domingo, 25 de outubro de 2026

Sala de Situação da Eleição, Setembro / Outubro de 2026 O que está acontecendo no mundo e a eleição brasileira

Sala de Situação da Eleição, Setembro / Outubro de 2026 O que está acontecendo no mundo e a eleição brasileira Parte 1 As determinantes básicas do processo histórico atual são a crise final da onda neoliberal, a crise da hegemonia dos EUA e a ascensão da China Socialista, sobre a base de uma grande revolução tecnológica, de grande impacto sobre a vida produtiva e social, que está em curso no momento, e de uma grande e progressiva integração da vida produtiva e social no mundo contemporâneo. A tecnologia, a ciência aplicada à produção de massas, reafirmando a sua promessa, de modo sistemático e contínuo, crítico e transformador, nos traz a novas formas de produção e, a partir daí, de vida humana. Agora, a tecnologia nos trouxe, novamente, até o limiar de novos e mais incríveis recursos e condições para a nossa vida e para o nosso ser, em todas as suas dimensões, completamente revolucionários, antecipando um futuro muito distinto de tudo o que conhecemos até agora. Mas, como os críticos da tecnologia e da colonização da vida social pela tecnologia, no século passado, suspeitavam, isso pode acabar muito mal para todos nós, para a humanidade, para o nosso ser. Com certeza, a possibilidade de autodestruição da humanidade, ou, pelo menos, da civilização atual, está cada vez maior, cada vez mais fácil de ocorrer. Hoje, são três ameaças neste sentido que se fazem presentes para todos nós, pesando sobre todos nós, nos corroendo as almas, por mais que a gente queira, e até consiga, ficar alienada em relação a tudo isso. 1. As guerras nucleares, a mais antiga destas ameaças, mas que, com o avanço da tecnologia, se torna cada vez maior e mais disseminada. 2. A catástrofe climática do aquecimento global e outras possibilidades de catástrofes ecológicas extremamente destrutivas, atingindo simultaneamente todo o globo. 3. A ameaça da superação e até dominação ou controle da humanidade pelos artefatos tecnológicos da automação da produção, os robôs e as Inteligências Artificiais. Estes também são determinantes do processo histórico atual, como realidades potenciais insinuantes, já presentes, ou quase presentes, com possibilidade de destruição da civilização atual. Fica claro, em cada um destes desafios existenciais para a humanidade, no presente, que, hoje, o desenvolvimento científico e tecnológico, por si, não tem a menor condição de estabelecer os limites e o direcionamento para si mesmo. Até parece razoável dizer que os cientistas e tecnólogos se comportam, em geral, como crianças crescidas, geniais e tolas, incapazes de dirigir as próprias forças que desenvolvem. Não é difícil ver, neste universo da alta tecnologia, o estereótipo do gênio excêntrico e, até mesmo, sem juízo e sem moral. Cientistas e empreendedores, destas áreas, realmente correspondem a este estereótipo, com grande frequência. A submissão do desenvolvimento tecnológico ao capitalismo é, de fato, muito coerente com esta espécie de irresponsabilidade histórica dos setores tecnológicos. Tudo vai bem, enfim, enquanto seguimos desenvolvendo e a simples ganância capitalista nos garante isso, melhor do que todos os outros sistemas de produção anteriores. Esta é a ideologia simples e básica do sistema. E ela é realmente muito forte para ser facilmente contestada. Ao fim, com o desenvolvimento tecnológico pudemos, até agora, mal ou bem, cumprir o desígnio de entregar um mundo melhor para os nossos descendentes. Até agora foi assim e tentar negar esta virtude fundamental do capitalismo é uma ilusão tola. De fato, até agora, o sistema capitalista de produção nos entregou o desenvolvimento tecnológico, que nós tanto queremos, mais e melhor do que qualquer outro modo de produção social anterior, a despeito de toda a dor e sofrimento que ele sempre impõe a grande parte da humanidade. Eu sou daqueles que concebe que o desenvolvimento tecnológico da produção é uma força motriz fundamental da história e do desígnio humanos, e não há como nos furtar a isso, negar isso, ou desistir disso. Ao contrário, isso é a nossa essência, mesmo que não seja toda a nossa essência. Portanto, podemos afirmar, do ponto de vista antropológico ou ontológico, para nós, humanos, que a força vital que nos impulsiona ao desenvolvimento tecnológico não será negada ou eliminada da nossa existência coletiva. Vamos continuar seguindo por este caminho e qualquer tentativa de negar isso é, simplesmente, irrealista e prejudicial. Temos que lidar com os desafios humanos e históricos como eles se apresentam. De algum modo, é verdade que nós também desenvolvemos, socialmente, os recursos para enfrentar estes desafios históricos à medida que eles amadurecem e se torna imprescindível enfrentá-los. Isto será sempre assim, desde que as sociedades, a humanidade, não entrem em uma trilha realmente regressiva e autodestrutiva. Enquanto avançamos, encontramos as respostas para os desafios reais quando eles se apresentam de forma impositiva. Chegamos agora a este desafio de um triplo risco para a simples sobrevivência da civilização humana: as ameaças de guerras nucleares mundiais, de catástrofes climáticas e ecológicas mundiais e de submissão da humanidade aos artefatos tecnológicos. Todos os três, totalmente ou ao menos em grande parte, criados justamente pelo nosso desenvolvimento tecnológico. Agora já está mais claro, também, que o desenvolvimento tecnológico, apenas, jamais será a resposta a estes riscos e desafios que ele mesmo pôs diante de nós. Não, certamente não, na forma do desenvolvimento tecnológico capitalista. O simples mecanismo da acumulação capitalista ainda pode nos garantir desenvolvimento tecnológico, ainda que à custa de muitas crises e muito sofrimento de grande parte da humanidade, mas não pode nos garantir que ele não nos destrua logo, já nos próximos anos ou nas próximas décadas. Não acredito que eu esteja exagerando na dimensão de qualquer destes três riscos, nem no seu caráter emergencial, nem na completa impossibilidade de resposta a eles pelo simples desenvolvimento tecnológico capitalista. Não, nem a "ingenuidade dos tecnólogos" nem a "ganância dos capitalistas" podem ser os nossos guias, agora que as nossas tecnologias adquirem tais potências e tais riscos. De certo modo, o que sempre foi verdade aparece agora mais claramente. Estas forças serviram para nos trazer até aqui, mas elas não podem ser nossas guias para o futuro. Parece certo que, agora, a "providência histórica", mais uma vez, está trazendo o problema junto com a sua solução. Ou dizendo mais diretamente: nós, as sociedades, a humanidade, desenvolvemos os recursos sociais e produtivos para enfrentar os desafios históricos, na medida em que os desafios se desenvolvem, amadurecem e se mostram impossíveis de contornar ou ignorar. E, obviamente, assim será na medida em que formos vitoriosos no nosso caminho histórico, ou, pelo menos, que não sejamos derrotados. E vamos avançar. Podemos dizer que vamos avançar, agora, no atual momento do processo histórico, diante dos atuais desafios históricos, porque temos uma integração produtiva mundial, constituindo um verdadeiro sistema mundial — produtivo, financeiro e de consumo — bem mais do que em qualquer momento histórico anterior, tanto por sua extensão quanto por sua intensidade. Por mais que estejamos sob o impacto da reação conservadora e regressiva, que busca a negação da integração mundial em todas as formas possíveis, todos sabemos que esta integração é fundamentalmente positiva. E ela não será impedida por nenhum dos artifícios regressivos e imperialistas que os EUA têm utilizado na atualidade. Ao contrário, a integração mundial vai progredir. Por poderosas que sejam as forças desintegrativas na atualidade, as forças que propulsionam a integração são ainda maiores. Obviamente, a expansão, o desenvolvimento e o avanço da produção tecnológica capitalista se conjugam muito melhor com a expansão dos mercados e com a integração da produção mundial do que com sua restrição ou empecilho. Tanto o avanço dos EUA quanto o da China são exemplares disso. O mercado mundial aberto e a integração produtiva mundial são mais eficientes do que as restrições e reservas de mercado e produção, em geral. Isto é sabido desde o início do capitalismo e se mostra verdadeiro ao longo da sua história, apesar de todas as suas contradições e oscilações. As restrições de mercado e de comércio, as restrições à integração mundial no setor produtivo, levarão à perda comparativa de capacidade e inovação. Do ponto de vista econômico e estratégico, isto se mostra em geral na história, e se mostrará ainda mais no atual momento histórico. Apesar da alta contradição da ideologia capitalista, de sua posição francamente regressiva sobre este ponto, na contemporaneidade, a realidade histórica não se desfaz e a expansão dos mercados realmente leva a ganhos de escala e, com isso, potencializa o desenvolvimento tecnológico em geral. O próprio sistema capitalista contemporâneo é um exemplo inconteste disso e, ao fim, esta realidade se imporá novamente ao próprio sistema, contra todo o movimento regressivo atual. E isso se dará pela própria razão econômica, pelo simples fato de que o subsistema, ou os subsistemas que conseguirem os mais amplos mercados e as mais avançadas formas de integração produtiva dentro do sistema mundial, serão vencedores das principais corridas tecnológicas. Isto gera uma bola de neve econômica e tecnológica que não pode ser contida pelo subsistema competidor, seja quem ele for. Assim foi anteriormente e assim será novamente. Na tentativa de se contrapor a esta tendência/realidade de ultrapassagem pela China (ou por seu subsistema e modelo), os EUA tentam se impor agressivamente, através de seu poder hegemônico, militar e econômico, reservando mercados e cadeias produtivas na forma de uma nova vassalagem. Estão conseguindo alguma coisa assim, tanto nas Américas quanto na Europa. Parece que estão tentando impor isso também na guerra contra o Irã, mas sem conseguir um resultado favorável até agora, ao contrário. Sejam quais forem os resultados de todos estes movimentos e sejam quais