sábado, 10 de janeiro de 2026

A GRANDE CRISE MUNDIAL Sala de Situação Abril 2025.

A GRANDE CRISE MUNDIAL Sala de Situação Abril 2025. Parte 1 As coisas estão num movimento intenso, no plano mundial, agora, mais do que em qualquer outro momento da minha vida. E não sou exatamente novo, tenho 61. Posso sentir a eletricidade do momento histórico na minha pele, o momento é crítico, é agudo, mas não necessariamente vai desembocar em uma grande guerra ou grandes guerras sucessivas. Da minha parte, pela minha formação, até, eu tenho a obrigação de analisar este momento, da forma mais séria, mais realista, mais concreta o possível. O que de fato está acontecendo agora. Porque idiotas e pilantras absolutos estão no poder nos países com maior renda percapita do mundo, hoje? Na aliança EUA-EU, propagadores da guerra anunciam todo dia o aumento dos gastos militares e o investimento nas mais poderosas armas que conseguirem. Isto não necessariamente vai terminar em grandes guerras, mas é um risco a mais, certamente. As grandes blitze tarifárias do governo dos EUA já são um ato de guerra e a guerra comercial contra a China já vinha de antes. Na verdade, o aumento de ações unilaterais e claramente imperalistas pelos EUA já vinha de anos anteriores e se acentuou gravemente no presente governo. Isto é correspondente à relativa decadência, à queda relativa do poder dos EUA no mundo nos últimos anos e décadas. Atos de força e violência são mesmo esperados na tentativa de impor e preservar um poder decadente, a partir de um certo ponto desta decadência. Tem algo mais determinante, no entanto, que vem antes na determinação deste momento crítico. É a crise econômica do fim da onda neoliberal. Isto tem muito pouca gente vendo. Praticamente ninguém, apesar de ser tão evidente. Às vezes o óbvio é tão claro que cega as pessoas, ou as pessoas estão cegas por outros fatores e não conseguer ver. Toda onda liberal no sistema econômico leva, inevitavelmente, a uma concentração da riqueza, progressiva e tendencialmente ilimitada. Isto está na essência da lógica econômica liberal e a história comprova. A onda neoliberal não foi diferente. Chegamos, agora, a um nível extremo de concentração da riqueza, nos países mais ricos, mesmo, até um ponto em que fica muito difícil a economia seguir girando. Uma crise de realização generalizada é esperada nestas circunstâncias. Em minha análise, já estamos nesta grande crise desde 2007. A solução liberal, ou natural, desta crise no sistema capitalista se dá através de grandes recessões, desemprego, empobrecimento, quebras de setores da economia e grandes crises sociais, incluindo guerras. Neste momento as decisões mais estúpidas, improvisadas, arriscadas e destrutivas serão, necessariamente, tomadas, sempre levando, ao fim, a fracassos e à recessão. A crise atual está, no entanto, controlada, ainda, pelos mecanismos anticíclicos, de regulação da economia e de proteção social, mas eles estão se esgotando e a crise só será superada, de fato, com a redistribuição da riqueza e o maior controle social da produção, quer dizer, com uma nova onda socializante no sistema, como ocorreu no século passado, mesmo que para isto tenhamos que passar pela imensa destrutividade das grandes depressões e guerras, que irão necessariamente ocorrer enquanto persistirem no caminho liberal. Se não entendemos esta condição econômica de base, não podemos entender o risco crescente de guerras, ou o ascenso da uma extrema direita neofascista, onde despontaram, em algumas partes do mundo, clowns cínicos, bandidos e canalhas explícitos como líderes políticos que, enfim, falam "a linguagem do povo". Um povo que, nos próprios países ricos, ficou à margem ou usufrui realmente muito pouco do grande desenvolvimento tecnológico da onda neoliberal, sobretudo nesta fase final, que está mais pobre e sem perspectivas do que há décadas atrás e que está doutrinado a direcionar suas frustrações contra um inimigo forjado, seja a ideologia queer, sejam os globalistas, sejam os migrantes ou um país estrangeiro. Estas figuras estúpidas, grosseiras, violentas e grotescas que passaram a ocupar o cotidiano