domingo, 14 de agosto de 2022

EPIDEMIOLOGIA DA MORTALIDADE DA COVID

Epidemiologia da Mortalidade por Covid até Agosto de 2022


Assim que a epidemia de Covid surgiu, em fins de 2019, início de 2020, na China, e iniciou a sua disseminação mundial, surgiu também a ideia, logo amplamente acatada no mundo ocidental, de que, antes da vacina,

a principal forma de se prevenir a propagação da doença e seu rastro trágico de mortes, seria o isolamento social.

Essa ideia foi difundida como uma verdade cientificamente comprovada, especialmente a partir de uma publicação do Imperial College of London (Report 9: Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand - Março, 2020), bem no início da pandemia e foi progressivamente adotada, de um modo ou de outro, pelos países ocidentais em geral.

Como afirmam os autores de artigo atual sobre o tema, no Brasil:

“Desde o início da pandemia, as autoridades de saúde pública do Brasil recomendam a adoção de medidas para evitar a propagação do vírus, como o distanciamento social, isolamento dos casos confirmados da doença, higiene das mãos e uso de máscaras. Porém, a principal estratégia para diminuir o número de casos e mortes pela Covid-19 foi o fechamento total ou parcial de locais que reuniam um grande número de pessoas, tais como escolas, estabelecimentos comerciais considerados não essenciais, fronteiras e cancelamento de eventos públicos”. (Adesão ao isolamento social na pandemia de Covid-19 entre professores da educação básica de Minas Gerais, Brasil – Saúde e Debate, Março, 2022).

Deve-se destacar que nos países do mundo ocidental, Europa e Américas, em geral, essas medidas de isolamento social, representando uma quarentena generalizada, de praticamente toda a população do país, foram recomendadas e sua implantação foi de fato tentada, sem prazos definidos, ou seja, por período indefinido, até que se tivesse vacinação em massa contra a doença.

Deve-se destacar também que entre as medidas citadas pelos autores no trecho acima, como recomendadas pelas autoridades no Brasil, não consta a testagem em massa. Não consta a testagem, de modo algum. E isto não é um lapso imperdoável dos autores. Infelizmente, é muito pior. Este foi um erro estratégico real das autoridades de saúde pública no nosso país. Não houve, é claro, nenhuma estratégia de testagem implantada no Brasil, nem a nível nacional nem em outro nível populacional qualquer.

Parece razoável concluir, aliás, que a negligência com relação à importância da testagem na estratégia de prevenção foi estimulada, ou até em parte determinada, pela estratégia de isolamento social geral, de quarentena generalizada por tempo indeterminado. A estratégia de testagem parece mesmo menos importante se realmente tivermos um isolamento geral. Não é de se estranhar que o referido artigo referencial do Imperial College, por exemplo, não faz uma mínima consideração sobre o impacto potencial da testagem em massa como estratégia central na prevenção da epidemia.


A adoção destas medidas de isolamento social, ou quarentena generalizada, em um país, por tempo indefinido como o eixo ou núcleo de toda a estratégia, ou, pelo menos como a medida principal, para o controle da epidemia antes da vacinação em massa, tinha dois ou três pressupostos que devem ser considerados:
1. Essas medidas seriam efetivas para a prevenção da epidemia. Isto quer dizer, que elas seriam aplicáveis na realidade e teriam os efeitos esperados.
2. O dano potencial ou real provocado pela epidemia superaria, em muito, o dano causado por estas medidas de isolamento por tempo indeterminado

3. Essas medidas de isolamento social seriam as únicas, as essenciais, ou, pelo menos, seriam muito mais eficazes do que quaisquer outras que pudessem ser adotadas em seu lugar.

Na verdade esses pressupostos da proposta foram assumidos imediatamente ou progressivamente como certezas cientificamente comprovadas. Apesar de não se ter objetivamente quase dado algum para sustentar estas certezas. E apesar de até mesmo a OMS indicar, ainda no início da pandemia, a testagem como o centro de qualquer estratégia de prevenção.

Na época parecia impossível, e ainda hoje talvez seja, alguém se contrapor a estas certezas midiáticas. Ainda mais pelo caráter político ideológico que elas tomaram na ocasião, sob o impacto aterrorizante de um crescente de mortes causadas pela epidemia. Por motivos que não cabe avaliar agora, apenas a direita e até mesmo apenas a extrema direita combateu diretamente o isolamento social no mundo ocidental. E quem, de outro matiz ideológico também se contrapôs, foi taxado como fascista, na ocasião. Mas agora já temos um conjunto de dados de realidade de mais de dois anos e meio de pandemia, com realidades completamente diferentes entre os diversos países no mundo. Talvez a gente consiga olhar para estes dados com a intenção investigativa e simplesmente perguntar o que eles nos dizem.

Os objetivos das medidas de prevenção eram basicamente diminuir a transmissão e assim o número de casos novos e mortes. Não podemos considerar os dados de números de casos como definidores para a avaliação do impacto de qualquer medida de prevenção neste caso, porque os recursos e as formas de diagnóstico e testagem foram e são muito diferentes nos diversos países mundo afora. Parece mais razoável nos fiarmos nos dados de mortalidade, mais seguros e definidores, de fato, do impacto final da pandemia, ainda que também com um bom potencial de questionamento e divergências.

Por isso concentro a análise abaixo apenas nos dados de mortalidade.

.

Desde o início da pandemia, até 13 de Agosto de 2022, ou seja, em mais de dois anos, o número total de mortes associadas à COVID no mundo foi de 6,4 milhões (Fonte: Johns Hopkins Coronavirus Resource Center). Ou seja, menos de 3,2 milhões por ano. Isto é bastante similar ao total de mortes que ocorrem todos os anos por pneunonia. E está vários milhões abaixo das mortes anualmente causadas por Infarto ou derrame (mais de 10 milhões cada).

A população mundial é hoje de 7.9 bilhões de pessoas. A taxa de mortalidade associada à COVID é, foi, portanto, menor que de 0,4 / 1000 pessoas por ano.

Já o total de mortes anuais é de 60 milhões em todo o mundo e, portanto, a taxa de mortalidade geral no mundo é próxima a 8 / 1000.


Estes são os dados e a realidade no mundo após 30 meses da pandemia.

O seu impacto, sintetizado na mortalidade, é equivalente àquele que ocorre anualmente causado pela pneumonia e várias vezes menor do que aquele causado todo ano pelas doenças cardiovasculares.

O que essa informação nos serve é para pensar se diante deste risco, do risco deste dano, as medidas de quarentena generalizada por tempo indeterminado seriam justificáveis. Avalie por você mesmo.

Duas informações adicionais devem ser contrastadas com essa para que se possa fazer uma boa avaliação realmente.

Primeiro é o custo social, humano, econômico, de saúde e para a vida das pessoas em geral que estas medidas impuseram. A quebra de cadeias produtivas, a recessão generalizada, o desemprego, os aumentos da pobreza e da miséria, a perda educacional, as descontinuidades e atrasos em diversos tratamentos, as rupturas sociais e o sofrimento psíquico etc. Os danos causados pela pandemia e os seus riscos, eram ou foram ou ainda são, tão maiores que estes do isolamento social generalizado por tempo indeterminado, de modo a justificá-los? Ou estas medidas de fato causaram e causam mais danos do que benefícios?

A segunda informação ou questão que deve ser considerada é qual a efetividade real das medidas de isolamento assim adotadas? Qual terá sido o real impacto destas medidas na disseminação da doença? Qualquer um que esteve no Brasil ou na Índia, ou em algum país da Europa nesta época, pode, com certeza, indicar um grande conjunto de falhas nas medidas de isolamento social em seu país. Falhas graves, continuadas e reiteradas que comprometeram de fato o isolamento social no país, constantemente. Mas, mesmo assim, acreditam piamente que o isolamento foi o fator mais importante para a prevenção da propagação da epidemia. Argumenta-se, portanto, que uma mortalidade maior foi evitada pela estratégia de isolamento social generalizado até a aplicação em massa das vacinas. Mesmo com tantos furos e a virtual impossibilidade de uma boa aplicação desta ideia na prática, o isolamento generalizado, a quarentena de toda a população, por tempo indeterminado, até a vacinação, foi difundida e adotada, em países ocidentais, na Europa e nas Américas, como a firme posição científica sobre a questão e, na medida em que foi aplicada, deve ter reduzido de algum modo a mortalidade pela epidemia.


A mortalidade é, com certeza, uma expressão sintética destes resultados, onde a prevenção foi mais efetiva a transmissão deve ter sido menor e a mortalidade também, consequentemente.

Contudo, quando olhamos para a epidemiologia desta mortalidade, em sua distribuição por países, não parece haver a menor consistência na ideia de que estas medidas impactaram de modo realmente efetivo a epidemia no mundo.


Considerando-se os 30 piores desempenhos neste indicador a gente vê o seguinte retrato

COUNTRY

DEATHS/100K POP.