forem as vitórias dos EUA neste sentido, parece claro que elas realmente não são suficientes para barrar esta ultrapassagem e todas as suas consequências econômicas e geopolíticas. Diversos fatos e processos objetivos atuais podem ser indicados para sustentar esta conclusão. Os mercados em maior crescimento do mundo hoje, que estão principalmente na Ásia, não se alinham, por subordinação direta, aos EUA. Por mais que os EUA imponham tarifas e façam ameaças contra os países para tentar sufocar a economia chinesa e impedir o seu avanço, ao contrário, a economia chinesa mais se difunde e se integra cada vez mais em todo o mundo. Até mesmo nos quintais dos EUA e nos países sob seu domínio hegemônico, a China já é o principal parceiro comercial e estratégico. Por fim, as tentativas de imposição da ideologia econômica do decoupling estão resultando em mais atraso para os EUA e avanço para a China. Os processos de eliminação forçada das empresas chinesas de cadeias produtivas dos EUA, consideradas estratégicas, apenas atrasam o desenvolvimento tecnológico e produtivo deles mesmos e vulnerabilizam setores estratégicos por lá. Inversamente, o bloqueio do acesso da China à tecnologia de ponta de empresas dos EUA e de aliados, também imposto pelo governo dos EUA, certamente prejudica imediatamente os setores chineses atingidos, mas tem resultado, consistentemente, no desenvolvimento completo de ecossistemas chineses para estas áreas de tecnologia de ponta. As ações imperialistas dos EUA, os atos de força e violência militar direta, assim como os atos de violência econômica, estão resultando em um forte alinhamento político da América Latina em submissão ou vassalagem ao governo dos EUA. Mas, em países como a Índia, o Canadá e até o México, cuja adesão ao poder dos EUA parecia ser incontestável, hoje é a tendência de autonomia e defesa dos interesses econômicos nacionais que parece prevalecer. Com certeza o Brasil é, hoje, um dos países mais importantes nesta balança mundial e a eleição geral, a presidencial em especial, constituem um fiel desta balança no momento atual. Parte 2 Os EUA integram, hoje, a posição estratégica de uma hegemonia mundial - em decadência relativa - com a estratégia de uma Grande América: uma zona de hegemonia total e controle militar pelos EUA estendendo-se da Patagônia à Groenlândia. Esta é a alternativa e o norte principal da política de Estado atual dos EUA, reconhecendo tacitamente a sua derrocada como hegemon mundial. Como todos os processos históricos e seus aspectos relevantes, este também tem contradições ou contestações internas. Mas ninguém pode negar que a hegemonia regional e a constituição objetiva desta Grande América constituem, hoje, um traço incontestável e prevalente da estratégia dos EUA. Será, contudo, cada vez mais difícil para os EUA sustentarem suas vantagens comparativas impondo-se pela força e pelo medo, pelo terrorismo econômico, político e militar imperialista e até neocolonialista. Cada vez ficará mais claro que isso tem um alto custo e que não traz mais ganhos compensatórios suficientes. Dizendo de uma maneira mais direta, o fato é que as economias que se prenderem ou se entregarem mais à submissão aos interesses dos EUA ficarão mais defasadas, à margem do desenvolvimento tecnológico que estará mais dinamizado no polo chinês. Ficarão mais à margem do fluxo de desenvolvimento econômico principal da humanidade e, por outro lado, serão mais exploradas pelo poder imperialista dos EUA. Assim como nas Américas, a situação na Europa na atualidade é um exemplo desta condição, e a imposição da compra de gás mais caro dos EUA, ao invés do gás russo, mais barato, é um dos maiores exemplos disso. Como era de se esperar que ocorresse, na perda continuada de seu poder hegemônico no mundo, os EUA reagem com tentativas de romper com esta tendência, atuando disruptivamente contra a ordem global e a relativa paz no mundo contemporâneo — que tiveram nos próprios EUA o principal arquiteto — e tentando recuperar o seu poder por meio da violência e do terrorismo imperialista. Mas cada vez vai ficar mais claro que quem se submeter a isso perderá mais do que ganhará, porque o mundo se desenvolverá mais intensa e decididamente por outros caminhos. Em síntese, sob qualquer parâmetro econômico relevante, a ultrapassagem dos EUA pela China já está em curso e é imparável. E, ao fim, todos os outros parâmetros estratégicos e geopolíticos são apenas, também, econômicos ou sobredeterminados pelos econômicos. Ou seja, a ultrapassagem econômica, estratégica e geopolítica dos EUA pela China está em curso e é imparável. Mas a China é Socialista. É, por isso, necessariamente, outra história que se avizinha, com a superação da etapa neoliberal e em direção ao socialismo, certamente. Por outro lado, é claro que, assim como nos EUA, em muitos países da sua aliança hegemônica, um importante movimento neofascista se manifesta e se fortalece sob o impacto da grande crise econômica em que se encontram e das necessidades imperialistas dos EUA na atualidade. Por todo lado, a concentração da renda é extrema e o crescimento econômico muito baixo ou a recessão já se tornaram crônicos. A insatisfação popular é manipulada por recursos midiáticos e religiosos e direcionada contra os seus próprios interesses. Massas se voltam contra si mesmas e aderem às ideologias do fascismo e do belicismo contemporâneos. Enquanto isso, os poderosos conseguem manter ainda a concentração, já extrema, mas ainda progressiva, da riqueza e do poder econômico, completamente livre e sem limites, que é de fato a principal causa estrutural da crise. A concentração de riquezas extremada coloca dificuldades também extremas para a simples realização dos ciclos do capital, de reprodução e acumulação capitalistas, até o ponto em que inevitavelmente alguma crise deve estalar. A Europa segue em uma crise econômica franca, ou no limite da crise, há décadas, e o mundo todo, sob o impacto direto da economia dos EUA, segue com crescimento baixo e submetido a crises frequentes. Tudo isso leva a um maior empobrecimento das massas, menor crescimento e mais crises. Os líderes econômicos e políticos da aliança hegemônica dos EUA estão pressionados ao extremo por esta crise econômica estar ocorrendo no curso da crise de mudança da hegemonia mundial, da perda da hegemonia mundial dos EUA, e no curso também da grande revolução tecnológica atual. Eles não conseguem e não podem reagir a isso, estão comprometidos pela ideologia neoliberal em que todos foram formados e eleitos — e que foi relativamente bem-sucedida até nos trazer para a presente crise, a partir de 2007. É sob os escombros dessas incapacidades e impotências que o neofascismo e o belicismo se erguem hoje em todas as áreas de influência dos EUA. A América Latina, por sua condição geográfica e histórica, tem mais dificuldades do que outras áreas do globo para estabelecer qualquer resistência ao poderio dos EUA e vemos, agora, o ponto máximo em que este poderio se exerce aqui, desde muito tempo, em muitas décadas. Atendendo ás novas necessidades imperialistas dos EUA e à orientação ideológica de lá, vemos o renascimento, a atualização de um forte movimento fascista em toda a América Latina na contemporaneidade. Mais uma vez, é certo que as atuais eleições no Brasil representam um fiel desta balança. No tempo em que redigi este artigo, ocorreram, quase simultaneamente, dois eventos globais nos EUA: a reunião anual da Assembleia Geral da ONU (UNGA) e o encontro de Estado entre os governantes de EUA e China. Entender a importância relativa de cada um deles é uma forma de compreender o panorama geopolítico atual. A análise mais realista, para mim, é aquela de que a UNGA é um lugar para discursos, enquanto a cúpula do G2 é onde decisões são tomadas. O realismo tende a ser cínico, quase na mesma medida em que o idealismo tende a ser hipócrita. Mas a verdade é que não podemos andar sem os dois: temos que ser realistas e idealistas nas justas medidas, conforme as condições da realidade. Não quero me prender ao cinismo realista ao considerar que a reunião de cúpula, que a diplomacia direta dos presidentes entre EUA e China, é hoje muito mais importante do que a UNGA para a definição dos rumos da humanidade nos próximos anos e décadas. Mas isso é simplesmente realista. É claro que devemos continuar clamando pela multilateralidade. Não podemos nos prender, no entanto, à forma apenas retórica da AG, nem ao mecanismo paralisante do Conselho de Segurança, nem à diplomacia (ou ao conflito) das superpotências diretamente. Temos que avançar no sentido da Governança Global, ou avançaremos no sentido de uma ordem global baseada exclusivamente no acordo ou desacordo imperial entre as superpotências. Não é coincidência que, hoje, seja justamente a China quem propõe que evoluamos no sentido do desenvolvimento da Governança Global, enquanto os EUA são quem mais se opõem a qualquer forma de normatização e organização supranacional. Está claro que os EUA têm atuado nos últimos anos para implodir o sistema ONU & Organizações Associadas, a fim de afirmar esta diplomacia ou imposição de poder direto das superpotências. Seja como for, de fato, a diplomacia entre os EUA e a China é hoje mais importante do que qualquer outro fórum ou organização internacional. É aí que as decisões mais relevantes para a sociedade mundial são tomadas atualmente. E é muito bom que elas estejam ocorrendo, ao contrário da condição de conflito que dominou os últimos anos. A cúpula reafirmou o respeito mútuo e o compromisso de não agressão entre as duas superpotências mundiais e manteve a trégua na guerra comercial entre elas. É muito importante compreender o que levou a esta mudança, partindo da situação anterior de guerra comercial, lançada pelos EUA contra a China há quase 10 anos e que teve seu ápice 16 meses atrás, com tarifas cada vez mais altas e reciprocidade chinesa. O fato fundamental foi que a China impôs restrições de venda dos metais críticos e terras raras aos EUA, impedindo o acesso a itens imprescindíveis para toda a indústria de alta tecnologia, inclusive a militar. A China provou que tinha, e tem, as cartas mais altas da mesa. Os EUA tiveram que se curvar, pois não podiam