domingo, 7 de dezembro de 2025
A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe
Sala de situação 7 de Dezembro de 2025
A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe
Começamos o mês de Novembro e a maior notícia mundial, ou, pelo menos para a nossa região, aqui, segue sendo a ameaça crescente e a intimidação aberta do governo dos EUA contra o governo da Venezuela. A ameaça de ações militares, de maiores proporções, ou de guerra aberta, nunca foi tão grande.
Na Europa a guerra se arrasta ainda, de todo modo e o belicismo cresce.
Tenho tentado explicar como, agora, a ideologia da guerra é útil à elite capitalista nos países hegemônicos e, principalmente, como a economia da guerra é quase um imperativo, é uma saída imediata, falsa, mas quase irrecusável, em uma grande crise econômica como esta que vivemos, no mundo.
Eu escrevi, meses atrás, na ocasião do tarifaço, que as ações dos EUA no atual momento histórico se assemelham àquelas de um leão velho, que já não consegue sustentar o seu poder, mas que ainda tem força para agredir e ferir. Nada mais evidente, neste sentido, do que a violência assassina no Caribe e esta intimidação crescente contra o governo da Venezuela.
Hoje ninguém é capaz de prever onde isto vai dar.
Mas não importa. Seja como for, a hegemonia dos EUA será superada. Este período está no fim, mais alguns anos ou, até, uma ou duas décadas adiante e já será plenamente claro que os EUA não são mais a potência dominante no mundo. Sob qualquer parâmetro razoável de análise de tendências, a China já pode ser considerada a principal potência mundial, ou o será em breve, numa faixa de 5 a 25 anos, em todas as áreas estratégicas para a humanidade. E o que é mais importante, mais marcante e mais significativo é que esta impressionante troca de hegemonia no mundo não é o fator principal, não é o drive ou a força principal neste momento histórico.
Esta mudança geopolítica, espetacular, que estamos todos presenciando, assombrados, nas últimas décadas e, sobretudo, nos últimos anos, não é o centro sísmico das grandes mudanças históricas que estamos vivendo no momento e que vamos viver mais ainda, no futuro próximo. Este centro é mais profundo e mais determinante, é a transição do capitalismo, do capitalismo liberal ou conservador, para o socialismo. Estamos à beira, no início, já, de uma nova onda socializante no sistema mundial, como foi no século passado, principiando anos 20 e 30 e predominando e disseminando-se no sistema, mundial, a partir de 1945.
A troca de hegemonia no mundo, ou, pelo menos, a eliminação da hegemonia dos EUA, é um veículo desta mudança profunda. A nova onda socializante será muito mais profunda e decisiva do que a anterior, porque se apoia já sobre os avanços históricos, em termos de direitos sociais e regulação da economia, do mercado financeiro, especialmente, que persistiram mesmo com toda a corrosão neoliberal. Também porque a economia e a vida social já são muito mais integradas mundialmente do que no século passado. E, por fim, porque a nova força surgente, a nova grande potência mundial, a dividir e superar a potência norteamericana, é a China socialista.
O governo brasileiro tem que lidar com a hegemonia, com o poderio dos EUA, neste momento extremo, de imposição de força, justamente aqui no nosso subcontinente, dentro de um momento ainda de ascenção das forças fascistas, imperialistas e belicistas no mundo. É andar em gelo muito fino.
Tavez dê certo tentar amansar o leão, pra evitar o ataque, mas todos sabemos que amansar um leão agressivo é para muito poucos e tem grande chances de acabar dando muito errado. Trump, se conseguir derrubar o governo da Venezuela, irá se impor mais contra toda a América do Sul, inclusive nós, por maior que seja a capacidade de amansar leões do Lula.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Sala de situação Outubro / Novembro 2025 Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul.
Sala de situação Outubro / Novembro 2025
Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul.
Introdução: O momento histórico atual
A crise, que atinge principalmente os países ricos e se extende daí para o mundo, vem desde 2007 e tem as características de uma grande crise sistêmica, de realização, em uma economia capítalista. É isso mesmo que se deve esperar, ao fim de uma onda liberalizante na economia, como ocorreu no sistema econômico mundial, desde o início dos anos 1980. A concentração progressiva da renda leva a extremos onde a realização do capital investido passa a se tornar progressivamente mais difícil e, de fato, inviável. Quando isto atinge vários setores e várias regiões, sucessiva e simultaneamente, desencadeia-se a crise sistêmica de realização, que desenvolve círculos viciosos, tendendo para uma espiral recessiva na economia como um todo. A crise leva a rupturas com a ordem social, de vários modos, e, é de se esperar que no seu curso as forças dominantes façam maior uso de recursos extraordinários, institucional e legalmente, e empreguem mais a violência, de vários modos, para defenderem seus interesses. Ou seja, o autoritarismo, o fascismo e o imperialismo, que já existiam, de modo desigual, em todo o sistema, crescem, nestas circunstâncias, necessariamente, se tornam mais extremos e mais explícitos.
Estas características e tendências estão, ainda, muito atenuadas, até o momento, dado o uso abundante de recursos públicos, de proteção sistêmica e anticíclicos, lançados às dezenas de trilhões de dólares, em todo o sistema, em ondas, desde 2008. Contudo, os EUA e todos os principais países de sua aliança hegemônica ainda não encontraram um caminho para saírem da crise e, ao, contrário, majoritariamente, mantêm uma linha política que favorece a continuidade da concentração de riquezas. Portanto, a crise deve se aprofundar, se agravar, ainda, por lá. E, por via de consequência, mundialmente. Todas as consequências previsíveis, que tenho descrito sistematicamente, devem persistir e endurecer, no presente e no futuro próximo. E parece que é isto o que está, realmente, acontecendo.
O estresse social está eclodindo em todas as regiões do mundo e explodindo em níveis de violência extrema, em vários pontos do planeta. Nas últimas semanas foram várias tentativas de derrubada de governos. A violência assassina, na forma de guerras e de conflitos sociais armados, está atingindo os níveis mais altos das últimas, várias, décadas.
A espetacularização da violência se tornou um instrumento de poder mais e mais presente e a guerra se tornou uma alternativa economicamente atrativa.
Todo o mundo está aumentando os seus gastos militares e todos governos orgulhosamente vendem isto para os seus cidadãos como a melhor resposta ao desafio do presente. Todos têm que se armar mais, para se protegerem das armas dos potenciais inimigos.
Além da força ideológica, de base nacionalista e belicista, este raciocínio e este direcionamento dos recursos sociais têm um forte apelo econômico, nesta condição de crise sistêmica, em que estamos, pois permite algum alívio dentro da espiral recessiva, já que é uma produção contratada, com a realização do capital investido, assegurada. Mas, é uma produção que não pode servir a outro consumo e, portanto, alimentar uma cadeia de produção, que não seja de destruição e morte. Tende a ser um beco sem saída econômico, que, sem outros recursos suficientes para superar a crise, terminará por intensificar a espiral recessiva e destrutiva. Certamente, direcionar para a produção militar mais da capacidade industrial, com todas as cadeias de produção envolvidas, é um alívio econômico imediato. O problema é ter que dar consumo final a grande parte disto, pretendendo manter a indústria e a economia aquecidas pelo setor militar. Ou seja, ao seguir pelo caminho de buscar no setor militar uma proteção contra a espiral recessiva, está se contratando mais destruição e violência, para o presente e para o futuro. Mas, parece que, no curso de uma grande crise como a atual, isto é uma tentação tão grande, que é praticamente inevitável que as forças dominantes lancem mão deste recurso, progressivamente mais.
É justamente o que estamos vendo no presente.
A Europa está engajada em uma virtual guerra, ou está contratando uma guerra futura, contra a Rússia. O Japão faz provocações inéditas à China sobre o tema de Taiwan. Enquanto os EUA, apesar de todo o discrtuso contrário, não podem parar de promover a guerra e agora voltam o seu foco para o "seu quintal", para a América Latina, primeiro para o Caribe e, depois, sabe-se lá quem será a próxima peça do dominó a cair sob a tutela armada dos EUA. A alegação do combate ao crime, especialmente ao tráfico, elevado à categoria de terrorismo, é a bandeira ideológica que serve como o último recurso para a imposição militar da hegemonia dos EUA na América Latina. Estamos todos, agora, sob ameaça de intervenções armadas dos EUA, com esta alegação.
A crise de hegemonia dos EUA e o fracasso do sistema da ONU versus a ascensão do polo contra hegemônico chinês
As instituições globais, mundiais, o Sistema ONU e instituições associadas, se mostram incapazes para dar uma resposta coordenada, efetiva e razoável, a qualquer aspecto relevante da grande crise atual. Falharam na Covid, falham na guerra comercial e falham, sobretudo, nas guerras propriamente e na violência internacional imperialista. Não têm relevância, não têm voz ativa, neste momento de crise. De fato, hoje, é a ascensão do polo contra-hegemônico chinês, que constitui um dos elementos determinantes, que dão base, para uma saída da crise sem que a gente tenha que passar por extremos ainda muito mais destrutivos.
O aprendizado histórico, o estágio atual da integração produtiva e geral da humanidade e o polo contra-hegmônico socialista, chinês, permitem predizer que, apesar de todas as forças e tendências recessivas e destrutivas para as economias e sociedades no sistema mundial, temos uma forte base para sairmos desta crise com menos destruitividade do que na anterior, da primeira metade do século passado.
O momento histórico atual é de queda progressiva de poder dos EUA e aliados, em face do poder crescente da China e aliados, no curso de uma grande crise econômico-social do sistema capítalista mundial. Os EUA , tentam, a todo custo, sustentar o seu poder, a sua hegemonia econômica e geopolítica.
Por mais que se proponha e se busque construir uma mundialidade multilateral, plural e justa, não podemos ignorar a formação desta polarização mundial. Seja enquanto nação, seja no plano pessoal, em diversos setores e processos estratégicos, teremos que decidir entre dois subsistemas alternativos: o polo dos EUA ou o polo da China. Isto ainda não aparece com toda a força em nosso cotidiano, mas é inevitável que sua presença seja cada vez maior.
Tanto no plano econômico quanto no militar, é apenas pela existência do polo contra-hegemônico chinês e russo, que a Venezuela, eventualmente, e, talvez, também, a Colômbia poderão oferecer alguma resistência militar e política real, ou, até, conseguir dissuadir os EUA de ataques militares contra eles, que parece já estarem contratados. E talvez isto seja o fator decisivo para evitar uma expansão da tutela militar dos EUA contra todos os países da América Latina, especialmente contra o Brasil, com todas as piores consequências, locais e mundiais, que isto teria.