político no mundo ocidental, sobretudo, são um produto e um veículo da crise econômica. Seu desígnio é levar, impor, forçar, a doutrina liberal, mesmo quando ela só pode levar ao aprofundamento da crise, que já está no seu extremo. São as bestas do apocalipse, mesmo. E são personagens inevitáveis em uma situação como esta em que estamos. Dentro da lógica econômica liberal a crisa precisa ser aprofundada, para ser resolvida. Eles são veículos para acelerar isto. Sejam os perfumados da democracia europeia ou os fedorendos das Américas. São os líderes da crise, da recessão e da guerra. A doutrina liberal é a doutrina própria, profunda ou essencial do capitalismo e eles, até acertadamente, apontam tudo o que sai deste caminho, estreito e estúpido, como sendo socialismo. Estão certos, porque tudo isto é mesmo uma forma de negar, de superar, ainda que de maneiras limitadas e ainda afirmativas do capitalismo. E estas medidas, socializantes, dentro do capitalismo são, na verdade, salvadoras para o capitalismo e também partes importantes do processo de superação do capítalismo. Desde as primeiras conquistas de direitos coletivos dos trabalhadores, desde o primeiro ato de seguro dos depósitos bancários, desde desde as primeiras ações afirmativas, de reparação e promoção social, estamos saindo do capitalismo, mesmo que sejam estas medidas justamente que estão salvando o capitalismo das crises mais extremas e destrutivas, ainda hoje. E acontecerá assim novamente. As tentativas de manutenção, a todo custo, da ordem, da ideologia liberal, no sistema capitalista mundial, resultarão em ainda mais derrotas, em mais fracassos econômicos e geopolíticos dos países mais ricos do sistema. Ainda que, imediatamente possam ser ou parecer ser vitórias da doutrina liberal e da hegemonia dos ricos. É da lógica mesma desta condição que, pressionados ao limite, estes líderes, que agora falam em paz, serão os maiores arautos da guerra. Em contraposição, o sistema econômico tem, já, na China, socialista, um ponto de apoio suficiente, para ultrapassar esta crise do fim da onda neoliberal de modo menos destrutivo do que foi ao fim da onda liberal no século passado. Assim como vários analistas, eu entendo que, sem guerras de destruição planetária, já não é possível evitar a hegemonia da China no sistema capitalista mundial, ela já é real em tantas áreas, na indústria e no desenvolvimento técnico-científico. Enfim, temos claro, pelo menos, que viveremos um período de hegemonia dividida entre os dois grandes polos, China e EUA. Os EUA, representando, no entanto, a poder que está sendo superado, que hoje investe na imposição de força e na quebra dos sistemas de controle transnacionais. A vitória da China nesta guerra comercial, que já aparece bastante segura, também acelerará a superação de tudo isto, enormemente, e terá que levar rapidamente, também, a novas estruturas, novos sistemas, de gestão transnacional da economia mundial e melhor distribuição de renda, e da riqueza e do poder real, no mundo e também dentro das sociedades. Posso dizer isto pelo histórico recente da China, seja no plano geopolítico e estratégico em nível mundial, seja pelo prisma, mais do que fundamental, e sempre esquecido ou negado sob a ideologia liberall, da distribuição de riqueza. É fato que na onda neoliberal a concentração de riqueza na China cresceu exponencialmente, atingindo níveis muito próximos daquela dos EUA, mas desde 2014 parou de crescer e recentemente começou a regredir na China, enquanto persistiu aumentando nos EUA. A tendência, na China, é de maior redistribuição com um foco mais intenso no consumo doméstico, enquanto nos EUA, agora, os bilionários lutam com garras e dentes para manterem e aprofundarem seus ganhos, socializando as perdas. Seja como for, é sempre bom lembrar que países como o Brasil e vários outros da América Latina têm concentração de riquezas muito maior do que aquela da China ou dos EUA. O TARIFAÇO DOS EUA E A CRISE MUNDIAL Sala de situação Abril, 2025 - Parte 2 A guerra econômica contra a China e o tarifaço generalizado do governo dos EUA constituirão, sem dúvidas, marcos importantes na