Peru

651,74

Bulgaria

539,47

Hungary

486,17

Bosnia and Herzegovina

485,92

North Macedonia

451,86

Montenegro

439,13

Georgia

423,07

Croatia

401,24

Czechia

379,44

Slovakia

372,35

San Marino

347,69

Romania

344,69

Lithuania

339,05

Slovenia

324,35

Brazil

320,50

US

314,75

Chile

313,50

Latvia

313,28

Poland

308,48

Greece

304,34

Armenia

291,47

Trinidad and Tobago

290,89

Moldova

289,55

Italy

287,54

Argentina

286,40

Belgium

281,61

Colombia

277,67

United Kingdom

275,16

Paraguay

271,39

Ukraine

266,40

Fonte: Johns Hopkins Coronavirus Resource Center


O que me chama mais a atenção neste grupo de piores resultados é:

A presença de países da Europa e Américas, exclusivamente.

A grande presença de países ricos, com alta renda per capita e melhores serviços de saúde em geral.
A presença de vários países da América do Sul.
Uma grande concentração de países do Leste Europeu no pior nível.
Os resultados do Brasil, entre os piores do mundo e muito próximos daqueles dos EUA.

Não parece razoável atribuir às medidas de isolamento social um peso predominante no pior desempenho destes países. Ainda que, até tautologicamente, em condições iguais, onde a prevenção foi pior realizada os resultados devem ser piores.

O que se pode dizer, com boa dose de certeza, é que este grupo de países não se destaca negativamente por terem negado a estratégia de quarentena generalizada com isolamento social por tempo indeterminado. Ao contrário, parece que a maioria destes países tentou, de um jeito ou de outro, justamente, a prevenção da pandemia através desta estratégia.


Considerando-se 30 países com resultados medianamente satisfatórios

Sri Lanka

77.59

Belarus

75.33

Cuba

75.30

Cabo Verde

73.74

Norway

70.72

El Salvador

65.01

Mongolia

64.76

Iraq

62.96

Kuwait

59.99

Indonesia

57.47

Maldives

56.79

Philippines

55.62

Iceland

52.45

Brunei

51.43

Australia

50.35

Korea, South

49.87

Kyrgyzstan

45.84

Thailand

45.56

Vietnam

44.27

Morocco

44.07

Nepal

41.13

Dominican Republic

40.41

Taiwan*

39.35

India

38.19

Zimbabwe

37.59

New Zealand

36.31

Burma

35.72

Sao Tome and Principe

34.68

Palau

33.32

Lesotho

32.86

Fonte: Johns Hopkins Coronavirus Resource Center


Chama a atenção a imensa distribuição geográfica destes países de resultados medianos, um pouco abaixo do resultado mundial global de 80 óbitos por 100 mil habitantes, desde o início da pandemia.

Novamente é muito difícil e, provavelmente falseador, tentar atribuir estes resultados predominantemente à estratégia de quarentena generalizada com isolamento social por tempo indeterminado, até a vacinação.
Ao contrário é possível identificar neste grupo estratégias bem divergentes, com relação ao isolamento social. A Nova Zelândia foi reconhecida como exemplo de estratégia de sucesso baseada no isolamento social generalizado e por tempo indeterminado, ao passo que para países como a Islândia, Belarus, Índia, Vietnã, por exemplo, não parece justo dizer que a estratégia central de prevenção foi esta.


Considerando-se os 30 países com os melhores resultados

Sudan

11.31

Kiribati

11.05

Kenya

10.55

Laos

10.40

Timor-Leste

10.24

Guinea-Bissau

8.84

Somalia

8.56

Uganda

7.93

Papua New Guinea

7.41

Haiti

7.35

Cameroon

7.28

Yemen

7.22

Mozambique

7.10

Congo (Brazzaville)

7.00

Ethiopia

6.58

Angola

5.83

Liberia

5.81

Madagascar

5.09

Uzbekistan

4.89

Vanuatu

4.78

Ghana

4.69

Nicaragua

3.68

Mali

3.65

Guinea

3.40

Togo

3.39

Cote d'Ivoire

3.09

Eritrea

2.90

Bhutan

2.72

Central African Republic

2.34

Burkina Faso

1.85

Sierra Leone

1.58

Congo (Kinshasa)

1.55

Nigeria

1.53

Tanzania

1.41

Benin

1.34

Tajikistan

1.31

Niger

1.28

South Sudan

1.23

Chad

1.17

China

1.05

Burundi

0.32

Korea, North

0.02

Fonte: Johns Hopkins Coronavirus Resource Center


Quando se chega aos melhores resultados, novamente não parece que estes resultados devam ser atribuídos a uma adoção especialmente bem realizada da estratégia de quarentena generalizada com isolamento social, por tempo indeterminado.

Chama a atenção a grande concentração de países da África, com alguns poucos países do Oriente e menos ainda da América. E chama atenção também o excelente resultado da China.

Com certeza não se pode atribuir os melhores resultados neste grupo às medidas de isolamento social que eles teriam implantado e executado melhor do que os outros durante a pandemia, até hoje. Com certeza não foi este o fator predominante da grande presença de países africanos nem dos excelentes resultados da China. Ainda que a China tenha o padrão mais rigoroso de controle da pandemia (O Covid zero, criticado pelo mundo ocidental e pela própria OMS), ele não foi baseado em quarentena generalizada com isolamento social nacional por tempo indeterminado. Não, ele foi baseado em testagem em massa, identificação e isolamento precoce de casos, rastreio de contatos, controle rigoroso de alfândega e lockdowns isolados em bairros ou cidades. Essa metodologia, por mais criticável que seja, e eu sou crítico a ela também, foi, é muito mais efetiva e com muito menor custo do que aquela preconizada e adotada no mundo ocidental.

Pode-se criticar as análises acima indicando que eu estaria comparando coisas diferentes, pois as realidades sociais, demográficas e étnicas seriam muito diferentes nestes diversos países. E poderíamos também levantar várias hipóteses sobre o impacto de cada uma destas diferenças nos resultados.
Mas tudo isto só reforça a minha tese de que, ao nível de países, não se tem evidência empírica suficiente para se atribuir benefício real na prevenção à pandemia pela adoção das medidas de isolamento social (quarentena generalizada) por tempo indeterminado.

Talvez alguém considere ainda que o melhor seria comparar unidades menores, como cidades ou pequenos territórios que implantaram medidas de isolamento social com outros que não implantaram. Mas, é acertado considerar estes dados ao nível de país, pois, esta é a unidade política em que as medidas do nível das discutidas aqui são tomadas e a unidade populacional em que elas de fato se aplicam. Logo a sua aplicabilidade real, os seus efeitos práticos na prevenção da doença e o seu custo social real, devem mesmo ser medidos ao nível nacional. É possível, por exemplo, que medidas muito bem implantadas e efetivas em um pequeno território se mostrem inviáveis e por isso inefetivas em unidades territoriais e populacionais maiores.

E os dados epidemiológicos, de mortalidade por países, parecem indicar mais o sentido contrário.

Em geral, países que se concentraram nesta estratégia de isolamento social como centro ou núcleo de suas medidas preventivas tiveram os piores resultados (mais altas taxas de mortalidade). A estratégia clássica de testagem em massa com localização e isolamento de positivos e investigação de contatos parece estar associada aos resultados mais positivos (mortalidade menor do que a global). Também parece claro que a associação dessa estratégia com o controle de alfândega e com os lockdowns em territórios delimitados (bairros ou cidades) por tempo limitado (semanas) foi mais bem sucedida do que o isolamento generalizado por tempo indeterminado e com custo social, humano, muito menor.


terça-feira, 19 de julho de 2022

O MOVIMENTO PENDULAR DA ECONOMIA CAPITALISTA E O MOMENTO HISTÓRICO ATUAL

 Eu tive uma primeira intuição do movimento pendular entre liberalismo e socialismo, digamos assim, para simplificar, dentro do capitalismo contemporâneo, no início da década de 80. Quando me pareceu claro que as estruturas econômicas (inter)nacionais e sociais democratas, que tinham ganhado corpo no pós guerra e dado forma à economia mundial desde então, haviam se tornado relativamente obsoletas e se tornado em empecilhos ao avanço do desenvolvimento econômico (sociotecnológico) mundial.