Agora, cada batalha será fundamental, tanto no plano militar, quanto em todos os outros planos estratégicos como logística, comunicação, ciência, tecnologia e suas cadeias de produção. E quanto mais rápido e mais decididamente países como o Brasil assumirem uma maior parceria estratégica com a China e o polo contra-hemônico, em detrimento do polo hegemônico em torno dos EUA, melhor para a humanidade.
Tenho sempre destacado esta importância extrema do polo contra-hegemônico chinês. Do ponto de vista econômico, é uma garantia de que o sistema como um todo pode passar com os menores danos, ou seja, relativamente ao largo, pela grande crise atual, por ter um polo que já se tornou forte o suficiente para minorar em muito os efeitos sistêmicos mais drásticos da crise nas economias hegemônicas atuais. Em qualquer aspecto que se considerar a economia mundial, é verdade que a China já constitui um contraponto real e que já está à frente dos EUA e seus aliados, na ciência e na tecnologia, em grande parte dos setores produtivos. A China já é o maior centro industrial e tecnológico mundial, em cadeias produtivas e de comércio com praticamente todos os países do mundo e segue avançando, intensamente, em integração logística e produtiva em praticamente todo o mundo. Esta é, obviamente, a base real para que a China seja, também em geopolítica, o principal agente do polo contra-hegemônico Sob o aspecto militar, no entanto, parece claro que é apenas pela parceria com a Rússia que a China tem poder para se contrapor ao polo dos EUA e aliados, hoje.
Está cada vez mais clara a contraposição entre estes dois polos e quem está em cada um dos dois lados. É inteligível que o Brasil, a Índia, a Indonésia e outros países com peso médio no cenário mundial vacilem entre estes dois polos e até procurem levar a maior vantagem dos dois lados em conflito. Essa posição de independência e esperteza pode não se sustentar, contudo, na medida em que as tensões e os conflitos se avolumam e intensificam, nos diversos setores estratégicos, como eu estou destacando. Aí teremos que decidir e devemos ter claro a importância desta decisão, inclusive para assegurar a nossa autonomia nacional, que, no momento, não está tutelada e ameaçada pela Rússia ou pela China, mas pelos EUA.
A diferença que faz a China ser socialista
É porque é uma economia socialista, e não é apenas por seu peso econômico e militar, que a China constitui o centro de um polo contra hegemônico mundial que deverá conduzir o mundo para além da crise presente, para uma sociabilidade melhor, mundialmente, com melhora geral de qualidade de vida e do acesso à riqueza para as massas e com muito maior coordenação da economia e da vida social, em geral, a nível mundial. No presente, a inserção da China no sistema econômico mundial se mostra, já se comprova, completamente diferente daquela das grandes potências capitalistas imperialistas.
Esta crise deve nos levar, mesmo, a um nível muito maior de integração mundial e sob um direcionamento geral muito mais socialista do que tivemos até agora, tendo, por isto mesmo, a China socialista, a grande potência emergente deste momento, um papel fundamental.
A importância da China para a contenção do fascismo e a conquista da paz
Em boa medida, o maior desafio do presente é a conquista e a garantia da paz, ou, pelo menos, a conteção da guerra e da violência fascista, ao máximo. Porque as forças dominantes estão sendo empurradas, por si mesmas, para este sentido trágico.
Novamente, contamos em muito com a China para a garantia da paz mundial. Mas sabemos o quanto ela será mais e mais provocada. A China já é o alvo principal de uma guerra estratégica e econômica, tarifária e de sanções, dos EUA. A contenção da China é, certamente, o principal objetivo estratégico dos EUA, hoje. Mas, ao revés, ao contrário, é justamente da permanência do desenvolvimento chinês que todos nós precisamos, justamente, para limitar e até superar os efeitos das tendências regressivas da economia e da política nos países ricos, da aliança hegemônica dos EUA.
Exemplar desta estratégia de contenção da China e do nível da crise, do nível de insanidade em que estamos, nesta crise, foi a tentativa de retomada, ilegal, da Nexperia, pelo governo da Holanda, sob a alegação de risco à segurança nacional, contra o controle empresarial chinês da empresa, que é estratégica na produção de chips, especialmente para automóveis, que funciona na Holanda. Voltarei a este assunto adiante.
Um momento de turning point
A compreensão da relevância estratégica, absolutamente decisiva, dos eventos atuais e dos que virão em um período próximo, de sua origem e das forças em movimento, no momento, é, deve ser, o melhor recurso que temos para nos posicionarmos de modo positivo e até decisivo neste processo histórico mundial. Em todos os processos desta monta e características existem momentos decisivos e turning points, onde a resolução alternativa dos eventos vai definir toda a sequência restante, até a resolução da crise. Eu tenho para mim que a resultado da guerra civil espanhola, com a vitória do fascismo, foi um fator decisivo para todo o horror que veio depois, ainda que, talvez, ele fosse mesmo inevitável. Assim como naquela época, trata-se de barrar o fascismo e o imperialismo, de conquistar e garantir a paz. Agora, a contenção da atual ofensiva militar dos EUA sobre a América Latina, no seu nascedouro, no Caribe, pela resistência, pela dissuasão, poderá ter uma importância estratégica, no sentido de contenção do fascismo.
O fascismo e o imperialismo não podem avançar. Devem ser contidos, de todo modo, e deve-se buscar, de maneira equivalente, o fim das guerras. Mas, como cumprir estas duas tarefas, ou necessidades históricas, que parecem realmente contraditórias?
Não posso ter uma resposta completa, mas já delineei a minha visão estratégica. Aquilo que fortalecer a hegemonia decadente favorecerá, ao fim, também, à crise, à ascensão do fascismo, do imperialismo e à guerra. A vitória estratégica dos EUA, em todo e qualquer plano e área, da produção e da geopolitica, bélica ou tecnológica, reforça o polo que hoje tende a conduzir a humanidade para a recessão, para o fascismo e para a guerra. A cada momento podemos ter uma interpretação tática diferente em relação a isto e é claro que não se pode romper, direta e imediatamente, com as parcerias e dependências que países como o Brasil e a Índia, por exemplo, têm em relação ao polo hegmônico dos EUA. Com certeza, temos que lidar com essa realidade, mas não podemos perder de vista o norte estratégico que é independência, a negação e a superação da dependência e subordinação que temos, em relação aos EUA e seus parceiros hegemônicos.
Sob nenhuma hipótese poderemos ter autonomia real diante destas forças imperialistas, fora da parceria com a China. Isto seria realmente impossível se não houvesse, já, o bloco contra hegemônico chinês.
Não temos, contudo, que sair da subordinação a uma potência imperialista, para outra. Não temos nem mesmo que conceber que haverá um novo polo hegemônico imperialista. Não temos, portanto, que nos posicionarmos de modo alinhado a um polo imperialista contra o outro. Devemos, ao contrário, desenvolver os novos mecanismos e instituições multilaterais, mundiais.
Isto é verdade!
Ocorre que não faremos nada disto se o poder da aliança hegemônica atual se impuser de modo ainda mais violento e se encaminhar, enfim, para o autoritarismo, para a violência política e para as guerras, tendências que são, hoje, ao meu ver, extremamente fortes, ou, já, francamente predominantes, no cenário econômico e politico dentro dos EUA e aliados. Essas são as razões pelas quais não devemos vacilar nas decisões estratégicas atuais. Não sei, contudo, se a estrutura social e política brasileira está preparada para isto, agora.
A simples passagem do tempo, sem maiores guerras e catástrofes econômicas mundiais, fala muito a favor do polo chinês. A China é, hoje, o país que mais defende, o que mais investe, o que melhor se desenvolve e direciona a globalização mundial, ao contrário dos EUA que toma, cada vez mais, posições regressivas, contrárias à integração mundial.
A integração e o desenvolvimento mundiais, da produção e da vida humana, em geral, continuam ocorrendo, e de um modo bem mais positivo para os países de renda baixa e média, nas parcerias com a China. Já não é póssível negar isto e o mundo dos países hegemônicos, em luta contra suas próprias crises, é incapaz de contrapor uma estratégia alternativa de desenvolvimento para os mais diversos países e regiões do mundo, na atualidade. A derrota relativa da aliança hegemônica no plano mundial, neste campo da economia, da integração e do desenvolvimento econômico, é cada vez mais patente. E estas devem ser, ao fim, as principais forças a conter e superar as tendências destrutivas mais extremas, que estão se avolumando nos países ricos, nos páíses da aliança hegemônica dos EUA.
A situação no Brasil: o fascismo sempre rondando e sempre presente
Especificamente para nós, aqui no Brasil, justamente quando parecia que o fascismo, na sua forma política nacional atual, estaria sendo derrotado, ele renasce, fortalecido, com dois eventos estrategicamente concomitantes: as ameaças e ações militares, crescentes, dos EUA no Caribe e o maior banho de sangue da história recente em favelas no Rio de Janeiro.
Aqui, o fascismo nosso de cada dia jamais foi derrotado. Isto é algo que eu repito sempre. O fascismo está sempre fortemente presente, por exemplo, nas instiuições, nas políticas e ações de segurança, sob a bandeira de combate ao crime, especialmente ao tráfico de drogas. Aí o fascismo contamina e até predomina em todos os elos da cadeia institucional, da área judicial até a área médica, passando pelas polícias e sistema carcerário. Como contraparte, predomina também a corrupção. Isto é uma nossa condenação histórica, até agora tem sido. Mas, agora, é diferente e mais perigoso, pois estamos em um movimento mundial. A última arma, o último recurso e a última fortaleza da doutrina liberal burguesa é o estado de exceção, a violência política e militar, o fascismo, o imperialismo e a guerra. A falsa bandeira da guerra contra as drogas, contra o tráfico de drogas, se presta perfeitamente para isto.
As ações e tendências recessivas, contra o livre comércio mundial e anti globalização, versus a integração da economia mundial. A batalha dos chips e a batalha das terras raras.
Agora já se mostram a redução, as paralisias e quebras parciais de cadeias produtivas e comerciais, os efeitos recessivos, do tarifaço e das várias sanções e restrições ao livre comércio e investimento, mundo afora, impostos na verdadeira guerra econômica que o governo dos EUA inciou, ou que, certamente, acentuou drasticamente, neste ano.
