sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Panorama da economia dos EUA em 2025 em seus macro indicadores

Este ano é muito importante porque é o primeiro ano do segundo governo Trump. Um ano em que houve uma tentativa de imposição unilateral de tarifas contra o mundo todo, praticamente, na busca de conter o imenso déficit comercial dos EUA, que estava próximo a 1 trilhão de USD ao ano e em tendência crescente, e, talvez, numa tentativa de sinalizar para uma reindustrialização dos EUA, também. As forças políticas alinhadas ao governo Trump se auto-elogiam em relação ao desempenho econômico, mas os dados gerais da economia norte-americana, são, para dizer o mínimo, muito pouco auspiciosos para o povo dos EUA, no seu primeiro ano de governo, como era de se esperar. Nas últimas décadas, a economia dos EUA vem escalando a níveis extremos de desigualdade de renda e riqueza. Níveis extremos para eles, pois para nós, aqui no Brasil, estes são os níveis normais ou até desejáveis. Seja como for, este nível de desigualdade é um dos fatores que impedem o crescimento econômico de deslanchar, de fato, nos EUA e é a causa básica da crise econômico social que se instaurou por lá, a partir de 2007. Enquanto esta direção de concentração progressiva da riqueza não for corrigida, haverá muita dificuldade ou impossibilidade real para um crescimento mais efetivo da economia por lá. Conforme a fonte, os resultados para o crescimento percentual do PIB de 2025 estão entre 2,2% e 2,5%, contra um crescimento de 2,4 ou 2,5%, em 2024. Era mesmo de se esperar que o tarifaço do governo Trump, o grande aumento dos impostos de importação, tivesse algum impacto negativo sobre o crescimento econômico dos EUA, pois significaria o aumento de preços de itens de consumo final, assim como a quebra de cadeias produtivas e o aumento dos custos de produção. Muita gente vinha apostando em um aumento muito maior do PIB nos EUA, mas eles tinham perdido de vista o simples efeito estatístico da redução de importações, por causa do aumento de tarifas, que inflou o PIB deles no terceiro trimestre. Esse efeito se esgotou e foi revertido agora no último trimestre do ano, com o esgotamento dos estoques e nova rodada de importações, resultando, ao fim, no dado anual, nesta tendência queda ou estabilidade em uma taxa de crescimento abaixo, de fato, para as necessidades da população, para manter o nível de vida das classes populares que, portanto, segue decaindo, por lá. Se se descontar o efeito estatístico da redução das importações sobre o cálculo do PIB, no agregado do ano o resultado do crescimento econômico em 2025 teria sido ainda pior. O principal efeito buscado pelo governo, que era algum reequilíbrio das contas correntes, do balanço comercial dos EUA, não foi atingido, até o momento, apenas repetindo-se em 2025 o deficit comercial de pouco mais de 900 bilhões de dólares, o valor esperado em uma regressão linear dos resultados desde 2015, que mostra uma tendência de crescimento de aproximadamente 40 milhões de USD por ano. Do ponto de vista do incentivo à indústria local, talvez seja muito cedo para julgar os efeitos do tarifaço errático dos EUA, mas o fato é que não houve crescimento no emprego na indústria dos EUA em 2025, os ganhos neste aspecto estão concentrados sobretudo no setor de serviços e, mais especificamente, no setor de saúde. Talvez por isto, a Suprema Corte dos EUA tenha se animado a decretar a ilegalidade do tarifaço imposto pelo governo Trump, de forma muito errática, desde 02 de Abril de 2025. Ele não atingiu o objetivo principal e pode ter sido um dos fatores para o fraco desempenho do PIB. A contenção do crescimento do deficit orçamentário também era um dos principais objetivos estratégicos de curto prazo da administração Trump, na economia. Neste aspecto os dados que encontrei foram mais díspares do que nos indicadores anteriores, variando de 1,6 a 2,2 trilhões de déficit em 2025, ou seja, um crescimento entre 4 e 6% do PIB anual dos EUA. Estes valores representam ou o valor esperado ou um grande aumento do valor esperado, pela regressão linear desde 2015 (corrigindo-se os anos de 2020 e 2021, com gastos bem fora da curva, devido à pandemia), que indica um crescimento da dívida em 170 milhões de dólares ao ano, no período. De qualquer modo, qualquer que seja o resultado efetivo, é certo que o total da dívida pública dos EUA superou a marca dos 120% do PIB, em 2025. A inflação segue alta, para os padrões norte-americanos, mas recuperando-se dos picos extremos que atingiu nos anos de 2021 e 2022 (com valores entre 6 e 10%, conforme a fonte). Em 2025, atingiu 2,7%, em relação aos 2,9% de 2024. No período, apesar do tarifaço, talvez pelo seu caráter errático, que levou a redução impacto esperado, e da queda do valor do dólar em aproximadamente 11% , que