história mundial contemporânea, porque marcam uma etapa, um momento muito significativo, na intersecção de três crises de alta magnitude sísmica no sistema econômico mundial. A crise final da onda neoliberal, a crise da hegemonia dos EUA e a crise do próprio sistema econômico capitalista mundial. Depois de muitas idas e vindas, enfim, até o presente, houve um grande aumento generalizado da tarifa de importação dos EUA, contra todos os países, com isenções parciais para apenas alguns produtos tecnológicos e que talvez se estendam para o setor agrário e outros. A China foi o alvo principal do tarifaço estadunidense, a mais atingida, diretamente, com a tarifas de 145% e, indiretamente, com algumas tarifas especiais "do fentanyl", contra as importações do Canadá e do México, que vinham se tornando plataformas da exportação chinesa para os EUA. A China retaliou na mesma moeda, estabelecendo-se, ao fim, tarifas proibitivas, de lado a lado, promovendo, imediatamente, um bloqueio em grande parte do comércio entre os dois países, as duas maiores economias do mundo. Isto romperá, ou tornará mais difíceis, mais custosas, várias cadeias produtivas, mundo afora. Esta guerra tarifária instituída pelos EUA é, certamente, um dos atos mais dramáticos da grande crise da onda neoliberal, a sua crise final, em que nos encontramos agora. Trata-se, sem dúvida, de um choque recessivo sobre a economia mundial, em geral, e sobre a economia dos EUA, em particular. Este é mais um exemplo de que nos momentos agudos das grandes crises econômicas as maiores irracionalidades, por mais improvisadas, ineficazes, irresponsáveis e disfuncionais que sejam, podem ser implementadas, resultando sempre em queima de capital, quebra de parcelas da economia, recessão, enfim. Quarentenas nacionais por meses sem fim, guerras comerciais e guerras reais, por exemplo, tornam-se muito mais aceitáveis nestes momentos. Tudo isto leva a um fim comum: à recessão. Porque, na lógica interna do sistema capitalista, a recessão, a grande crise recessiva, precisa acontecer, necessariamente. A recessão é a resolução, aguda, destrutiva de uma crise sistêmica na economia capitalista liberal, o caminho que as coisas têm que tomar, naturalmente, dentro deste sistema, até que a crise de fato se resolva. Estamos numa destas grandes crises no sistema capitalista mundial, atingindo, mais especificamente e fortemente, os seus centros hegemônicos, até então, aqueles que constituem a grande aliança de poder mundial em torno dos EUA. A crise atual ocorre no fim de uma fase, de uma onda, de predomínio liberal no sistema, com o aumento persistente e progressivo da concentração de renda, até chegar aos níveis em que a realização do capital passa a ser marginalmente inviável, assim como foi a grande crise do século passado e é natural que ocorra periodicamente no sistema capitalista. Estamos, hoje, em praticamente todos os países do mundo, nos níveis mais altos de concentração da riqueza, níveis tais que, progressivamente, estão tornando a realização dos investimentos mais difícil e mais dissociada dos interesses e necessidades populares. Esta é a razão fundamental da crise em que nos encontramos desde 2007, marcando o fim da onda neoliberal na economia mundial. Isto parece tão evidente que não deveria ter que ser provado, mas, incrivelmente, parece estar sendo generalizadamente ignorado. De algum modo, parece que isto não pode, ainda, ser devidamente reconhecido. Para ser mais preciso, estamos, agora, no início do ponto máximo desta crise de fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Mas, ela está, ainda, muito controlada, mitigada, abafada, pelas medidas anticíclicas e de proteção social, largamente postas em movimento, em vários momentos, desde 2008. Ainda bem que, há muito tempo, pelo menos desde a segunda metade do século passado, certamente não vivemos mais em uma economia propriamente liberal, no capitalismo mundial. Mesmo com a onda neoliberal, vivemos, hoje, em um sistema muito menos conservador liberal, ou seja, muito menos capitalista, ou muito mais socializado, do que nos fins do século 19 e na primeira metade do século 