Creio, no entanto, que duas batalhas neste cenário econômico e geopolítico atual já estão comprovando a minha hipótese de que a integração econômica, em todos os aspectos e, sobretudo, a integração produtiva, é tão grande hoje que forma uma verdadeira rede protetora, contra as piores tendências recessivas e de quebra das cadeias produtivas que são crescentes nos países da aliança hegemônica dos EUA. Nos confrontos mundiais em torno à questão da produção e distribuição das terras raras e dos chips, a interdependência das economias nacionais, mundo afora, em um verdadeiro sistema econômico mundial, se mostra tão grande que a sua ruptura resultaria em quebras imensas nas capacidades produtivas em todo o sistema. Quebras de tal monta que não é aceitável manter a guerra econômica nos níveis extremos, ao menos não nestas áreas. Destaca-se também que em todos estes pontos, nos conflitos atuais, como no caso da Nexperia e no mercado de terras raras, a posição de predomínio, quem teve a vantagem estratégica, foi a China, para o bem da continuidade da integração produtiva mundial e com um grande potencial para evitar, inclusive as guerras, já que a produção de tecnologia militar de ponta é completamente dependente destes dois setores de produção globalizada.
O caso da Nexperia exemplifica, mais uma vez, fortemente, o nível de irracionalidade que vem dominando as principais lideranças dos países ricos, o que é, repito, completamente esperado em condições de crise sistêmica, generalizada, como a atual. E, mais ainda, é outro exemplo categórico de como estas decisões irracionais e absurdas, terminam levando para dificuldades, paralizações e quebras em cadeias produtivas, ou seja, levando, enfim, a mais dificuldade para a economia, para o desenvolvimento econômico, fortalecendo a espiral recessiva.
O shutdown do governo americano também é mais um indicador da gravidade da situação de crise em que nos encontramos atualmente. Já ocorreram alguns casos de shutdown antes, é certo, mas o atual foi o maior da história. A seu modo, isto também leva mais lenha para a fogueira recessiva, também promove alguma redução no fluxo normal da economia nos EUA.
A "economia em K" e sua superação
Ainda é cedo para definir com segurança quais são os resultados finais da grande guerra tarifária que o governo dos EUA lançou contra o mundo, seja sobre a própria economia dos EUA, seja sobre a economia global. Parte deles só se mostrará mais plenamente no ano que vem e nos anos seguintes. Com relação à situação dos EUA temos, hoje, indicadores contraditórios, com o PIB do último trimestre e as bolsas projetando otimismo sobre a economia do país, enquanto os dados de emprego e do consumo das famílias indicam em sentido contrário. Alguns analistas estão chamando este momento, que é a crise final da onda neoliberal, em que nos encontramos agora, de economia em K, que cresce para os setores superiores e cai para os mais pobres. Esta é uma descrição correta do presente e se mostra como característica da onda liberal, conservadora, atingindo extremos neste momento final da crise, como estou insistindo. A minha análise, como tenho reiterado, é que os EUA continuam mantendo a aposta irracional em promover ainda mais concentração de riquezas, quando a crise está fundada justamente nisto. E, ao fim, as fortes tendências recessivas terão que prevalecer, enquanto a questão distributiva não for direta e fortemente atacada, enquanto não se reverterem as políticas concentracionistas atuais. Do mesmo modo, as ações estadunidenses contra o livre comércio internacional, terminam por produzir uma forte onda regressiva na economia dos próprios EUA e do mundo como um todo.
Como também tenho reiterado, estas forças e estas fortes tendências recessivas, regressivas, na economia mundial, são contrarrestadas pelo nivel de integração da economia mundial atual e pela posição estratégica da China, do polo contra hegemônico. Do balanço destes dois conjuntos de forças opostas resultará o caminho do desenvolvimento futuro, nos próximos anos e décadas, ele determinará a velocidade do processo e se teremos ou não que passar por extremos de destrutividade ainda muito maiores. Mas, ao fim, este processo conduzirá, repito, para uma maior socialização do sistema econômico mundial, com redistribuição de riqueza e mais integração produtiva e social, mundial.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
BANHOS DE SANGUE NAS FAVELAS DO RIO E NO CARIBE. O que está por trás disto?
Mais um banho de sangue nas favelas do Rio de Janeiro.
Desta vez é o maior da história da chamada guerra "contra as drogas" no Brasil.
Isto é compatível com a minha análise da crise mundial que está se extremando, ao máximo, agora e, por isso, a violência dentro do sistema aumenta.
O nivel extremado da crise econômico-social mundial em que a gente se encontra e o fato de que a direita, a corrente liberal conservadora em economia, os bilionários no poder, não têm mais respostas razoáveis e, ao contrário, ainda querem impor mais perdas para as massas, resulta que eles estão ficando sem opções.
O banho de sangue e os espetáculos da violência, em geral, sempre foram um forte instrumento da opressão social e política em toda a história da humanidade. Criar uma espiral de violência para justificar o exercício do poder fascista. O terrorismo de Estado. A imposição violenta do poder. Isto é o manual do fascismo. E eles irão utilizar mais estes recursos, agora. O uso da ideologia da guerra contra as drogas para mobilizar o imaginário popular, neste crescendo de violência e autoritarismo, é a melhor alternativa da extrema direita, e, agora, eles se utilizam mais disto e com menos restrições, dentro de uma lógica fascista de promover a violência, provocar o conflito, e responder com mais violência, com violência mais extremada. Por isto se tornou o tema central da estratégia geopolítica imperalista dos EUA para toda a América Latina, agora. A ideia é classificar o tráfico de drogas como terrorismo, o tal narcoterrorismo, permitindo a intervenção e a tutela armada dos EUA, onde eles quiserem.
A ideologia da guerra às drogas serve como um mobilizador ideal para isto e é, na verdade, um dos últimos sustentáculos da extrema direita mundial, capaz de mobilizar as forças repressivas do sistema em larga escala e justificar plenamente a sua ação violenta, assassina e aterrorizadora.
Infelizmente, isto para nós, aqui no Brasil, é frequente demais. Banho de sangue em favela, em ocupação e em aldeia sempre foi uma arma de terrorismo do poder, econômico e político, aqui no BR. E é aqui que nos encontramos, de novo, agora. O governador do Rio de Janeiro, mais uma vez promove um confronto armado com algumas dezenas de mortes, inclusive de policiais.
Sempre com um timing político preciso.
Estas 64 mortes, até agora, assim como as dezenas de feridos e o terror imposto às comunidades, como um todo, devem ser colocadas na conta dos interesses dos Bolsonaro e da estratégia geopolítica do Trump. O governador do Rio é, "apenas", o carrasco, o verdugo, o assassino. É óbvio que esta ação assassina nas favelas do Rio tem sintonia e coerência política com as ações igualmente assassinas dos EUA, no Caribe. E também é verdade que o seu timimg foi disparado pelo senador Flávio Bolsonaro. Pensando nos interesses da sua família, como sempre.
O governador do Rio tem todas estas mortes no seu currículo político. É um assassino político em série. Um monstro que tem que ser responsabilizado por todas as mortes nesta chacina, assim como nas anteriores. Do mesmo modo que o seu líder internacional deve ser responsabilizado pelas mortes nos barcos no Caribe e por diversos outros crimes.
Estes falsários, bandidos, pervertidos, assassinos se fazem passar por homens da lei e da ordem e parte do povo, da população, estupidificada pela pobreza e pela desinformação pode mesmo ser conduzida para os piores sentimentos de ódio e violência, discriminação e morte. Sem limites, até. A gente vê isto sempre na história da humanidade. Estamos vendo de novo, no massacre da Palestina, por exemplo, mas também vemos isto acontecer aqui no Brasil, sempre, de um modo ou de outro, com banhos de sangue como este de ontem, ou, pelas mortes e outros tipos de violência política e social, que perpassam o nosso dia a dia, em menores números.
Quem acredita que isto realmente tem a ver com as drogas, com o risco das drogas, tem que cair na real, deixar de ser idiota. Isto é uma guerra social que se realiza sob a bandeira, sob este disfarce, da guerra às drogas. Hoje este disfarce está no centro da estratégia ideológica da extrema direita no mundo, sob o predomínio dos EUA de Trump. Assim como é mentira que o objetivo das matanças do Trump no Caribe tenha qualquer coisa a ver com o problema de drogas nos EUA, também é mentira completa que esta nova chacina do governador assassino do RJ tem qualquer objetivo em relação a qualquer problema de drogas no RJ.
Na minha visão, a ideologia e a prática da guerra às drogas é responsável por estes 64 assassinados, ou, destas 64 mortes em combate e por todas as demais que acontecem nesta guerra social e política, cotidiana, que ocorre sob o disfarce da guerra às drogas. Assim como de todas as torturas e abusos realizados, cotidianamente, em nome desta ideologia e desta política nas ruas, nas delegacias, nas clínicas de reabilitação.
Não posso finalizar esta crônica sem dar uma ideia sobre o que o Lula falou e a moçada por aí veio criticar e ele parece que até se desculpou. A ideia é simples e verdadeira, não há venda sem compra, o traficante, então, presta um serviço para o usuário. Não é possível que, entre adultos, se possa dizer que o usuário de drogas é, em geral, uma vítima do traficante. Certamente não pelas drogas vendidas nas favelas no Brasil, em geral. Uma vitimização excessiva do usuário de drogas tem como contraparte a desumanização, a demonização, excessiva, do traficante. No fim, esta chacina de hoje mostra e dá sustentação, com alguma força, eu creio, à ideia de que quem corre mais risco de morte ou de ter toda a sua vida destruída pelas drogas é o traficante de rua, de beco, de favela, mais do que os usuários de maconha, sem qualquer sombra de dúvidas, mas, também, de cocaína, que são as principais drogas vendidas em favelas no Brasil.
A desumanização completa do traficante e a vitimização completa do usuário fazem parte desta ideologia, sustentam e justificam estas ações de guerra.
Tudo isto vem ainda com um conteúdo religioso, doentio, a dar ainda mais uma camada de proteção ideológica para o assassinato e para a guerra. A combinação desta ideologia de combate às drogas com a ideologia religiosa de proteção da família tem o poder de levar à completa incapacidade de raciocinar e de fazer escolhas, estratégicas e éticas, razoáveis. O assassinato em pequena escala, diário, e, episodicamente, em massa passa a ser uma prática aceita, sob a capa do mal absoluto, encarnados pela droga e, principalmente, pelo traficante.
