos. O paradoxo do pertencimento e da liberdade: tema central da questão 1 (talvez mostrando que ela é a mais importante, ainda é a mais determinante no nosso tempo histórico. 3. A questão da família tradicional x a liberdade amorosa e sexual. Ou seja, família tradicional x comunidade amorosa livre. É, portanto, diante destas grandes questões da nossa história contemporânea que todos, necessariamente, com maior ou menor grau de consciência, nos posicionamos. E é somente em face a elas que os fundamentos acima descritos podem provar sua validade e utilidade ou não. Vamos tratar destes pontos nos textos subsequentes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O problema das drogas x O problema da guerra contra “as drogas”

O problema das drogas x O problema da guerra contra “as drogas” na perspectiva da saúde pública Prof Dr. Paulo Fleury Teixeira Introdução A ideologia e as políticas antidrogas produzem uma série de abusos e absurdos que não poderiam ser aceitos de modo algum, em qualquer nível de vida civilizada. Mas, em função da “guerra às drogas”, eles são não apenas aceitos, como também difundidos e promovidos. O que estou dizendo é que a ideologia antidrogas produz e justifica todo um universo de práticas violentas, abusivas, bárbaras, imorais e completamente inaceitáveis, mas que, sob a bandeira do combate às drogas e da proteção das pessoas, são, no entanto, bem aceitas na nossa sociedade e são até mesmo sustentadas e apoiadas, direta ou indiretamente, por ação ou omissão, pelas instituições médicas e sanitárias, no nosso país e mundo afora. Realmente, sob a bandeira de combate às drogas aceitamos como normais a violência e o abuso policial, incluindo agressões, encarceramento de inocentes, assassinatos e execuções sumárias, chacinas e torturas. Isto na ponta criminal e penal. Enquanto, na ponta da assistência e recuperação de usuários de drogas com problemas psíquicos e sociais, também aceitamos o encarceramento, as torturas psicológicas e físicas, a intoxicação química e a religião assumindo o lugar da ciência e da prática médica. E tudo isto é realmente endossado e disseminado, não apenas pelas instituições policiais, judiciárias e religiosas, mas também e sobretudo pela institucionalidade médica e sanitária. De fato, são as instituições médico científicas que, ao fim, sustentam, por sua autoridade técnica, toda a ideologia e as políticas de guerra às drogas. As instituições médicas foram chamadas a cumprir o papel de justificar e disseminar estas práticas abusivas e inaceitáveis. E elas têm cumprido este papel nos últimos 80 anos, ou algo próximo disto. A ideia básica que estas instituições disseminam é que certas drogas impõem risco tão grande à saúde física e, sobretudo, mental das pessoas que elas têm que ser proibidas, pois, se liberadas causariam graves problemas de saúde pública e graves danos sociais. Esta ideia básica, que, por seu caráter próprio, só pode estar enraizada na institucionalidade médico científica, é que sustenta toda a cadeia de abusos contra as pessoas envolvidas com drogas na nossa sociedade. A ideia que estas instituições apresentam à sociedade é que tudo isto se justifica, pois o perigo das drogas seria tão grande que mesmo estes abusos e absurdos todos seriam aceitáveis, ou ao menos toleráveis, como se fossem um mal menor. Ocorre que este raciocínio é falso. E, há décadas, as instituições médico sanitárias estão no centro desta difusão de informações falsas e soluções absurdas e inaceitáveis. De fato, não há evidência que a liberação de drogas proibidas poderia causar mais danos que aqueles provocados pela guerra “às drogas”. Ao contrário. Mas, aqui, como em tudo que se refere ao tema das drogas, há uma névoa difusa de terror e ignorância dominando a questão. Uma verdadeira farsa, ou um equívoco grosseiro, em relação ao risco real das drogas ilícitas se mantém há décadas nas instituições médico científicas. A psiquiatria é ouvida, a pediatria também e todas falam de riscos extremos impostos