sexta-feira, 30 de abril de 2021

O SISTEMA SEMPRE VENCE - ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA DELIRANDO COM HEGEL

 Talvez a coisa, o fato, mais importante que tenha acontecido na história recente ainda seja realmente a internet.

A possibilidade de comunicação, repositório e acesso à produção cultural multimidiática mundial.


E dentro da internet o mais importante talvez seja o mecanismo de busca

O termo redes sociais nos ilude ao fazer a gente esquecer que a internet é, propriamente, rede social.

Os mecanismos de busca é que dirigem nosso olhar, aquilo e a quem somos induzidos a ver, a nos contatar e interagir.

Parece que estamos, contudo, sendo simplesmente controlados por estes mecanismos e pelos outros algoritmos das redes digitais.

Mas, certamente é isso que queremos. Queremos os melhores mecanismos de busca, aqueles que vão dirigir melhor os nossos olhos e a nossa mente. As nossas mentes, fundamentalmente.

E é isso o que queremos.


Sabe, aqui eu preciso dizer que, em se tratando do sistema, Hegel, no meio do seu delírio, percebeu algo fundamental, algo que fica muito manifesto na modernidade e que ele, no seu delírio genial, intuiu.

O sistema sempre vence. Foi isso que Hegel nos ensinou, neste aspecto.

O sistema engana os indivíduos liberais, os burgueses, os capitalistas e engana também os operários e sua prole. Todos lutam pelo seu interesse privado e ao fim realizam o fim do sistema, reproduzem o sistema e ele perdura. A mão mágica do mercado, persiste. A colmeia das abelhas disfuncionais que entre si competem e até se matam, prospera. A hipocrisia política, a dominação e a farsa. A manipulação midiática. Tudo continua, persiste e cresce, dirigindo cada vez mais a vida dos indivíduos enquanto eles acreditam que estão correndo atrás dos seus interesses pessoais.

Foi isso o que Hegel disse?


Aqueles que realmente estão no poder executivo os supericos, os chefes de estado das superpotências, os seus chefes militares e todos aqueles que  têm poder ideológico, os donos e as super celebridades da internet, da mídia, das religiões enfim, todos eles que aparentam ter em suas mãos todo o poder do mundo e a liberdade que isto trás, estão, como nós, submetidos ao sistema. São apenas expressões do sistema e conduzidos por ele como todos nós.


O sistema sempre vence, primeiro e sem dúvida, porque sempre haverá sistema.

Alguns que vieram depois talvez não entenderam tão bem quanto Hegel, em seu delírio, foi capaz de entender, neste aspecto.

Porque, para dar uma resposta ao poder super e supra opressivo da sociedade sobre as pessoas, ao ponto de nos escravizar a todos, na ilusão da liberdade burguesa, bom, para dar uma resposta real a isto, teria que ser a resposta anarquista.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

EXISTE CRIME DE PALAVRA? UMA ANÁLISE ANARQUISTA DA QUESTÃO

PODE EXISTIR CRIME DE PALAVRA? UMA ANÁLISE ANARQUISTA


Eu sei que o moralismo cansa a todo mundo e o moralista sempre parece um arrogante idiota.


Mas de que vale ser um coroa se você nem pode passar sua visão moral para as pessoas, porque você nem tem nenhuma moral pra passar pra ninguém?


Então, prefiro correr os riscos.


Contexto ideológico

Eu sempre achei que o anarquismo é uma visão e projeto humano-social superior ao socialismo / estatismo ou ao capitalismo / liberalismo.

E vejo que pode-se aproximar do anarquismo pela via da esquerda ou da direita, pela crítica do mercado ou pela crítica do estado. Mas só se chega realmente ao anarquismo superando ambas as vias limitadas do socialismo ou do capitalismo, do estatismo ou do liberalismo. Por este ponto de vista, o anarquismo não é de esquerda nem de direita e está além delas. 

Para mim, uma consequência, provocadora, deste raciocínio é que o anarquismo deve ser, por consequência, sempre, realmente, efetivamente, mais igualitário que o socialismo / estatismo e mais libertário que o capitalismo / liberalismo. O anarquismo está mais além, é superior a estas duas ideologias, no que elas têm de melhor.


Um problema particular

Agora no Brasil retomamos as prisões por supostos crimes de fala e ideológicos. Sujeitos à esquerda e à direita estão sendo presos. E várias pessoas, inclusive eu, passam a estar mais ameaçados de serem enquadrados em uma lei contra a palavra.

Essa é uma questão muito boa para por à prova o meu pensamento inicial. 

Os liberais, por definição e, como se diz em filosofia, enquanto tais, são contra qualquer coisa neste sentido e defenderão a liberdade de expressão ao máximo. Vamos ver até qual limite. Talvez não tanto se os supostos criminosos forem de esquerda. A recíproca também é verdadeira. A esquerda garantista, de direitos humanos e do estado de direito, também seria contra em todos os casos, mas certamente, não tanto quando os supostos criminosos são de direita. 

Mas então, antes de entrar por qualquer lado partidário nessa disputa política, será que os anarquistas podem pensar na questão de forma mais ampla e realmente melhor, mais efetivamente positiva na realidade?


Colocando a questão geral e estabelecendo o debate no contexto brasileiro atual

Vou colocar a questão deste modo: existe ou não crime de palavra /ideológico e como se deve lidar com isto?

A ideia mais liberal, ou, propriamente liberal, seria que não. A liberdade de expressão seria valor maior que qualquer outro e ninguém poderia ser incriminado apenas pela palavra ou por ideologia. Muito menos um deputado, um representante do povo, reforçam, os liberais do momento aqui no Brasil. Isso seria evidente, pois foi exatamente para isto, para falar e representar, por suas palavras, os seus eleitores, que ele foi eleito. 

Isso é o que diz a publicidade liberal hoje no Brasil.

Mas essa conclusão tem muitos pressupostos falsos e aquilo que parece ser grande liberdade é, na verdade, submissão ao poder político. Os deputados são detentores de poder político e têm imunidade para expressarem livremente seu pensamento. O cidadão mesmo, no entanto, não tem imunidade para expressar livremente o que ele pensa. Nem participa das decisões. Exceto pela eleição. No restante, ou seja, todo o tempo, ele está submetido ao poder dos políticos. 

E é isto o que defendem os tais liberais. Liberdade aos poderosos e submissão aos cidadãos. Tanto sob o prisma econômico quanto sob o prisma político.

Ou seja, a defesa da liberdade pelos liberais é falsa. Sob a sua capa sempre estará presente a defesa da submissão dos cidadãos ao poder político por um lado e econômico por outro.

Por outro lado, cada indivíduo é mais livre e o poder político menos opressivo quando todos têm liberdade real de se expressar em vários fóruns decisórios, participando diretamente das tomadas de decisão nas sociedades e quando, por contrapartida, os deputados e outros representantes políticos são substituídos por representantes circunstanciais, delegados, que apenas possam se manifestar e negociar em nome de um coletivo, de acordo com as decisões do coletivo. E esse é o modelo anarquista, desde Bakunin até Rojava. 