Isto é mentira, é absurdo e criminoso, é instrumento de dominação social e política, mas é, no entanto, algo de tal maneira caro ao sistema, está tão entranhado nas ideologias e nos mecanismos violentos de dominação e controle social, que não pode ser diretamente questionada e confrontada por nenhuma parte do espectro político dentro do sistema atual. Até mesmo as áreas da ciência e as áreas técnicas, da saúde, da medicina, em especial da saúde pública e de controle sanitário, são capturadas pela força desta ideologia e se tornam coniventes com estes eventos de violência social e política extrema, mais ou menos disfarçados de "guerra contra as drogas". Elas sabem que nada poderia justificar qualquer ação neste sentido, mas elas dão, por ação e omissão, a munição técnica e institucional para esta guerra, com todas as suas consequências. Elas sabem que a criminalização das drogas vendidas nas favelas é indevida e está na base de muitas mais mortes e destruição de muitas mais vidas do que aquelas relacionadas ao uso dessas drogas proibidas. Mas são irresponsáveis o suficiente para deixarem o preconceito, a ignorância e o posicionamento ideológico, político e religioso falarem mais alto e pervertem a sua responsabilidade profissional dando sustentação para esta necropolítica.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
Sala de Situação 09/2015
Sala de Situação 09/2025
Parte 1
Minhas previsões, ou as tendências que eu venho indicando, desde os fins dos anos da pandemia e a partir da emergência da guerra da Ucrânia, sobretudo, estão sendo confirmadas.
Ninguém foi, ou é, capaz, ainda hoje, de parar as guerras que já se tornaram realmente catastróficas, seja pela quantidade de mortes de combatentes ou pelo caráter genocida.
A aliança hegemônica se enfraquece, apesar de todos os seus esforços para conter a decadência.
Os governos da Europa, apodrecidos pela crise econômica, tomam a frente do partido da guerra, como é de se esperar dos líderes políticos capitalistas, ao fim das grandes crises sistêmicas. Os EUA tentam endurecer a sua posição, rugindo e ameaçando, buscando se impor pela força e pelo medo, como um leão velho, que ainda tem seus últimos momentos de poder. Como também era de se esperar, isto já está resultando em mais desconfiança e contraposição em relação aos EUA e seus aliados e em mais deslocamento de parcerias e alianças em direção a um eixo contra-hegemônico, que se forma em torno da China. Já não há saída para as estratégias de poder da aliança hegemônica decadente e ela se arrasta em crises econômicas e sociais, com a reação quasi-natural de tentativas de imposição de poder e guerras, em contraposição ao vetor de desenvolvimento e parcerias de ganho mútuo do polo contra-hegemônico.
Como em qualquer briga de gangs, acertar primeiro os mais fracos entre os elos importantes do adversário é tático e, por isso, Brasil e Índia se tornaram os alvos principais da guerra tarifária dos EUA, no momento. Foram identificados como potenciais elos fracos na aliança contra-hegemônica mundial.
É certo dizer que EUA, EU com Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Israel, além de Filipinas, Taiwan, Arábia e outros, fazem a aliança hegemônica atual. Também continua sendo certo dizer que a China com a Rússia e sua zona de influência imediata, a Coreia do Norte, Irã, Paquistão e alguns outros, perfazem uma aliança contra hegemônica atual. Ficam como países pêndulo, decisivos, por seu peso econômico, estratégico, populacional e, portanto, geopolítico: justamente, em primeiro lugar, a Índia e o Brasil, seguidos da Indonésia, da Nigéria, África do Sul e, na verdade, toda a África, e, também, até mesmo parte da Europa Oriental e Central. Estes seriam os países e regiões pêndulo mais decisivas e cada vez parece mais claro, mais consistente, que este pêndulo está se dirigindo ao eixo chinês, sino-russo, ou, multipolar, se você quiser, dos Brics e da SCO etc. O Sudeste da Ásia tem tal integração econômica com a China que se atrai de modo inegável ao seu polo; a África, com apoio militar russo e investimento chinês, está passando por novos processos decoloniais; vários países da Europa Oriental se alinham abertamente à Rússia e à aliança em torno à China; a Indonésia parece, também, estar tão entrelaçada economicamente com a China, agora, e em franco desenvolvimento com isto, que não deve voltar atrás. Até mesmo o Brasil e a Índia, os elos relevantes mais fracos, na visão estratégica do governo dos EUA, parece que já se decidiram a não ceder à pressão do tarifaço e de sanções diretas e vão seguir aproveitando as vantagens estratégicas da parceria econômica com a China e a Rússia e com restante do mundo. Já existem bons indícios de que tanto o Brasil quanto a Índia estão, de fato, em uma rota de aproximação politica e estratégica com o novo eixo contra-hegemônico. Por fim, até mesmo as áreas de influência e controle mais imediatos e, aparentemente, inquestionáveis dos EUA, como o México e o Canadá e o restante das Américas, tudo isto agora está muito balançado e, certamente, muito mais propenso a assumir posições de soberania e muito mais próximo, portanto, do polo motor chinês.
Parece claro, portanto, que, independente do quanto isto ainda vai custar, a substituição da ordem mundial atual está em curso avançado e imparável e o domínio da aliança hegemônica polarizada pelos EUA terminará sendo superado por uma nova ordem, polarizada pela China.
O Brasil tem, sob os dois aspectos sinalizados acima, importância real neste processo. Primeiro, por ser um dos países pêndulo mais importantes nesta disputa pela hegemonia, pela ordem mundial, com algum peso real na definição deste processo, ou, pelo menos, em seu ritmo e seu custo. Portanto, a posição do Brasil, seu direcionamento estratégico na economia e na geopolítica mundiais, mesmo na ausência de poderio militar relevante, é de grande importância para o desenrolar deste processo histórico que, de todo modo, parece inevitável. Ainda mais por ser um dos países do quintal dos EUA, como eles sempre consideraram e agora querem nos impor, ou reimpor. Se o Brasil se decidir e se mantiver firme em uma posição de parceria econômica e estratégica com o polo chinês, mais rápida e mais suavemente este processo se dará. Quanto mais o Brasil vacilar neste sentido, mais ele dará, ainda, forças ao poder decadente e mais acrescentará risco de maiores crises e de guerras mundiais, que são, ao fim, a última estratégia de uma aliança decadente para permanecer no poder.
Não deve haver dúvida de que esta estratégia será tentada, mesmo que ela seja estúpida e verdadeiramente suicida. Veja-se como os governos na Europa-Reino Unido se tornaram, hoje, os verdadeiros arautos, propulsores e defensores da guerra. O poder dos EUA, também, obviamente, não deixa nunca de se sustentar na guerra, apesar da retórica contraditória do governo atual, que, certamente, ainda não está no estágio de franco delírio suicida, como boa parte da Europa já se encontra. Mas, certamente também chegará a isto no processo de sua decadência relativa, se não for obrigado a se conter, por forças externas ou revoltas internas.
Dois são os fatores históricos, objetivos, que impulsionam esta crise global atual e determinam a sua resolução, que, aos poucos, já vai se configurando.
Em primeiro lugar, a crise econômica sistêmica do capitalismo mundial, que se desdobra desde 2007 e que chega agora a limites extremos, apesar de todas as políticas anticíclicas e de proteção social às quais os mais diversos países têm lançado mão, reiteradamente, desde então. Dentro da ordem política atual, as medidas anticíclicas e os recursos de proteção social estão atingindo, ou já atingiram, um limite político e financeiro, imposto pela dívida pública, hoje já em condições de franca crise, ou muito próximo disto, em grande parte dos países da aliança hegemônica, especialmente na Europa, mas também nos EUA. Portanto, não parece haver qualquer perspectiva favorável para novas rodadas de injeção generosa de recursos públicos para salvar as economias em crise. A crise extrema leva a medidas extremas e é o que se vê nas ações dos governos tanto na EU quanto nos EUA, onde já é aparente o desespero, a tentativa desesperada de tomar as rédeas da situação e um direcionamento cada vez maior para o confronto, para a imposição de poder, para a intimidação e para a guerra.
Ainda não estão claros todos os efeitos do tarifaço do governo dos US, mas algumas coisas já estão suficientemente manifestas. É certo que provocou uma reação mundial de busca de diversificação e ampliação de mercados internacionais e realização de acordos comerciais, bilaterais ou multilaterais, assim como o fortalecimento dos organismos ou instituições multilaterais polarizadas pela China, como os Brics e a SCO. Isto irá, portanto, também, redirecionar fluxos de investimentos e cadeias produtivas mais intensamente, agora, do que antes. Certamente, em detrimento relativo do polo hegemônico atual e em favor da diversificação, sim, mas, polarizada pela China. A tendência histórica é de mais integração da economia mundial e a tentativa contra tendencial dos EUA, de regredirem para uma economia mais protecionista e isolacionista, com medidas antiglobalização e de decoupling, parece que, paradoxalmente, se reverterá em um benefício para o mundo, com um maior florescimento de uma economia mundial ainda mais globalizada, ainda mais integrada, e com redução ainda maior da participação, do peso, do poder econômico relativo dos EUA. Como sempre, os processos históricos se impõem às vontades e, muitas vezes, realmente, se impõem de tal modo que as ações terminam, paradoxalmente, levando aos resultados opostos e acelerando aquilo que pretendiam interromper ou evitar. A solução da crise econômica sistêmica atual certamente passa pela maior e melhor integração mundial da economia e da vida social em geral e a ação isolacionista dos EUA vai resultar em aceleração deste processo, assim como da perda da hegemonia dos EUA.
Vamos nos encaminhando para isto e todos os balões de ensaio e tentativas parciais, limitadas, insuficientes e enviezadas, de estabelecer bases organizacionais para esta maior integração mundial, desde as instituições de Bretton Woods e todo o sistema ONU, passando pelos diversos sistemas de integração financeira mundial, pela OMC e até mesmo por todas iniciativas multipolares das últimas décadas, tudo isto irá, agora, convergir progressivamente, para a proposta chinesa de uma nova governança mundial. Iremos certamente para isto, por mais que o polo hegemônico decadente resista e se contraponha.
O fato de ser a China quem anuncia oficialmente, de modo aberto, explícito, esta necessidade e este projeto, é fundamental, é definidor, pois, é ela, certamente, o polo motor, o poder econômico que polariza e dá o impulso e o direcionamento do desenvolvimento econômico e social deste novo momento histórico, que estamos começando a viver no mundo. É porque a China, já há um bom tempo, se tornou o maior produtor industrial e o principal ator no comércio mundial, sendo o principal parceiro comercial da grande maior parte dos países, em todo o mundo, que os atos de força dos EUA e da aliança hegemônica, já não conseguem mais se impor e determinar a ordem mundial. Portanto, é apenas por isto que países como o Brasil e a Índia e até mesmo o México, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul e a própria Europa poderão conquistar níveis mais elevados de autonomia, de soberania, em relação à hegemonia dos EUA. É, também, justamente por causa desta ascensão, que teremos uma nova integração e coordenação econômica mundial, ao invés do caos imposto pelas ações anti-globalização e imperialistas que caracterizam a política econômica e estratégica dos EUA, no momento.