pelas drogas. Sob o prisma clínico, ou individual, estas visões médicas podem até serem defensáveis, mas é do ponto de vista de saúde pública e do risco social propriamente ditos que ela deve ser realmente avaliada. Pois, a avaliação dos riscos e danos das drogas não pode se circunscrever ao fato de que um indivíduo ou uma família podem ter as suas vidas desgraçadas por causa do abuso e da dependência de drogas. Mas sim, deve-se avaliar qual o peso real e potencial deste problema na população, no conjunto de pessoas expostas ao risco. E comparar com o risco e dano social causado pela guerra às drogas. Portanto, aqui o que se deve ouvir é, sobretudo, a saúde pública, é a visão de saúde coletiva a que mais importa. Parece, no entanto, que há uma omissão ou irresponsabilidade da saúde pública em relação à questão das drogas. Vamos tentar preencher um pouco desta lacuna com um breve exercício de análise de aspectos da epidemiologia das drogas e suas consequências, em comparação com a epidemiologia da guerra “às drogas” e suas consequências. 1. O problema das drogas Vamos considerar, primeiro, algumas estimativas correntes na literatura norte-americana sobre dependência e riscos no uso de algumas drogas, que se pode consultar no CDC, por exemplo. Estima-se que a síndrome de abstinência por cocaína ocorre em 30% dos usuários. Ou seja, em 70% dos usuários não ocorre síndrome de abstinência e, nestes, se reduz o risco, ou a incidência, de dependência química. Estima-se também que 10 a15% dos usuários de maconha se tornam dependentes e que 30% dos usuários tenham distúrbios de uso relacionados a esta droga. Ou seja, quase 90% dos usuários de maconha não se tornariam dependentes e 70% não apresentariam quaisquer problemas de dependência ou abuso. Se transpostas para o nosso país, estimativas como estas, referentes às duas principais drogas ilícitas consumidas no Brasil, indicariam um risco alto imposto por estas drogas à saúde pública? Um risco tão grande que justificaria as prisões, as violências, as mortes e as torturas que são impostas em nome da sua proibição e do tratamento dos drogados? A resposta é não, certamente não. E vamos demonstrar isto com os dados nacionais logo adiante.cContudo, é difícil perceber esta realidade. Há, realmente, uma grande névoa de dados e informações manipuladas e mentirosas, sempre aumentando o risco, o potencial de dano, das drogas. Hoje, por exemplo, se vamos pesquisar no Google sobre o risco de esquizofrenia entre usuários de maconha, vamos receber a informação destacada de que “a chance de desenvolver esquizofrenia seria quatro vezes maior entre usuários de maconha, conclui maior estudo já feito sobre a droga”. Mas isto é falso, é mentiroso. É uma mescla de ignorância e má-fé. Simplesmente não é esta a conclusão do referido estudo dinamarquês: “Development Over Time of the Population Attributable Risk Fraction for Cannabis Use Disorder in Schizophrenia in Denmark”, publicado em 2021, pois, ele simplesmente não trata do risco relativo de esquizofrenia entre usuários de maconha, como é erroneamente afirmado no Google. No entanto, a partir de sua postagem, pela instituição anti drogas SPDM, esta informação falsa rapidamente se disseminou na imprensa e entre as instituições e profissionais de saúde aqui no Brasil. E ninguém vai questionar este erro grosseiro, porque ele confirma os vieses ideológicos estabelecidos pela guerra “às drogas”. Mas, vamos deixar essa névoa ideológica para trás e considerar simplesmente os dados que temos a nossa disposição aqui no Brasil. Considerando-se as internações por abuso de drogas em todo o país em 2021, identificamos, no Datasus, o registro de 28 mil internações por abuso de álcool e 36 mil por abuso de outras drogas, grande parte destas também associadas ao álcool. Seja como for, isto dá um total de 64 mil internações por abuso de drogas em 2021, no Brasil, o que representa 0,37% do total de internações no país naquele ano. É isto mesmo, menos de 0,5% do total de internações