também traz pressões inflacionarias, houve esta pequena queda na taxa de inflação. Mas nada a se comemorar, exatamente. Especialmente se se considera que a recomposição da renda média do trabalho, a recomposição do salário médio, segue apenas correndo atrás e perdendo algum poder de compra, em relação à inflação nos últimos 5 anos. Se considerarmos que a média distorce a realidade, influenciando-se pelos maiores ganhos em alguns setores, nos profissionais mais qualificados, previsivelmente, vamos concluir que os setores mais básicos do trabalho, com os menores salários, estão perdendo mais, estão perdendo poder de compra real significativamente, nos últimos anos, por lá. Com indicadores tão fracos, ou efetivamente negativos, para a economia dos EUA, porque os governistas por lá se permitem afirmar que a economia está ‘blooming’, está bombando, como se diria em português brasileiro? Primeiro que tudo porque eles são mentirosos compulsivos e a arte da ilusão e do engodo é parte fundamental da cartilha política e ideológica que eles seguem. Mas, objetivamente, é principalmente pelos resultados das bolsas de valores que seguiram o ano em sucessivas altas, num “bull market” contínuo. Mas porque as bolsas estariam tão positivas e a economia, especialmente a economia popular, em queda real, ou, mal mal, mantendo os níveis prévios? Com certeza esta possibilidade de dissociação maior das bolsas em relação à economia popular real aumenta com o aumento da concentração de rendas. De fato, a bolsa reflete expectativas de lucro, que não estão necessariamente sempre vinculadas ao crescimento real da economia popular, podendo se distanciar em muito em andar em sentido contrário, até, por longos períodos. Obviamente, um governo de bilionários e para os bilionários favorece muito estas expectativas. Há, por fim o poder do oligopólio de grandes empresas dos EUA sobre o setor de mídia digital e a grande expectativa de ganhos astronômicos com as IAs, a sustentar estes picos continuados das bolsas por lá. É nestes setores que se concentra o crescimento das bolsas por lá. Contudo, nada disto se reflete, por enquanto, em ganhos reais para as classes trabalhadoras, em geral, que, ao contrário, seguem estagnadas ou em decadência econômica. Além disto, as expectativas de retorno com as IAs podem ser bem aquém do projetado pelo boom das bolsas. Muitos projetam grandes crises nos mercados financeiros e na economia dos EUA como um todo, nos próximos meses ou em alguns anos. Isto pode até ocorrer, mas há muitos fatores que mantêm a resiliência da economia lá e que podem impedir a crise maior, mesmo com um possível estouro de bolha na IA. Muitos recursos regulatórios e anticíclicos estão sendo largamente utilizados, amortecendo a crise desde 2008 e, mesmo com o orçamento tão pressionado no momento, serão novamente lançados novos recursos públicos na economia, para a contenção de uma nova crise, se necessário. Para mim, parece mais razoável, portanto, apostar, para os próximos anos, em uma economia de baixo crescimento, com progressão do empobrecimento, relativo e absoluto, das massas trabalhadoras por lá, nos próximos anos, fomentando a continuidade e até o agravamento do conflito social interno e da postura agressiva, militarista, fascista e imperialista dos EUA, mas ainda sem uma crise econômica de maiores proporções nos próximos anos. Certamente não nos níveis das grandes crises econômicas da primeira metade do século passado. Mas, de todo modo, mantendo uma continuidade tendencial da perda relativa de poder econômico e, por via de consequência, geopolítico dos EUA no mundo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Análise do Desenvolvimento do Sistema Capitalista Contemporâneo

Os dados gerais disponíveis, sobre a evolução da economia mundial, com enfoque especial na economia dos EUA, dado o seu peso e relevância, que foram apresentados acima (Sala de Situação do Segundo Semestre de 2024 – Parte 1), permitem identificar, ou delinear, uma série de ondas, etapas ou momentos do processo histórico do sistema econômico mundial contemporâneo. Antes de 1913, quase não temos dados globais e os próprios dados dos EUA são limitados, mas podemos identificar aí uma onda de acumulação liberal, que vai findar, justamente, em 1913/1914, quando começa a grande crise sistêmica mundial. Uma crise de acumulação, de realização do capital, característica do fim de uma onda de acumulação liberal, que perdura até 1945, com o fim da Segunda Grande Guerra Mundial. Foi um período de baixo crescimento do PIB e do PIB per capita, do mundo, e de baixa também no comércio e nos investimentos internacionais. Ao fim da Segunda Guerra Mundial emerge a onda socializante em todo o sistema, a onda social-democrata, especificamente, nos países hegemônicos, que perdura até os fins dos