É certo, contudo, que teremos ainda muitos anos adiante em que prevalecerá uma dupla hegemonia, ou uma real bipolaridade geopolítica, muito mais verdadeira do que que aquela que teria havido no período da União Soviética, que nunca ameaçou de fato a hegemonia econômica dos EUA. Teremos, por muitos anos ainda, a China e os EUA como os grandes polos econômicos e geopolíticos, complementares e antagônicos, no sistema mundial. Por um bom tempo ainda, os EUA e os outros membros da aliança hegemônica serão os países com a população mais rica do mundo, constituindo grandes mercados consumidores mundiais e também reterão algum predomínio na estrutura informacional e financeira do mundo. Mas, isto tudo está se modificando de modo cada vez mais definitivo, já com a evidência clara de que, do ponto de vista tecnológico, industrial e militar, o que é, enfim, praticamente a mesma coisa, já não há vantagem para a aliança hegemônica, ou ao contrário, esta vantagem já está claramente pendendo para o polo contra hegemônico.
Ainda que seja muito interessante para o Brasil fazer o discurso de sua autonomia e soberania, o fato é que não poderemos nos furtar a assumir escolhas históricas estruturantes dentro da conformação da ordem mundial, que se desenvolve neste momento histórico. Em todos os aspectos estratégicos que envolvem a tecnologia e o poderio financeiro, militar e a própria institucionalidade mundial, não poderemos evitar a polarização entre as forças hegemônicas, com o predomínio dos EUA, e as forças contra hegemônicas, com o predomínio da China. Simplesmente a realidade se imporá e teremos que nos desligar, refazer e refundar as estruturas do passado, sob a hegemonia dos EUA e aliados, sempre, inevitavelmente, tendo a China como motor e esteio principal desta nova ordem, destas novas estruturas e instituições, os novos sistemas estratégicos globais, informacionais, financeiros, monetários, sanitários, militares etc. Quanto mais decidida e rapidamente o mundo, a Índia e o Brasil, em especial, com a importância destacada acima, marcharem para esta direção e objetivamente realizarem estas grandes transformações na estrutura do sistema mundial, mais cedo sairemos da crise e mais nos afastaremos do risco das grandes guerras. Ao contrário, quanto mais nos tardarmos para isto, mais este risco e sua realidade se farão presentes, como já está ocorrendo.
Seja como for, a necessidade da maior e melhor coordenação da economia em nível mundial terminará por se impor, porque ela é requerida pelo próprio desenvolvimento produtivo, tecnológico, da humanidade, no presente. As características regressivas das políticas atuais dos EUA podem retardar estes processos e, talvez, até travar a economia mundial, o que de fato só poderia ocorrer com grandes crises sociais e, ao fim, com guerras, mas, mesmo assim, não podem reverter o curso da história. A emergência da China Socialista como a grande potência econômica mundial me torna racionalmente muito esperançoso de que não teremos que passar por processos ainda mais dolorosos e destrutivos do que o que já está em curso. O caráter socialista desta nova potência indica, fortemente, que a nova ordem mundial terá um caráter distinto do que foi até aqui a realidade histórica no sistema capitalista mundial, indica de fato que ela não será colonialista, nem imperialista.
Não há como se dissociar a crise atual do imperialismo, dos EUA e sua aliança hegemônica, da crise atual do sistema capitalista mundial. Esta crise atual tem sua origem nas décadas de concentração de riqueza e empobrecimento relativo das massas no mundo em geral e, em especial, nas economias centrais da própria aliança hegemônica, que marcaram, e ainda marcam, a onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Os níveis de concentração da riqueza se tornaram extremos, até o ponto em que a própria possibilidade de consumo, de novo consumo, essencialmente, das massas, se tornou insuficiente para a realização adequada dos investimentos, levando a um estresse contínuo e progressivo nas próprias economias centrais do mundo capitalista, caracterizado por uma queda persistente nas taxas de crescimento econômico e picos recessivos, mesmo com os trilhões de dólares injetados pelos governos nas economias, desde 2008.
A resolução desta crise terá que passar por uma nova redistribuição das riquezas, nas próprias economias centrais do sistema capitalista e mundo afora, aumentando significativamente o acesso a bens e serviços para as massas. Não há, a meu ver, como evitar o desenvolvimento desta nova onda socializante, com maior controle e coordenação da economia mundial e grande redistribuição das riquezas, a não ser na hipótese de crises apocalípticas, causadas por grandes guerras mundiais e ou cataclismos ecológicos, com destruição extensa e intensa das principais economias do mundo, levando a um verdadeiro rebaixamento do padrão civilizatório global da humanidade. Novamente, é a emergência da China Socialista que parece nos garantir que não teremos este destino tão cruel nas próximas décadas.
Parte 2
A situação se agrava, dramaticamente, na Europa. Crises sociais abertas já se mostram na França, enquanto a crise fiscal e a tensão social se intensificam, em muito, também na Inglaterra. Como previsto, não há uma resposta razoável por parte do poder político na Europa, nem nos EUA. Ao contrário, a antiga aliança hegemônica transparece ainda mais destinada a uma rota decadente, ao adotar o aumento de gastos militares, a manutenção dos extremos de concentração de riqueza e o protecionismo econômico, como as respostas para os seus males, agora que os limites fiscais e políticos para novos programas de injeção de recursos públicos na economia foram atingidos. Os resultados destas políticas só poderão conduzir ao declínio, maior e mais acelerado, das economias e do poderio geopolítico destes países, ao maior empobrecimento das massas, ao aumento da revolta das populações e da violência social e política.
Reitero que teremos que passar por tudo isto, com o risco crescente de guerras maiores. Estamos, já, nos limites mais extremos do desencadear de uma guerra da Europa contra a Rússia e da extensão da guerra na Ásia Ocidental, passando do genocídio palestino e da imposição de poder por parte de Israel sobre seus vizinhos mais frágeis, para uma guerra regional aberta entre os principais países da região. Mas, tenho também a certeza de que, por pior que sejam estes eventos e seus desdobramentos imediatos, nada disto alterará o curso fundamental da história no presente e, ao fim deste ciclo, teremos uma economia mundial mais integrada e coordenada, com maiores e melhores recursos, instituições e sistemas de governança mundial e com importante redistribuição de riquezas no interior das diversas economias nacionais.
O predomínio da China, no cenário mundial próximo, não deverá significar uma nova hegemonia baseada na imposição de poder econômico e militar,como foi, e ainda é, no Colonialismo Britânico e Europeu, em geral, e sob o Imperialismo Estadunidense e que tem como contrapartida necessária a submissão e exploração dos países, povos e regiões subalternas no sistema. A trajetória histórica da China e a maneira como ela conduz as suas parcerias e alianças no presente nos mostram uma perspectiva muito diferente e que, certamente, tem a ver com a tradição do país, mas, também, e sobretudo, é devida à sua ideologia e organização social, socialistas.
É muito importante, é crucial, que países pêndulo, países decisivos neste cenário internacional, ainda muito incerto e tendente à crise e à guerra, tenham, o mais rápido possível, esta percepção e fortaleçam suas parcerias e alianças multilaterais, nos mais diversos fóruns e estruturas, tendo a China como pivô, como esteio e polo propulsor. Quanto mais e mais rapidamente os países como o Brasil, a Índia, a Indonésia, a África do Sul, os países do leste Europeu e da África, em geral, entre outros, entendam isto e ajam, de modo coerente e consistente, no sentido da consolidação destas parcerias e alianças estratégicas, mais certamente e menos violentamente, nós completaremos a transição para além da crise atual. Do contrário, maiores e mais frequentes serão, ainda, as crises econômicas, as convulsões sociais e as guerras, até a resolução final da crise.
É correto que, nestas condições instáveis, em mudança, países como o Brasil, busquem afirmar sua soberania e o multilateralismo na arena internacional, justamente agora que estes valores estão mais direta e francamente ameaçados pelo poder ainda hegemônico no mundo. Mas, também é certo que, diante da atual postura, abertamente imperialista, do governo dos EUA, países como o Brasil e a Índia e todos os demais, incluindo ainda o México, o Canadá e a própria Europa Ocidental, não podem, isoladamente, afirmarem a sua autonomia e, também, de pouco ou de nada adianta se apoiarem nos mecanismos, até hoje desenvolvidos, sob a bandeira do multilateralismo.
Há, efetivamente, um vício estrutural na ideologia dos sistemas do multilateralismo, que sempre determinará a sua ineficiência nos momentos em que mais se precisa deles, nos momentos de grande crise e confronto internacionais. É óbvio que não se pode atribuir o mesmo peso, nas tomadas de decisão internacionais e mundiais, a países completamente díspares em termos de poder econômico e militar, território e população. Nunca houve, nem haverá, algo como uma democracia internacional, isto é um absurdo e uma fantasia, na ideologia, e, na realidade, uma farsa, que serviu bem para a organização mundial sob a forte hegemonia dos EUA. Na medida em que esta hegemonia está sendo, progressivamente mais, contestada pela realidade, pois o predomínio econômico e militar decai a cada dia, em face da ascensão da China, de outras novas potências e pelo desenvolvimento geral das economias dos países secundários e subalternos, é claro que os confrontos de interesses passam a ser mais frequentes e intensos e as tentativas de soluções unilaterais ou imperialistas tomam, abertamente, a frente no cenário mundial. Os EUA têm, de fato, agido de modo cada vez mais unilateral e exclusivista, seja em ações econômicas ou militares. Tendência que se intensifica com o desenvolvimento da grande crise econômica que afeta os países hegemônicos, desde 2007, culminando, no presente, com a grande guerra tarifária e também com a nova política migratória, de clara violência social, xenofóbica.