são provocadas pelo abuso de drogas. É um percentual bem baixo de fato e deve-se destacar que, na maioria dos casos, a droga lícita, o álcool, está envolvido ou é o agente causal único. O estudo “Internações Decorrentes do Uso de Substâncias Psicoativas no Distrito Federal entre os Anos de 2000 a 2009” mostrou que o álcool era a causa direta de 65% destes casos e múltiplas drogas, onde o álcool frequentemente também está envolvido, representavam a causa de 25% do total de internações decorrentes do uso de drogas. Com base nos dados nacionais e neste estudo do DF eu estimei que as internações por maconha acontecem na proporção de aproximadamente 1 em cada cem mil internações no Brasil. Parece bastante óbvio que, no tocante às internações, não há um grave problema de saúde pública imposto pelas drogas ilícitas no Brasil. E, no caso da maconha, com estes dados, é absolutamente seguro afirmar que a sua liberação e ampla difusão também não implicariam em um problema significativo de saúde pública no nosso país, ao menos no tocante às internações hospitalares. Ao considerarmos a mortalidade relacionada ao uso de drogas, é digno de nota, primeiramente, que a mortalidade relacionada ao uso de álcool e outras drogas bateu recorde no país durante a pandemia. Realmente, a pandemia impôs condições psico sociais tão absurdas que o consumo e as mortes por drogas subiram. Mas, vamos dar uma olhada no detalhe sobre estas mortes, quantas são e quais as drogas envolvidas. Analisando as mortes diretamente associadas a dependência química no Brasil, em 2020, verificamos que foram registradas 11 mil mortes, mas, destas, apenas 500 por drogas ilícitas. Destaque-se que foram 0 morte por dependência química ou abuso de maconha, em contraste com as 8 mil mortes por consumo de álcool e 2,5 mil por tabagismo. É realmente impressionante como a quase totalidade destes óbitos são produzidos pelo consumo das drogas lícitas, legais. E devemos destacar ainda que estas são as mortes que se vinculam diretamente ao uso das drogas, não estando incluídas aí as centenas de milhares de mortes por diversas doenças orgânicas associadas ao álcool e ao cigarro. Vários tipos de câncer e doenças cardiovasculares, por exemplo. Se elas fossem incluídas o total de mortes devido a álcool e tabaco subiriam muito além dos 10,5 mil casos por ano, registrados em 2021, aqui no Brasil. Nos EUA, por exemplo, estima-se que “todo dia morrem 385 americanos como resultado do consumo excessivo de álcool”, ou seja, mais de 140 mil por ano (CDC - Deaths from Excessive Alcohol Use in the United States, 2021). Creio estar claro, portanto, que se há um grande problema de saúde pública identificado pelas mortes relacionadas ao abuso e à dependência de drogas, a quase totalidade destas mortes é, realmente, causado pelas drogas permitidas, pelas drogas lícitas e não pelas drogas proibidas ou ilícitas. 2. O problema da guerra contra “as drogas” Vamos focalizar nossa atenção, imediatamente, sobre a questão das mortes violentas provocadas pela política de combate “às drogas”, pela guerra “às drogas”, considerando os dados nacionais mais atualizados. De acordo com o Datasus, foram 47 mil mortes por agressão em 2020, sendo que 30 mil destas foram causadas por arma de fogo. Neste mesmo ano ainda foram registradas 14 mil mortes violentas não esclarecidas se foram assassinatos ou não. Por estes dados não é possível saber qual a proporção destas mortes está associada à proibição das drogas, ou seja, não é possível saber quantas destas mortes foram provocadas diretamente por traficantes ou por agentes policiais no combate “às drogas”. Não há, de fato, estatísticas seguras neste aspecto, mas, segundo afirmou, em entrevista de 2017, a então secretária de segurança do RN, Sheila Freitas: “78% destas mortes têm relação com o tráfico de drogas”. E, como ela acrescentou, “o perfil da vítima de assassinato no RN é homem jovem, com idade entre 19 e 24 anos, solteiro, pobre, vítima de arma de fogo em 90% dos