Uma necessária onda liberalizante vinha para dar alguma correção a isto.
Eu via claramente, naquela época, que a globalização era uma necessidade econômica incontrastável e que as forças que se opunham a ela seriam vencidas. E foi o que aconteceu, ainda que hoje, em aparente paradoxo, as forças liberais que conduziram a globalização, lutem contra ela.
O liberalismo venceu naquele momento histórico e muitas barreiras nacionais e sociais democratas foram superadas, em meio a um novo salto tecnológico e econômico mundial que veio até a primeira década do atual século. De lá para cá este ciclo chegou ao nível de uma crise estrutural de grandes proporções. Na qual estamos atualmente.
Na minha análise essa grande crise estrutural era, também, previsível, já que na essência do modelo de desenvolvimento liberal a concentração de riquezas surge como um resultado necessário e um verdadeiro princípio inconteste. E a concentração acentuada das riquezas leva a dificuldades crescentes para a realização do capital e, portanto, para o desenvolvimento capitalista.
Desta crise e por esta razão deverá resultar um novo ciclo, um novo movimento do pêndulo, desta vez, como nos anos que se seguiram à grande crise do século passado, o movimento no sentido socializante. No sentido do socialismo. É a resposta correta e necessária à crise capitalista. Aumentar o controle público e as medidas socialistas de proteção social e universalização dos serviços vitais para as populações.
Mas, a cada momento deste movimento histórico, a superação do processo de crise econômica estrutural do capitalismo vem acompanhado de muito estresse social e político, destruição econômica, muita dor e sofrimento humanos. É só a custa destas desgraças que o sistema reage mudando o seu rumo.
Na tradição histórica temos os seguintes problemas diretamente oriundos da crise econômica capitalista e de suas consequências imediatas: o crescimento do desemprego, quebras generalizadas em setores da economia, perda de renda e da capacidade de compra, aumento da pobreza e da miséria. No curso da história contemporânea já desenvolvemos, é claro, todo um sistema de mecanismos econômicos anticíclicos e de proteção social para lidar com estes problemas e suas consequências. Mas, no fim de um verdadeiro ciclo liberal estes mecanismos não são suficientes para conter a crise. Ela estala e arrasta tudo ao seu redor em sua sanha destrutiva. Muitas atitudes que seriam consideradas completamente irracionais e inaceitáveis em outro momento, dado o seu caráter destrutivo, para a economia e até diretamente para a vida de milhares e milhões de pessoas, se tornam aparentemente necessárias ou inevitáveis em grande escala, em escala global.
É isto o que estamos vivendo hoje. Os sistemas de regulação econômica e proteção social certamente têm impedido um mal muito maior do que seria se ainda não tivéssemos esses recursos sociais democratas desenvolvidos e historicamente testados. Haveria muito mais fome, miséria e servidão humana no mundo, como foi, por exemplo no início do século passado. Mas, está claro, agora, que os recursos socialistas já desenvolvidos e após submetidos ao impacto das décadas de liberalismo, não são capazes de barrar o vetor destrutivo da grande crise em que estamos metidos. As loucuras como aquelas do combate à pandemia e aquelas da guerra são chamadas ao grande palco mundial. E aquilo que em qualquer outro momento pareceria uma completa estupidez passa a ser considerado uma necessidade racional.
No que toca à resposta à pandemia, eu percebi desde o princípio a irracionalidade da ideia que foi vencedora no mundo ocidental, em geral, de fazer-se uma quarentena generalizada, de toda a população, por tempo indefinido, até se conseguir o controle da epidemia, provavelmente com a vacinação. Esse delírio completo foi então considerado como alta racionalidade científica e continua sendo. Mas, em geral, deu errado pra todo lado onde foi implantado. Não impediu a disseminação da epidemia e quebrou a economia. Deu errado porque a sua implantação efetiva era praticamente inviável e porque seus resultados acrescentavam perdas sociais imensas ao drama da epidemia e suas consequências. A estratégia correta teria que ser baseada na realização em massa e reiterada dos testes para a identificação de contaminados e sua rede de contatos e as medidas de isolamento e proteção consequentes, como mandaria qualquer manual de vigilância epidemiológica. Mas, nessas situações, a simples racionalidade perde sentido e o delírio surge como verdade incontestável. Caramba, e eu tomei bastante porrada por causa disso. Inclusive de gente que nunca seguiu as regras, realmente absurdas, da quarentena generalizada. Mas isso não importa. Falem o que quiserem, eu vou continuar fazendo as minhas análises.
Até mesmo a estratégia chinesa no primeiro momento, com o lockdown em Wuhan, por algumas semanas, me pareceu exagerada, ¨coisa de comunista¨, mas logo depois surgiu como uma forma bem razoável de se fazer a prevenção, diante do absurdo fiasco da estratégia do mundo ocidental. Pois, ainda que bloqueasse um pequeno território por completo, por um período limitado, isso permitia que a vida social e a economia do país continuassem sem maiores prejuízos, resultando em crescimento do PIB, mesmo em 2021. Mas, agora que a estratégia de COVID zero tem levado a sucessivos lockdowns em cidades realmente importantes do país, está claro que realmente esta também é uma reação exagerada e prejudicial, levando a novas desestruturações da economia local e mundial. É claro que, apesar disto, a resposta chinesa ainda é muito mais equilibrada e certamente muito mais efetiva na prevenção à pandemia do que a ocidental, que, em geral, além de não dar certo no controle da doença, resultou em prejuízos muito maiores à economia e à vida social em geral.
Seja como for, a resposta à epidemia realmente cumpriu e continua cumprindo o papel de desestruturar cadeias de produção e forçar o desaquecimento e a reestruturação da economia mundial.
Mas não foi o suficiente e agora a guerra da Ucrânia veio dar continuidade e reforçar esse freio de arrumação na economia mundial, aprofundando ainda mais a crise e forçando ainda mais a reestruturação econômica, social e geopolítica mundial. A guerra, assim como a pandemia não podem ser atribuídas à crise econômica, mas eu entendo que teríamos respostas bem diferentes a estas circunstâncias se não fosse a crise econômica que já está em curso. Nas condições atuais as respostas à epidemia e à operação especial russa foram justamente aquelas que mais aprofundavam a crise econômica mundial, mesmo que não tivessem eficácia real. Assim como a quarentena generalizada não resultou em efetiva prevenção contra a pandemia, também as sanções econômicas contra a Rússia e o envio de armas e outros recursos militares para a Ucrânia não têm qualquer efeito decisivo sobre o curso da guerra, além de prolonga-lo e assim o seu resultado em destruição e morte, sobretudo de Ucranianos. Ambas estas respostas foram, são, absurdas do ponto de vista do controle da epidemia e da solução do conflito, mas certamente resultam, do mesmo modo, em profundas quebras em cadeias produtivas mundiais e alimentam a crise.
Agora a alta inflacionária se alastra, forçando a alta generalizada dos juros básicos, a Europa está perto de uma crise energética que pode ser extrema, no mesmo momento em que as duas maiores economias do mundo se encontram, simultaneamente, no limiar da recessão técnica. Parece que a China conseguirá manter a crise restrita ao setor imobiliário, mas parece impossível para os EUA evitarem a recessão generalizada, que, certamente já se alastra pelo mundo, de algum modo.
É claro que agora há um conjunto de ações anticíclicas e de proteção social em ação, em parte, justamente responsáveis pelo aumento da inflação, mas que, certamente, estão mitigando e muito a gravidade da crise e o do seu dano social. Mas, parece que estamos ainda longe de uma solução para esta grande crise estrutural da economia capitalista em que nos encontramos.