anos 1970. Foi um período de grande redistribuição de renda e riqueza nos países centrais do sistema e um período de acelerado crescimento do PIB e do PIB per capita, mundiais, assim como do comércio e investimentos internacionais, tanto em absoluto quanto em proporção ao PIB mundial. A partir de finais dos anos de 1970, no entanto, esta onda colapsou e deu lugar à nova onda liberal, à onda neoliberal, que prevaleceu no sistema a partir dos anos 1980. As taxas de crescimento do PIB e do PIB per capita se reduzem, em relação ao período anterior, e têm uma redução ainda mais acentuada e tendencialmente progressiva, desde 2007, quando começa a grande crise atual, a crise de fim da onda neoliberal. O comércio e os investimentos internacionais, contudo, seguiram com taxas crescimento acelerado, até 2007 / 2008, quando também arrefecem muito e se tornam até negativas, em relação ao PIB global. Não é difícil entender que estas grandes tendências de crise econômica mundial não se arrefeceram e nem muito menos se resolveram, desde 2008, mas que estão fortemente controladas e mitigadas pelas estruturas de regulação sistêmica, nacionais e internacionais, e pelas medidas anticíclicas largamente implementadas, desde então. A análise histórica nos permite concluir que há uma tendência predominante de socialização do sistema capitalista mundial, na contemporaneidade, apesar das perdas neste sentido, impostas pelo período neoliberal, e é justamente por isto, por todos os mecanismos e sistemas socializantes no sistema que a intensidade da crise e de seus danos, até o momento, tem sido muito mitigada, em comparação com o ciclo anterior, no século passado. E mesmo neste momento de extrema contraditoriedade, as tendências determinantes do sistema persistem neste sentido. Estamos, no presente, no ápice da crise sistêmica de fim da onda neoliberal. É coerente com esta condição histórica o crescimento do imperialismo e do fascismo no sistema. Mas, ambos serão derrotados, assim como foram no século passado, pois são necessidades do sistema, que uma nova onda socializante prevaleça, ao fim da derrocada desta onda neoliberal, uma nova onda de redistribuição da renda e da riqueza social e de integração mundial, econômica e social e política, se desenvolverá. Já está se desenvolvendo, com a liderança da China Socialista. Posso dizer que estas duas tendências socializantes, de redistribuição da riqueza e de integração mundial, correspondem a necessidades do sistema, mas em níveis estruturais diferentes. A necessidade de redistribuição da riqueza se assenta no estágio atual do ciclo próprio da economia capitalista liberal, do capitalismo liberal, pois estamos agora em um máximo de concentração das riquezas e esta é, justamente a causa central da crise sistêmica atual, da crise de realização do capital, que, portanto, só se resolverá com uma nova redistribuição. Já a integração mundial é uma necessidade sistêmica correspondente ao nível atual de desenvolvimento científico e tecnológico da produção no mundo e, por isto, é uma necessidade para a economia mundial em seu nível mais estrutural, estabelecido pelo simples desenvolvimento das forças produtivas, o que, por sua vez, parece corresponder a necessidades mais profundas ou características mais profundas do ser e do desenvolvimento humano.

A Crise Atual e o Processo Histórico Contemporâneo - Sala de Situação Segundo Semestre de 2024

Sala de Situação Segundo Semestre de 2024: A Crise Mundial e a Nova Governança Global Parte 1. A Crise Atual no Processo Histórico Contemporâneo: Alguns Dados Comparativos A crise de 2007/2008/2009 foi a recessão mais profunda e mais duradoura dos EUA desde a segunda guerra mundial. A perda foi de mais de 4,5% do PIB nesta que foi chamada de a Grande Recessão. Desde 1960, houve recessão global nos anos de 2009 (-1,4%) e 2020 (-3%). Mas, assim como a queda do PIB global de 2009 começou no final de 2007, a queda do PIB de 2020 começou em 2018. Em todos os casos, obviamente, com um grande peso da recessão norteamericana. Neste período ocorreram grandes desacelerações na taxa de crescimento do PIB global, em 1974 -1975 e de 1980 a 1982, na crise do fim da onda social democrática do pós guerra, no sistema capitalista mundial. Mas, recessões, mesmo, só aconteceram agora, em 2009 e 2020, na crise liberal, no fim da onda neoliberal no sistema capitalista mundial, momento histórico em que nos encontramos agora. Pondo as coisas num contexto histórico mais amplo, para comparação e análise, estima-se que na grande depressão, entre 1929 e 1932, o PIB mundial caiu 15% e só retornou ao nível pré crise em 1939, quando se iniciou a segunda grande guerra mundial, com o seu grande impacto destrutivo sobre boa parte da economia mundial. De 1950 até a segunda metade da década de 70, ao contrário, houve alto