casos. Estamos preocupados com o crescimento das mortes de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos". Aplicando esta estatística ao cenário nacional, ela nos indica que aproximadamente 37 a 48 mil mortes seriam causadas, anualmente em nosso país, pela ideologia e pelas políticas públicas de guerra “às drogas”. E pior, algo que merece o maior destaque, a grande maioria destas mortes são de jovens ou adolescentes negros e pobres. Mortos exclusivamente em nome desta ideologia. Não existem dados que nos permitam sequer estimar diretamente qual seria o total de internações, cirurgias, sequelas e incapacidades resultantes da violência provocada pela guerra “às drogas”, mas podemos, com segurança, dado o número de mortes, estimar em várias dezenas ou algumas centenas de milhares de casos anuais. Portanto, hoje, no Brasil, no que toca às mortes, o problema de saúde pública causado pelo combate “às drogas” e pela política de criminalização “das drogas” é muitas e muitas vezes maior, mais grave e mais destrutivo do que o problema causado pelas próprias drogas ilícitas. Além das mortes e das internações, cirurgias, sequelas e incapacidades, a criminalização das drogas é ainda mais pródiga em produzir prisões. Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, o Infopen, em 2005, antes da atual legislação antidrogas, 14% dos presos foram condenados por crimes relacionados ao tráfico,. Já em 2019, o delito representava 27,4% dos presos. E entre as mulheres, esse índice chega a 54,9% do total. Ora, o total de presos no Brasil foi de 900 mil em 2021 e está crescendo, de acordo com os dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ); ou seja, hoje, algo como 250 mil pessoas estão presas, no Brasil, por tráfico de drogas, exclusivamente. E mais da metade do total de mulheres presas é por esta causa. Não é razoável, nem mesmo deveria ser possível, que a saúde pública desconsiderasse o dano causado por estas centenas de milhares de prisões, principalmente de jovens, homens e mulheres, por tráfico de drogas. São vidas temporariamente interrompidas, com toda uma série de consequências negativas que daí advêm para eles e para os seus familiares e a sociedade em geral. Ainda precisamos considerar que parcela destes problemas extremamente graves são consequência da devida ação legal do Estado, mas, o que piora muito as coisas, grande parte é causada por abuso e violência ilegal e imoral seja das polícias, seja da justiça e / ou do sistema penal. Hoje, no Brasil, 32% a 50% dos presos são provisórios, sem julgamento, e 35% dos presos são agredidos na prisão, de acordo com a SSPSP. E, mais, como informa a Agência Câmara de Notícias, a tortura é reconhecida pela ONU como um problema estrutural do sistema carcerário no Brasil. O que é uma vergonha e uma abominação sobre toda a nação brasileira. Mais uma vez, como é possível que a área de saúde, em especial a saúde pública, continue de olhos fechados para esta realidade, endossando a necro política anti “drogas”? Temos que incluir aqui ainda, apenas como referência, porque os dados são muito precários nesta área, todas as internações de longa permanência, todas as reclusões forçadas, todas as torturas psicológicas e físicas, todas as intoxicações medicamentosas, todos os adoecimentos e incapacitações impostas a milhares de jovens sob a alegação de reabilitá-los e protegê-los do malefício das drogas. Está mais do que evidente que os danos de saúde pública e sociais causados pela ideologia de criminalização das drogas são imensamente maiores do que os problemas de saúde pública e sociais, causados ou potenciais, das drogas ilícitas. Vamos então perguntar, pela última vez, como é possível que a ciência e a institucionalidade médico sanitária ainda se mostrem alheias a esta realidade e continuem apoiando a criminalização das drogas ou permaneçam omissas diante desta tragédia? Isto é pior do que uma simples irresponsabilidade, é um verdeiro crime.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