sustentar a rota de confronto direto contra a China. Esta questão das terras raras, como é frequentemente referida, pode parecer, para o desavisado que tenta analisar a situação histórica apenas pelo prisma político, ou, no caso, geopolítico, como se fosse apenas uma carta que os chineses sacaram da manga para deter aquela aposta insana dos EUA contra eles. E foi mesmo o seu trunfo contra todas as agressões e ameaças dos EUA, que vinham escalando há uma década. Mas há algo muito maior por trás disso: é o fato de a China ter se tornado, de longe, o maior parque industrial do mundo e no mais alto nível tecnológico e produtivo do mundo. Os EUA e a Europa direcionaram as suas economias para os serviços de maior valor agregado e estratégicos — os serviços financeiros e aqueles de administração, gestão, pesquisa, desenvolvimento e inovação — enquanto a China se tornava o grande parque industrial do mundo, inclusive das empresas dos EUA e da Europa, especialmente no setor de tecnologia. E, assim, se tornaram frágeis, tigres de pés de barro que, sem ter como sustentar seu próprio peso, tendem a colapsar. É o que certamente estamos vendo ocorrer, ao menos com a Europa. Mas não só com a Europa: também com relação aos EUA está cada vez mais claro que eles não conseguem acompanhar o avanço chinês e, se ficarem opostos a ele, serão derrotados em breve. Pode parecer que os EUA ainda retêm uma dianteira segura à frente da China em relação à criação, implantação e produção de novas tecnologias, especialmente na indústria mais relevante para a economia como um todo, que é o setor de computação de ponta em geral e, especialmente, a produção dos chips mais avançados e da inteligência artificial. É verdade que os EUA, com seus parceiros na Europa e Taiwan, ainda têm a vantagem tecnológica nestas áreas. Mas é verdade também que ela é cada vez menor e que estamos justamente num ponto de transição nestes setores ultraestratégicos entre os EUA e a China. De acordo com os líderes empresariais da Nvidia e da Tesla, entre outros, nós veremos esta transição se completar dentro de 1 a 2 anos, ou menos. Efetivamente, hoje já se calcula o atraso da China em relação aos EUA, em IA, em meses, semanas ou dias apenas. Esta previsão temporal está em linha com a minha análise de um ano atrás, aproximadamente, quando estabeleci 5 anos como um primeiro marco para a resolução da grande crise socioeconômica, geopolítica e militar do atual momento, no sentido de que dentro de 5 anos teremos superado o momento mais agudo da crise, caminhando no sentido da superação completa da onda neoliberal e de uma grande nova onda socializante no mundo. Isto deve ocorrer, está ocorrendo e irá ocorrer ainda mais, caso não entremos em uma rota de guerra mundial de proporções realmente destruidoras da civilização. Não estou querendo dizer com isso que em 4 ou 5 anos teremos a resolução completa da atual crise, nem muito menos que um grande movimento socializante já terá se formado e se tornado vitorioso no mundo, ao ponto perceptível. Mas teremos já resolvido os maiores desafios e superado os maiores riscos da atual crise. Eu diria que dois aspectos são fundamentais aqui. Primeiro, essa questão geopolítica, que se resume no fato de os EUA serem forçados a reconhecer, de modo inquestionável, a superioridade ou, no mínimo, o equilíbrio insuperável com a China socialista. Quanto mais cedo os EUA reconhecerem que não podem suplantar a China socialista pela força, nem pela astúcia, mais rápido estaremos no caminho certo. E parece que, de fato, já estamos chegando a este ponto, que será cada vez mais incontestável daqui para a frente. A mudança estratégica dos EUA em relação à China parece ser um claro indicador nesse sentido. Hoje, a defesa da paz é claramente estratégica, e a paz entre a China e os EUA é a mais determinante para os rumos da humanidade. A ultrapassagem dos EUA pela China na produção tecnológica de ponta já está acontecendo e é inevitável, seja pela qualidade da engenharia, seja pela qualidade da mão de obra, seja pela qualidade da ciência, pesquisa e desenvolvimento disponíveis em larga escala na China hoje. Esta é a visão de vários dos principais líderes empresariais norte-americanos neste ramo de alta tecnologia — de todos que produzem na China, de fato. O exemplo da inteligência artificial pode ser bem esclarecedor das diferenças estratégicas entre a economia chinesa e a norte-americana, ilustrando muito bem as vantagens estratégicas do modelo chinês no presente. De algum modo, a China já vem se preparando há décadas para uma economia de alto consumo de eletricidade, de dependência absoluta do fornecimento crescente de energia elétrica, com um aumento contínuo e progressivo no fornecimento de energia elétrica nas últimas décadas, sem comparativo no mundo. Ao ponto de hoje ela produzir mais energia elétrica que EUA, Europa e Índia juntos. Os EUA podem ainda ter vantagens em algumas das tecnologias de ponta, mas é claro que a China encontra-se muito mais preparada para a nova economia baseada nestas tecnologias, em todas as suas cadeias produtivas, desde o fornecimento da energia elétrica necessária até a produção industrial de alta tecnologia em larga escala. Isto se repete em todas as áreas de desenvolvimento e produção de alta tecnologia, incluindo a produção das terras raras e dos minerais críticos. E por que isto é assim? Porque a China é socialista. A dinâmica econômica socialista se mostra superior à capitalista, como era previsto pela teoria. Não é de se estranhar que isto coincida com uma nova revolução tecnológica na produção. O socialismo é mais adequado a estas novas tecnologias — e ao seu desenvolvimento — do que o capitalismo liberal. É o que o sucesso contínuo e inelutável da China, justamente, prova. Parte 3 O exemplo da indústria de alta tecnologia realmente demonstra isso perfeitamente. Quem tem o ecossistema, quem tem as cadeias produtivas, quem tem a infraestrutura para avançar mais, e mais seguramente, é a China, em grande parte, ou melhor, essencialmente, porque é uma economia baseada no planejamento estratégico público e no controle público do sistema financeiro e dos setores produtivos estratégicos, mais do que apenas no jogo espontâneo das forças de mercado. Este é um ponto nevrálgico do problema geopolítico e do risco de guerras realmente destrutivas da civilização que se apresentavam ou ainda se apresentam, cada vez mais assustadores, no presente. Além do conflito resultante da simples perda de poder da principal economia, do país dominante no sistema mundial, há, subjacente, este conflito ainda maior e mais definidor para o sistema, que é a contraposição do sistema socialista ao sistema capitalista, ou a superação progressiva do capitalismo pelo socialismo. A superação dos EUA pela China é a superação do capitalismo pelo socialismo. E isto é realmente impossível de ser detido. Todos os CEOs das grandes empresas de ponta dos EUA com produção na China sabem que a China tem os recursos, o ecossistema e a infraestrutura para a nova economia, que os EUA ainda não têm e dificilmente chegarão a ter em tempo breve. A China está ultrapassando os EUA, o que significa que o socialismo está ultrapassando o capitalismo. E isto é um choque social, estrutural, cultural e existencial muito maior do que a simples substituição de uma potência hegemônica por outra no sistema capitalista mundial. É um choque tão grande que a maioria das pessoas, talvez a quase totalidade, ainda não consegue divisar isso. Não conseguem porque não podem, porque têm medo, porque se sentem sob um choque tão grande que precisam negar o que já está diante dos olhos de todos. Ainda dizem que o socialismo, junto com o comunismo, foi completamente derrotado pelo capitalismo. Ainda afirmam que o comunismo e o socialismo, juntos, são sinônimos de pobreza, atraso e estado pesado e opressor. Mas, a China desmente em vários níveis - ou em todos - estas presunções da ideologia capitalista, largamente dominante no mundo contempórâneo desde o início da onda neolibereal no início da década de 80 e que ainda é preponderante, mesmo agora que já estamos há quase duas décadas dentro da crise final da onda neoliberal. Há várias formas de negacionismo neste caso, mas todas elas vão ficando mais e mais difíceis com o desenvolvimento do momento histórico atual. Tenta-se, ainda, de todos os modos, negar o desenvolvimento chinês e a sua relevância no cenário global. Mas estamos realmente na transição da hegemonia tecnológica e econômica mundial dos EUA para a China. Sob todos os prismas relevantes que você considerar, o avanço chinês, no presente, nas últimas décadas e nos últimos anos, tem sido maior, mais estruturado e muito mais rápido do que aquele dos EUA e, muito mais ainda, do que o dos países da aliança hegemônica dos EUA — Europa, Reino Unido, Coreia, Japão e outros. Negar esta transição já não faz qualquer sentido, ainda que os países da aliança hegemônica dos EUA façam todos os esforços, que acreditam efetivos, para tentar evitá-la. A presença das guerras e o risco de novas guerras são, hoje, os maiores desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e um dos fatores determinantes disso é justamente essa decadência relativa da aliança hegemônica dos EUA, em função do avanço da China e de seus parceiros na economia mundial e, logo, na geopolítica. A decadência relativa de EUA e aliados, ou a sua superação pela China, não é exatamente o problema; os esforços para impedi-la é que são. Ao que parece, foi realmente isso o que aconteceu nesta grande mudança de comportamento do governo dos EUA em relação à China. Em menos de 18 meses saímos de ofensas, ameaças e agressões econômicas crescentes, por quase uma década, para três reuniões de cúpula presidencial bilateral, com trégua continuada e distinções diplomáticas para a China, que o governo dos EUA não dedica a nenhuma outra chefia de Estado no mundo hoje. Eles estão reconhecendo, cada vez mais, que não podem barrar o avanço chinês e que a China de fato está tomando a dianteira, a proeminência na produção, na economia mundial e, consequentemente, na geopolítica. Estão, pelo menos por enquanto, abdicando de buscar o caminho do conflito crescente para