E esta crise, em especial, está associada a uma dupla transição histórica, que a torna ainda mais dramática. Por um lado estamos na transição final da hegemonia dos EUA na economia e na geopolítica mundial. Hoje o poderio dos EUA é muito mais assentado no militarismo do que na economia, o seu predomínio militar é hoje muito maior do que o seu predomínio econômico e esta diferença só crescerá daqui em diante. Inclusive porque para se manter com tal poderio militar os EUA perde cada vez mais a proeminência econômica, simplesmente porque tem que investir desproporcionalmente muito mais do que as outras grandes potências nos recursos militares, um invertimento que é, obviamente, ao fim, fundamentalmente destrutivo. Esta desproporção, sinal claro da queda da hegemonia americana, pode, deve, talvez, infelizmente, conduzir a novas e maiores guerras nos próximos anos e décadas. É mais ou menos óbvio que tão mais o poder dos EUA se repouse no militarismo, tanto mais ele terá que se provar na realidade, através de guerras. Guerras inúteis, pois, ao fim nada irá barrar esta queda do poder unipolar dos EUA e a emergência de um mundo realmente multipolar.
A outra transição é, de fato, o objeto deste texto, desde o princípio. Trata-se da transição econômico social para além do capitalismo. A transição social democrata e socialista. Como eu disse no primeiro parágrafo, há, nesta transição um movimento pendular, hora em direção ao liberalismo capitalista, até um extremo que, por força das crises que resultam deste movimento, ele se reverte em um movimento no sentido da socialização, do controle público sobre a economia, da proteção social e da universalização do acesso a recursos e serviços. E agora estamos em um momento crucial deste movimento pendular, o momento em que a transição de hegemonia econômica e geopolítica mundial vem sendo pontilhada por uma potência emergente socialista. Isto certamente levará o pêndulo histórico, neste movimento socializante, a uma intensidade e disseminação mundial que não poderia ter acontecido antes. Algo mais radical ocorrerá então e a transição da hegemonia dos EUA para um mundo multipolar será também um forte movimento de transição para o socialismo mundial.
Talvez seja possível rastrear esse movimento pendular, característico do capitalismo contemporâneo, até o século XIX, mas, certamente, ele é suficientemente perceptível a partir do século XX, quando um momento liberalizante que vinha desde antes do início do século, conduziu à grande crise de 29 e às grandes guerras e, claramente, um movimento socializante em resposta, a partir de então e perdurando até o início dos anos 80. É o período de expansão e estabilização do modelo social-democrata, do Estado de bem-estar social, como alternativa sistêmica concreta ao liberalismo econômico. Efetivamente a social democracia vingou de forma mais plena apenas na Europa Ocidental e mais ainda nos países do Norte da Europa Ocidental. Mas, é bem verdadeiro que esta doutrina e suas práticas tiveram projeção e penetração mundial. E, de fato, o mundo todo avançou um tanto no sentido socializante, em termos de regulação da economia, proteção social e acesso a recursos e serviços básicos. Até que, novamente, o movimento de desenvolvimento econômico encontrou fortes entraves no modelo político vigente no cenário mundial e forçou a superação de partes da estrutura social democrata e o redirecionamento do pêndulo histórico do capitalismo no sentido liberalizante, a partir do início dos anos 80. Está claro que, naquele momento histórico, o vetor socializante não podia, não pôde, atingir um ponto de transição ou de não retorno, para além do capitalismo.
Mas, eu afirmei que a transição social democrata e socialista é a transição econômico social para além do capitalismo. E isto me parece tão seguro agora. Apenas é preciso estar consciente que isto se dá através de longo processo histórico, onde se observa este característico movimento pendular que eu estou descrevendo. O movimento pendular histórico entre liberalismo e socialismo na estrutura do sistema econômico mundial. E este movimento tem como sentido inquestionável o aumento progressivo do socialismo nesta estrutura.
Alguns entre aqueles que estiveram presentes na primeira onda deste desenvolvimento e perceberam o seu sentido socializante, puderam antever que, ao fim, seria este o curso histórico predominante. Mas, muitos deles acreditaram que seria já naquela onda, naquele primeiro pêndulo à esquerda, digamos assim, que esta transição se completaria. Vendo do nível histórico atual, sabemos, com certeza, que não foi assim que aconteceu.
O que nós podemos dizer que se vê claramente na história recente é mesmo um longo processo de desenvolvimento dos mecanismos socializantes na estrutura econômico social que, simultaneamente, se integra mais, mundialmente.
Este processo é contraditório e se dá através de um movimento em ondas de avanços e retrocessos, desenvolvimento e crises que presenciamos na história contemporânea, mas, tem realmente o sentido socializante. E isto significa que a cada momento histórico em que o pêndulo vai em direção socialista, as mudanças se tornam mais profundas e permanentes na estrutura da vida social, no sistema econômico e social.
A partir de uma base verdadeiramente liberal, oriunda do surgimento do capitalismo, com a fragilidade das estruturas dos estados nacionais e da organização social de então, vemos surgindo, ao longo das décadas e séculos, em ondas de avanços e retrocessos, mas, progressivamente se enraizando, os sistemas públicos de educação de base universal, os sistemas de previdência e proteção social e garantia de renda, a regulação pública das condições e da renda do trabalho e, enfim, da economia e das finanças em geral. E isso é tão verdadeiro que parece impossível mesmo aos mais extremos liberais de hoje em dia propor a regressão liberalizante até o ponto de romper completamente com estas estruturas socialistas. No capitalismo atual isto é mais do que impossível, é impensável. Mesmo que cada momento liberalizante desfaça parte do que foi realizado e anule conquistas reais, muitas são já parte integrante e ineliminável do sistema social atual e isto é progressivo. E acabam penetrando até no próprio ideário liberal.
A experiência social democrata e socialista se fortalece no curso da história contemporânea e já foi realmente capaz de solidificar, na Europa Ocidental, um sistema de equilíbrio e bem estar social e, na China, a mais impressionante conquista histórica recente em termos de desenvolvimento humano social em geral. E isto se estenderá e se intensificará ainda mais na resolução da grande crise atual. As catástrofes da grande crise econômica e da inviabilidade de soluções civilizadas dentro do capitalismo liberal, a extrema concentração de riquezas, o desemprego, o empobrecimento e a falta de perspectivas e toda a tragédia social que vem junto com isto, incluindo o ressurgimento e a ascensão das correntes fascistas, como última forma do poder político liberal, e as guerras como soluções finais da crise, por mais que nos façam desacreditar de qualquer avanço, trazem, justamente, o estresse social necessário para que, mais uma vez, o sistema reconheça a necessidade de redirecionar-se no sentido mais racional e menos destrutivo. E, agora, num patamar ainda mais avançado e mais mundializado.
E é assim que eu vejo o socialismo se desenvolvendo, se disseminando e se enraizando na estrutura mesma do capitalismo mundial em transição. Mas não espero, nem para este atual momento pendular socializante, que está começando e deverá durar, talvez, uns 30 a 50 anos, uma ruptura completa que nos leve realmente, de fato e por fim, para além do capitalismo. Mas certamente estaremos num mundo muito mais socialista do que estamos hoje. Talvez este raciocínio nem se aplique mesmo mais ao momento atual e ao que virá na sequência, porque, de verdade, ao tempo em que estas estruturas socialistas se incorporam ao modelo social contemporâneo transformando-o inexoravelmente, se inicia também o desenvolvimento progressivo das formas anarquistas de organização e vida, que serão aquelas que, creio eu, realizarão a transição final para além do capitalismo.
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Manuel Romário Saldanha Guajajara, Bia Rodrigues e outras 3 pessoas
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MAIS UM EXERCÍCIO DE SALA DE SITUAÇÃO 240422