ELEIÇÃO DO LULA. MINHA VISÃO ANARQUISTA: E VAMOS ADIANTE COM NOSSOS CORPOS E SONHOS

ELEIÇÃO DO LULA. MINHA VISÃO ANARQUISTA: E VAMOS ADIANTE COM NOSSOS CORPOS E SONHOS! Estou por um triz também Me emocionei, chorei e ri Mandei os escrotos de volta pros esgotos também. Cantei de volta a ser feliz e repeti 13 13 13 zentas mil vezes Ouvi muito o beat do feijão puro e morri de rir quando ele venceu de novo Me encantei pela sua energia e saúde. Que vitalidade aos 77 É impressionante E que liderança preparada pela história Pra vir falar de unidade e respeito aqui no Brasil Somos contra a violência e isso agora já é bastante Somos pela paz. Mas não somos pela dominação e nem pela subserviência. Porque o outro lado, insanamente, pede e endossa a violência como forma de poder. O poder armado. Os loucos querem que, por exemplo, num conflito de terras a solução seja imposta pelo lado que tem mais armas. Eles simplesmente querem a dominação dos mais poderosos sem contestação. E não é por outra razão que se dizem liberais na economia, porque simplesmente querem o poder econômico dos mais ricos, sem contestação. Essa força social e política que quer a imposição do poder a todo custo e projeta a violência como instrumento legítimo de opressão é o que se chama mesmo de fascismo. Que é certamente a forma final e degenerada do liberalismo no extremo das grandes crises econômicas e socio políticas do capitalismo. E neste aspecto é que derrotamos o fascismo como escolha política para o nosso país, até aqui. Derrotamos o fascismo com a escolha alternativa de esquerda, vermelha ou socialista, se vocês quiserem, e não com uma outra alternativa liberal ou de centro direita. E foi por isto que eu votei nesta eleição depois de quase 30 anos sem votar. E foi por isto que eu fiz campanha e estou aqui agora agradecendo ao Lula e à sua liderança. O discurso consciente e correto em todos os aspectos que ele fez ontem. Estamos no rumo certo, em uma circunstância difícil em todos os aspectos internos e externos. Mas não estamos mais no rumo do fascismo no centro do poder nacional. Sempre fomos uma sociedade fascista. E isso é quase que inevitável em sociedades de grande desigualdade social e sobre a base histórica da escravidão e genocídio de negros e dos povos originários. Essa é a nossa marca histórica e o poder sistêmico aqui sempre foi sustentado na violência ilimitada. Por exemplo, quando é que não teve tortura e assassinatos sistemáticos no conflito social do Estado contra certos grupos sociais e étnicos aqui no Brasil? Nunca. E várias outras formas de violência opressiva são aceitas naturalmente, são naturalizadas, aqui no Brasil, desde sempre. E é por isto que eu posso dizer que sempre fomos fascistas. E foi por isto que eu votei e fiz propaganda e me emocionei nessa eleição e estou aqui agora elogiando o Lula e o PT, sendo o velho anarquista que eu sou. Por que pode-se chegar ao anarquismo, teoricamente, ideologicamente, pela via da crítica ao Estado ou pela via da crítica ao Mercado e só se chega ao anarquismo, à teoria ou ideologia, verdadeiramente anarquista, quando, no extremo de uma crítica parcial, ao Estado ou ao Mercado, atinge-se a crítica simultânea de ambos, de Mercado e Estado. Mas o caminho real para a anarquia na realidade objetiva não pode ser o caminho liberal, pois este caminho é destrutivo a um nível insuportável para as nações e para a humanidade. É grande demais toda a destruição e o custo histórico que têm as grandes crises econômicas e as guerras, que surgem necessariamente em ciclos, episódicos, na economia e na geopolítica capitalista. Estamos agora em condição de ver historicamente esta questão de um prisma único após o imenso sucesso do socialismo chinês nos últimos 40 anos ou mais. Então já fica claro que não precisamos mesmo passar ou continuar passando pelos ciclos destrutivos extremos da sociedade capitalista e nem resolver as coisas pela guerra. E foi por tudo isto que eu votei de novo e fiz propaganda eleitoral e tudo. Não posso querer mais do que apenas isto. Não vamos mais no caminho do arrocho sobre os mais pobres e os trabalhadores em geral, nem do desmonte dos serviços públicos para a população. Não vamos mais no caminho do desmatamento da amazônia e da destruição do meio ambiente em geral. Não vamos mais no caminho da violência como solução para os conflitos sociais. Mas agora não dá para ser no ritmo que as coisas aconteceram nos governos anteriores. Temos que acelerar de modo Chinês. Aliás, é principalmente com eles que a gente deve contar mesmo. Não podemos ter medo de nos aproximarmos estrategicamente e em todos os aspectos daquele que já é o nosso maior parceiro econômico. Esse é o caminho estreito