crescimento, em geral, com média em 5% ou mais. Depois, nos anos 80, a média diminuiu para perto de 3%. E se vem se reduzindo ainda mais, aos poucos, desde 2007. Quando se considera a taxa de crescimento anual do PIB real mundial, per capita, no século XX, o período até 1913 é de médio crescimento (1,5%), o período de 1914 a 1949 é de baixo crescimento (0,7%), de 1950 a 1974 é de alto crescimento (3%) e daí até os anos 2000 voltou a ser médio (1,5%). Com certeza está em nível mais baixo agora, desde 2007, já que o crescimento do PIB mundial tem sido menor, progressivamente menor, desde então. Em relação ao comércio exterior registra-se que o seu volume, o valor e a participação no PIB mundial cresceram exponencialmente, desde a segunda metade do século passado, até a crise de 2008. Desde lá o comércio global geral, em termos de volume e valor, continua significativamente crescente, mas de modo muito mais irregular, com quedas importantes em 2007-2010 e 2020-2021. E, em relação ao PIB global, o valor do comércio global se tornou estacionário ou decrescente, desde então, desde 2007/2008. No prisma histórico mais amplo, houve duas ondas de crescimento acentuado do peso do comércio global na economia global, documentadas, nos últimos 2 séculos. A primeira, entre 1860 e 1914, foi seguida por uma queda profunda, no período da grande crise econômica do sistema capitalista liberal mundial do século passado, entre 1913 e 1945, quando atingiu um nível menor do que aquele de 1927, em proporção ao PIB global. A segunda onda de crescimento acentuado do comércio mundial iniciou-se então, a partir de 1945, e veio até 2007, quando entramos novamente em uma grande crise do sistema capitalista liberal mundial. O volume do Investimento Externo Global também cresceu exponencialmente a partir das últimas décadas do século passado, até a crise de 2008. Desde lá está sofrendo muitas oscilações e tem trajetória predominante de queda. Considerando o custo em perdas de vidas humanas, as duas grandes guerras internacionais do século passado, juntas, mataram em torno de 100 milhões de pessoas e a gripe espanhola matou 50 milhões, aproximadamente. Em todo o século XX as guerras mataram em torno de 180 milhões, em uma população de aproximadamente 2 bilhões de pessoas, em todo o mundo. Enquanto, no presente século, até Abril de 2024, a Covid matou algo próximo a 7 milhões e as guerras no século XXI mataram, por enquanto, menos de 5 milhões de pessoas, em todo mundo. Em uma população total de 8 bilhões. Até a pandemia foi bem menos dramática, ainda que isto se deveu, em grande parte, pelas características dos agentes infecciosos, e proporcionalmente, são menos guerras e bem menos violentas, até agora, em relação ao século passado. Isto, com certeza, tem a ver não só com o desenvolvimento geral, mas também, particularmente, com as ações da socialdemocracia ou do socialismo e do globalismo, desde o pós guerra. Um bom exemplo e uma boa medida disto são os recursos públicos injetados na economia nos pacotes de medidas anticíclicas. Em 2009, o Governo dos EUA assumiu um ônus de USD 0,5 trilhão (3,55% do PIB da época) para resgate de instituições financeiras em crise. O TARP aprovado no congresso para enfrentar a crise foi de 700 bilhões de USD, mais 250 bilhões para a compra de bônus bancários. Mais 156 bilhões do ato de estímulo econômico, de 2008, para a proteção social: transferência de renda, além de aumento do seguro-desemprego, food-stamps e reduções / isenções em impostos. No total, foram mais de 1,5 trilhões de USD injetados na economia americana pelo governo para enfrentar a Grande Recessão. Tudo isto permitiu uma rápida retomada da economia, que foi seguida por um crescimento seguro por 10/11 anos, a partir de 2010. O mesmo foi feito na Europa - Inglaterra, em escala menor em cada país, mas, creio que em seu conjunto foi tão grande ou maior que nos EUA. O combate à recessão de 2020, por seu turno, teve um custo de mais de 3,4 trilhões de USD, nos EUA, desta vez não focalizados no mercado financeiro, mas, que, mesmo assim, terminaram sendo concentradores de renda. Estes recursos injetados pelo governo dos EUA, através do CARES act e do Response and Relief Act, entre outros, em 2020 e 2021, contribuíram para uma recuperação mais acelerada da recessão, apesar dela ter sido mais profunda em 2020 (-2,8% GDP) do que em 2009 (-2,6%). E, mais uma vez isto se repetiu por todo o mundo. Foram, só nos EUA, mais de 5 trilhões, e, no mundo todo, próximo de 15 trilhões de USD, talvez, certamente mais de 10 trilhões, injetados pelos governos nacionais nas economias do conjunto dos países, desde o início da crise econômica atual, em 2007. E este valor continua crescendo, apesar do espaço para novas injeções de trilhões de dólares, para socorro anticíclico, ser cada vez menor.