Hoje já está mais do que evidente que nenhum instrumento do multilateralismo pode fazer frente a isto. As guerras se disseminam e se acentuam e ninguém tem os meios e o poder para impedi-las. É um fracasso absoluto da ONU e todo o seu sistema, é um fracasso de todas lideranças mundiais e de todos nós, como humanidade, que hoje estejamos todos testemunhando, sem poder deter, a mais um genocídio, uma verdadeira limpeza étnica. O assassinato diário de população civil, incluindo as crianças, pela violência bélica ou pela fome e falta de recursos, em geral, presos em uma condição de campo de concentração. O responsável direto é o governo de Israel, uma potência regional, mas, sob o apoio incondicional da grande potência mundial, e de grande parte da mídia e de setores dos governos dos países ricos, em geral. Existem laços quase inquebráveis, oriundos da própria estrutura do poder econômico capitalista e da posição de extrema relevância que os judeus, historicamente e ainda, atiualmente, têm nesta estrutura, no setor empresarial financeiro. Acrescenta-se a isto, também, os aspectos estratégicos, militares e de inteligência, tecnológicos e científicos em que os judeus e Israel também têm alguma relevância no mundo, dentro da aliança hegemônica atual. Isto permite entender a impotência geral, o silêncio absoluto ou relativo da maioria e o apoio aberto e incondicional de boa parte, de grande parte, da maior parte, enfim, do poder hegemônico atual ao genocídio do povo Palestino, pelo Estado de Israel. que já dura anos. Isto é um fracasso histórico de todos nós e, sobretudo, de todas as lideranças mundiais, que quedam inertes e no máximo lançam frases protocolares de condenação e lamentação e, também de modo apenas protocolar, procuram inutilmente as instituições do multilateralismo. O mesmo é verdade em relação à guerra da Ucrânia, onde, apesar de não ter o caráter absolutamente imoral do genocídio, no entanto, tem provocado ainda muito mais mortes do que na Palestina. O principal fracasso é, obviamente, da ONU, que, antes de tudo, tem como seu mandato a garantia da paz no mundo. Há muito que a ONU mostrou a sua ineficiência para cumprir este seu principal mandato. Ela padece de um vício estrutural que a leva a esta impotência. A verdadeira esquizofrenia entre a Assembleia Geral "democrática" e o Conselho de Segurança Imperial, em que os poucos países considerados vitoriosos da segunda guerra mundial têm poder de veto sobre qualquer decisão. Isto leva à completa paralisia e inutilidade da instituição justamente quando ela é mais requerida, como agora. É óbvio que ampliar o número de participantes no Conselho de Segurança não pode ser uma solução, nem mesmo o encaminhamento para uma solução, ainda que seja justo que Índia e Brasil, por exemplo, reivindiquem e conquistem seus acentos nele. Mas, isto não mudará em nada a condição de paralisia e impotência da ONU, justamente diante do seu mandato principal, que é a garantia da paz no mundo.
A diplomacia presidencial agressiva do atual governo dos EUA, verdadeiramente imperial, rompeu de modo definitivo e inapelável com esta estrutura e nada mais de relevante no mundo é sequer debatido de verdade, quanto menos ainda decidido, seja na ONU ou na OMC, por exemplo. Agora, o manto ilusório do multilateralismo democrático foi completamente rasgado. A situação é grave e urgente demais para manter as aparências e, então, o poder tenta reivindicar os seus direitos, diretamente, sem qualquer disfarce, em negociações bilaterais e pela imposição unilateral, utilizando mais os recursos de força aberta, rompendo com cerimoniais institucionais e até com a capa protetora das ações secretas. Mas, frequentemente, o poder que tem que mostrar os seus dentes e apontar as suas armas para se impor é, justamente, aquele que já não consegue mais se impor de forma polida e institucional.
Esta é, claramente, a situação dos EUA na atualidade.
Não vai ser, portanto, fazendo recurso à ideologia do multilateralismo, nem tentando fazer apenas algumas reformas nas instituições que representaram, até aqui, esta ideologia, que poderemos avançar e superar tanto a grande crise econômica mundial, quanto a transição da hegemonia global. O que parece estar, já, se constituindo como uma alternativa e um caminho real é uma miríade de iniciativas e instituições internacionais, como os BRICS, SCO, BRI, entre várias outras, que estão desenhando uma nova estrutura institucional de tomadas de decisão e de atuação integrada dos diversos países no cenário mundial.
Como eu acentuei antes, por mais que se postule e advogue o multilateralismo e a democracia internacional, nestas diversas instituições e iniciativas transnacionais, elas, assim como os governos dos diversos países, operam dentro da realidade que é a existência de um claro polo contra-hegemônico ascendente, representado pela China Socialista e por sua aliança com a Rússia, uma grande potência militar da atualidade, e com os demais países que são imediatamente aderentes a este polo.
Todo o poder de chantagem econômica e militar que os EUA lançam hoje contra a Índia e o Brasil e, na verdade, contra praticamente todo o mundo, na tentativa desesperada de manter seu império, teria outro destino, seria certamente muito mais bem sucedido, se não houvesse, já, dentro da economia mundial este novo polo, este novo sub-sistema, tão forte que é capaz de fazer frente, não apenas ideologicamente, ou moralmente, ou, até, nem mesmo apenas militarmente, às potências hegemônicas, mas, sobretudo e antes de tudo, economicamente. Dito de outro modo, a grande crise econômica, que já atinge em cheio a Europa e que cada vez se aproxima mais dos EUA, só não nos arrastará a todos por este motivo: porque já há uma força econômica suficiente para siderar a economia mundial para além desta grande crise, passando, em boa parte, ao largo dela.
Não será possível para países como o Brasil e até mesmo a Índia se manterem neutros, agarrados à sua pretensa soberania e ao multilateralismo. A realidade da cisão entre sistemas divergentes em todas as grandes áreas estratégicas se imporá cada vez mais. Devemos ter o máximo de sabedoria e senso de oportunidade, para jogarmos o nosso jogo, no nosso interesse, dentro desta cisão sistêmica. Mas, no limite, teremos que decidir de que lado estamos em todas as dimensões mais estratégicas da atualidade. Isto inclui as parcerias e alianças simplesmente econômicas, mas, se tornará cada vez mais decisivo, também, no campo militar, assim como no campo das tecnologias de ponta, no tocante à logística e ao sistema financeiro, mundiais. Onde haja uma necessária competição de diferentes sistemas, teremos que escolher, objetivamente, com quem nos alinharemos, quais os recursos de tecnologia militar adotaremos, de quem compraremos e com quem nos associaremos e no que toca à internet, em geral, e com relação às redes sociais, serviços de localização, de informação e consulta, assim como no desenvolvimento das IAs, por exemplo, especificamente.
Em grande parte destes aspectos, o predomínio, ou pelo menos a disputa em paridade de condições, da China em relação aos EUA, já é evidente e somente irá crescer nos próximos anos e décadas. É, realmente, somente por isto que países como nós, a Índia, a própria Rússia e o restante do mundo, incluindo até mesmo os países da antiga aliança hegemônica, podem sair-se razoavelmente bem da pressão, das chantagens, das investidas imperialistas atuais dos EUA e transitar para além da atual crise, com mínimos danos. Não há como negar esta realidade objetiva e quanto mais cedo a reconhecermos, pragmaticamente e também ideologicamente, agindo coerentemente neste sentido, melhor para nós e para todo o mundo.
É óbvio que isto não significa a nossa submissão a uma nova hegemonia de padrão colonialista ou imperialista, como sempre estivemos submetidos, em relação à Europa, à Inglaterra e, nos últimos 80 a 100 anos, em relação aos EUA. Ao contrário, justamente a ascensão da China Socialista no cenário global representa um novo momento da história, onde o Brasil terá, certamente, uma proeminência muito maior do que tivemos até agora, dentro de uma economia, e até de uma cidadania, mundiais, muito mais integradas e coordenadas do que vivemos até o momento, no sistema capitalista mundial.
As posições da China, até agora, nos deixam mais seguros neste sentido. Hoje, é a China que defende a continuidade e o aprofundamento da globalização, como um processo histórico real, objetivo, contra o qual somente as maiores guerras mundiais poderão opor alguma resistência real. É, também, a China quem defende, propugna e desenvolve o novo sistema de parcerias e alianças mundiais para um futuro humano compartilhado, que já está rompendo com o hegemonismo imperialista, dos EUA e dos antigos países colonialistas, que predominou nas últimas décadas, sob a fantasia de uma democracia internacional global.
O governo brasileiro, acertadamente se alia a este processo, mas ainda com muitas vacilações e sob fantasias ideológicas que poderão custar muito caro adiante, tanto para nós quanto para o mundo em geral.
Uma última observação. Como contraponto à ideologia da democracia internacional, surge com alguma vitalidade, atualmente, a ideologia de uma multipolaridade dos poderosos, ou daqueles que, de algum modo, teriam reconhecido o título de países civilizacionais. As verdadeiras grande potências de cada momento. Um neoimperialismo na forma e no conteúdo, com os governos dos impérios dividindo o mundo em suas áreas de influência. Eu reconheço realidade aqui também, o poder realmente se estabelece, se mede e se reconhece no plano internacional e a existência de grandes potências não pode ser ignorada. Mas, obviamente, não podemos ficar prisioneiros deste brutalismo. E não vamos. A correção, a superação, necessária e verdadeira, real, desta pretensão neo-imperial se dá e se dará, justamente pela maior integração mundial, que nega esta cisão entre impérios. Ocorre que é justamente agora que a economia está se tornando mais intensamente e intrínsecamente mundial. Demos a isto o nome de Globalização e a China Socialista é hoje realmente quem mais abraça, acertadamente, a perspectiva da Globalização.
quarta-feira, 9 de julho de 2025
O Fracasso do Sistema ONU e o Desenvolvimento da Cidadania Mundial
Atualmente é mais do que patente o fracasso da ONU em seu mandato principal que é a afirmação e a garantia da paz e a cessação das guerras, no que, eu creio. se inclui indubitavelmente, a dissolução e eliminação das situações de genocídio e apartheid.
Pode-se dizer, contudo, que o sistema funcionou bem e até muito bem. O período de 1945 para cá é, certamente, muito menos letal e destrutivo em termos de guerras, em todo o mundo, do que os 80 anos anteriores. Neste período, houve grande aumento da integração econômica e social mundial e grande desenvolvimento científico e tecnológico. Maiores do que em qualquer outra época anterior na história. Não se pode atribuir nada disto diretamente ao sistema ONU, mas não é correto retirar o sistema ONU desta realidade. Ele é parte dela e uma parte positiva e significativa, certamente.