mas sem tanta destruição e sacanagem como foi até agora nosso caminho sob os imperios de Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos. A proposta da China é sempre de ganha ganha e de respeito à autonomia dos povos. Vamos ficar com esta base, por enquanto, ela é suficiente. Nosso caminho é democrático, Essa foi aliás, a escolha histórica que deu origem ao PT. Uma perspectiva de socialismo democrático em um país de extração colonial. Novidade histórica e estamos vivendo este caminho estreito, mas pelo menos agora, fizemos a escolha certa novamente. Por estreita margem e dentro de dificuldades sistêmicas muito grandes. Para simplificar e encerrar este texto, estamos na transição final do poder central ou polo de direcionamento maior da humanidade dos EUA para a China e, com isto, também na transição ou em um avanço a mais do socialismo mundial. Esta transição, como todas nesta dimensão, é carregada de tensões e dificuldades que facilmente desembocam em guerras. Mas a China é diferente dos EUA e o socialismo é diferente do capitalismo liberal. Agora podemos dar mais um passo no rumo certo também aqui no Brasil, dentro dessa estrutura de forças muito tensionada, quando justamente o pêndulo histórico que veio ao extremo do liberalismo, com suas grandes crises econômicas, seu fascismo, suas guerras, agora já está se revertendo no sentido do socialismo e da paz. E é neste movimento do pêndulo histórico mundial para o socialismo e a paz que a vitória do Lula pode ser percebida em sua maior relevância. Demos força a este movimento mundial e podemos estar contribuindo para abreviar e reduzir não apenas a miséria e a opressão no Brasil, mas também a destruição e a guerra capitalistas no mundo todo. E foi por isto que eu, anarquista que sou, votei com o Lula, depois de mais de 30 anos sem votar. E fiz campanha até onde eu pude também. Este é o melhor caminho. E precisa ser reconstituído. A ascensão do fascismo ao poder político no Brasil sempre tem o efeito pedagógico de nos mostrar como ele sempre foi e continua largamente disseminado e é prevalente em nossa sociedade. Acabar com o fascismo no BR não é apenas tirar o Bolsonaro da presidência e meter ele, seus filhos e toda a quadrilha de milicianos que os cerca e que matou a Mariele, por exemplo, na cadeia. Isto é certo, mas se não acabar com as torturas e mortes, com as chacinas e com o uso sistemático de violência como forma de poder e dominação no dia a dia, então o fascismo continuará vivo e predominando na nossa sociedade. É por este efeito pedagógico que eu sempre digo que sempre que a serpente do fascismo levanta a cabeça ela tem que ser decepada ou esmagada. Todas as vezes de novo. Agora já sabemos que a cabeça da serpente está em Bolsonaro e no poder miliciano, no campo e nas cidades, mas também sabemos que ela está, e quase sempre esteve mesmo, no controle político dos órgãos de classe e categorias profissionais do nosso país, assim como no controle econômico e ideológico de grande parte da imprensa, das redes sociais, das empresas, e igrejas no nosso país. Sim sabemos, sempre soubemos, que a doutrina dominante nos níveis de poder em grande parte destes setores é fascista. São pessoas abertamente a favor da opressão de minorias e do uso ilimitado e sem controle legal da violência dos poderosos no exercício da opressão. São pessoas que defendem e se posicionam aberta ou veladamente pela exploração e opressão sem limites sobre a base social e os grupos excluídos ou marginalizados aqui no nosso país. Ou são o poder dominante nas direções políticas e ideológicas nestes setores ou têm livremente espaço de voz e de disputa política nestes setores e instituições. Mas o fascismo não pode ser admitido para a disputa democrática e legítima em nenhum setor da nossa sociedade. Por exemplo, aceitar e incentivar uma polícia fascista, torturadora e assassina e o uso da violência armada pelos poderosos é algo que não pode ocorrer em nenhum fórum de uma sociedade democrática. Os fascistas e o fascismo têm que ser derrotados em todos os âmbitos sociais. E foi por isso que eu votei e fiz campanha para o Lula e o PT. Com tranquilidade e muita apreensão, mas sabendo que não fui omisso e nem comunguei com os fascistas e o fascismo jamais. Sempre com muito receio de que não conseguiríamos derrotar a compra de votos e o sistema de opressão, a máquina de poder e coação que os poderosos puseram em movimento de todas as maneiras nesta eleição. E, é óbvio, vão tentar ainda algumas coisas, mas não vão barrar a mudança. Essa pequena inflexão nós já conquistamos. E vamos adiante, com nossos corpos e sonhos, como se dizia antigamente.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