E isso realmente comprova que o anarquismo é, efetivamente, sempre mais libertário que o liberalismo. Ao fim, eles têm que defender o Capital e o Estado, o domínio do econômico e do poder político sobre a sociedade, e nós não.

Não sei em que os argumentos do campo político de esquerda, pelo menos no que é mais predominante, que tem alguma expressão nacional aatualmente, são muito diferentes destes da direita mais liberal, neste caso. Ao fim, o pensamento da esquerda de direitos humanos, o pensamento predominante na esquerda, em geral mesmo, no BR hoje, é de que a democracia e a liberdade de expressão são valores inquestionáveis. São pedras angulares de uma sociedade moderna, plural e inclusiva. A defesa intransigente da democracia política e o estado democrático de direito definem bem estes valores da esquerda, no que ela tem de melhor.

E, com certeza, as críticas à direita, acima se aplicam à esquerda do mesmo modo e ainda com mais razão. Para a esquerda o Estado como instituição fundamental, o poder político como necessidade insuperável e a organização partidária como essência desta estrutura são princípios inquestionáveis da vida social civilizada. Portanto, não há dúvida para o esquerdista em geral, no Brasil e no mundo, que o Estado, o poder político e, consequentemente, seus representantes, detentores do poder de Estado (politico-jurídico) devem ter prerrogativas que não atingem jamais ao cidadão comum. Inclusive a imunidade para expressar livremente seu pensamento.


Aprofundando o debate no confronto com o pensamento libertário de direita

Os liberais pelo menos podem alegar que têm uma ala mais radical de libertários que, de um modo ou de outro, defenderiam antes e acima de tudo, a liberdade de expressão igualmente para todos os cidadãos. 

Estes liberais radicais, ou libertários são sempre, obviamente, uma minoria. Assim como os esquerdistas radicais que defendem uma igualdade real entre as pessoas. Essas minorias radicais se aproximam do anarquismo, como já disse. E talvez nós, os anarquistas, devêssemos reconhecer que, neste caso, estamos juntos aos libertários capitalistas. Como estaríamos junto aos igualitários socialistas na defesa intransigente dos direitos de igualdade.

Mas, como eu já disse, o pressuposto que tenho é que somos melhores do que eles justo no que eles são melhores. Estaremos juntos deles, circunstancialmente, na defesa da liberdade e da igualdade, mas, ideologicamente estamos além de ambos.

Então, deve haver algo falso ou equivocado na ideologia libertária de direita no que toca á liberdade de expressão pessoal.

Vamos fazer como nos ensinaram na tradição mais sedimentada. Vamos olhar para a realidade primeiro e ver como as coisas se dão no mundo real, antes de partirmos para um embate definidor no mundo das ideias.

O que ocorre é que certamente há o crime de palavra ou ideológico no Brasil e no mundo em geral. Existem, com certeza, criminosos cuja ação se deu pela fala e pela ideologia, pala palavra, de qualquer modo.

Existem os crimes de injúria, difamação ou calúnia. É claro que estes tipos penais servem muito para proteger poderosos e oprimir os inferiores na escala social. Mas também é verdade que a mentira e a ofensa públicas podem realmente prejudicar em muito a vida de alguém, injustamente. E isso realmente pode ser considerado um crime.

Então, é bem verdade, que ninguém deve poder falar o que quiser, sobre quem quiser e a hora que quiser, como se isto não tivesse nenhuma consequência e não implicasse em nenhuma responsabilidade. Como se julgam fatos assim e como se poderá punir alguém ou ressarcir alguém diante deste tipo de crime, em qualquer sociedade, em uma coletividade livre, por exemplo, é algo muito particular, certamente. Mas não se pode negar que o problema existe. O conceito de crime de palavra, nessas circunstâncias, não pode ser eliminado e a defesa da liberdade absoluta e inconsequente de cada um falar o que quiser, sobre quem quiser e onde e como quiser, não pode ser sustentada de um ponto de vista racionalmente ético. A aparente defesa da liberdade se converte assim na defesa de injustiças e, por fim, da opressão contra inocentes.

Aqui no Brasil e em vários outros países você também pode ser julgado e condenado se acharem que você mentiu em testemunho em um processo judicial, exceto se você for o réu. E é claro que você realmente estará cometendo um crime se fizer isto e, por exemplo, levar à punição alguém que você sabe que é inocente e inocentar alguém que você sabe que é culpado. 

E você será considerado coautor de qualquer crime que você tenha mandado executar, planejado e ou organizado. É considerado autor quem pessoalmente pratica o crime, mesmo sem ter realizado a ação criminosa. Considera-se, acertadamente, que o autor é que tem o domínio do fato, tem o poder de decisão sobre a configuração central do fato. E possuem o domínio do fato, tanto o determinador, como o executor, portanto, ambos são autores do crime.

E isto também nestes casos, de modo restritivo, estas formas de crime ou de participação em crimes, que se comete exclusivamente pela palavra, ou pela ideia.

Tenho bastante convicção que mesmo o libertário mais radical não considera correto abolir estes tipos criminais, simplesmente porque eles são crimes de palavra ou ideológicos. São realmente assim e assim mesmo são crimes. Então, com certeza, é falso o libertário capitalista quando afirma que defende uma liberdade absoluta de expressão, significando que as pessoas poderiam sempre realmente pensar e expressar o que quiserem e que isto jamais constituiria crime. Não, nestes casos aí, tenho certeza que eles vão concordar que há crime pela simples palavra. Por exemplo, em um assalto planejado e executado contra um banco, com certeza consideram o planejador e chefe da quadrilha tão responsável quanto o executor. O mesmo em se tratando de uma quadrilha de políticos, funcionários e outros bandidos de colarinho branco. Na maioria das vezes os maiores planejadores e beneficiários não se mostram em cena.

Na mesma categoria incluem-se os crimes de farsa e engodo como objetivos financeiros ou de outra natureza, como o estelionato e outros correlatos. Com frequência apenas se usa a palavra e a manipulação psicológica para se conseguir o fim criminoso. Os crimes financeiros, os crimes de corrupção, os crimes empresariais são todos deste tipo. Apenas executados pela palavra.

E ainda que haja muita confusão sobre o que é ou não crime em cada aspecto deste, não parece razoável, nem para o libertário mais radical, abolir completamente estes tipos de crimes somente porque são apenas executados através da palavra. Logo, como estou insistindo, não é verdade quando um libertário afirma que defende a total liberdade de pensamento e expressão. E certamente uma das principais formas de enganar as pessoas, ideologicamente, é através de falsas universalizações.