tentar barrar a China. Algo que estava claramente na estratégia central dos EUA nos últimos anos e que certamente persiste como um objetivo desejável, mas não mais tão impositivo e prioritário no presente. Estas reuniões de cúpula têm buscado e conseguido, até agora, o bloqueio da estratégia beligerante e até o retorno a uma visão colaborativa e de integração econômica, respeitando a realidade econômica das duas potências e do mundo, e jogando em favor de toda a humanidade, como já afirmei. Para finalizar este ângulo geopolítico, preciso retornar à questão do crescimento das guerras e do risco de grandes guerras no mundo. É claro que muito deste risco é determinado justamente pelo jogo de poder entre as duas maiores potências do mundo. E é, realmente, muito positivo que haja esta mudança de rumos, reduzindo as tensões imediatas entre elas e permitindo vislumbrar um período de continuidade desta trégua e até de uma transição de hegemonia sem que as duas grandes potências se envolvam diretamente em guerra. Grande parte desta possibilidade, ou crença, deve-se ao fato de ser a China a potência emergente e ao fato de a China ser socialista. Mas, mesmo sem o envolvimento direto da China em nenhum cenário de guerra no mundo, no presente, as guerras são crescentes, espalham-se, envolvendo países e alianças militares em diversos continentes simultaneamente. E parece que vieram para ficar. As maiores guerras iniciadas nos últimos anos não parecem que terão fim nos próximos meses ou anos. Tanto no caso da Ucrânia quanto no caso das guerras na Ásia Ocidental, o antigo Oriente Médio, essas guerras já são regionais ou envolvem diretamente alianças militares internacionais opostas, com um potencial sempre grande de se estenderem ao invés de se extinguirem. A Guerra na Ucrânia encontra-se, agora, em um estágio decisivo. Sob o ponto de vista militar, a derrota da Ucrânia, que se anunciava desde o início, está cada dia mais próxima e já ao alcance da visão, digamos, com o avanço da Rússia sobre a região Norte, aproximando-se de Kharkiv e os ataques destruidores sobre a infraestrutura logística da capital e de Odessa. A progressão do ataque e da ocupação territorial pela Rússia está chegando a um ponto crítico, de não retorno, ou melhor, de verdadeira impossibilidade de defesa pela Ucrânia. Só existe uma possibilidade para a guerra na Ucrânia persistir: a entrada ainda mais intensa da Europa e do Reino Unido no conflito, com envolvimento mais direto. Muita coisa conspira para isso agora. A Europa e o Reino Unido estão, há muito tempo, em crise econômica e em processo de relativa decadência, com perda de poder no mundo e empobrecimento das suas populações. Esta é, enfim, a motivação maior para eles estarem, alucinadamente, nesta guerra pro xy contra a Rússia, e esta será também a motivação principal se se resolverem, ainda mais alucinadamente, a entrar em guerra direta contra a Rússia. A Guerra no Golfo Pérsico, na Península Arábica e em toda a Ásia Ocidental parece ainda mais condenada a durar muito. Ao fim, as Guerras de Ocupação de Israel em Gaza e no Líbano não vão parar, nem ninguém tem hoje condição de prever os próximos eventos no confronto entre EUA e aliados contra o Irã, nem da Arábia Saudita contra os Houthis. Estas duas guerras confirmam a decadência relativa da aliança hegemônica atual, ou seja, a sua queda de poder em relação às outras potências no mundo. Na guerra da Ucrânia, os EUA, a OTAN, o Reino Unido e a Europa estão sendo derrotados, assim como, na Guerra do Irã e da Península Arábica, os EUA, Israel e seus aliados na região também esto sendo derrotados. A Rússia, de fato, já tomou grande parte do território da Ucrânia e segue avançando sem ser detida. O Irã conseguiu resistir aos EUA e Israel até agora, mantendo o pleno controle territorial do país e poder de bloqueio no estreito de Hormuz, além de quebrar toda a confiança na defesa das bases militares dos EUA e outros alvos estratégicos em toda a região. Os EUA foram incapazes de mostrar superioridade militar suficiente para vencer a guerra contra um país mediano e para proteger as próprias bases militares e os países que as sediam contra um país mediano. Isto fala muito da decadência do império: tentou se impor pela força contra um adversário relativamente fraco e não conseguiu. As vitórias das guerras revolucionárias anticoloniais em diversos países no Sahel, na África Central, ocorridas alguns anos atrás, também foram derrotas para o grande império, neste caso, especialmente para a França. Sejam quais forem os resultados finais destas guerras, até mesmo se elas acabarem logo, muito rapidamente — o que é até possível, apesar de bem pouco provável — a sensação que eu tenho é que estamos em um estado de guerra no mundo e que ele não vai terminar até que as mudanças mais profundas, que tenho abordado, tenham acontecido ou, pelo menos, tenham sido encaminhadas. As guerras são sempre inaceitáveis e fracassos extremos da humanidade. Nada pode ser mais absurdo, mais diretamente destrutivo e injustificável nas práticas humanas do que a guerra e a tortura. Torturar alguém já dominado e submetido, assim como matar alguém sem causa própria de legítima defesa, apenas como uma peça numa engrenagem política internacional, são traições à dignidade humana no seu mais profundo âmago. E, no entanto, isto é imposto ideologicamente e à força a milhares de jovens, ainda hoje, numa prova inquestionável do nosso fracasso humano, justamente na política internacional. A guerra é destruição da economia, da infraestrutura em todos os níveis e de vidas humanas em profusão. Nada pode ser mais estúpido e errado do que isso. No entanto, a guerra parece necessária e justificável para grandes massas mundo afora e, de certo modo, para todos nós que vivemos em meio a elas. Sempre existirão razões legítimas para justificar a guerra. Sempre existirão razões históricas, econômicas e geopolíticas para a guerra. E elas prevalecerão de tempos em tempos. Ao menos enquanto estivermos em um sistema capitalista. É mais do que óbvio que o capitalismo não criou a guerra, mas também é óbvio que ele não sabe bem como evitá-la. Parece claro que o sistema capitalista marcha para formas imperialistas e encontra na guerra uma forma de resolução da crise sempre que pressionado ao extremo, nas suas grandes crises. E estamos em uma dessas grandes crises, com as peculiaridades do presente. Parte 4 Estamos vendo claramente esta marcha imperialista, agora, nos EUA, em relação ao mundo todo, com as guerras tarifárias, sanções, embargos e outras formas de pressão, incluindo as militares e as guerras propriamente ditas. A própria Europa e outros países aliados dos EUA estão sendo pressionados a condições renovadas de submissão e vassalagem. Mas o caso do restante dos países das Américas é especial, já que os EUA, agora, querem transformar toda a região em uma única Grande América (de um polo ao outro, da Patagônia à Groenlândia). Hoje, aqui nas Américas, a pressão envolve uma guerra comercial, diplomática e política contra o Brasil e o Canadá, como alvos preferenciais. Obviamente, isso se deve ao tamanho destas duas economias, à sua importância estratégica para os EUA e à resistência que os seus governos estabeleceram às imposições imperialistas deles. Parte dos países das Américas tem dependência econômica extremamente alta dos EUA e todos sabemos que nenhum país das Américas tem, hoje, capacidade militar para enfrentar os EUA, nem nos termos assimétricos do Irã, nem de longe, eu creio. Para a maioria dos países das Américas cederem completamente aos EUA, bastou a imposição do terror com ações militares dos EUA em águas territoriais da Venezuela e da Colômbia, no Caribe, resultando na execução sumária de mais de uma centena de pessoas, sem qualquer base legal ou autorização internacional, seguida pelo sequestro do presidente da Venezuela — igualmente uma ação terrorista, sem base legal ou em acordos internacionais. Isto resultou em grande impulso para uma verdadeira "onda azul", com a vitória de candidatos neoliberais e neofascistas na política em diversos países aqui nas Américas. Como afirmei em textos anteriores, essas ações neoimperialistas dos EUA parecem como as patadas e mordidas de um leão poderoso, mas já em decadência. Ainda capaz de ferir e matar, mas já incapaz de manter o seu pleno poder. Reitero isso com segurança, porque vejo a ultrapassagem dos EUA pela China como inevitável, excetuando-se condições catastróficas de ampla destruição civilizatória. Então, por mais que nos custe, por mais que os EUA e os demais países da aliança hegemônica decadente provoquem ainda mais tensão na tentativa de reter suas posições de domínio e privilégio, eles não serão capazes de deter a roda da história e terão que aceitar uma nova onda no sistema mundial. E esta nova onda será mais socializante e terá a China socialista como país principal, assim como os EUA estiveram na hegemonia do sistema a partir da onda socializante anterior, desde as décadas de 30 e 40 do século passado, e durante a última onda liberal — a chamada onda neoliberal — que está terminando agora. Essas são as condições em que nos encontramos agora e nas quais a eleição geral ocorre no Brasil. (Esta parte do texto foi escrita no dia 04/10, o dia do primeiro turno de nossas eleições gerais, horas antes da abertura do início da contagem dos votos). Procurei descrever os aspectos, processos e tendências determinantes do nosso processo histórico neste artigo, até. aqui e em vários outros anteriores. Podemos traduzir estes determinantes estruturais, do ponto de vista político, para a eleição geral do Brasil, do seguinte modo: Parte 4 Estamos vendo claramente esta marcha imperialista, agora, nos EUA, em relação ao mundo todo, com as guerras tarifárias, sanções, embargos e outras formas de pressão, incluindo as militares e as guerras propriamente ditas. A própria Europa e outros países aliados dos EUA estão sendo pressionados a condições renovadas de submissão e vassalagem. Mas o caso do restante dos países das Américas é especial, já que os EUA, agora, querem transformar toda a região em uma única Grande América (de um polo ao outro, da Patagônia à Groenlândia). Hoje, aqui nas Américas, a