20. Não fossem os recursos anticíclicos regulatórios e de proteção social e o custo econômico e humano desta grande crise atual já teria sido muito maior. Mas, estes recursos não foram e não serão, jamais, suficientes para reverter e resolver a crise, de fato. Isto só poderá ser alcançado, como foi no século passado, com uma, nova e maior, inflexão socializante no sistema capitalista mundial, com progressivos ganhos reais de renda e recursos para a população trabalhadora e com maior coordenação da economia mundial. O tarifaço e a política geral do atual governo dos EUA, com cortes drásticos em serviços públicos, jogam no sentido exatamente oposto, de dissociação das economias, no plano mundial, e de mais perdas de renda e recursos para as classes populares, internamente. Não só nos EUA, mas em todos os antigos centros de poder do mundo capitalista, estamos chegando em limites insustentáveis para a implantação de novas medidas anticíclicas eficazes. Os orçamentos públicos já estão muito pressionados e o mau uso dos recuros de socorro, que foram anteriormente lançados na economia, levou a uma concentração ainda maior da riqueza no interior destes países. Em geral, a política dominante entre eles, hoje, é, realmente, de conteção e corte das despesas com os serviços e recursos populares e aumento de gastos militares. Certamente, já não há mais muita margem para medidas anticíclicas num contexto destes. Contudo, o povo nestes países já vem perdendo capacidade de consumo e qualidade de vida há anos, décadas até. Impor mais perdas não vai ser fácil. E não vai resolver a crise. Ao contrário, ações assim só a aprofundam e aceleram, imediatamente, criando um ciclo vicioso destrutivo, intensificando também o risco dos maiores conflitos e perdas sociais, seja pela recessão, seja por guerras. Todas estas ameaças e riscos se tornam cada vez mais prováveis, mas, não tenho dúvidas que a crise atual do sistema capitalista mundial só será resolvida com o avanço, e não com o retrocesso, da socialização e mundialização da produção e da vida social e entendo que, efetivamente, isto já está em curso, representado, justamente, sobretudo, pela ascensão da China socialista e pelo seu papel numa nova economia mundialmente integrada. A transição da hegemonia mundial e a transição histórica profunda Sala de Situação, Abril 2025. Parte 3 Tudo indica que já é tarde para se conter o avanço chinês nos planos econômico e geopolítico mundiais e as tentativas de demonstração de força do império estadunidense resultam no aprofundamento e na exposição mais evidente da sua fraqueza relativa. Na improvisação, o governo dos EUA muda o decreto do tarifaço a todo momento, mas, uma coisa é certa, ele representa uma ruptura dos EUA com a ordem econômica que vigiu até aqui, fortemente desenvolvida justamente no curso da onda neoliberal e sob a hegemonia deles. Com isto, estão se levantando suspeitas generalizadas contra a liderança, a estabilidade e a confiabilidade dos EUA, em termos econômicos e estratégicos mundiais. Isto só intensifica a desconfiança na moeda e na economia dos EUA, em geral, e acelera a redução da posição da sua dívida pública e do dólar nas funções de reserva e de padrão monetário, mundiais. Estas tendências já estavam em curso e, agora, inevitavelmente se aceleraram muito. A queda relativa do poder econômico dos EUA terá que ser acompanhada da queda do seu poder geopolítico. A arrogância estúpida que os EUA demonstram agora, seja na arena econômica, seja na cena política, as reações destemperadas do governo americano, o seu tom impositivo e intimidador para com todos os outros países, tudo isto se parece com os rugidos de um leão velho, que já sentiu que é incapaz de deter o tempo, apesar de ainda poder amedrontar e ferir. Quem perde o poder costuma reagir com desespero, realmente, mas, também pode aprender a conviver com a divisão de hegemonia no mundo real. E isto também já está a caminho. O tarifaço quebrou parte da confiança nos EUA e terá, sem qualquer dúvida, o efeito de reduzir o crescimento econômico no país, eventualmente de jogá-lo na recessão. Como resultado destes atos