Isso tudo se dá no campo do direito privado, penal ou civil e parece que ninguém nem do lado liberal nem do lado socialista pretende abolir estes tipos de crime na verdade. Isso seria um absurdo absoluto para eles. Mas, este não é o campo em que estas questões normalmente surgem e pode parecer até estranho que elas estejam sendo consideradas aqui. Mas não é. De fato elas mostram que a tipificação de crimes de palavra ou ideológicos é parte da realidade jurídica em qualquer sociedade organizada e não tem como ser diferente.

É óbvio, contudo, que o tema aparece normalmente é quando se trata de questões diretamente coletivas, relativas ao Estado, a grupos sociais e representações político-ideológicas. Então vamos considerar especificamente estes aspectos.

É estabelecido no código penal brasileiro que o ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, para a prática de um crime são também formas de coautoria ou participação no crime, se ele chega pelo menos a ser tentado. Isso valeria igualmente para crimes comuns ou para crimes políticos ou contra o estado. Crimes políticos também são descritos no código penal.

Você pode ser enquadrado na lei de segurança nacional se alguém considerar que seus atos ou palavras lesam ou expõem a perigo de lesão: a nação, o regime ou as pessoas dos chefes de poder. Mesmo sem que tenha havido a lesão, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, reduzida. E a atividade ideológica de liderança ou administrativa de promoção, organização ou direção de outros participantes, é agravante.

E, por fim, você pode ser preso pela lei antiterrorismo se alguém achar que você promove, fundou, integra ou presta auxílio, direta ou indiretamente, a alguma organização terrorista. Que significa que acham que a organização está provocando ou pretende provocar terror social através de atentados contra patrimônio, segurança pública e a vida de pessoas, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião. E aqui, também, há a punição independentemente de qualquer dano concreto causado. Trata-se, portanto, de crime de perigo abstrato. É, por isso, igualmente crime: realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito de consumar o delito.

Só de sintetizar o objeto destas leis aqui eu tenho medo. Dá pavor este poder absurdo nas mãos do Estado para, discricionariamente, decidir quando alguém está planejando, organizando, dirigindo ou preparando atos lesivos à nação, ao regime, aos chefes de poder, ou atos terroristas contra alguma raça, etnia ou religião, ou que diretamente suas palavras sejam assim consideradas, como lesivas a qualquer destes objetos, entes, pessoas ou representações coletivas e você possa ser, por isto, preso, indiciado, julgado e condenado.

Um medo bem fundado no uso histórico deste tipo de lei não só no Brasil, mas mundo afora. Parece que aqui, então, temos que concordar com os libertários e defender que jamais possa ser considerada a existência de crime de palavra contra estes objetos coletivos ou contra indivíduos que os representem. Mas basta olhar para as questões que estas leis abarcam para ver que, mesmo aqui, novamente, é falsa a posição libertária de direita.

De verdade, por exemplo, se alguém planeja ou incita a violência contra pessoas de uma determinada religião ou simplesmente denigre essas pessoas de modo a propiciar o clima para perpetração de violência contra essas pessoas, realmente isso não pode ser tolerado. E pode, certamente, ser considerado crime. Da mesma maneira, se alguém planeja a tomada do poder, se organiza militantes para tomar o poder, com o objetivo de escravizar um grupo específico da sociedade, ou eliminá-lo, com certeza isso não pode ser tolerado e pode também, certamente, ser considerado crime. E certamente, também, as pessoas desses grupos podem e devem buscar uma defesa contra essas ameaças. 

Ao fim, até valores ainda mais abstratos, como a democracia ou a liberdade, ou os direitos humanos ou civis, enfim, qualquer destes objetos podem ser, justamente, considerados ameaçados e a sociedade pode e deve, eventualmente, defendê-los contra quem os ameaça ou ataca, verbalmente ou por atos organizados.

Parece absurdo que estas possibilidades sejam consideradas por alguém, ou por uma ideologia, que se entende mais libertária que qualquer liberal, por mais radical que seja.

Mas, repito, essas posições de radicalidade liberal são falsas.

Qual o limite e como se posicionar diante disto, então?

Ainda que todos os detalhes de realidade não possam jamais ser considerados aqui, ou em qualquer outro texto, uma conclusão geral é possível. E ela guarda uma proximidade muito grande com a solução para a questão, obviamente correlata, da privacidade em contraposição à exposição, vigilância e controle públicos.

 É óbvio que nas condições normais do Estado, mesmo na forma democrática, esse poder concentrado e que, efetivamente se amplia com a tecnologia e o uso universal dos recursos tecnológicos para a comunicação entre as pessoas, 

é óbvio que tudo isto, todo este aparato legal e informacional está sendo utilizado e será ainda mais utilizado, na medida que mais onipresente, para o controle, doutrinamento e dominação de base politica, religiosa, econômica, étnica e de todas as demais maneiras pelas quais as pessoas, grupos, corporações e Estados exercem controle, doutrinamento e dominação sobre as outras pessoas e grupos de pessoas. Mas é claro também que o acesso à informação e comunicação, às redes sociais e todas as outras formas de comunicação de fácil vigilância e controle, como hoje temos, é um ganho e não uma perda para as pessoas em geral. Quase que eu posso dizer, acesso à livre informação e comunicação. Mas quanta contradição.

Os sábios, os maiores, talvez, sempre disseram que a realidade é mesmo contraditória.

E enquanto as pessoas estiverem organizadas na forma política do Estado e na forma econômica do capitalismo, seja qual tipo for, mesmo a melhor democracia política e a melhor economia liberal, as leis e a sua própria comunicação, assim como a própria produção tendem a se tornar forças para te controlar, te doutrinar e te dominar.

Parece insuperável o fato que a sociedade nos controla. Como sempre digo, o sistema sempre vence. Não podemos mais ter as ilusões liberais e nem as marxistas. E parece claro que estamos caminhando, alegremente, para uma sociedade de mais controle, de Estados e de corporações, que podem ter o controle sobre as informações e comunicações, o sistema legal e a produção.

O caminho da contradição, no caso, é aquele que aponta no maior controle social, também, a maior liberdade. De certo modo andamos para isto. Quanto mais informação temos maior é a nossa possibilidade de escolher livremente e quanto mais nos comunicamos com outras pessoas mais aumentamos nossos horizontes pessoais. E quanto mais informação nós temos das pessoas mais podemos proteger os mais frágeis, com certeza. E isso representa, certamente, mais liberdade. Mas, hoje andamos, simultaneamente, no caminho da submissão ao controle estatal e corporativo sufocantes.

E não tem como ser diferente enquanto estivermos sob as formas de dominação política do Estado e econômica das Corporações Privadas. Não há meio de aperfeiçoar estas formas de dominação de modo a torná-las formas de vida ativa e livre.