pressão envolve uma guerra comercial, diplomática e política contra o Brasil e o Canadá, como alvos preferenciais. Obviamente, isso se deve ao tamanho destas duas economias, à sua importância estratégica para os EUA e à resistência que os seus governos estabeleceram às imposições imperialistas deles. Parte dos países das Américas tem dependência econômica extremamente alta dos EUA e todos sabemos que nenhum país das Américas tem, hoje, capacidade militar para enfrentar os EUA, nem nos termos assimétricos do Irã, nem de longe, eu creio. Para a maioria dos países das Américas cederem completamente aos EUA, bastou a imposição do terror com ações militares dos EUA em águas territoriais da Venezuela e da Colômbia, no Caribe, resultando na execução sumária de mais de uma centena de pessoas, sem qualquer base legal ou autorização internacional, seguida pelo sequestro do presidente da Venezuela — igualmente uma ação terrorista, sem base legal ou em acordos internacionais. Isto resultou em grande impulso para uma verdadeira "onda azul", com a vitória de candidatos neoliberais e neofascistas na política em diversos países aqui nas Américas. Como afirmei em textos anteriores, essas ações neoimperialistas dos EUA parecem como as patadas e mordidas de um leão poderoso, mas já em decadência. Ainda capaz de ferir e matar, mas já incapaz de manter o seu pleno poder. Reitero isso com segurança, porque vejo a ultrapassagem dos EUA pela China como inevitável, excetuando-se condições catastróficas de ampla destruição civilizatória. Então, por mais que nos custe, por mais que os EUA e os demais países da aliança hegemônica decadente provoquem ainda mais tensão na tentativa de reter suas posições de domínio e privilégio, eles não serão capazes de deter a roda da história e terão que aceitar uma nova onda no sistema mundial. E esta nova onda será mais socializante e terá a China socialista como país principal, assim como os EUA estiveram na hegemonia do sistema a partir da onda socializante anterior, desde as décadas de 30 e 40 do século passado, e durante a última onda liberal — a chamada onda neoliberal — que está terminando agora. Essas são as condições em que nos encontramos agora e nas quais a eleição geral ocorre no Brasil. (Esta parte do texto foi escrita no dia 04/10, o dia do primeiro turno de nossas eleições gerais, horas antes da abertura do início da contagem dos votos). Procurei descrever os aspectos, processos e tendências determinantes do nosso processo histórico neste artigo, até. aqui e em vários outros anteriores. Podemos traduzir estes determinantes estruturais, do ponto de vista político, para a eleição geral do Brasil, do seguinte modo: 1. A nova revolução tecnológica de imensas proporções 2. O processo contínuo e acelerado de integração econômica e social global. 3. A grande crise econômica da onda neoliberal e a resposta ultraliberal e neofascista a esta crise, que hoje se apresenta fortemente nos EUA e na América do Sul, na AL em geral, e até nos demais países da aliança hegemônica dos EUA. 4. A crise da hegemonia global dos EUA, em face da ascensão da China e de uma nova aliança ascendente, e a tentativa, por enquanto exitosa, de impor um novo grau, mais alto, de imperialismo, indo até um neocolonialismo, dos EUA nas Américas. 5. A opção histórica, sempre presente, subjacente às grandes decisões políticas na história contemporânea, entre o sistema capitalista e o sistema socialista/comunista. Talvez, agora, esta escolha se apresente para nós, sobretudo de modo indireto, na escolha de uma parceria estratégica principal com a China ou a continuidade e intensificação da submissão estratégica aos EUA. Sejam quais forem as tormentas pelas quais a humanidade ainda terá que passar nos próximos anos e décadas, descartadas as grandes catástrofes destrutivas da civilização, estas crises se resolverão pela ainda maior integração produtiva e social da humanidade, a níveis muito mais intensos do que os atuais, e pela maior socialização do sistema produtivo e de distribuição da riqueza social, invertendo-se a tendência de contínua concentração de riquezas — que se impôs desde o início da onda neoliberal, na virada dos anos 1970 para 1980 — e produzindo novas conquistas materiais, de acesso a bens e serviços, e de ampliação de direitos para as massas trabalhadoras, sob o predomínio (talvez não se deva mais, a partir daqui, falar em hegemonia) mundial da China socialista e seus parceiros, sobre o imperialismo capitalista dos EUA e de sua aliança hegemônica. Para mim está claro que a escolha brasileira deveria ser pela parceria estratégica com a China, por um futuro compartilhado de desenvolvimento e prosperidade para todos. Mas não é sempre que o melhor vence e, aqui nas Américas, na América do Sul em especial, as forças regressivas encontram-se em posição de predomínio, dadas as novas características imperialistas e neofascistas do poder que emana dos EUA. Estamos inevitavelmente nesta área de maior influência direta do poder imperialista dos EUA. Nestas circunstâncias, a geografia é uma condenação. Somos hoje a maior resistência ao imperialismo dos EUA no hemisfério, desde o México para baixo, certamente. Mas a maior tendência, dadas as forças políticas em jogo, é que o país ceda e se submeta ao poder imperialista dos EUA mais uma vez, elegendo ao parlamento e ao governo os candidatos que prometem completa submissão aos EUA e ao programa ultraliberal que eles estão impondo por aqui. Como exposto logo acima, bastou o terrorismo de Estado dos EUA, com as chacinas sobre os barcos no Caribe e o sequestro do presidente e a neocolonização da Venezuela, para que os países da região cedessem ainda mais espaço para o domínio deles. E é de se esperar, por estes mesmos motivos, que a resistência seja vencida aqui também. Há, no entanto, uma força poderosa contrária a esta tendência, quase tão grande quanto o domínio político e militar dos EUA. Uma força que, no limite e no fundo, é sempre a força superior, a mais determinante nos processos históricos: a força da economia. A força econômica nos empurra, consistentemente, como país e como nação, não para a manutenção da submissão aos EUA, mas para a parceria estratégica com a China. Mas a história não é simples; ao contrário, é sempre o resultado de processos complexos e contraditórios e, muitas vezes, por longos momentos, a determinação material e a racionalidade objetiva da economia não conseguem prevalecer no processo histórico, ainda que, no longo prazo, sejam sempre prevalecentes. Vamos ver como esta contradição vai se resolver na prática nas próximas horas e, talvez, daqui a três semanas. Seja como for, a vitória da corrente civilizatória ou a vitória da barbárie ultraliberal, neofascista, aqui, não vai alterar de modo definitivo ou realmente determinante os processos históricos mundiais que estou descrevendo. Nós ficaremos mais apartados, do que poderíamos, das tendências de desenvolvimento econômico e social e mais submetidos ao sacrifício do nosso desenvolvimento, dos nossos recursos e interesses, em nome das necessidades e dos interesses dos EUA. Perderemos a oportunidade de avançar na parceria estratégica que mais tem impulsionado o nosso desenvolvimento e nos atrelaremos a uma submissão praticamente sem limites ao subsistema, decadente ou, no máximo, de baixo desenvolvimento, da hegemonia dos EUA. Vamos perder tempo e oportunidade, vamos nos atrasar economicamente e vamos nos rebaixar como nação. Externamente, por nos submetermos ainda mais completamente e ainda mais explicitamente aos EUA, e internamente, pelo grande rebaixamento político, institucional e moral da nação, imposto por um novo governo neofascista aqui dentro. Mas, repito, nada disso irá alterar os principais processos históricos mundiais em curso, de modo realmente determinante ou definitivo. Apenas ficaremos mais à margem do fluxo de desenvolvimento da parceria plena com a China. Vamos ver como isto vai se dar, pois, a não ser à custa de uma imensa desestruturação da nossa economia, não poderemos nos desfazer da verdadeira integração que já temos, hoje, com a economia chinesa, para nos reacoplarmos submissamente aos EUA. Isso não interessa ao capital produtivo do nosso país, em geral, de modo algum. Ao fim, mesmo com a vitória da extrema direita neofascista, capitalista ultraliberal, antissocialista e antichinesa, a integração entre as nossas economias é estrutural e não poderá ser desfeita a não ser a altíssimo custo econômico e social. Eu creio que nem mesmo eles peitariam este trauma para se submeterem completamente aos EUA. Veremos, portanto, como esta contradição vai se desenvolver. Parte 5 São muitas as razões que se busca para explicar os resultados do primeiro turno das eleições, com uma grande vitória da extrema direita, neofascista e neoimperialista e com um discurso ultraliberal. O wokismo da esquerda, a maior manipulação das redes sociais, a apropriação do tema da segurança pública pela direita fascista, os eternos e indefectíveis erros de campanha etc. Mas tudo isto é, mais ou menos, o mesmo que nas últimas eleições, quando a oposição de centro-esquerda venceu a extrema direita que estava no governo. O que foi diferente, agora, deve ser por outros fatores. De fato, tudo isto é, ou deve mesmo ser, secundário em uma eleição nacional. Como dizia o marqueteiro do Clinton, inspirado em Marx talvez: “O que importa é a economia, estúpido”. É isto: o povo está insatisfeito. Os que ganham acima de um salário mínimo não estão, em maioria, com o governo. E, nisto, o povo sempre tem razão. A economia não está boa, apesar de ter melhorado no atual governo. Mas não o suficiente para quem ganha 2, 3, 5 ou 7 mínimos, ou até mais, estar satisfeito. A vida está ruim, apertada, insegura. A partir da economia, sim, é óbvio. É claro que não dá para estar satisfeito com nada. Mas estava melhorando. Pouco e devagar demais — foi o que a eleição mostrou. Esta sempre foi a minha crítica ao PT, mas agora eu entendo melhor as condições em que isto se dá e as opções estratégicas do partido. De qualquer modo, não bastou, diante de todo o poder de manipulação da imprensa e das redes sociais que eles têm em mãos. Em geral, não basta mesmo, nas condições