MAIS UM EXERCÍCIO DE SALA DE SITUAÇÃO Estou dentro do meu quarto, ouvindo, lá de fora, um forró que virou a madrugada com zabumba, triângulo e sanfona e o pessoal não arredou o pé, ou pelo menos não parou de cantar, até agora. É uma festa tão distante de mim que não podia ser mais estranho. E até um certo alívio. Que não estejam preocupados como eu estou, ou que estejam e tocaram o foda-se nisso também. É só um feriado, o primeiro depois da pandemia e eu estou me recuperando de covid pela quarta vez, eu acho. Sim, creio que peguei covid umas 04 vezes. Eu propriamente não testei nenhuma vez, mas desta última agora meus filhos que vieram me visitar testaram e aqui em casa todo mundo pegou, como das outras vezes. E tivemos gripe também. Tudo isto no período de uns 6 meses. Mas eu não estou preocupado com isto exatamente não. Estou já bem melhor e como das outras vezes isso passa sem deixar rastro. No meu caso. Podem me criticar muito porque eu me expus a risco e porque eu não me testei. Devem estar certos no seu raciocínio. Eu sei é que na situação brasileira o meu comportamento não alterou o risco real da epidemia. Especialmente depois da vacinação, isso não pode ter alterado porque o foco, o direcionamento e a execução das medidas preventivas estava todo muito errado. Erro que, em geral, não foi apenas nosso, mas, estranhamente, de todo o mundo ocidental, digamos assim. Não é de se esperar que em uma doença qualquer as ações de prevenção e tratamento sejam tão ou mais ineficazes nos países ricos e desenvolvidos do ocidente do que no resto do mundo. Mas foi isto que aconteceu com a Covid, ou não foi? De qualquer modo é inquestionável que o Brasil foi um dos expoentes máximos do erro, colhendo, correspondentemente, resultados piores do que a grande maioria dos países no mundo. E certamente eu não me responsabilizo por isto. Nunca compactuei com a estratégia de prevenção adotada no Brasil e que, em grande medida, no fundamental, eu creio, foi também aquela dos Estados Unidos e boa parte da Europa. Não compactuo com o modelo pensado, nem com a execução. Foi tudo errado e certamente eu não sou responsável por estes erros. Sinto muito por aqueles que, seriamente, se dedicaram a tentar fazer cumprir este modelo e fracassaram completamente. Para os idiotas e sem caráter que apenas fizeram jogo de cena e corrupção com a pandemia, pro exemplo, para os farsantes e todo tipo de pilantra que resolveu prescrever medicamentos sem nenhuma comprovação, pra roubar o povo ou por ideologia, para estes eu desejo justiça. Vocês cometeram crimes graves e têm que responder por eles. E o forró continua comendo solto. Isso tá até me dando uma alegria. Esqueço que tô com covid. Que tem as coisas pra fazer. Que é hora de trabalhar. Mas você é doido, hoje é domingo e feriado. Em qual sistema? No meu não é não. Desculpem os forrozeiros. Mas eu não tô pra festa não. Tô sabendo que tá rolando tipo o carnaval de fim da covid. Enfim, e é só isso. A guerra e as contradições do cotidiano também. O que eu posso dizer é que o povo do nosso país e de vários lugares do mundo empobreceu e continua empobrecendo agora, no presente. A covid e a resposta que foi dada a ela aprofundou a crise econômica mundial e a guerra continua aprofundando. A crise precipita decisões erradas e as guerras representam uma solução quase natural para tudo isto. A guerra justifica tudo, qualquer loucura que não poderia mesmo ser feita pode encontrar justificativa na guerra. Assim como na crise. Ou traduzindo de modo bem explícito: a guerra é a crise. E, de fato, na economia capitalista e, extensivamente em qualquer economia instituida em uma sociedade, as crises econômicas têm um efeito catártico que só com o olhar cínico ou científico pode ser reconhecida. As crises são parte do sistema e também o impulsionam para o futuro, para o desenvolvimento. As crises capitalistas, como as podas dos ramos velhos e podres, dão canal para as forças vitais da economia se desenvolverem mais intensamente nos novos ramos. O que a social democracia e o keynesianismo descobriram é que pode-se fazer isto com muito mais suavidade econômica e proteção social real. Eu sou obrigado a conceber que sem estes instrumentos a atual crise econômica mundial teria provocado já catástrofes sociais muito piores do que aquelas que já estamos vivendo. Mesmo no mundo neo liberal dos anos 80 para cá, os instrumentos econômicos, e muito dos sociais também, keynesianos e sociais democratas não deixaram de ser aplicados, apesar de tudo. Enfim seria pior sem eles. Mas é preciso falar do pêndulo entre estas tendências ou vetores contrapostos da economia capitalista mundial, agora estamos começando a voltar para o predomínio da socialização. Isso quer dizer também que estamos no máximo do liberalismo. E também é preciso dizer que a tendência de longo prazo é aquela da socialização e, ainda de mais longo prazo, é aquela da anarquia. Então, em cada movimento pendular contemporâneo, nos últimos 150 a 200 anos, o poder liberal do capital diminui na sociedade em relação aos períodos anteriores. De certo se pode dizer que o liberalismo de hoje já está dentro de um envelope sistêmico social democrata e, progressivamente mais, socialista. Sei que parece bastante absurdo escrever isto quando estamos em um ápice do poder liberal, um longo período de concentração de riquezas, empobrecimento relativo e absoluto de massas, acensão do nacionalismo e do fascismo. E, no momento com guerras interimperialistas, inflação e desemprego em alta. Mas, é a verdade. Eu creio que sim. E também deposito esperança que a resolução deste novo período de crise do liberalismo e, propriamente, do capitalismo liberal, será com menos sofrimento do que foi no século passado, com os eventos de 1914 a 1945. Temos o aprendizado histórico, temos os instrumentos sociais democratas e keynesianos, temos a China socialista.. Ainda que tudo isto pode não ser suficiente para evitar as grandes catástrofes humanas que o sistema capitalista liberal invariavelmente produz, pode e deve conseguir atenuar. Mas para isto as forças liberais terão que ceder as suas posições de poder e abdicar de suas fantasias ideológicas. Bom, realmente eu creio que a existência da China será suficiente para sustentar esta mudança. Simplesmente porque a China já é o maior parceiro comercial de todo o mundo realmente. Porque a China já está na dianteira em educação e ciência mesmo. Porque a China é socialista e, portanto, internacionalista. Com certeza as relações econômicas internacionais não permanecerão da forma como estão sob o império norte americano. Não é a mesma coisa. Não estou nem dizendo que a China não se direcione para ser o novo império mundial. Não acredito nisto, Pode até ser possível, mas não tem evidência em favor disto. Até agora, parece que as relações econômicas internacionais têm uma diferença importante e positiva em favor da China. Eles dizem, reiteradamente que concebem essas relações como um sistema de ganha-ganha, ao passo que os EUA teriam uma visão de soma zero, em que para um ganhar outro(s) tem que perder. De um certo modo podemos dizer que o modelo dos EUA e, antes o modelo colonial e imperial Europeu, era, e é, de exploração, de levar vantagem sobre a desvantagem, a perda e a frustração dos outros povos. É a ideologia do dominador, tão cara aos fascistas no mundo todo. A China diz ser diferente e mostra ser diferente até o momento. Estamos no capitalismo ainda, mas com a perspectiva e o direcionamento socialistas de prosperidade para todos. Esse é o lema que recentemente o presidente da China lançou junto com um novo programa socializante, de reformas sociais e intervenções no mercado. Muitos querem contrapor com um horror afetado a democracia ocidental como o paradigma da política e a China como uma ditadura aterrorizante. Vou voltar sobre este ponto em outro dia. O forró continua quente… E eu vou relaxar que hoje ainda tenho que trabalhar