Como eu já disse, não se chega ao anarquismo pelas vias estreitas e limitadas da crítica ao Estatismo por um lado ou da crítica do Capitalismo pelo outro. Mas, somente quando se supera o limite de cada uma e se transforma e complementa a crítica do poder alienado do Estado com a crítica do poder alienado do Capital e vice versa. Na realidade o único meio dos recursos de proteção da sociedade e dos indivíduos não se tornarem recursos de dominação e submissão da sociedade e dos indivíduos pelo poder político e pelo poder econômico é colocar todo o poder social sob o controle direto da própria comunidade, da própria sociedade, da própria população, dos próprios indivíduos.

Não é possível se abdicar dos recursos de proteção, como a vigilância social e contenção de planos e projetos criminosos, ao contrário, eles devem ser ampliados, mas se estes recursos não estiverem diretamente sob o controle das comunidades, mas sim sob o poder do Estado ou de indivíduos ou corporações, eles serão, certamente, utilizados para controlar, doutrinar e dominar as pessoas em geral e grupos específicos em especial.

Só com o controle direto das pessoas sobre estes recursos de poder é que ele não poderá se voltar contra as suas liberdades e se tornar um instrumento de violência contra elas próprias. Mas para isto é necessário atingirmos a superação das formas de poder político e econômico atuais ou, que seja, precisamos, pelo menos, avançar no caminho para esta superação.

sábado, 17 de abril de 2021

O APAGÃO EPIDEMIOLÓGICO DO BRASIL

 REVISITANDO A QUESTÃO DO CONTROLE DA COVID19

O APAGÃO EPIDEMIOLÓGICO DO BRASIL
Desde o início da epidemia eu me coloquei contra as medidas de isolamento generalizado, ou lockdowns, em todo um país, por tempo indeterminado, até a vacinação da população.
Nada me convencia de que esta estratégia estava correta, que seria efetiva e que teria mais benefícios do que danos. Algumas pessoas me execraram por isto.
Eu estimava que teríamos, em um ano de pandemia, algo como 80 mil mortes e algo como 50% destas seriam óbitos que ocorreriam de todo modo, por outras causas. Parece que estimei a gravidade da epidemia abaixo do que acabou se mostrando aqui no Brasil até agora. E que ainda continua, com gravidade evidente. Dramática, traumática, absurda. Para dizer o mínimo.
Eu me baseava nos dados inciais de populações como a da Korea do Sul, que mais tinham realizado testes. E eu me contrapunha à principal fonte da visão estratégica de que se devia impor o isolamento generalizado, para toda a população e em todo um país, até a vacinação, ou pelo menos a fonte mais divulgada pelos defensores desta ideia: o estudo, com modelos computacionais, da Imperial College of London. Nele se estimava um total perto de 1,5 milhão de óbitos no BR se não se fizesse este isolamento. Parece que a projeção deles estava, ao fim, realmente ainda mais errada do que a minha.
E logo eu notei uma falha muito grave, além de outras, neste tipo de estudo: a ausência da vigilância epidemiológica Em nenhum dos cenários analisados, se considerou quais seriam os efeitos da devida vigilância epidemiológica no controle da epidemia e redução da sua mortalidade.
Contudo, já àquela época, os dados de realidade mostravam que os países que realizavam rigorosa vigilância epidemiológica (testagem de sintomáticos / testagem em massa / rastreamento de contatos e isolamento de positivos) tinham resposta positiva no controle da epidemia.
Obviamente, a adoção de medidas de vigilância epidemiológica tem impacto negativo na sociedade muito menor do que o isolamento social e os lockdowns generalizados. Isso é certo sob os prismas de saúde e atendimento médico, psíquicos, socioculturais e ecônomicos em geral. Obviamente.
Mas essa medida fundamental, nuclear para o controle de epidemias em geral e neste caso também foi completamente negligenciada nos tais modelos computacionais e, em certos lugares, foi completamente negligenciada também pelas autoridades médico-sanitárias-científicas, assim como pelos influencers da área e pela mídia em geral. Infelizmente este é o nosso caso.
Claro que sabemos ainda pouco sobre características da transmissão e controle da virose e que persistem incógnitas muito grandes em sua distribuição e letalidade nas diversas populações mundo afora, como o controle quase absoluto sobre a epidemia que a China obteve logo após o surto inicial e o baixíssimo impacto na África em geral, até o momento.
Mas algo parece incontestável. Os países que apostaram na devida vigilância epidemiológica, os países que realizaram testagem em massa, tiveram um resultado melhor dos que negligenciaram forma relapsos ou simplesmente não realizaram estas atividades. Outra coisa que parece clara agora é que o uso sistemático e massivo da testagem, rastreamento e isolamento, assim como de outros recursos de vigilância, como controle de viajantes, tem bom resultado independente da estratégia de isolamento adotada. Já o contrário não parece ser sustentável e a verdade é que os isolamentos e lockdowns não funcionam ou funcionam muito mal sem a devida vigilância epidemiológica.
Agora que a epidemia está, novamente, em um pico no nosso país, que temos novas cepas mais agressivas, que as vacinas ainda vão tardar para a maioria, que estamos totalmente erráticos e sem qualquer critério consistente para abrir ou fechar as coisas na vida da sociedade, agora que estamos colhendo, por isso, os piores resultados na saúde e na economia, agora mais uma vez, eu continuo insistindo: a estratégia central para o controle da epidemia antes da vacinação em massa (e talvez mesmo depois) é a devida vigilância epidemiológica: testagem em massa, rastreamento e isolamento de positivos. E insisto ainda também, mais uma vez: o isolamento social generalizado por tempo indeterminado traz consequências piores do que a epidemia e, na realidade tende a falhar dramaticamente. Repito ainda também: a proposta de isolamento social generalizado por tempo indeterminado é irresponsável e sem a devida vigilância epidemiológica, é criminosa.
Parece tarde demais, no entanto, para corrigir estes rumos no BR. E certamente a politização do problema contribui muito para este drama monstruoso que estamos vivendo.
E, para que ninguém ache que estou passando pano para pilantras incompetentes e bandidos, preciso dar uma palavra final: a responsabilidade primeira e fundamental para agir em uma crise sanitária com esta é do governo federal, do ministério da saúde e da presidência da república. Assim como a responsabilidade para agir diante da crise econômica é também do governo federal, do ministério da economia e da presidência do país. E o conluio entre milicianos e liberais que tomou o poder é absurdamente incompetente e mal intencionado em todas as áreas. Nunca tivemos testagem em massa e ainda não temos vacina em massa, primeiro e antes que tudo, pelas opções e escolhas erradas e falsas do governo federal na área da saúde. Assim como temos a economia no buraco e a miséria crescendo no país devido às escolhas erradas e falsas do governo federal na economia.
E vou dizer mais uma coisa que sempre esteve na minha cabeça, gente como os Bolsonaro, bandidos milicianos, ligados às forças armadas no país, quando chegam ao poder não soltam fácil de jeito nenhum. É claro que Bolsonaro está, neste momento, mais uma vez, tramando e armando e ameaçando a sociedade com um golpe. Ele sempre fará isso. Inclusive porque se ele não persistir no poder, ele e seus filhos vão acabar na cadeia.
Pode ser uma imagem de texto que diz "20+)Facebook Reader C(32-bit) Apps Pesquisa Bookmarks Google Libertas-Moodle death million covid (72)Faebook Avançar Todas Shopping Videos )Ûo Aproximadamente å› Noticias Mais resultados (0,83 segundos) Configurações Coronavirus by Ferramentas deaths per one million as April 16, 2021, Slovenia Confirmed cases (absolute) resultados relacionados Italy Deaths per million last7 229,967 20.12 United Kingdom* 3,826,156 COVID- pandemic death rate... novembro 2020, lêmen tinha maior de. e. 39.11 4,365,856 Mais inhas 2.21 13,746,681 horas atrás Digite https://www.statista. com State fH •COVID-19 deaths pesquisar Statista Endereço 17/04/2021"
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