A eleição do governador do Rio tem algo a dizer


 Ele promoveu as maiores chacinas da história da cidade e foi eleito por isto.


Só pode haver uma razão para a maior parte dos eleitores fazerem esta escolha. A situação de violência, insegurança e medo cotidianos está em um nível tão absurdo que uma grande parte das pessoas sentem essas mortes em massa como algo positivo.


Elas sentem que a imposição de força pelo Estado, sem limite e sem lei, é melhor do que a imposição de força sem limite e sem lei por parte do crime.


Tem uma realidade muito miserável com um apelo emocional muto forte aí, mas também tem uma doutrinação ideológica constante, para que isto aconteça.


Parece que estas pessoas ignoram que a morte de índios, negros e favelados sempre foi uma estratégia política adotada aqui no Brasil. E parece que elas ignoram também que essa imposição de força sem limite e sem lei pelo Estado simplesmente não dá certo. Naquele mesmo local onde houve qualquer chacina destas e na cidade e no estado inteiros, as condições de violência, insegurança e medo vão continuar iguais eram antes. Chacinas já foram dezenas, centenas, já houve intervenção das forças armadas, torturas e mortes sem julgamento, assassinatos, portanto, são cometidos diariamente pelas forças policiais do Estado. E nada disto resolve.

Mas o povo, em maioria votou por mais disto.

E não vai dar certo de novo.


A esquerda parece que não tem nenhuma resposta a este estado de medo que a violência criminal e sua manipulação política e ideológica geram. As argumentações de legalidade e direitos humanos e as propostas de desenvolvimento social soam para a população, em estado de pânico manipulado política e ideologicamente, como defesa dos bandidos e complacência com o crime.


Ao ponto da esquerda terminar jogando no campo do adversário e se vendo aprisionada pela visão conservadora e fascista, onde ela só poderá perder.


Seja pela realidade ou pelo imaginário popular a questão da violência no Brasil e especificamente no RJ está ligada à questão das drogas.


E quem está no campo onde eu me encontro sabe bem do caráter opressor, discriminatório, abusivo e letal que o Estado costuma ter, sob a bandeira da política antidrogas. Eu sei, nós sabemos, que a chamada guerra às drogas é uma política fascista, sob alegações falsas de saúde pública e proteção das famílias. Não é com a violência policial, muito menos com a violência policial sem lei e sem limites, que podemos equacionar bem a questão das drogas para a saúde pública e para a segurança das famílias.

Mas parece que esta questão, pelo caráter emocional, pelo estado de pânico até, em que ela é constantemente tratada, torna-se um verdadeiro tabu, uma verdadeira kriptonita eleitoral.

Sorte que eu não sou candidato a nada e posso falar a verdade, sem me preocupar com a reação da população assustada.


Sim meus amigos, não há razão de saúde pública ou de segurança pública ou das famílias que justifique criminalizar as drogas. Pra começo de conversa, poucas drogas são mais perigosas do que o álcool e a nicotina. Poucas drogas podem provocar mais dano à saúde e à vida social e econômica das pessoas e das famílias do que o álcool e a nicotina. E com certeza a própria guerra às drogas provoca mais mortes e destruição de famílias do que aquelas que ela busca evitar. E não funciona.


Quando se fala que a questão das drogas é uma questão de saúde pública esta é uma verdade que não pode ser ignorada. De saúde pública, de saúde mental e de assistência social. Todo mundo que lida com dependentes químicos sabe disto. Criminalizar as drogas só aumenta a violência e dificulta os tratamentos.


A manipulação política e ideológica desta questão se dá de forma massiva e constante nos programas policiais disseminados pelas TVs e rádios de todo o país. Eles incentivam, diretamente ou veladamente, o ódio social e a violência policial. E também nas redes de mídia religiosa que também são totalmente disseminadas e fortemente incentivadas pelo poder público em todo o país.


Essa mídia e essa ideologia são amplamente difundidas se tornam prevalentes justamente em condições de violência e medo altos. Temos verdadeiros ciclos viciosos aí. Porque esta mídia se nutre, justamente, da violência e do medo. E, além destes ciclos viciosos da mídia, temos também os ciclos viciosos objetivos em que boa parte destes propagandistas antidrogas são usuários de drogas, assim como boa parte da polícia e do judiciário. Quem faz propaganda contra, quem prende e mata e quem condena. Boa parte é usuária de drogas proibidas. E boa parte está diretamente envolvida com o tráfico de drogas.


A guerra às drogas não funciona e nunca vai funcionar.


Ver uma esquerda progressista ou uma direita liberal defendendo isto é algo que me faz suspirar profundamente e firmar minhas forças porque sei que a batalha é grande e longa ainda. E no seu curso várias prisões, internações forçadas, torturas e outras formas de violência, mortes e chacinas desnecessárias vão continuar a acontecer.


Mas de alguma forma as sociedades humanas desenvolvem e fazem criticas dos seus erros e o futuro vem, por mais que os tabus e medos tentem impedir