segunda-feira, 13 de junho de 2022

SALA DE SITUAÇÃO MAIO/JUNHO 2022 ANÁLISE DA QUESTÃO DA GUERRA HISTÓRIA ATUAL E SEUS PRESSUPOSTOS ANTROPOLÓGICOS

A decisão moral e a postura ética de todas as pessoas e de qualquer pessoa, em particular, considera 03 dimensões, ou âmbitos de sua própria existência e, portanto, do seu interesse, simultaneamente. Eu já escrevi isto algumas vezes. Os interesses pessoais, os interesses de grupo, e os interesses de gênero, da humanidade. São estas três dimensões de toda e qualquer decisão moral e postura ética. Elas se apresentam necessária e simultaneamente, em toda e qualquer escolha e atitude moral ou postura ética. Em níveis de consciência e elaboração os mais diversos, estas três dimensões estão sempre presentes quando você decide e faz o seu destino na vida. Os seus interesses particulares, os interesses dos grupos aos quais você se vincula e os interesses da humanidade, do gênero humano. E as decisões e atitudes serão tanto mais verdadeiras, conscientes e autônomas, quanto mais o indivíduo tiver consciência destas três dimensões em cada decisão e atitude moral sua. E tão mais falsas, iludidas e estereotipadas serão as decisões que ignorarem a realidade destas três dimensões que necessariamente fazem parte do ato moral. Por outro lado, eu também afirmo, com segurança, que as pessoas, as individualidades humanas, são constituídas por três determinantes fundamentais, que nos formam. São: a determinação do gen, a determinação do ego e a determinação do sistema. Estes três determinantes ou constituintes nos formam a todos nós e por sua vez é também contra estas determinações que nós nos afirmamos ao longo da vida. Veja, os gens determinam muito mas não determinam tudo o que somos, obviamente, nem em termos do corpo biológico. E assim também o ego ou a psiqûe e o sistema determinam muito, muito do que somos, mas não tudo. Obviamente estes três constituintes do ser humano se vinculam aos três interesses presentes na decisão moral. Mas não diretamente, nem univocamente. Ao contrário. O que se pode dizer é que a ideia da humanidade está presente em nossas decisões mesmo de forma inconsciente e que realmente decidimos por toda a humanidade quando tomamos decisões morais. Assim nós constituimos o sistema que nos constitui. E este certamente é o grande designio dos nosso egos. A filosofia e a religião do ponto de vista moral, se colocam neste nível. A religião e a filosofia falam em nome da humanidade. Ao menos a partir do cristianismo. Ou todas, se pensamos no maior grupo humano, ao qual cada religião se endereça, eu creio. Digamos que, nestes níveis de elevação racional e espiritual, da filosofia e da religião,, se pretende falar em nome da humanidade Se a filosofia pode criticar a mitologia que sustenta a moral religiosa, ela própria teve, com o tempo a sua mitologia da razão exposta. Essa mitologia, fabulosa ou racional, não é um problema apenas por ser um erro, mas por ser uma falsidade. E, obviamente, uma falsidade moral é uma imoralidade. Isso quer dizer que, de um modo geral, a moral ou a ética filosófica e a moral ou ética religiosa são, em geral, imoralidades. Chegou o tempo em que nós nos assustamos com o fato de que a humanidade, que nós amamos em nós mesmos, não vive nem da religião e nem da filosofia. E nos assustamos ao ver que a ética estabelece como justo ou moral aquilo que a economia realiza no sistema e o desejo realiza no indivíduo. Enfim, é simples perceber que no tempo da colonização e da escravidão a religião e a filosofia eram, com certeza, predominantemente favoráveis. Assim como são favoráveis às imoralidades dos sistemas de hoje. Alguns podem dizer, com toda a razão até, que chegou o tempo de pensar nas coisas como elas realmente são, chegou o tempo da economia. Mas, nada é estático na vida. E vemos agora, com tranquilidade, mesmo dentro do desespero, não apenas o tempo da produção, mas também o tempo da alma, isso quer dizer, obviamente, também que vemos o tempo da vida e o tempo da palavra ou da arte, mais do que o tempo do dinheiro. A luta ideológica que domina o nosso tempo, Marx estava certo, é aquela entre liberalismo e socialismo. E é em relação a ela, fundamentalmente que as forças sociopolíticas se posicionam na contemporaneidade, ainda. E nós não podemos ter ilusões, precisamos reconhecer os fatos e compreender a teoria, ou seja, reconhecer e compreender a história. Essa é a base, científica, de nosso posicionamento e afirmação. É, portanto, por reconhecer e compreender a história que a gente pode dizer que a linha de tendência histórica é, e não pode não ser, em direção ao socialismo. E, vemos isto mesmo com todos os movimentos pendulares da economia entre estes extremos, de um momento de mais liberalização para outro de maior socialização da produção social e vice versa. É o socialismo a direção de futuro imediato, e tem sido assim desde o fim do século 19. Desde lá as tendências de regulação dos mercados e proteção social, por exemplo, se mostraram vitoriosas sobre o liberalismo na prática e na teoria. Tenho certeza que isto parece muito estranho de ler agora que estamos no ponto máximo de um período de predomínio do liberalismo na cena mundial, que vem desde os anos 80. Mas este extremo liberal no pêndulo histórico está justamente findando agora, nessa sequência de crises econômicas e guerra. E ele será seguido, necessariamente, por um período de maior socialização da economia no interior dos países e no plano mundial. Na verdade, como deve ser, este novo movimento de maior socialização da economia mundial já está em curso inicial, sob todas as contradições impostas pelo momento de predomínio do liberalismo. Esta tendência se assenta em necessidades da própria realidade, ou seja, do próprio capitalismo. Está mais do que claro que, deixado por sua própria conta, o capitalismo produz concentração progressiva de riqueza e crises insustentáveis em função de seu imenso custo econômico e social. A própria história natural do capitalismo leva à sua negação, como também, não podia deixar de ser. É claro que qualquer sistema tem sua resistência e sua plasticidade que lhe permitem perdurar na história. E o capitalismo é um sistema de grande vitalidade. Mas não o suficiente para não estarmos vendo, ao longo das décadas, sua negação progressiva. Podemos dizer, com segurança, que vivemos em um mundo mais socializado do que há 150 ou 200 anos atrás. Apesar de toda a regressão liberal que vivemos nas últimas décadas. Uso o termo regressão não porque não visse necessidade e nem resultados positivos na onda liberalizante inciada na década de 80 do século passado. Não, ela foi, naquela época, algo progressivo, com o grande avanço da globalização e das novas formas de produção que, desde então, ocorreram. Na época eu fiz esta análise e, agora, ela se complementa pelo novo momento histórico em que estamos vivendo. Sim, porque agora estes avanços chegaram ao limite nesta nova estrutura liberal da economia mundial. A grande concentração de renda no interior dos países e a falta de coordenação e devida regulação, nas economias nacionais e no plano mundial, tornam as crises imperativas e sem resposta adequada. Este é o período em que nos encontramos. Estamos, há mais de uma década já, em uma sequência de crises econômicas sem resolução efetiva, ao ponto que, agora, até a loucura propriamente, a extrema loucura sociopolítica, da guerra, das grandes guerras transnacionais, já parece ser uma circunstância ou condição até aceitável e racional. A guerra é um extremo paradoxo do sistema, quando sua irracionalidade vem a tona de modo irrefutável. Por mais razões que tenham as guerras, nada pode negar sua contrariedade e irracionalidade para o próprio sistema. É óbvio, nos próprios termos, que, por mais razões que tenham para uma guerra, mais razões ainda existem para a paz no sistema. E para tudo o que interessa ao sistema humano. Mas sabemos também que as guerras surgem no sistema como uma necessidade incontornável. Num certo tempo, por motivos religiosos, cristãos atacaram muçulmanos. Sob a bandeira da cruz. E pareceu a muitos uma necessidade imperiosa naquela época. Como para muitos parece hoje, fazer a guerra em nome dos seus Estados, de seus países. E, neste momento a guerra lhes parece mais racional do que a paz. Mas a guerra nunca vai ser mais racional do que a paz, para o sistema. Ou, realmente, sejam quais forem as razões da guerra sempre vão haver mais e melhores razões para não fazer ou para terminar a guerra. Seja como for a guerra é um extremo de irracionalidade autodestrutiva que o sistema se permite ou com o qual ele se resolve, na forma de uma crise máxima de agressão e destruição entre os povos. É um extremo de irracionalidade, um delírio de violência e destruição, que parece justificar todos os demais, que atravessam o nosso sistema social atual. Ainda que o sistema necessariamente se resolva com guerras periodicamente e que a competição pareça ser a força motriz do sistema atual, obviamente a guerra tem que ser episódica, apenas.. Como resolver isto? O tempo nos mostrará. Por enquanto, vamos olhar um pouco mais para o presente e refletir sobre isto a partir da realidade atual. Hoje devemos ter mais de 10 guerras declaradas no mundo. Além das diversas guerras não declaradas, entre povos ou no interior de cada nação ou país. Países como o Brasil podem ser considerados, com justiça, como em permanente guerra civil não declarada. Por exemplo, a guerra mais falada no momento é a guerra da Ucrânia, mas é certo que, ao longo de alguns anos, podemos esperar mais mortes por arma de fogo no Brasil do que no território ucraniano. São centenas de milhares de pessoas que morrem, portanto, todos os anos no mundo em conflitos armados, declarados como guerra ou não. Parece mesmo ser uma necessidade do sistema porque não é possível remontar a um período histórico em que tenha sido muito melhor do que isto. Podemos dizer, com certeza que todos os sistemas sociais até agora foram falhos ou fracassaram parcialmente em sua tarefa fundamental de manter a paz, de evitar os conflitos armados de grande proporção e todas as suas consequências destrutivas. Mas, certamente, não há, dentro das possibilidades objetivas, nada que nos condene a repetir sempre os erros do passado. E a paz continuará, necessariamente, sempre, sendo uma condição e uma virtude desejada pelos sistemas sociais. O resultado direto e inquestionável de qualquer guerra é sempre destruição material e de vidas humanas em larga extensão. Podemos, portanto, dizer que a capacidade de manter a paz é uma das maiores virtudes ou mesmo a maior virtude de um sistema social. Pois, obviamente, por melhor que seja o seu desempenho em guerra ele seria melhor ainda em paz. Isso vale em geral e para qualquer guerra em particular, como esta da Ucrânia. A Ucrânia, infelizmente para os ucranianos, surge apenas como bucha de canhão, como zona de conflito, como o campo de destruição e sacrifício de vidas que a Rússia e a OTAN estabeleceram. Como pode haver essa guerra hoje, com os meios de comunicação e interação social atuais, com as capacidades tecnológicas e recursos de produção que já temos disponíveis para nós, como a cultura europeia e norte americana, por um lado, e a russa, por outro, se envolveram nesta destruição e assassinatos de milhares de pessoas na Ucrânia? A troco de quê? É um fracasso particular destas potências e culturas e um fracasso geral do sistema social atual. Esta irracionalidade absoluta não pode ser desconsiderada ou minimizada. É mesmo um grande fracasso das potências envolvidas e do sistema como um todo. Por mais que os Ucranianos resistam é óbvio que esta guerra só terminará quando o poder na Rússia entender que seus objetivos estratégicos foram cumpridos. O que significa, de acrodo com suas próprias declarações, a redução do poder militar ucraniano e a eliminação dos batalhões neo nazistas, a não entrada da Ucrânia na OTAN e o reconhecimento da independência dos territórios russófilos do leste, em uma faixa contínua até a Crimeia e, talvez, provavelmente, até Odessa. Não há possibilidades da Ucrânia se contrapor à Rússia militarmente. A resistência é inútil. Exceto para os interesses geopolíticos do poder nos Estados Unidos e para a indústria da guerra. Toda a propaganda belicista em favor da Ucrânia, todos os recursos militares e toda a grana enviada à Ucrânia neste momento só atendem a estes interesses e só levam a mais mortes e destruição no território ucraniano. E todos os ditos líderes ocidentais sabem disto. Então por que insistem? Pior ainda são as sanções e o aumento dos orçamentos militares em vários países da OTAN. As sanções e as restrições ao comércio de grãos estão levando a novas tensões dentro da grande crise econômica em que nos encontramos, com a inflação e a fome disseminando-se amplamente. Enquanto as expectativas de crescimento econômico são progressivamente reduzidas. Este é o verdadeiro resultado da guerra e vocês podem ter certeza, será muito pior do que a destruição direta causada na Ucrânia. Muito mais pessoas morrerão, enfim, por causa da miséria e da fome que se disseminam mundo afora e são impulsionadas pela guerra econômica, pelas sanções e restrições ao comércio internacional. E essa loucura acontece quando ainda nem nos recuperamos da loucura das quarentenas generalizadas por tempo indeterminado que desestruturaram a economia e a vida social nos últimos 2 anos. E quando ainda pode ter lockout em cidades chave na China. Parece claramente que, neste momento, eles jogam em favor da recessão, da quebra de cadeias produtivas mundiais. E eu creio que sim, ou, já posso ter certeza que sim, mesmo. Hoje muitas forças jogam em favor da crise e da quebra da produção mundial em larga escala. Porque este é um caminho natural, ou, espontâneo, digamos assim, para a resolução das crises econômicas estruturais. O aprofundamento da crise até a destruição de setores ou modos de produção de baixa eficiência econômica e o barateamento da força de trabalho, entre outras condições para um novo ciclo de acumulação e desenvolvimento dentro do capitalismo. Esta necessidade se faz tão imperativa que até as grandes guerras parecem muito mais aceitáveis ou justificáveis nos momentos de crise estrutural capitalista. A guerra realiza, digamos assim, parte do trabalho sujo da crise econômica. Não vou me estender sobre isto porque já documentei esta ideia em textos anteriores. E não posso encerrar este texto sem afirmar e destacar que só há e só pode haver um tipo de guerra justa e justificável, a guerra revolucionária das massas populares, de qualquer povo, contra seus opressores, contra seus escravizadores. Todas as demais são, ao contrário, apenas guerras de dominação e opressão e não têm justificativa possível em relação à vida e à dignidade humanas.