COVID 19 - PERGUNTAR NÃO OFENDE 1 (29/03)


COVID19 1.Qual a expectativa de contaminação em uma população como a nossa, no nosso clima? E quais os dados embasam essa estimativa? Vc está seguro com eles?
COVID 19 2.Qual a taxa de letalidade da virose? Como está sendo calculado isto? Vc está seguro com isso?
COVID19. 3.A situação da Itália é completamente diferente de outros países, como na Ásia Ocidental. Será a Itália a norma ou a exceção?om este cálculo?COVID19. 4. Qual é o número de mortos esperados por gripe e pneumonia ? Quanto estes números estão se alterando por causa da epidemia?COVID19. 5. qual o período necessário para uma interrupção efetiva de circulação do vírus, 15, 30, 60, 90 dias? Qual a base para esta decisão?COVID19. 6. Como se garante a não reintrodução do vírus, depois da quarentena? Teremos q fazer quarentenas a cada vez q o vírus reentrar no território?COVID19. Qto custa em termos de sofrimento, doenças e morte, a interrupção da vida social por 15, 30, 60, 90 dias?

COVID19. 4. Qual é o número de mortos esperados por gripe e pneuCOVID19. 4. Qual é o número de mortos esperados por gripe e pneumonia ? Quanto estes números estão se alterando por causa da epidemia?monia ? Quanto estes números estão se alterando por causa da epidemia?

COVID19. 4. Qual é o número de mortos esperados por gripe e pneumonia ? Quanto estes números estão se alterando por causa da epidemia?

COVID19 - Um convite ao pensamento. 29/03

COVID19 - Um convite ao pensamento.
Vamos fazer todas as contas. Tenho certeza q vc não fez e tenho certeza q quem fez não tem os dados suficientes. Estamos em terreno muito frágil. Dados muito precários. Parece razoável nestes casos sempre pecar pelo excesso e salvar algumas vidas. Mas, nem tudo que parece certo é.
Vou te fazer umas perguntas e se vc puder responder parte de uma dela, que seja, já teremos uma conversa produtiva. E de hoje em diante eu mesmo vou respondendo a estas questões em posts sucessivos. Com os dados mais atuais. Vamos lá:
1. Qual a expectativa de contaminação em uma população como a nossa no nosso clima. E quais os dados embasam essa estimativa. Vc está seguro com eles?
2. Qual a taxa de letalidade da virose? Como está sendo calculado isto? Vc está seguro com este cálculo?
3. A situação da Itália é completamente diferente de países como Alemanha Rússia ou índia pelo menos por enquanto. Será a Itália a norma ou a exceção?
4. Qual é o número de mortos esperados por gripe e pneumonia naqueles territórios onde o drama é maior (norte da Itália e regiões próximas)? Como estes números se alteraram no curso da epidemia? Qual é, portanto o impacto real da virose em termos de adoecimentos e morte além daquele q já teríamos mesmo por gripe e pneumonia?
5. Considerando o impacto geral sobre a vida e a saúde das pessoas, qual será o custo em adoecimento e morte, por causa de um breakdown na vida socioeconômica por 15 dias, por 30 dias, por 60 dias, por 90 dias? E isso nas condições socioeconômicas esoecificad do BR...? E como isso impactará diferentemente as diferentes classes sociais, como impactará os mais pobres no BR..? Qtos milhares ou milhões adoecerão ou morrerão por causa disto?
6. E qual o período necessário para uma interrupção efetiva de circulação do vírus? Qual a base para está decisão?
7. E como se garante depois a não reintrodução do vírus? Teremos q fazer quarentenas a cada vez q o vírus reentrar no território?
8. E quanto custará para a vida e a saúde das pessoas essa série de interrupções? Nas condições do BR... Nas classes sociais mais pobres, especialmente... Qto?

COVID 19 - EPIDEMIOLOGIA DE UM PANDEMÔNIO - 29/03

Vamos pensar um pouco. Aproveitando a quarentena.
A tabela aí abaixo é um desdobramento dos dados do informe diário da OMS.
Parecem dados absolutamente alarmantes e que justificariam qualquer ação desesperada e extremada, pois, a taxa de letalidade da doença seria de 10% na média mundial, atingindo 20%, ontem nas Américas. Isto realmente é desesperador.
Mas, peraí. A taxa de letalidade indica quantos por cento dos casos morreram. E 10 ou 20% é absurdamente alto e alarmante, se se tratasse de todos os casos. Mas aí se trata dos casos confirmados, apenas. E só se confirma os casos testados. E só se testa os casos sintomáticos e graves em geral. Mas a grande maioria dos casos é assintomática, ou, tem sintomas leves e nunca vai ser testada. Logo, a taxa de letalidade da infecção por coronavirus é menor do que está sendo exposta? Com certeza, algumas dezenas ou centenas de vezes menor do q esta aí. Mas, pq não te falam isto? A quem interessa q vc fique em pânico?
Agora olha com calma, observa a tabela. O q vc nota de peculiar aí?
O que é peculiar é a diferença na taxa de letalidade entre as regiões e sobretudo entre a região da Ásia Ocidental (0,7%) e as outras regiões, principalmente Europa e agora os EUA, q ontem bateu 20% de taxa de letalidade sobre os casos confirmados.
Uma diferença de praticamente 30 vezes. O q pode explicar uma diferença assim? A diferença de qualidade dos serviços de saúde? Claro q não. Justo os EUA e a Europa são conhecidos por estarem entre os melhores serviços de saúde do mundo. Pq lá eles fizeram quarentena antes e melhor? Claro q não. A quarentena pode alterar muito a disseminação ou o ritmo de disseminação da doença, mas não a sua gravidade / letalidade. O q é então a causa da grande diferença entre a região da Ásia Ocidental e as outras, especialmente Europa e EUA? Bom, em primeiro lugar pq lá começou antes, então as taxas encontradas lá devem refletir mais a realidade final do impacto da doença do q no seu início. Algo a se considerar. E, certamente na Ásia Ocidental se testou mais pessoas, casos mais leves tb. Daí ela se aproximar mais da realidade, q com certeza é ainda mto menor.
Vamos seguir refletindo c dados nos prox dias...