de crise do capitalismo avançado ou, sempre, nas economias colonizadas e vassalas do império norte-americano, aqui na América Latina em geral. Eu já escrevi anteriormente que, nas situações de crise econômica, os governos social-democratas têm dificuldades em se sustentarem, porque, dentro do processo democrático, não se pode, não se consegue facilmente, fazer mudanças que realmente alterem positivamente, de modo significativo, a vida econômica das massas no curto prazo de quatro ou cinco anos. Ainda mais nos países periféricos, secundários ou pobres do sistema capitalista mundial contemporâneo, cuja situação é de crise mais ou menos constante, mais ou menos grave. Nas nações ricas e poderosas, em situações de crise sistêmica, e nas nações de renda média ou baixa, em todo o tempo, as mudanças de melhora social ou de contenção de perdas, dentro da democracia, só podem melhorar as condições da população, digamos, do péssimo para o muito ruim, no curto prazo dos mandatos eleitorais. Os canais predominantes da mídia, nestas condições, são contrários aos ganhos populares, acentuando os aspectos negativos e acenando com riscos ainda piores constantemente. É natural que a escolha popular se dirija à direita e ainda mais à extrema direita nestas situações. A doutrina liberal se reimpõe e grande parte dos ganhos populares são perdidos. São muitas as razões que se busca para explicar os resultados do primeiro turno das eleições, com uma grande vitória da extrema direita, neofascista e neoimperialista, sustentada por um discurso ultraliberal. O wokismo, a manipulação das redes sociais, os eternos e indefectíveis erros de campanha — mas tudo isto é, mais ou menos, o mesmo que nas últimas eleições, quando a oposição de centro-esquerda venceu a extrema direita que estava no governo. O que foi diferente agora deve se dever a outros fatores. De fato, tudo isto é, ou deve mesmo ser, secundário em uma eleição nacional. Como dizia o marqueteiro do Clinton, inspirado talvez em Marx: “O que importa é a economia, estúpido”. É isto: o povo está insatisfeito. Os que ganham acima de um salário mínimo não estão, em maioria, com o governo. E, nisto, o povo sempre tem razão. A economia não está boa, apesar de ter melhorado no atual governo. Mas não o suficiente para quem ganha 2, 3, 5 ou 7 mínimos, ou até mais, estar satisfeito. A vida está ruim, apertada, insegura. A partir da economia, sim, é óbvio. É claro que não dá para estar satisfeito com nada. Mas estava melhorando. Pouco e devagar demais — foi o que a eleição mostrou. Esta sempre foi a minha crítica ao PT, mas agora eu entendo melhor as condições em que isto se dá e as opções estratégicas do partido. De qualquer modo, não bastou, diante de todo o poder de manipulação da imprensa e das redes sociais que eles têm em mãos. Em geral, não basta mesmo, nas condições de crise do capitalismo avançado ou, sempre, nas economias colonizadas e vassalas do império norte-americano, aqui na América Latina em geral. Eu já escrevi anteriormente que, nas situações de crise econômica, os governos social-democratas têm dificuldades em se sustentar, porque, dentro do processo democrático, não se pode, não se consegue facilmente, fazer mudanças que realmente alterem positivamente, de modo significativo, a vida econômica das massas no curto prazo de quatro ou cinco anos. Ainda mais nos países periféricos, secundários ou pobres do sistema capitalista mundial contemporâneo, cuja situação é de crise mais ou menos constante, mais ou menos grave. Nas nações ricas e poderosas, em situações de crise sistêmica, e nas nações de renda média ou baixa, em todo o tempo, as mudanças de melhora social ou de contenção de perdas, dentro da democracia, só podem melhorar as condições da população, digamos, do péssimo para o muito ruim, no curto prazo dos mandatos eleitorais. Os canais predominantes da mídia, nestas condições, são contrários aos ganhos populares, acentuando os aspectos negativos e acenando com riscos ainda piores constantemente. É natural que a escolha popular se dirija à direita e ainda mais à extrema direita nestas situações. A doutrina liberal se reimpõe e grande parte dos ganhos populares são perdidos. Na condição de capitalismo desenvolvido, ou na condição do capitalismo dos países colonialistas e imperialistas, isto se resolve, naturalmente, pelo aprofundamento da crise econômica e pela revolta popular, seguida da vitória da esquerda e de um novo ciclo de ganhos populares. Nos países pobres e de renda média, de extração colonial, isto se resolveu, com muita frequência, pela imposição de ditaduras fascistas, com a quebra do Estado de direito democrático e o aumento da opressão violenta para conter a insatisfação popular. A população, manipulada de todas as formas, acaba optando pelos políticos de direita, mesmo duvidando que possam dar uma solução para os desafios econômicos do país que seja favorável à população em geral. Para esta grande massa que ganha menos de 10 salários mínimos, a opção mais fácil e mais dura acaba sendo imposta aqui, sempre, de algum modo: submissão ao poder hegemônico externo e concentração extrema de riquezas. Quase como um corolário disto, estão os políticos mais corruptos e desqualificados, os vendilhões da pátria, os abutres do capitalismo, os cafetões e donos de cassino, os mais autoritários e assassinos. Como num filme B de Hollywood dos anos 50. O que está reservado para nós é isto, novamente? Eu acreditava que não, acreditava que haveria um crescimento pequeno da direita e da esquerda, especificamente do PT, no Congresso, e que o presidente Lula venceria as eleições presidenciais. Porque eu via o avanço, mesmo que limitado, da economia popular com ele. E porque votar no outro lado seria votar diretamente no inimigo, naquele que está dizendo claramente que não vai deixar nenhum ganho ou avanço para os trabalhadores e dará toda a proteção possível ao capital, dentro de uma renovação da dependência do Brasil em relação aos EUA. Está claro, está óbvio, que o povo trabalhador está votando em favor do interesse dos ricos capitalistas, na promessa de que com isto haverá benefício para todos. No longo prazo, esta escolha nunca vai dar certo, apesar de no curto prazo poder trazer ganhos reais se a economia realmente decolar, com investimentos de larga escala dos EUA e manutenção dos investimentos chineses, com redução real da taxa de juros e crescimento significativo da economia. Mas isso depende de diversos fatores muito favoráveis e não muito prováveis. Nas condições atuais, é muito mais provável que os EUA tomem muito mais riqueza do Brasil do que invistam aqui o necessário para um grande salto de desenvolvimento nos próximos anos. O mais provável é apenas que o Brasil seja mais rapinado pelos EUA e que o povo trabalhador e mediano seja mais explorado pelos ricos, nos próximos anos e décadas. Até isto se tornar insuportável e alguma ruptura ocorrer. Seja como for, ainda que todas as condições favoráveis se apresentem e, sob o poder concentrado e turbinado da direita, a gente tenha um boom econômico nos próximos anos — o que parece bem pouco provável —, ainda assim, em algum tempo próximo o povo iria ter que se dar conta de que não foi convidado para a festa que ele próprio preparou. Só os ricos abocanham todos os ganhos e, mesmo com o país se desenvolvendo, o povo empobrece ainda mais. Aí é que o chicote estala. Provavelmente, nas costas do povo mesmo, não é? Fisicamente. Chacinas, perseguições, intimidações, violência política de todo tipo — judicial, física, do poder do Estado e das milícias dos capitalistas, dos proprietários, dos ricos — só vai crescer e recrudescer ainda mais na medida em que a economia falhar. Aí só restará para eles a violência. Também é possível que a democracia brasileira tenha uma vitalidade surpreendente e suporte isto, nos anos, muitos talvez, de controle de uma direita neofascista sobre o Congresso, o Executivo e a Suprema Corte nacionais. Mas o mais provável é que, mais uma vez, a gente ceda aqui também, com diversas formas de restrições de direitos e liberdades fundamentais, perseguições de todo tipo na vida social e política e alguma forma de controle seguro do poder fora do jogo eleitoral democrático. É como se estivéssemos todos já dentro de um golpe em movimento, com o seu enredo prenunciado. Veremos. A história sempre pode nos surpreender. As condições econômicas não indicavam, eu creio, a vitória do candidato da direita antipopular. Se havia muita insatisfação com a economia, havia também muita certeza de que o outro lado seria ainda pior. É tão estranho quando vemos o povo votando contra seus próprios interesses, em defesa dos ganhos dos capitalistas, que parece um delírio. Mas isto é tão frequente quanto a própria existência de eleições no capitalismo e em outros momentos da história. Certamente é porque o povo não vê, não consegue ver, ou é impedido de ver alguma alternativa melhor. É claro que toda a cortina de fumaça sobre temas escandalosos serve para confundir os eleitores, mas isto sempre existiu, sempre esteve aí. Eu, na verdade, esperava a vitória do Lula e, no entanto, tive a percepção, antes das eleições, desta onda da direita e registrei isto na parte anterior do artigo, que foi escrita e publicada no Facebook algumas horas antes de começar a contagem dos votos do primeiro turno. Não por causa da economia aqui no Brasil, ou apenas e diretamente pela economia do Brasil — ainda que, sem as grandes dificuldades econômicas, a conversa seria outra. De fato, eu creio que, se alguém quiser encontrar um culpado isoladamente para a onda de extrema direita no primeiro turno das nossas eleições gerais, a taxa de juros seria uma forte candidata. Mas as causas mais profundas ou estruturantes devem ser aquelas que venho desenvolvendo em todos os artigos anteriores e na primeira parte deste também. Parte 6. A eleição em segundo turno ocorre para alguns governadores de estados e para o presidente, que agora se tornou ainda mais absolutamente decisiva. O campo progressista, a social-democracia, o socialismo e o anarco-comunismo têm apenas esta chance para barrar a concentração de um poder absolutista — ou muito perto disto — nas mãos da direita, nos próximos anos ou