A CRISE ATUAL E SEU SENTIDO HISTÓRICO


Seguimos um complexo padrão de percepção e análise. Nossa lógica é caótica. E nossa certeza frágil e provisória. Mas somos nós que fazemos este movimento, nós que criamos a ação e fazemos o ser avançar.

Não posso discutir nada com quem não entende, porque o nosso tempo é curto.

Agora todos podemos ver como a loucura está presente em nosso mundo, em nossos sistemas, nas nossas vidas, nas escolhas e nas ações. Muitos desprezam sempre o inconsciente em suas existências. Ou o traduzem como mágica, mística e moralismo. 

Não me importa. O inconsciente está ai em cada um dos nossos gestos e, antes, em cada uma das nossas decisões.

Vimos a loucura dominar o mundo na resposta estúpida e ineficiente à pandemia e desbancar a confiabilidade de institutos antes inquestionáveis, como o CDC dos estados unidos, que certamente não foram capazes de estabelecer padrões de reação eficientes e seguros diante da covid.

Neste momento Shangai está saindo de um longo lockdown, de mais de 4 semanas, em boa parte da cidade. Com certeza aconteceram cenas de violência e desespero em função desta atitude extremada de bloqueio à circulação das pessoas e testagem e isolamento dos positivos, compulsoriamente. Mas, certamente, também, isto é muito menos danoso para as pessoas e a economia da China do que foram os meses e meses de quarentena generalizada aqui no Brasil e no mundo ocidental em geral. E muito mais eficaz no controle da epidemia.

Tem alguns princípios da epidemiologia e da clinica que a gente normalmente não erra por seguir. Um deles é que em uma epidemia, diante de uma doença transmissível potencialmente grave, devemos prover o devido isolamento, se necessário, das pessoas contaminadas e, muito eventualmente, de seus contatos. Outro é que diante de qualquer risco ou evento danoso para a saúde ou ameaçador da vida, devemos proteger antes e mais, os mais frágeis diante deste risco ou evento.

Creio que hoje já está claro que onde houve sucesso real no controle da epidemia, sem travar toda a vida e a economia social, foi onde o primeiro destes princípios foi seguido. Enfim, é uma racionalidade epidemiológica básica que foi completamente pervertida, aqui, no mundo ocidental, inclusive nas nações muito desenvolvidas da Europa e nos EUA.

É num destes momentos em que a gente tem a certeza inquestionável de que o inconsciente está operando. Os atores mais sérios, mais capazes, mais responsáveis em todo o mundo ocidental, rico e desenvolvido, batendo cabeças, rasgando seus manuais e se lançando em programas de ações inseguras, não testadas e sem base teórica razoável e muito mais ainda, sem viabilidade e efetividade práticas. Deu no que deu. Mas o que me importa considerar agora não são os péssimos resultados. Mas sim o papel da irracionalidade, do delírio e das mais confusas emoções nesse processo.

O que de fato conduziu as mais brilhantes cabeças e capacidades individuais e dos sistemas do mundo ocidental a tamanha confusão e demonstração de incompetência diante da pandemia?

A gente pode projetar muitas coisas para explicar isto, mas certamente não é fácil achar uma boa explicação para isto dentro dos argumentos epidemiológicos e políticos apenas. Não é por incompetência epidemiológica que o CDC não conseguiu estabelecer uma linha estratégica de controle da pandemia minimamente eficiente, em contraste com a enorme eficiência do sistema chinês, por exemplo. E nem foi pelo bate cabeças político característico das farsas democráticas que isto não aconteceu, não mesmo, pois, de um jeito ou de outro, tanto nos EUA, quanto na Europa e aqui também, as normas técnicas emanadas pelas instituições responsáveis acabaram sendo seguidas. Essas normas mesmas é que eram irracionais, inviáveis e, portanto, ineficientes.

É o inconsciente operando.

E nada escancara mais essa estupidez delirante que faz mesmo parte de nosso ser e de nossos sistemas quanto a guerra. A guerra é a estupidez a toda vista, sem pudor, sem vergonha. A guerra é o exercício da destruição e da violência mortal contra inocentes. E quando digo inocentes, não estou referindo-me apenas aos civis. Não, claro que não. O que fez qualquer um dos soldados russos que entrou hoje na guerra e está a ponto de ter a cabeça explodida, o que ele fez contra qualquer pessoa da Ucrânia, para ela esteja justificada a matá-lo?. E, pior ainda, os ucranianos, cada soldado ali, muitos deles até ontem eram amigos de russos, o que eles fizeram para que a sua morte seja considerada aceitável e não um crime? Não fizeram nada. Quem fez e quem faz este tipo de delírio mórbido, assassino, são os seus líderes políticos. Mas na logica completamente delirante da guerra está realmente justificada a morte de desconhecidos completos, em nome da defesa dos interesses da nação. Interesses da nação? Que loucura é essa? Bom, eu sei para muitos Ucranianos e Russos agora esta loucura é a única coisa racional que existe. Lutar até morrer em defesa da nação. Tudo bem. Depois de instalada a guerra é justamente a lógica da guerra que prevalecerá até ela acabar. É a lógica da destruição e da morte imperando.

É claro que isto é um fracasso político e deve ser debitado na conta dos incompetentes que forçaram a guerra, que não a evitaram, que a proclamaram e que a estão conduzindo. Vocês são pagos justamente para evitar as guerras. Se fosse para resolvermos na porrada e na bala nossas dificuldades a gente não precisaria sustentar vossas incompetências com ricos soldos e mordomias. Vocês são um fracasso retumbante. E dão mais uma prova de sua inutilidade e desserviço à humanidade. O tempo dirá.

Por enquanto vamos nos ater ao centro do raciocínio. 

Por que mais essa demonstração extrema da irracionalidade e mais ainda, das forças irracionais mais destrutivas em nosso mundo neste momento e especificamente às margens da União Europeia, do velho mundo rico e civilizado?

Quem, de algum modo, conhece o que eu penso, sabe qual é a minha resposta para isto. É a economia, estúpido.

É a crise econômica mundial fruto da grande concentração de riquezas no interior dos mais diversos países do mundo, levando a importante empobrecimento relativo e às dificuldades de realização do capital mundo afora.

Esta situação de crise econômica estrutural impõe aos sistemas e às pessoas em seus postos de poder e decisão a necessidade imperiosa de fazerem besteiras, tomarem decisões estúpidas, darem vazão a seus sentimentos mais torpes e obtusos e, por fim, fazerem a crise avançar no sentido de uma resolução cataclísmica.

As políticas econômicas e sociais anticíclicas, a cooperação multilateral e as respostas sistêmicas planejadas e integradas são, certamente mais racionais e permitem lidar com as crises econômicas de algum modo, com efetividade e dignidade social, mas, quarentenas generalizadas e guerras cumprem mais rapidamente e intensamente o papel de pôr um freio de arrumação na economia desequilibrada, doa a quem doer. 

Há ainda dois fatores nesta grande crise econômica do presente que a tornam muito especial e verdadeiramente única. Eles merecem toda a nossa atenção.

Trata-se da dupla transição sistêmica, mundial, que está em curso e que se acelera com a crise e seus desdobramentos. A transição da hegemonia mundial dos EUA para a China e, com ela, a transição para o socialismo. Todos estes grandes movimentos de transformação no sistema mundial têm uma semelhança com o trabalho de parto natural, eles quase nunca ocorrem de uma vez e nem muito menos suavemente. Não, há contrações e dores, muitas e muitas delas frustras, que não resultam na transformação final, mas, às vezes imperceptivelmente, fazem o trabalho de parto avançar. E é assim que avançamos agora também. Em uma visão sintética, o resultado das grandes crises econômicas do início do século passado e das guerras inter-imperialistas foi o aumento da socialização do sistema econômico político e, ao menos no mundo rico e desenvolvido, governos e políticas sociais democratas tiveram projeção e preponderância desde o fim da segunda grande guerra do seculo XX e pelo menos até o início a década de 80. E, em grande medida, esta preponderância persiste até agora, apesar da grande onda (neo)liberal que veio desde então. Estamos agora no extremo deste momento liberal que, com certeza pouco contestável, leva sempre às grandes crises econômicas e, enfim, nos trouxe até este momento atual. Iremos agora, em movimento pendular, nesta representação do sistema mundial, como nas contrações e refluxos do trabalho de parto, ao novo momento de ampliação, de fortalecimento e aprofundamento da via socialista que, obviamente, no presente se associa à acensão mundial da China.