A fraqueza e a inoperância congênitas do sistema vêm à tona de forma dramática justamente agora, quando ele é submetido aos maiores estresses. Quando mais se necessita de sua ação, ele sofre de paralisia, descrédito e desqualificação. Hoje, o sistema ONU e instituições associadas, FMI, BM e OMC, inclusive, se mostram muito disfuncionais ou simplesmente inoperantes. Quando posto diante dos seus maiores desafios o sistema comprova que, na sua origem mesmo, era apenas, ou sobretudo, formal. Ou seja, não tinha, e não teria jamais, força para impor os seus princípios e diretrizes contra os verdadeiros poderes no mundo, aqueles do sistema econômico e das nações, de acordo com sua força econômica e militar.
Diante dos horrores da guerra e do genocídio, se desenvolvendo de novo e de novo, agora, em um crescendo, o sistema não tem meios para se impor, em face às forças reais do nosso mundo e se resigna a falar para ninguém ouvir. O mesmo vale para a OMC diante da guerra tarifária. O mesmo ocorreu com a OMS diante da COVID. Nós estamos, agora, diante de um desafio histórico, civilizatório, multidimensional e da maior grandeza, e o único sistema de governança mundial que nós temos é completamente insuficiente, incapaz mesmo, para enfrentar este desafio, em qualquer uma das suas dimensões.
O desafio real que temos diante de nós é aquele da nossa integração mundial, que segue em curso acelerado e profundo, por mais que seja fortemente desafiada no presente.
O fato é que a crise em que nos encontramos trouxe de volta ao cenário mundial as características mais agressivas e violentas do imperialismo, com ascensão do nacionalismo étnico e político, do autoritarismo e da violência social, do protecionismo, do militarismo, das guerras, da xenofobia e das práticas fascistas em geral, incluindo o genocídio.
Não que estas características tivessem deixado de existir, claro que não, pois elas são inerentes ao sistema econômico, capitalista, mundial que, com suas várias nuances e formas sociais e políticas, define ainda, o nosso tempo. Quem vive em um país do terceiro mundo, marcado pelos mais altos níveis de desigualdade e violência social (econômica, jurídica, criminal, militar etc) cotidiana, não pode se iludir com isto. Vivemos, sim, ainda, em um sistema de alta violência social, com tons mais ou menos fascistas, em todo o mundo.
É verdade, contudo, que já foi pior, como apontei acima. Especialmente no período histórico do pós segunda guerra mundial, até 1975-1979, vivemos significativos avanços em todo o sistema, mais ou menos disseminados em todos os países, com grande desenvolvimento econômico, ganhos sociais, desenvolvimento da regulação econômico-financeira, redistribuição de riquezas e melhoria de qualidade de vida para as massas. Esta onda socializante no sistema foi substituída por uma nova onda liberalizante, a chamada onda neoliberal, que forçou a integração financeira, comercial e produtiva no sistema mundial, associada a uma imensa concentração de riquezas e crescimento econômico progressivamente menor nos países ricos, nos EUA e demais países da aliança hegemônica atual. Chegamos, então, a partir de 2007, à situação de crise econômica sistêmica, mais ou menos aberta, mais ou menos explosiva, porque mitigada pelo lançamento de dezenas de trilhões de dólares na economia, em ondas sucessivas, pelos governos. Nesta situação, como diziam os antigos, cessa toda a gentileza e as forças mais imperialistas, xenófobas e belicistas se encontram cada vez mais justificadas e aceitas no cenário mundial.
Aí, justamente, quando mais necessário, o sistema ONU se mostra, mais claramente, impotente. Isto não pode ser menos do que dramático.
A guerra tarifária imposta pelos EUA contra o mundo, para tentar dar conta do seu déficit comercial explosivo, a limpeza étnica e o genocídio continuado da população palestina, a mortalidade e destruição massivas da guerra na Ucrânia, tudo isto é completamente contrário ao mandato, ao princípio e às diretrizes, da ONU e de todo o sistema institucional mundial associado a ela. Mas, todos vemos como ele se mostra completamente inoperante diante dessas infrações e, o que mais preocupa e assusta a todos os que têm alguma atenção nestes temas é que, com a crise econômica ainda longe de ser realmente sanada, o risco de escalada no sentido dos conflitos sociais e das guerras é cada vez maior.
Muitos querem sustentar que a falência do sistema ONU é uma causa primária do problema, ignorando as suas fortes raízes econômicas no próprio movimento ondular da economia capitalista, do sistema capitalista mundial. Muitos analistas de todos os matizes ideológicos e políticos fazem este tipo de equívoco e centram a sua análise em determinantes geopolíticos, no jogo geopolítico, digamos assim. É claro que as guerras internacionais, o genocídio e até o tarifaço dos EUA são fenômenos geopolíticos, mas não podem ser analisados apenas como um jogo de força e dominação, vazio e sem sentido, entre as nações.
Deste erro analítico resulta a busca de solução para a grande crise civilizatória mundial em que nos encontramos, através de modelos formais alternativos da governança mundial. Critica-se fortemente o globalismo fracassado da ONU e busca-se, alternativamente, um multilateralismo que se contraporia, também, ao unilateralismo de uma única superpotência ou ao bilateralismo de duas superpotências em contraposição. Como fórmulas, apenas, pode-se defender isto ou aquilo sem maiores critérios. Se a idéia de globalismo é aquela de uma governança democrática mundial baseada em uma igualdade formal entre os diversos países, no concerto das nações, isto é obviamente um absurdo completo. Como alguém pode pretender que uma superpotência econômica e militar tenha a mesma voz e o mesmo voto que um pequeno país sem poderio econômico e militar algum? Isto obviamente só pode ter viabilidade como uma mera formalidade, irrelevante nos momentos cruciais e nas situações realmente decisivas. O sistema ONU é uma colcha de retalhos neste sentido, com vários modelos de representatividade e poder de decisão em seu interior, mas guarda uma forte consonância com esta ideia absurda da igualdade entre os diversos países, consolidada simbolicamente, nas assembleias gerais das nações realizadas periodicamente. Obviamente, esta farsa, esta ilusão, tem que ser plena e imediatamente negada na prática e isto é feito pela instituição do conselho de segurança, em que potências reais têm acento permante e poder de veto. Nada, realmente nada, pode ser realizado por um sistema assim dentro de um contexto de verdadeira crise mundial envolvendo as grandes potências, como este que vivemos agora.
A simples ampliação do Conselho de Segurança da ONU, tão demandada por países como o Brasil e a Índia, por mais correta que seja, com o sistema como está, apenas levará a mais paralisia, com mais países com poder de veto.
Uma perspectiva de solução que tem sido muito disseminada ideologicamente, a partir da crítica tanto do sistema atual e quanto da posição hegemônica dos EUA, é aquela de um multilateralismo calcado em certos centros civilizatórios. Ou seja, ao invés da farsa absoluta da pretensa igualdade das nações, o reconhecimento, não apenas tácito, mas também institucional, da existência de grandes potências internacionais, que sideram países e nações secundárias ou satélites, e de que são elas que realmente decidem no grande jogo geopolítico. Parece que encontramos aqui mais um momento do velho conflito entre os ideais e a realidade. Para muitos o ideal seria a igualdade entre as nações, mas esta idealidade só pode ser posta como uma farsa, pois não tem nenhuma aderência à realidade. A solução seria substituir esta farsa por uma idealidade que reconheça a realidade do jogo de forças decisivo no cenário mundial. O globalismo falso do sistema ONU seria substituído pelo multilateralismo das grandes nações ou blocos civilizatórios. Parece aliás que esta é justamente a visão do atual governo dos EUA que combate diretamente as instituições do sistema ONU e implode todos os fóruns de decisão multilateral, buscando um acerto direto entre nações e, obviamente, entre as grandes potências, em primeiro lugar. Neste sentido todos vemos, agora, uma proximidade ideológica entre Moscou e Washington. Há uma vantagem óbvia neste modelo, que é o fato dele ser realista, muito mais próximo da realidade histórica atual que o modelo da ONU e, certamente, todos devemos dar boas vindas a entendimentos estratégicos entre China, US, Rússia e UE. Mas, o conflito com a idealidade se mostra imediatamente aí: como colocar isto em pé, sem sustentar, diretamente, um sistema de dominação mundial pelas tais grandes nações civilizatórias?
A idealidade falsa da igualdade entre as nações não pode ser substituída satisfatoriamente pelo modelo cínico do multilateralismo das grandes potências. Na verdade, não se trata de imaginar um bom modelo geopolítico, mas antes de compreender a realidade histórica e as tendências em desenvolvimento e buscar, aí sim, os recursos e mecanismos mais adequados, para a melhor condução deste desenvolvimento.
As grandes tendências históricas, de médio e longo prazo, do atual sistema social e econômico mundial são aquelas do desenvolvimento tecnológico, da produção de base científica e automatizada, e da mundialização da economia, da integração mundial das finanças, da produção, do comércio e da vida social em geral. A organização, a gestão, o controle e a proteção do sistema será, portanto, também, cada vez mais científica e global. Por mais que forças extremas, de dimensão tectônica, como a simples existência dos países, por exemplo, se coloquem contrárias a isto, a força das tendências econômicas e sociais para o desenvolvimento científico e tecnológico e para a globalização, a mundialização, são ainda maiores e, no limite, impossíveis de serem paradas, a não ser com a destruição realmente massiva da vida civilizada na terra. Portanto, ainda que tenhamos que aceitar um período, talvez realmente longo, de multilateralismo das grandes potências, com grande polarização entre os dois subsistemas concorrentes no mundo, o chinês e o estadunidense, não podemos jamais perder de vista o norte ideologicamente superior e coerente com as grandes tendências históricas. Por mais que muitos não queiram, que hoje a maioria abomine a ideia, na verdade, teremos que ir, necessariamente, inevitavelmente, para um nível maior de organização e coordenação da economia e, portanto, da vida social, no plano mundial.