tresloucados, o mundo se dissociará mais dos EUA e, inevitavelmente, se aproximará mais da China. Isto já está acontecendo. Ainda bem. Enquanto os EUA forçam para desintegrar as instituições mundiais e desestabilizam os mercados mundiais, a China está construindo a maior rede internacional de transportes e estruturas produtivas de toda a história. Parece que os EUA estão sonhando em fazer uma reindustrialização dos anos 1970 e enquanto isto a China está tomando a liderança da inovação tecnológica em todas as áreas. Enquanto os EUA estão desestruturando e reprimindo as suas universidades, a pesquisa e o ensino, em geral, a China está assumindo a dianteira segura na pesquisa científica mundial. É inevitável perceber a transição da hegemonia mundial e já é possível visualizar a transição histórica profunda que isto representa. O império dos EUA lideraram um certo nível de globalização, de integração mundial da produção, das finanças e da vida social, intensificada com a onda neoliberal, que, no entanto, nos trouxe à mais extrema desigualdade social e a esta grande crise econômica e social atual. A China socialista, por seu turno, praticamente já lidera a integração da produção mundial em um novo nível, muito superior, com uma economia voltada para a prosperidade comum e investindo maciçamente na logística de transportes e comunicação em todo o mundo, com uma perspectiva geopolítica de respeito às especificidades locais e pela formação de parcerias econômicas com ganho mútuo. O tarifaço é mais um ato que marca, que define e que aprofunda, esta substituição da grande locomotiva da economia mundial. Estamos vendo isto acontecer diante dos nossos olhos. A China representa a força ascendente mas, por um tempo longo para as nossas vidas, ainda que um curto período histórico, teremos que viver, inevitavelmente, em um mundo sob forte disputa bipolar, com os dois sistemas integrados, mas em competição e confronto muito mais acirrados, porque mais desenvolvidos e decisivos historicamente, do foram aqueles da aliança de poder dos EUA contra a URSS e seus aliados. A contradição se torna mais aguda, mais intensa. O mundo altamente integrado da economia mundial atual, muito mais do que no período soviético, terá, no entanto, que se desenvolver, agora, dentro desta nova tensão bipolar, tornando cada vez mais inevitável escolher entre um dos dois sistemas em disputa cada vez mais aberta e intensa. Já era assim, em grande medida, e agora ficará ainda mais. A posição da multilateralidade por princípio é acertada, mas não resolve o problema e, de fato, tanto o estado quanto os agentes econômicos dos diversos países vão ter que fazer estas escolhas binárias, em várias áreas estratégicas, entre os dois países e sistemas. É certo que o multilateralismo, até agora, teve sempre uma dimensão de farsa, assim como a democracia capitalista sempre tem um tom de farsa, já que o poder efetivo se impõe, no interior dos países e na ordem mundial. A atual aparente grosseria do governo dos EUA, compatível com a dimensão extrema da crise, apenas escancara isto, chamando a realpolitik ao mundo, mais uma vez. Seja como for, desconsiderada a hipótese da guerra absoluta, cujo resultado de extrema destruição não permite prever vencedor, a tendência é que a economia chinesa se sobreponha cada vez mais aos EUA, pelo próprio oportunismo inerente ao mercado capitalista. Além disto, dadas as condições objetivas de integração mundial atuais, também é certo que a resolução deste novo confronto bilateral, pela hegemonia mundial, levará a um nível mais alto e verdadeiro de multilateralismo, ou, melhor e mais precisamente, de efetiva mundialização. A CRISE ATUAL E O PROCESSO DE SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO Sala de Situação Abril 2025. Parte 4 Assim chegamos à terceira crise que confere dimensão histórica especial ao tarifaço do governo dos EUA e à sua guerra econômica contra a China. As tendências principais, ou, certamente, as mais inquestionáveis, impostas ao processo histórico pelo mecanismo capitalista, são aquelas de desenvolvimento da produção e da produtividade humana, de desenvolvimento da