É claro que o império dominante não tem intenções de ceder sua posição e fará o possível para confrontar a potência emergente, ainda mais quando esta força emergente representa uma mudança, uma transformação ou uma nova forma, do sistema, que ameaça a própria alma, digamos assim, do poder vigente. E é o que acontece com o socialismo chinês em relação ao capitalismo liberal norte americano.

É bom que quem não é da área saiba, e quem é lembre, que a social democracia nasce com a perspectiva de fazer a transição socialista sem a luta armada, sem a tomada violenta do poder, sem a ditadura do proletariado, pela via democrática, por dentro do sistema capitalista democrático.

Muita tinta já foi gasta para questionar ou afirmar essa possibilidade. E como era de se esperar, olhando de hoje, mais de 100 anos depois, parece que essa perspectiva original da socialdemocracia foi frustrada e não conduziu nenhuma democracia ocidental para a transição socialista. Se você olha a história como fotografia e não como filme sim, parece que foi frustrada. Mas se você olha como filme você pode ver que as experiências sociais democratas persistem como instituições que remodelaram completamente o mundo do trabalho e a vida social em diversos países ou, sendo mais ousado, em todo o mundo ocidental rico. E até mesmo nos sistemas subordinados dos países pobres houve ganhos significativos. E com certeza a crise atual é menos danosa do que foi sua equivalente há 100 anos. E com certeza também parte importante da melhor resposta atual à crise se deve aos mecanismos sociais democratas de proteção social e regulação da economia, inclusive as ações anticíclicas, que ainda persistem. Nada disto é parte de um arsenal político liberal. Mas hoje se incorpora em todo mundo e, mesmo depois da onda (neo)liberal bater no seu extremo máximo, que é agora, as práticas e instituições sociais democratas ainda são grande parte do melhor que o sistema consegue fazer.

Mas agora estamos em outro momento e estes recursos sociais democratas apenas não podem bastar, não são suficientes e o que se mostra como alternativa de sucesso é o socialismo chinês. Isso é inquestionável quando a gente olha para a economia, estúpido. E a aceleração em que o avanço chinês se dá é incontrastável. Agora podemos dizer que os desígnios do PT, por exemplo, se atrelam aos da era chinesa no comércio mundial. Sim, como os desígnios do Brasil, independente de quem estiver no poder. Os desígnios da África. Os desígnios de todo o grande território que vai do entorno à China até a Europa. Tudo isto hoje está vinculado diretamente aos desígnios da China. E a China é socialista. Então nós já estamos mesmo vivendo uma transformação de grande extensão e profundidade no mundo capitalista atual. Isto é óbvio e em pouco tempo nem poderá ser questionado. O sistema capitalista mundial está sofrendo uma enorme transformação mundial com a acensão da China.

Ou seja, estamos neste momento de conversão do pêndulo do extremo da onda (neo)liberal para a nova onda socializante, a nova onda socialista. Significando, em termos genéricos, que a produção social será mais socialmente direcionada. Nesse trabalho de parto de superação da sociedade capitalista que estamos desde a metade do século XIX e que já nos trouxe um tanto longe do capitalismo originário da revolução industrial e que está agora neste processo de transformação acelerada, onde tudo, de certo modo, aparece como sendo uma loucura destrutiva, ou autodestrutiva.

Fascismo, nazismo, xenofobia, nacionalismo, machismo, homofobia, racismo, opressão social, exploração e roubo do trabalho alheio, terrorismo de estado, assassinato e tortura de líderes populares nas vilas e periferias, nas ocupações, morte e violência para todo lado como estratégias de poder. Essa barbárie toda, essa loucura totalmente destrutiva, que aparece hoje, de novo, como emergência de energias e forças essencialmente destrutivas e regressivas no extremo das crises na onda liberal e conservadora, isso é, no entanto, nosso dia a dia, aqui no mundo periférico do capitalismo imperial norte americano, por séculos e séculos.

Quem vai dar um passo adiante? Quem vai conseguir tirar o próprio mundo rico e desenvolvido desse estado de barbárie em que está se metendo atualmente? Quem vai conseguir tirar a população brasileira do estado de barbárie em que ela está condenada a viver cotidianamente ao longo dos séculos? Não falo de pessoas, por favor, não me confunda, eu sou anarquista e não precisamos de líderes. O que precisamos é de ideias e ações. E uma coisa eu posso te adiantar com toda a certeza,, não vai ser com a doutrina e as práticas liberais que sairemos dessas crises por um caminho de dignidade humana. Não, com certeza não. A doutrina e as práticas liberais nos tirariam dessas crises, como sempre tiraram, através de muito sofrimento humano e guerras. E só há uma outra alternativa real, historicamente em movimento. É a alternativa socializante: social democrata, socialista.

Vamos nesse caminho e esse é o caminho real de desenvolvimento humano no presente e futuro próximos. O que quer dizer, para nós anarquistas, que o combate será, progressivamente mais dentro do sistema socialista da economia capitalista mundial. Fica óbvio, na própria confusão dos termos, que para nós anarquistas, persiste a necessidade de mantermos limpos os nossos prismas ideológicos e conceituais e sabermos como usa-los. E sim, se o raciocínio histórico que fiz acima é verdadeiro em suas linhas gerais, também é verdadeiro que é o anarquismo o prisma ideológico e conceitual que permite a melhor visualização da complexidade caótica da atualidade e também, consequentemente, a melhor crítica e o melhor posicionamento.

Vale a pena fazer um exercício de demonstração do que seria isto com objetos atuais e, de qualquer modo, para não deixar ninguém perdido, reitero que todo o raciocínio anterior é desenvolvido com este filtro anarquista.

E se eu puder pinçar um ou dois assuntos aleatórios da mídia social atual, algo que tenha algum valor para elucidar o que eu tô querendo dizer, a guerra da ucrânia certamente é um foco.  Não vejo porque anarquistas se posicionarem por um dos lados em uma guerra interimperialista. E o que parece bem claro é que a guerra econômica e os movimentos estratégicos internacionais são muito maiores do que a questão local.Nós nos posicionamos, por origem, contra qualquer guerra entre estados nacionais e certamente não reconhecemos o valor que o mundo capitalista e o conservadorismo em geral atribuem aos Estados Nacionais. Muito ao contrário. Eles são predominantemente, hoje, barreiras para o desenvolvimento humano. A unidade coletiva não pode ser outra coisa que o fruto da livre afirmação e manifestação das pessoas e grupos. O modelo de integração política mais aceitável em uma transição anarquista, pós socialista, portanto, é o Confederalismo. Como Bakunin sugeriu e como está em exercício em Rojava. E isso num mundo de integração digital tem ainda que ser fortemente desterritorializado. Bom, o tempo dirá. 

Quero finalizar com um lamento, pouca gente deve ter notado, mas, aproveitando a situação de estupidez geral em função da guerra da Ucrânia, o estado de Israel está bombardeando o território Palestino e  o estado Turco está bombardeando o território Curdo no Iraque / Síria. Todas são violências injustas, opressivas e no caso da questão Curda ela toma para nós anarquistas o caráter de tragédia simbólica transhistórica de máxima importância, porque é em território curdo, reconquistado do ISIS, pelas armas, que está se realizando a maior experiência político social anarquista de toda a história. Uma sociedade autonomista e coletivista se constrói ali já há mais de 10 anos, baseada em três pilares fundamentais: o confederalismo, o feminismo e a ecologia. Infelizmente são poucas chances de que a maravilhosa experiência de Rojava resistirá aos ataques assassinos do estado Turco. 

Seja como for a experiência de Rojava, caso ela persista ainda por muito tempo ou não, será um momento, já, de afirmação da transição anarquista, que, no entanto, é óbvio, está ainda distante no tempo, em se tratando de sua realização no sistema mundial, que está agora, justamente, como tentei mostrar, ainda na transição socialista.

Você pode me perguntar por que eu tenho essa visão de desenvolvimento do sistema e acredito que sou capaz de antever o sentido deste desenvolvimento, ainda que contraditório e pendular, para o socialismo e o anarquismo. Isso me faz ter que retornar aos meus fundamentos, antropológicos, psicológicos e econômicos ou, ao fim, históricos, pelos quais eu vejo assim. Mas isso será tema para outro post.