décadas. Eles terão o Congresso, o Executivo e o controle completo também do STF, com a indicação de novos ministros durante o próximo mandato presidencial e o impeachment e substituição de outros tantos ministros, que eles certamente vão promover. Pouca coisa pode se anunciar pior do que isto: a vitória completa e o controle institucional absoluto pelos piores entre os piores, os mais corruptos e violentos, os mais dissimulados e enganadores, os mais falsários, os maiores ladrões, vendilhões do templo, assassinos, os mais ignorantes e estúpidos, os maiores inimigos do povo trabalhador e pobre do Brasil e lacaios dos EUA. Estes foram os grandes vencedores do primeiro turno. E sem que isto seja realmente oculto de ninguém. Está na cara, sob um verniz pouco polido de qualquer outra conversa, que vai terminar sempre na ideia de que milícia e golpe militar são boas coisas e de que, para o pobre ganhar qualquer coisa, tem que começar perdendo muito e esperar até que as migalhas caiam das mesas dos ricos. Pode dar certo, como eu disse acima, mas em condições muito favoráveis e por pouco tempo. Basta uma pequena crise para os ricos recolherem seus ganhos e deixarem os pobres na sarjeta. E estamos em crise praticamente constante na periferia do sistema capitalista mundial. E, agora, também estamos em uma crise mundial de grandes proporções, ou pelo menos uma crise de grandes proporções no subsistema de hegemonia dos EUA — União Europeia, Reino Unido, Japão, Coreia — já há muito tempo. Estas condições, este período, isto recrudesce a ganância do capitalista, ao contrário de arrefecê-la. A concentração das riquezas segue avançando continuamente desde o início da onda neoliberal, mesmo depois de já estar bastante claro que estamos em uma crise sistêmica, com socorro público sendo utilizado em proporções gigantescas, aumentando as dívidas públicas e pondo ainda mais areia nas engrenagens do sistema. A resposta dos capitalistas, e dos seus funcionários nos governos e parlamentos, destes mesmos países hegemônicos mais atingidos pela crise e de grande parte da sua rede de países vassalos, tem sido ainda, predominantemente, em quase uníssono, concentrar ainda mais riqueza. Estamos, no entanto, eu creio, nos limites deste longo ciclo de concentração de riquezas. Em alguns destes países, eles já devem começar a ser revertidos. Este processo ainda nem sequer começou, ou está apenas começando. Há revoltas populares por demandas materiais e ideológicas em toda a Europa, em um crescendo que já vem de algum tempo, mas que se intensificou muito nos últimos dias, tomando, em geral, um caráter reivindicatório muito mais popular e à esquerda do que vinha sendo até aqui. Mas isto está apenas começando e, sobretudo, para o que nos interessa aqui, o poder nos EUA está sob o comando da extrema direita imperialista, neocolonialista e neofascista, que conseguiu se impor sobre toda a América Latina, praticamente. O atual governo dos EUA tem dois anos ainda pela frente. Mas parece que esta linha política deve ser derrotada já, agora em novembro, nas eleições parlamentares, e depois nas eleições presidenciais, daqui a dois anos. Vamos ver o que vai acontecer e qual será a política de segurança do próximo governo dos EUA. Se a atual linha política dominante nos EUA for realmente derrotada, vai deixar uma série de órfãos por aqui e o neofascismo vassalo da América Latina vai se desfazer como um tecido apodrecido. Não sem produzir muito sofrimento e danos sociais. A nova onda socialista não deverá vir dos países da América Latina, ainda que aqui também a onda de rebeldia e revoltas populares vá se disseminar, a partir dos próximos meses e anos adiante. Estaremos, de qualquer modo, todo o subcontinente sob o domínio agressivo, neoimperialista dos EUA. O suficiente para não podermos esperar uma onda transformadora se erguendo aqui nos próximos anos, a não com uma derrota realmente arrazadora dos democratas sobre o governo republicano na eleição de midterm, próxima, e na eleição presidencial, daqui a 2 anos. Os votos precoces que estão sendo computados, por lá, indicam, em conformidade com todas as pesquisas, uma forte derrota para o partido do governo. O enfraquecimento do governo central dos EUA deve mudar a dinâmica geopolítica em todo o mundo e, aqui no subcontinente latino-americano, mais ainda. Antes disso, no entanto, temos o segundo turno das eleições gerais aqui no Brasil. Caso a extrema direita ganhe a presidência, eles terão o controle do Parlamento, do governo, da Suprema Corte e das forças armadas, além de contarem com a conivência das mídias dominantes, em geral. Não dá para não antever o pior sob os mais diversos aspectos: mais violência contra as camadas populares e as minorias excluídas, mais empobrecimento para as massas mais pobres, com a perda de renda, benefícios e serviços públicos. Mais violência política e institucional, para dar conta de impor tudo isto, desembocando, enfim, em um novo período de ditadura — mais ou menos aberta, mais ou menos velada — num Brasil plenamente submisso ao novo imperialismo dos EUA. A decisão brasileira significará uma escolha entre alternativas realmente definidoras do rumo do país, eventualmente por um período bem maior do que quatro anos. E não temos, hoje, certeza nem segurança de qual rumo seguiremos. As impressões iniciais, pós-primeiro turno, eram de que o candidato da extrema direita teria vitória fácil. Mas uma forte mobilização popular espontânea reativou a campanha do candidato social-democrata, criando uma onda de esperança na contenção dos danos com a vitória do atual presidente. Encontramos duas forças políticas sobredeterminantes no momento histórico atual, dentro do qual as eleições do Brasil estão ocorrendo. Por um lado. a força da hegemonia mundialmente decadente dos EUA, concentrando-se na América Latina em um verdadeiro neoimperialismo e neocolonialismo, sob a bandeira da “Grande América” (do polo sul ao polo norte). E, por outro, a força da economia ascendente da China socialista, integrando-se e promovendo o desenvolvimento em todo o mundo, acentuadamente aqui na própria América Latina. Como ensina a ciência da história, no tempo, a força do desenvolvimento vencerá a força da dominação, seja qual for a sua fundamentação ou mesmo com todas as suas fundamentações ativadas ao máximo. A força militar, a força financeira e a força cultural dos EUA em todo o mundo — e sobretudo aqui na América Latina — é quase absoluta, incontrastável. Para nós, a adesão submissa ao poder dos EUA parecia natural e assim foi durante todo o tempo da minha vida. A economia e a institucionalidade brasileiras, por exemplo, estiveram objetivamente submetidas aos EUA de modo incontestável desde o fim da Segunda Guerra, ou antes. Sempre que foi necessário ou conveniente, eles patrocinaram golpes de Estado ou campanhas para mudanças políticas, para mudanças de regime, aqui no Brasil e em toda a América Latina. E, em geral, foram exitosos. Não é novidade os EUA imporem o seu controle hegemônico sobre a América Latina. Ao contrário, esta é a constante desde o fim da Segunda Guerra, ou mesmo antes, como já indiquei. O que há de diferente no presente é justamente o contexto atual, o momento histórico. No entanto, pela primeira vez em todo este período, os EUA perderam a sua hegemonia mundial, tecnológica, econômica, militar e geopolítica — o que, no fundo, é tudo a mesma coisa. E isso ocorre justamente no momento histórico em que os países da aliança hegemônica dos EUA encontram-se em prolongado período de baixo crescimento econômico ou franca recessão. Eu Insisto, reiteradamente, que a única solução historicamente viável será uma nova onda de socialização das relações sociais de produção, do sistema produtivo mundial, até porque a concentração contínua e extrema de riquezas é a causa básica, primária ou principal da crise. Isto ocorrerá, coerentemente, dentro de um processo acelerado de integração produtiva e social mundial. Estamos no início deste processo, num momento histórico em que a transição da hegemonia mundial dos EUA para a China está se concretizando. As eleições brasileiras ocorrem dentro deste contexto, sob o influxo do poder hegemônico dos EUA intensificado sobre a América Latina, a ponto de conseguir uma onda quase absoluta de adesão e submissão em toda a região. Mas ocorrem também sob o influxo — em um nível mais profundo e de longo prazo, sobredeterminante — da integração econômica com a China. O Brasil é, por suas características, o único país com força suficiente para se contrapor ao domínio absoluto dos EUA na região. Mas, nem por nossas tradições, nem pelas condições do presente, me pareceu, no primeiro turno, que isto seria efetivo. A eleição de um Congresso com a maior bancada de extrema direita confirmou isto. Mas a eleição não acabou ainda e agora temos diante de nós a possibilidade de criar uma barreira, uma incrível barreira, à submissão aos EUA e à condição de vassalagem corrupta, criminosa e desprezível a que ela nos leva. Este resultado — a surpreendente vitória do presidente Lula, de virada, no segundo turno — seria a síntese mais evidente destas forças contraditórias que são predominantes nesta decisão eleitoral. Por um lado, um Congresso com forte crescimento da extrema direita, apesar de um pequeno crescimento também do PT, o partido do governo - com um certo erro no tamanho da vitória da direita, era isto mesmo que eu previa. Por outro lado, o velho presidente social-democrata, experiente e em seu último mandato, com o STF a seu favor ou, no máximo, neutralizado. Se vencermos, será mais um forte sinal do enfraquecimento e da derrocada do hegemonismo dos EUA. Será um passo imenso para a autonomia e soberania do país e para o seu desenvolvimento. Vamos, de modo inquestionável e imprescindível, nos aliar mais profundamente à China socialista. Vamos avançar mais rapidamente para os novos saltos tecnológicos que já estão diante de nós. E o mundo inteiro dará mais um pequeno passo em direção à paz e ao socialismo. Mas, como eu já disse antes, caso isto não aconteça, por pior que seja para nós aqui no Brasil, para a América Latina e até para o mundo todo, o processo histórico em curso não será detido. As suas