sexta-feira, 10 de maio de 2019

FAQ - CANNABIS MEDICINAL. TERAPEUTICA CANABINOIDE, MACONHA MEDICINAL


QUESTÕES FREQUENTES SOBRE CANNABIS - MACONHA MEDICINAL/TERAPÊUTICA

1) Quais são os problemas ou doenças que podem ser tratados com maconha, (cannabis, canabinoides, CBD, THC)?
Hoje existem evidências médico científicas em diversos níveis indicando ou comprovando que a maconha pode ser utilizada terapeuticamente com boa eficácia nas seguintes condições:
        Autismo
        Dores crônicas (todas os tipos de dor crônica, incluindo dores neuropáticas e dores no câncer)
        Epilepsia
        Fibromialgia
        Doenças inflamatórias crônicas e autoimunes (lúpus, síndrome do intestino irritável, doença de Crohn, retocolite - artrite reumatóide, entre outras)
        Asma
        Esclerose múltipla
        Doença de Parkinson
        Outras doenças neurodegenerativas e lesões que cursem com espasticidade muscular
        Alzheimer e outras demências
        Distúrbios psíquicos em geral: TDAH, transtornos do humor (ansiedade, pânico, depressão), estresse pós-traumático, bipolaridade, psicose / esquizofrenia
        Dependência química de álcool, nicotina, cocaína / crack, opiáceos, diazepinas (rivotril, bromazepam etc), antipsicóticos (risperidona, aristab, olanzapina, haldol etc) e outras drogas
        Glaucoma
        Pacientes com câncer, AIDS e outras doenças crônicas graves podem se beneficiar do uso medicinal da maconha (porque ela atua contra a dor, as náuseas, a insônia e melhora o apetite, o ânimo e a percepção de bem estar)
        Em casos de hipertensão, diabetes e até mesmo no tratamento curativo do câncer também pode haver benefício com o uso terapêutico de canabinoides
2) Como fazer o tratamento, que produto usar, como administrar, qual dose?
Em princípio, todos os tratamentos podem ser feitos com a erva e seus extratos integrais ou com canabinoides purificados ou isolados (THC ou CBD).
A administração da erva integral, de seus extratos, ou dos canabinoides pode ser feita, com eficácia terapêutica, por via oral, por aplicação na pele ou aspirada (vaporizada / fumada) ou ainda por outras vias.
Os usos mais correntes são a ingestão, por via oral, de extratos da erva, puros ou diluídos em veículo comestível (óleo ou glicerina, por exemplo), e o fumar / vaporizar a erva integral ou seus extratos.
A melhor forma de administração e as doses adequadas vão depender do distúrbio ou doença, da idade / peso, da intensidade dos sintomas e das condições gerais de cada pessoa. E também vão depender bastante da composição de canabinoides do produto e ainda da diluição empregada no caso dos óleos.