produção científica e tecnológica de massas e de mundialização, com progressiva integração, a nível mundial, da economia, das finanças, da produção, e da vida social, em geral. À custa de crises econômicas terríveis, de guerras e todo tipo de barbárie e destruição, o capitalismo cumpre o seu desígnio deste modo. Até o ponto em que este próprio desenvolvimento levará à superação do modo de produção capitalista. E isto também já está em curso. Não pode haver dúvida real da existência de uma inflexão socializante, seja sob qual for a bandeira política ou ideológica, em todo o sistema capitalista mundial, a partir dos anos 1930 e, sobretudo, a partir do fim da grande guerra do século passado. Mesmo com a onda neoliberal, grande parte dos recursos de proteção social, de regulação dos mercados e anticíclicos, desenvolvidos deste então, estão aí em pleno funcionamento e se desenvolvendo. Não fosse isto e a crise mundial estaria muitas vezes pior neste momento. Do ponto de vista ideológico, no entanto, muitas visões, de diversos espectros políticos, realmente consideraram as vitórias políticas e a globalização neoliberais como uma derrota cabal, ou quase isto, do movimento socialista. A derrocada completa do comunismo soviético, ainda no início do período neoliberal, parecia ter selado, inapelavelmente, esta via, às custas de uma das maiores tragédias sociais dos últimos tempos, com grandes aumentos, absurdamente altos e duradouros, da mortalidade na grande maioria das antigas repúblicas soviéticas e adjacências, ao longo da década de 90. Algo verdadeiramente impensável com a tecnologia e o nível cultural deles, naquela época. Mas, deram em um beco sem saída. O comunismo, ali, foi sacrificado e o povo punido, amargamente. Foi, no entanto, um sacrifício estratégico, como no golpe de sacrifício no judô. A superação completa do capitalismo só poderia ser atingida após um processo de transição ainda longo, sobretudo se considerarmos o desenvolvimento da produtividade no mundo naquela época e, particularmente, nos países "comunistas" de então. Além disso, ela jamais aconteceria, ou acontecerá, em um só país, ou apenas em um grupo de países secundários na economia mundial. Hoje é bem mais fácil reconhecer estes pontos, a história da China nas últimas décadas é a evidência maior e, agora, o socialismo, que ficou derrotado naquele momento, já derrota o capitalismo dos EUA, em todos os campos relevantes do próprio capitalismo. É preciso reconhecer, a história agora demonstra, portanto, que o socialismo é, tem que ser, necessariamente, ainda, capitalismo. É o processo e a fase histórica final de superação do capitalismo, o momento mais crítico, mais intenso, extremo e desenvolvido da contradição capitalista, cujo processo de resolução coincidirá, em grande medida, com o processo de mundialização progressiva da vida humana. O processo de superação final do capitalismo deverá se dar por um período socialista ainda relativamente longo, em que o capitalismo se encontrará em suas contradições mais extremas. Por mais extremas, intensas e críticas eu não quero dizer necessariamente, nem objetivamente, mais violentas ou mais destrutivas, ao contrário, até. É possível, como disse um poeta, que este mundo acabe não com uma grande explosão, mas com uns gemidos, apenas. Neste longo período socialista, que, de certo modo, apenas começa agora, mas no qual avançamos progressiva e aceleradamente, a economia se integrará mundialmente, ainda mais e mais conscientemente, e as forças produtivas continuarão a serem desenvolvidas de modo ainda mais intenso e muito mais seguro, com muito melhor controle das crises e desvios do mercado, com progressiva coordenação mundial. Estas me parecem, realmente, projeções seguras das linhas de tendência predominantes no curso da história do sistema capitalista contemporâneo. Mas devo reconhecer que o fim destas projeções ainda é distante no tempo histórico e, portanto, elas podem ser tratadas como apenas ideologia. E não há nada de errado nisso. Que seja então, uma ideologia. Se você tem outra melhor, que apresente.

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