linhas de tendência predominantes são estas que já indiquei nesta sala de situação e nos diversos artigos anteriores. Parte 7 Estamos, agora, há 7 dias das eleições em segundo turno. Houve uma onda de recuperação do presidente Lula, captada por todos os institutos de pesquisa. E nada indicava que ela iria parar. Mas ninguém pode subestimar nem a capacidade de manipulação das mídias, nem o seu alinhamento preferencial ao candidato da extrema direita. Houve o primeiro debate presidencial, que foi, obviamente, todo montado e preparado com o candidato da oposição, que é, sem qualquer dúvida, o candidato preferencial do pool de empresas que promoveram e realizaram o debate. A manipulação das mídias é algo completamente evidente e que, ao mesmo tempo, parece oculto para as massas, para grande parte das pessoas em geral e até mesmo em níveis intelectualizados. A ideia de que a mídia que consumimos, que nos informa e forma, é manipulada por interesses políticos e econômicos específicos e, em geral, ocultos, é algo impossível ou inaceitável para o protótipo de crente ou fiel. É preciso crer. Muitos duvidam que as suas mídias, sejam elas quais forem, sejam manipuladas por interesses políticos e econômicos ocultos ou contrários aos seus interesses, que sirvam para enganá-los sistematicamente e para mantê-los em uma condição de dependência e subserviência ao sistema. Mesmo quando falam contra o sistema. Mas é assim que a realidade é. As mídias são manipuladas e seus interesses e acordos nos planos econômicos e políticos não serão jamais revelados, ou apenas em parte e de formas distorcidas, para a população consumidora e participante das mídias. Não quero dizer com isto que a mídia dominante sempre vença, nem que ela não tenha nuances e contradições, o que não é verdade. Mas é certo que ela é fortemente integrada ao sistema e parte fundamental dele, sem dúvidas. Muitas vezes a manipulação da mídia pode até se reverter contra o que ela pretende. Talvez a vitória, muito bem preparada, do candidato da direita, naquele primeiro debate, represente justamente uma derrota para ele. É difícil saber como aqueles que se influenciam por debates, ou pela reação aos debates nas redes, vão sentir diante disso. Talvez se sintam incomodados pela agressividade e grosseria, talvez avaliem a postura do candidato como vazia e abusiva. Talvez valorizem o desafio feito por Lula para acabar com qualquer conversa de suspeitas e boatos sobre os dois candidatos e reconheçam que o filho de Bolsonaro fugiu, mais uma vez. Não se deve, contudo, ceder nem um milímetro à ideia ingênua de que uma eleição como a nossa, com o grau de importância que tem no mundo e, especialmente, nas Américas, não seria alvo combinado de ações estratégicas do Departamento de Estado e agências de informação dos EUA, além da manipulação das mídias, em favor da família de bandidos que está quase se encastelando no poder no Brasil. Nem se pode imaginar, também, nem por um momento, que isto não teria um dos seus pilares na religião, na rede religiosa evangélica especialmente, mas cristã em geral. Isto tudo está no manual do fascismo, de todo modo. Do ponto de vista deste campo, os Bolsonaro e sua rede são os tipos ideais para a ideologia e a política nos quintais dos EUA. Aquele estereótipo canalha dos governantes e de todo sistema assim, corrupto, autoritário, violento e totalmente sob controle dos EUA. Mais uma vez. É o nosso aprisionamento em um ciclo muito perverso. Mas vamos ver. Temos já uma integração econômica com a China muito positiva, tanto sob o prisma dos capitalistas quanto do ponto de vista do desenvolvimento do Brasil em geral, e uma diversificação muito saudável da nossa pauta de comércio exterior em todo o mundo. Parece, às vezes, que chegamos a uma maturidade econômica que, dadas as condições atuais, não nos obrigará a ceder mais uma vez ao nosso vergonhoso destino histórico. Seria desnecessário dizer que este modelo, já desde o início ou ao longo do tempo, se mostra perverso ao máximo e é, ao mesmo tempo, de certo modo, a nossa condição eterna aqui neste ponto do sistema capitalista mundial. Esse modelo força a concentração de riquezas ao máximo, sobre uma base já muito alta de concentração, abusivamente alta, que é nossa marca histórica. Mesmo que em algum momento possa promover até alguma redistribuição, termina neste circuito de concentração progressiva e contínua até níveis insuportáveis. Mas, para ocorrer este momento positivo de redistribuição pela via liberal, teríamos que ter a combinação de grande desenvolvimento econômico e ganhos disseminados. Um verdadeiro boom econômico. Toda e qualquer outra condição econômica, sob o domínio ultraliberal, nesse novo modelo canalha de fascismo caribenho, só pode levar a mais e mais concentração de renda até os limites do absolutamente insuportável. As condições atuais certamente não são favoráveis. É o que parece, pelo menos. Estamos no fim da onda neoliberal na economia mundial, no sistema capitalista mundial. A crise que marca este processo se iniciou em 2007 e ainda não foi superada. Ainda que tenha começado nos EUA, ela está concentrada nos países secundários da aliança hegemônica dos EUA — UE, Reino Unido, Japão, principalmente. Mas tem atingido diretamente os próprios EUA também, e o mundo todo, em níveis diversos. Algumas regiões do mundo certamente não estão submetidas ao mesmo processo recessivo, ou beco sem saída econômico, como este subsistema hegemônico e os países mais diretamente submetidos a ele estão sofrendo. Aqui no Brasil nós estamos sofrendo, certamente, por este recuo no crescimento global representado pelo relativo fracasso histórico das economias do polo hegemônico. Já são duas décadas de crescimento muito baixo, com vários episódios recessivos dentro deste grupo e, de um certo modo, espalhando-se para o mundo todo. Incluindo a gente. O crescimento da economia atual no Brasil é apenas o suficiente para andarmos de lado, digamos assim. E, mesmo assim, estamos avançando no painel das 10 maiores economias do mundo. Isto porque, entre as outras, muitas estão crescendo menos ainda. Parece óbvio, para qualquer extrato social da nossa economia, que deve haver ganhos em nos atrelarmos mais ao subsistema que cresce mais de 4% ao ano do que ao subsistema que cresce próximo a 1% ao ano. Isto parece claro para mim e, de fato, é uma lógica econômica que termina por se impor ao sistema, em algum tempo, seja como for. Mas, o processo histórico é contraditório e muitas vezes, sabemos disto aqui no Brasil, é a nossa história, de certo modo, uma nação, em geral, e as suas massas populares, em especial, tomam decisões contrárias aos seus interesses e escolhem o seu escravizamento mais do que a sua libertação. Escolhem o seu empobrecimento mais do que o seu desenvolvimento. Escolhem a submissão e não a altivez ou a coragem. Eu sinto uma forte irmandade, eu creio, com todos aqueles que têm medo e escolhem pela submissão. Mas esta não é, com certeza, a escolha natural das elites, no sentido positivo da palavra. E é por isto mesmo que eles elegeram aqui os piores, os mais vagabundos, os mais falsários, os maiores bandidos, os sem moral nem caráter algum, os traidores do país e do povo brasileiros. Aqui e em toda a América Latina. Não é uma coincidência, é uma onda, dentro do momento histórico que estou detalhando aqui. Vou finalizar agora esta sala de situação, no dia 19/10/2026. Não sou fatalista, ao contrário, trabalho com conteúdos contraditórios e paradoxais o tempo todo. Esta é a realidade das pessoas e sociedades e muito mais ainda da sociedade mundial. É possível e até provável, nas condições atuais, que um governo de extrema direita ceda pragmaticamente à integração econômica com a China, sem qualquer ruptura, nem mesmo desaceleração dos investimentos e megaobras de logística que estão em curso e ainda podem continuar vindo. Ao mesmo tempo que se submete ideologicamente, politicamente e militarmente, ao máximo, aos EUA. É claro que estas duas linhas entrarão em conflito mais ou menos rapidamente. Assim como também é claro que qualquer ajuste econômico imposto pelo governo de ultradireita vai incidir preferencialmente sobre as classes médias e baixas antes do que sobre os realmente ricos. Some-se isto à provável derrota do partido do governo dos EUA nas eleições legislativas agora e, daqui a dois anos, nas eleições executivas, especialmente a presidencial. Como eu já disse, é difícil prever algo positivo de um possível governo da extrema direita aqui no Brasil, agora. Talvez, no limite do primeiro governo, ou dos dois primeiros anos de governo, se houver um influxo de recursos dos EUA para o Brasil, via bolsas, via investimento direto, via acordos bilaterais envolvendo os dois Estados, com a China mantendo os seus compromissos atuais e mantendo o investimento aqui, pode haver um ganho geral para a economia brasileira e os efeitos disso durarem até mais do que os 4 anos de governo. Em algum momento não será mais assim. Talvez bem rapidamente, os conflitos de interesses dos EUA e da China vão aparecer e as escolhas estratégicas do Brasil vão ter consequências. A China vai reduzir os recursos estratégicos para o Brasil e os EUA vão precisar nos rapinar mais para se manterem, dentro da crise, na opção ultraliberal deles. Os recursos serão mais limitados e o arrocho vai cair ainda mais forte sobre as camadas populares. A revolta contra isto deve derrubar a sucessão de governo, ou governos, bolsonaristas. Ou provocar uma tomada de poder ditatorial da parte deles. Participo da Campanha, do meu modo, apaixonado, sofrendo até demais, tudo isto que eu martelei no teclado em todas as linhas acima. Termino esta sala de situação sem ter realmente um prognóstico claro dos resultados da eleição e nem dos processos sociais que isto vai desencadear se o resultado for a vitória da direita, que, infelizmente, seguindo a lógica de toda a análise anterior, ainda parece bastante provável. Não posso dizer que seja maior do que a probabilidade de vitória do presidente. Não tenho porque duvidar da maioria das pesquisas que identificaram o empate técnico com alguma vantagem para o Bolsonaro, com crescimento significativo do presidente nos últimos dias. Veremos.