Casos de dor crônica, espasticidade e vários sintomas psíquicos ou outros que podem surgir em crises com intensificação progressiva, em geral, podem se beneficiar mais da administração por via aspirada (vaporizar / fumar) porque o efeito é bastante imediato. Já casos de doenças que podem requerer o uso contínuo de doses mais elevadas, como algumas doenças inflamatórias crônicas, podem ser melhor tratados com uso de óleo em altas concentrações ou extratos puros, por via oral. O uso associado das duas vias parece ser o mais indicado quando os dois aspectos estão presentes como nos casos de dor neuropática, por exemplo.
Produtos com alto CBD e baixo THC vão demandar maiores concentrações e quantidades para produzir efeito. Já produtos com médio ou alto THC funcionam já com altas diluições e doses baixas.
De todo modo, é notável como é grande a amplitude das doses terapêuticas em se tratando de canabinoides. Por exemplo, para o tratamento de síndromes epilépticas da infância é razoável tratar com doses que variam desde menos de 2 mg/kg/dia, até mais de 20mg/kg/dia de CBD. Um paciente com 50 kgs, portanto, pode ter um bom resultado com menos de 100 mg de CBD por dia, ou precisar de doses acima de 1000 mg de CBD por dia. Esse mesmo paciente poderia ser tratado eficazmente com menos de 2 mg de THC ou requisitar até doses acima de 200 mg de THC por dia.
Como a amplitude de doses terapêuticas é muito grande e o uso de doses mais altas no início do tratamento está associado com uma frequência maior de efeitos psíquicos negativos, recomenda-se começar, em geral, com dose bem baixa e ir subindo aos poucos até o melhor nível terapêutico para cada paciente.
Para os extratos da planta mais comuns aqui no Brasil, com teor moderado / alto de THC, diluídos em óleo ou glicerina, é bastante razoável, para crianças em geral, o uso de concentração de 3% (3 gramas de extrato diluído em 97 mls de óleo ou glicerina, ou 30 gramas de flor cozida em 100 mls de óleo ou glicerina). Concentrações menores podem ser mais adequadas para crianças menores ou em uso de muitos medicamentos neuropsiquiátricos. Para adultos em geral é razoável o uso de uma concentração de 6% (6 gr de extrato ou 60 gr de flor em 100 mls de óleo ou glicerina) ou de 9%. Com essas concentrações recomenda-se iniciar com uma gota, de uma a três vezes ao dia, e aumentar a dose a cada 2 a 5 dias, até obter os melhores efeitos.
Para produtos de CBD purificados sem THC, ou com alto CBD e muito baixo THC se requer muito maior concentração e / ou o uso de doses muito altas (muitos mls), para se obter algum efeito.
3) Quais os efeitos esperados do tratamento com canabinoides?
Espera-se os efeitos psíquicos gerais de tranquilização, relaxamento, melhora do humor, intensificação de sensações e de regulação do sono e apetite e controle de dores e náuseas.
Há efeitos antiinflamatórios e de regulação da atividade imunológica em geral. A maconha pode atuar reduzindo a atividade inflamatória em doenças como a síndrome do intestino irritável, o lúpus e as neuropatias e doenças neurodegenerativas em geral, entre outras.
Nos casos de epilepsia a maconha tem se mostrado eficaz para o controle da atividade epileptiforme e das crises convulsivas.
Em autistas há efeitos positivos na estabilização de atividade neuropsíquica alterada com melhora dos sintomas (de crises convulsivas e insônia até hiperatividade e crises psicocomportamentais) e significativo impulso ao desenvolvimento global (motor, fala, cognitivo e socialização)..
Existem evidências in vitro (cultura de células) de efeito antineoplásico, com destruição de células cancerosas. Existem também relatos de casos de melhora clínica de câncer com o uso medicinal da erva, seus extratos ou princípios ativos.
Existem evidências laboratoriais de que os canabinoides produzem relaxamento de parede vascular e redução de resistência à insulina, razões porque podem ser úteis para hipertensão, diabetes, dislipidemia e obesidade e, portanto, para a redução de risco cardiovascular.
Um conjunto muito significativo de efeitos positivos do uso terapêutico da maconha está não em seus efeitos diretos, mas surge como consequência da redução e retirada de medicamentos, muitas vezes muito tóxicos que os pacientes com estas doenças e sintomas utilizam. Assim, em doenças inflamatórias crônicas e autoimunes é possível se obter a redução ou retirada de corticóide e imunossupressores; no controle da dor, dos opiáceos e outros analgésicos e antiinflamatórios; na epilepsia, dos anticonvulsivantes; no autismo e distúrbios psíquicos em geral, dos antipsicóticos e de toda a medicação neuropsiquiátrica utilizada; no Parkinson, do prolopa e drogas associadas etc. Não é possível sequer elencar aqui a quantidade e a gravidade dos efeitos colaterais que estas drogas frequentemente causam e que o uso terapêutico da maconha permite evitar ou reduzir pelo menos.
4) Quais os efeitos colaterais ou adversos do uso da maconha, de seus extratos ou de canabinoides?
Não existe associação causal comprovada do uso crônico da maconha, ou seus extratos, com qualquer doença orgânica em seres humanos. Nenhum órgão ou sistema do nosso organismo parece ser afetado pelo uso da maconha de modo a provocar alguma doença. Assim, não há risco identificado para o sistema cardiovascular, para os pulmões, para o sistema renal, nem para o fígado e o sistema digestivo como um todo e não há efeitos negativos esperados para os ossos, articulações ou músculos. Também não existe comprovação de nenhuma doença ou degeneração dos nervos associada ao uso da maconha ou seus derivados.
O principal efeito colateral identificado no uso terapêutico da cannabis é a sonolência. Normalmente associada às doses mais altas ou por associação com drogas neuropsiquiátricas. Com frequência este efeito é transitório, desaparecendo com a continuidade do tratamento.
Outras alterações fisiológicas de menor impacto podem aparecer também, como alterações do funcionamento intestinal, olhos avermelhados, aumento de temperatura da pele e enurese noturna. Em geral são leves e passageiros, não comprometendo os tratamentos.
Os efeitos negativos do uso da cannabis ou de canabinoides que causam maior preocupação e que ainda hoje servem de argumento para o proibicionismo são os psíquicos ou psicossociais. O uso da maconha, de seus extratos ou dos princípios ativos isolados, CBD ou THC, pode desencadear percepções e reações psíquicas desagradáveis e indesejáveis, como ansiedade, pânico, depressão, delírios e crises psicocomportamentais. Essas reações dependem das condições dos usuários, das doses empregadas, do contexto de uso e da associação com outras drogas e medicamentos neuropsiquiátricos, ou da retirada destes.
De fato, ao se retirarem os casos de associação ou retirada de outras drogas, a frequência de casos de efeitos psíquicos negativos com o uso da maconha cai drasticamente. E, seja qual for a condição do usuário, a técnica de segurança de iniciar com dose bem baixa e ir aumentando aos poucos, até o melhor nível terapêutico individual, reduz em muito a frequência destes casos, praticamente zerando a sua incidência quando o paciente não está fazendo uso, nem retirada, de outros agentes psicoativos (drogas em geral e remédios psiquiátricos em particular).
Um aspecto bastante tranquilizador com relação ao surgimento destes sintomas em associação com o uso de cannabis é que eles não se tornam persistentes e podem ser bem controlados, com a retirada dos canabinoides ou, frequentemente, ao contrário, com o aumento de sua dose.
A literatura médico-científica, especialmente a psiquiátrica, desenvolvida no período do proibicionismo da maconha, aponta 02 ou 03 riscos para o consumo da maconha que se fossem consistentes deveriam nos causar preocupação. São eles:
1. O risco de esquizofrenia e outras doenças e distúrbios psíquicos crônicos, como a depressão e o pensamento suicida. Este risco estaria presente especialmente, ou exclusivamente, em usuários intensivos na adolescência. Os estudos que mostram a presença de associação entre esquizofrenia e uso de maconha frequentemente não são capazes de isolar outros fatores como drogas, ambiente e genética e, sobretudo, não são capazes de estabelecer causalidade na relação entre uso de maconha e esquizofrenia. Ao contrário, os dados populacionais são muito consistentes em mostrar que não há diferença significativa nas taxas de esquizofrenia em populações com taxas de uso de maconha totalmente diferentes, como são aquelas encontradas entre os jovens da Califórnia e da Austrália por um lado e da Indonésia ou da Arábia saudita, por outro. Também não se evidenciou aumento da incidência de esquizofrenia entre jovens nas últimas décadas do século passado no mundo ocidental, quando, em geral, as taxas de consumo de maconha aumentaram muito nesta região.
A experiência clínica tem demonstrado que, justo ao contrário do que alegou, e ainda vem alegando, a ciência proibicionista, a maconha é um excelente recurso terapêutico para os distúrbios psíquicos em geral e para a esquizofrenia em especial. Isso explica bem a associação encontrada entre casos de esquizofrenia e uso de maconha, assim como também explica o fato de que nas regiões onde há maior utilização de maconha a esquizofrenia causa menos impacto negativo nos indivíduos e na sociedade (como afastamento de trabalho, internações e suicídios).
2. Perda de capacidade e desempenho: memória, concentração e desempenho escolar e profissional poderiam ser prejudicados pelo uso crônico da erva, sobretudo, novamente, no uso intensivo na adolescência. Os estudos não comprovam, contudo, que haja realmente perda de desempenho social em geral devido ao uso de maconha. Em grande parte as falhas dos estudos proibicionistas neste sentido são as mesmas apontadas com relação à esquizofrenia. Não isolam outros fatores e não conseguem estabelecer causalidade.
Essas imputações de graves efeitos negativos de ordem psíquica e no desempenho social dos usuários são apoiadas sobre achados, não repetidos em outros estudos, de alterações anatômicas em certas regiões do cérebro em adultos usuários crônicos da erva. Contudo, as áreas onde as possíveis alterações ocorreriam nada tem que ver, funcionalmente, com as alterações de desempenho alegadas. Outro embasamento frágil para essas imputações é a evidência, in vitro (cultura de células), de efeito neurotóxico de substância similar ao THC.
Nada disto parece ter consistência suficiente para preocupar realmente o usuário da erva para fins medicinais ou qualquer outro. A clínica com os canabidinoides mostra  justamente o contrário, que entre autistas, TDAH e outros quadros psíquicos e também em casos de doenças orgânicas o desempenho social melhora e, com frequência, melhora muito, com o uso terapêutico da maconha.
5) Existem contraindicações ou situações em que o uso da cannabis não pode ser feito?
Não, em princípio a maconha ou seus extratos podem ser utilizados em qualquer idade, período ou condição de vida das pessoas, desde o início da vida até a extrema velhice. Do mesmo modo, nenhuma doença ou condição específica de saúde, de qualquer órgão ou sistema do nosso organismo, contraindica o uso terapêutico da maconha.
Pessoas com histórico de distúrbios psíquicos e especialmente aqueles em uso de polimedicação neuropsiquiátrica parecem ser mais suscetíveis a apresentar distúrbios psíquicos com o uso de canabinoides. Mas, isso não contraindica o seu uso nessas condições. Ao contrário, a maconha parece ser uma alternativa para o tratamento de todos os problemas psíquicos e poder substituir toda a medicação psiquiátrica hoje utilizada, com bons resultados e menor toxicidade.
O uso na gestação e na lactação também não é contraindicado, pois não se identificaram, até o momento, danos ou riscos efetivos contra a saúde da gestante ou do embrião, do feto ou do lactente. Por outro lado, não existem estudos que garantam a segurança do uso na gestação / lactação.
6) Quais as diferenças entre CBD e THC?
CBD e THC são canabinoides, e são considerados os principais princípios ativos da planta cannabis ou maconha.
Ambos atuam em um amplo e complexo sistema de receptores do nosso organismo. Esses receptores são estimulados naturalmente por substâncias parecidas com os canabinoides e se localizam difusamente no nosso organismo, principalmente nos sistemas nervoso e imunológico. Esses receptores e as substâncias que naturalmente atual neles formam o sistema endocanabinoide.
Devido à sua baixa afinidade pelos receptores endocanabinoides localizados no cérebro, os CB1, refere-se com frequência que o CBD não tem efeitos psicoativos nem toxicidade, ao contrário do THC. Essa conclusão é falsa, pois contrária aos resultados consistentes da experiência clínica e histórica. As evidências empíricas mostram que, de fato, os efeitos clínicos de CBD e THC são muito similares e que os efeitos terapêuticos e adversos que se obtém com o uso de produtos com alto THC também se obtém com produtos com alto CBD e baixo THC, ou sem THC. A experiência clínica mostra ainda que, em geral, o THC é dezenas de vezes mais potente do que o CBD. De modo que para se obter o efeito de 01 mg de THC, em geral, se requer mais de 30 mg de CBD.
Em coerência com essas informações, estudos recentes mostraram maior efetividade terapêutica geral em produtos com THC e maior frequência de efeitos colaterais em produtos de CBD purificado / isolado.
Existem correntes de pesquisadores que acreditam que a maior efetividade está no efeito conjunto de THC, CBD e dos demais canabinoides das plantas ou seus extratos integrais. É o chamado efeito de comitiva.
7) Como ter acesso aos produtos e começar o tratamento de fato, aqui no Brasil, hoje?
Existem várias vias para se fazer isto hoje aqui no Brasil. Algumas oficiais e outras informais, algumas legais e outras apesar da lei.
Em primeiro lugar a ANVISA, que é a agência reguladora da área no Brasil, liberou formalmente, nos últimos anos, a utilização de CBD e THC como recursos terapêuticos. Na prática, contudo, o acesso oficial a produtos de maconha para uso medicinal aqui no Brasil ficou restrito à importação de extratos integrais ou purificados com alto teor de CBD e baixo teor de THC, ou sem THC. E, mais recentemente, a ANVISA liberou também a venda em farmácia de produto com níveis balanceados, equivalentes, de CBD e THC. Essas são as vias oficiais, com chancela do órgão regulador da área da saúde no país. Elas resultam em produtos extremamente caros e sujeitos a entraves burocráticos variados.
Contudo, a maconha é uma planta que pode ser utilizada terapeuticamente in natura e que não apresenta dificuldades para a extração e diluição do extrato com os seus princípios ativos. A extração artesanal destes produtos tem longa tradição (os próprios produtos importados com autorização da ANVISA eram originalmente de extração artesanal) e a experiência clínica mostra sua segurança e efetividade, do mesmo modo que os produtos oficiais.
Hoje temos no Brasil uma associação que está autorizada pela justiça a plantar a maconha, fazer os seus extratos e diluições artesanais e vender para todo o país. É uma via legal para se ter acesso ao tratamento, mas não oficial, pois não tem a aprovação da ANVISA. Outra via legal, mas também não regulamentada pela ANVISA, é o cultivo próprio com autorização da justiça que hoje já foi obtida por perto de 40 pacientes / famílias de pacientes. Com a autorização da justiça (habeas corpus) eles também plantam e extraem artesanalmente os produtos para seu uso terapêutico. Para tanto se precisa de receita e relatório médico e acessar a justiça através da defensoria pública ou de advogado próprio.
A maioria dos usuários de maconha medicinal hoje no Brasil compram no mercado informal de produtos artesanais feitos aqui no BR ou.produtos importados, diretamente pela internet, também informalmente. E muitos ainda plantam e fazem uso medicinal sem procurarem a justiça.
Com certeza a grande maioria dos pacientes de maconha medicinal está nestes últimos grupos principalmente comprando de diversos produtores artesanais aqui do Brasil mesmo.
Isso traz riscos adicionais de perda de qualidade dos produtos e até contaminações. Este risco é parcialmente descartado ou minimizado pelos fatos de: 1.haver uma forte rede de troca de informações entre os pacientes, 2. Vários óleos artesanais aqui do Brasil terem sido testados laboratorialmente nos últimos 3 anos. 3. Os resultados obtidos com os produtos legais ou não, importados ou nacionais, artesanais ou manipulados industrialmente, de mais baixo ou de mais alto THC, tem sido muito similares na clínica.
Parece razoável concluir que, no momento, não há vantagem objetiva na importação ou compra em farmácia de produtos extremamente caros, já que eles não se mostram melhores que aqueles de produção caseira, nem em eficácia, nem em efeitos colaterais.

8) A maconha causa dependência, o uso medicinal leva à dependência?

Em muitos pacientes o uso terapêutico dos canabinoides, da maconha ou seus extratos traz alívio de sintomas, dores e sofrimentos muitas vezes extremos e melhora a percepção de bem estar e o ânimo. Nesse sentido a continuidade do seu uso pode ser desejada pelo paciente e necessária para a sua saúde e bem estar. Pode-se dizer que o paciente está então dependente de maconha ou de seus princípios ativos THC e/ou CBD? Sim.
Mas, considerando-se dependência no sentido de dependência química, fissura e efeito rebote ou síndrome de abstinência na retirada, é correto dizer que o uso crônico de maconha, nas mais diversas dosagens, não produz dependência.
No entanto, a principal classificação de doenças e distúrbios psiquiátricos do mundo, o DSM, incluiu a síndrome de abstinência por maconha em sua última versão.


9. Referências:

9.1 Terapêuticas

AIDS
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Asma
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Ansiedade

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Câncer (tratamento suportivo)
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