Os conservadores, de todos os tipos e colorações políticas, levantam bandeiras contra o risco totalitário de uma governança mundial efetiva e, com estas alegações, tentam barrar o curso do avanço humano. É claro que temos muitos riscos e problemas possíveis neste processo, mas, não o suficiente para querermos evitar o estabelecimento, o avanço e a consolidação estruturas de decisão e gestão reais, verdadeiramente efetivas no plano mundial. Ao contrário, este é o caminho que buscamos e não há, mesmo, alternativa histórica a isto. O caminho para tanto ainda será, certamente, longo e penoso. Mas, podemos evitar os atrasos e desvios impostos por ideologias ruins e escolhas muito equivocadas. Temos que aceitar o unilateralismo, ainda real, dos EUA, que continuam a ser a grande potência hegemônica, impositiva, que têm a sua moeda como moeda mundial e ocupam militarmente o mundo através de suas mais de 800 bases externas. Temos que aceitar o bilateralismo real do presente. entre EUA e China, as duas verdadeiras potências econômicas principais, que ainda vão siderar os países dentro do sistema mundial, em dois subsistemas competitivos e complementares, por um longo período adiante. Temos que aceitar, também, o multilateralismo das grandes potências, que incluiu, como atores decisivos no cenário mundial, além de EUA e China, pelo menos a Rússia e EU. que detêm poder geopolítico suficiente para se imporem às demais nações e povos no mundo. Mas, não podemos, jamais nos posicionar de modo reacionário em relação à necessidade de desenvolvimento da governança global. Ao contrário, a nossa perspectiva ideológica é aquela do desenvolvimento da cidadania mundial. como contraparte do desenvolvimento da governança global.
quarta-feira, 25 de junho de 2025
O processo histórico contemporâneo
A partir da revolução industrial, com o desenvolvimento histórico desde então, foi consolidado, progressivamente, um sistema econômico capitalista mundial. As características da economia capitalista podem então ser analisadas e compreendidas no nível do sistema mundial. Isto me permitiu a percepção de um movimento histórico característico em que uma onda liberalizante é sucedida por uma onda socializante e, inversamente, a onda socializante é sucedida por uma onda liberalizante, contudo, em uma tendência de socialização progressiva.
As características fundamentais da economia capitalista explicam esta tendência e estas ondulações. O progressivo desenvolvimento científico e tecnológico da capacidade produtiva humana, o desenvolvimento da produtividade e da automação da produção, por um lado, e sua expansão e integração mundiais, por outro, são consequências inevitáveis da lógica econômica capitalista. E estas são condições de socialização da produção e da vida social em geral. Contudo, a concentração progressiva da riqueza também é gerada pela lógica econômica capitalista e isto, também inevitavelmente, leva à crise sistêmica ou crise generalizada de realização. A solução, custe o que custar, será de maior socialização, com redistribuição da riqueza social e maior acesso a recursos e serviços para a população em geral, para as massas. Este ciclo de desenvolvimento socializante deve, no entanto, ter fim quando as sua leis, regras e sistemas tiverem se tornado obsoletos e restritivos demais para a progressão do desenvolvimento produtivo e para a mundialização da produção e vida social. Enquanto persistir a economia capitalista, esta onda será, então, suplantada por uma nova onda liberal, como vivemos com a onda neoliberal, que, no entanto, agora chega ao seu fim. Estamos agora, exatamente, entrando no ponto máximo desta crise. Correspondente, talvez, ao 1929 do século passado. Passamos até aqui sem uma grande guerra mundial, mas estamos em alto risco. Enquanto as forças capitalistas liberais prevalecerem nos centros de decisão política e corporativa este risco é altíssimo, porque a crise não poderá ser suplantada, até que as novas políticas socializantes de coordenação e integração da produção mundial e de redistribuição de riquezas possam ser adotadas largamente no mundo.
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Uma análise sintética do processo histórico contemporâneo, nos seus determinantes e mecanismos fundamentais e em suas contradições e tendências predominantes
Há 18 meses, em 23/02/2024 eu publiquei na revista Outras Palavras, um artigo que começava como se segue.
"A coisa mais óbvia, aquela que todos nós podemos sentir, mesmo quem não tenha a menor ideia de suas causas, é que o mundo está mais tenso, os conflitos estão se tornando mais agressivos, as guerras estão se ampliando, ou, pelo menos, que o risco de grandes guerras está se tornando maior a cada dia.
E isto é simplesmente realista, infelizmente.
No momento, a limpeza étnica sionista na Palestina prossegue, com o apoio das grandes potências ocidentais e sem maiores oposições reais, sem que o mundo consiga fazer qualquer coisa efetiva para deter ou impedir, por mais que muitos, em nome da razão e da dignidade humana, se manifestem e protestem contra. Ninguém consegue deter também a guerra proxi da Otan versus a Rússia, na Ucrânia, que parece longe do fim e com alto risco de se ampliar. E uma guerra, proxi ou direta, dos EUA contra o Irã parece estar apenas no começo. Nestes e em outros conflitos armados internacionais, milhares, talvez, dezenas de milhares, de pessoas morrem todos os dias. Jovens, em especial, são, assim, assassinados e trilhões e trilhões em recursos produtivos são simplesmente destruídos, cotidianamente, nos campos de guerra. E o risco que isto se amplie para níveis ainda mais catastróficos é, realmente, cada vez maior."
Eu entendia que as razões para esta ampliação, real e potencial, dos conflitos no mundo tinha uma base real mais profunda do que apenas se explicaria por um aumento das disputas por hegemonia militar e geopolítica, no plano internacional, com o reerguimento de doutrinas e governos mais imperialistas. Uma base que explicaria, justamente, estas re-emergências.
A realidade histórica está, até o momento, confirmando a minha análise, que procurei desenvolver e apresentar melhor nestes últimos meses e que exponho, abaixo, sinteticamente, em suas linhas mais gerais e determinantes mais fundamentais.
Estamos em uma crise generalizada da economia mundial. do sistema econômico mundial, desde 2007, mitigada por injeções periódicas de trilhões de dólares pelos estados nacionais. Esta crise fundamenta-se na concentração de riquezas, extrema, continuada e progressiva, que resulta em dificuldades, também progressivas, de realização dos empreendimentos e investimentos numa economia capitalista. Mas, a economia capitalista é, necessariamente, uma economia de massas e expansionista. A contradição se instala quando as massas não têm mais condição de realizar consumo novo, crescente e, ao contrário, terminam perdendo até a capacidade de manter o padrão de consumo prévio.
Esta crise é característica da economia capitalista liberal e, portanto, ocorrerá sempre ao fim de uma onda liberal na economia capitalista, como estamos vivenciando agora, no mundo. Ela traz consigo uma sequência de eventos sociais e políticos esperados, evidentes no presente: frustração, insatisfação e embrutecimento das massas e, como contraparte, mais autoritarismo, com ascensão de ideologias e práticas fascistas contra alvos estigmatizados , especialmente por a xenofobia, mais nacionalismo, mais imperialismo, mais militarismo, mais conflitos sociais e guerras. Isto é, de certo modo, inevitável em uma grande crise sistêmica, social, na economia capitalista, como a que vivemos atualmente.
Afora esta identidade geral, 04 aspectos dão características próprias à crise atual.
1. Desenvolvimento dos recursos de regulação do sistema e de proteção anticíclica, nos aspectos econômico-financeiro e social. Eles têm sido fundamentais, mas estão demonstrando sinais de estresse máximo e esgotamento.
2. Transição da hegemonia no sistema capitalista mundial. Não é contestável que a hegemonia econômica e sistêmica dos EUA e dos países na sua aliança de poder não é mais a mesma de 5 ou 4 décadas atrás e é certo que ela seguirá declinando, em face, sobretudo, da ascensão chinesa e de seus aliados. Por um lado, isto dá contornos mais dramáticos e de maior risco para a crise econômica, mas, por outro, será parte, necessariamente, da sua solução. O simples fato de haver uma nova economia, um outro subsistema, um novo polo na economia mundial com peso e força suficientes para se contrapor às tendências de crise que predominam no centro hegemônico, pode ser suficiente para permitir a solução menos dramática da crise. Entendo que esta é a situação atual.
3 O nível atual de integração produtiva, de consumo, de comunicação e informação mundial é muitas vezes superior aos momentos históricos anteriores, em que ocorreram crises generalizadas similares. Esta é outra força de contenção, talvez a maior, contra as piores consequências da crise, que seriam, ao fim, as guerras generalizadas entre as grandes potências.
4 De modo compatível, em consonância histórica com este nível do desenvolvimento tecnológico, produtivo e social, integrado mundialmente, a potência contra hegemônica emergente é socialista. O que deve conduzir a uma melhor integração e coordenação mundial e redistribuição das riquezas sociais, que são, justamente, as duas vias fundamentais para sairmos da atual crise.
Todos estes fatores fazem crer que teremos um caminho para além desta grande crise sistêmica, melhor e menos destrutivo do que aquele da grande crise do século passado, por exemplo. A solução , no entanto, terá características similares, necessariamente, que se sintetizam nas duas vias citadas. Para sairmos desta crise teremos que desenvolver uma maior e melhor coordenação da economia, no interior dos países e, sobretudo, no plano mundial e teremos que realizar uma grande redistribuição da riqueza social. E o faremos. Este é um caminho que, digamos assim, atende às necessidades, aos mecanismos, se você quiser, mais determinantes do próprio sistema. De um jeito ou de outro, ele encontrará sua via para realizá-los.
É certo que o sistema econômico capitalista mundial tem realizado um impressionante processo histórico de desenvolvimento tecnológico e de integração da produção e do consumo em escala mundial. Ainda que muito contraditoriamente, estas duas linhas de tendência predominantes na economia capitalista mundial parecem, até hoje, incontestáveis. O desenvolvimento da produção, a sua ampliação e inovação, continuadas, o que é inerente à lógica da acumulação capitalista, requer e impulsiona, também e necessariamente, o desenvolvimento e ampliação do consumo das massas. Mas, a liberdade de mercado, a lógica inerente ao mercado, pura e simplesmente, sem maiores regulações e direcionamentos, a lógica liberal de mercado, conduz à concentração de riquezas, até o ponto em que as massas perdem a capacidade de novo consumo e até de manter o padrão de consumo anterior. O limite desta contradição é dilatado, ou negado, enquanto o desenvolvimento econômico, na área dos produtos de consumo popular, ocorrer de forma mais intensa do que a própria concentração das riquezas. Ou seja, enquanto a perda relativa é compensada e superada pelo ganho absoluto, devido ao crescimento econômico, pode haver melhora da capacidade de consumo e, portanto, das condições de vida das massas, apesar do aumento progressivo da concentração da riqueza. É justamente isto o que se espera na fase inicial de uma onda liberal, como, de fato, ocorreu no sistema econômico mundial, nas décadas iniciais da onda neoliberal atual, entre os anos 1980 e 2006. Mas, a concentração de riquezas, progressiva e continuada, termina por reduzir a própria capacidade de crescimento, trazendo, realmente, dificuldades crescentes para a realização dos investimentos e empreendimentos e criando círculos viciosos recessivos. Este é o mecanismo das crises cíclicas generalizadas, de realização, na economia capitalista e ele deve se repetir ao fim de cada ciclo liberalizante, ao fim de cada onda liberal. É o que vivemos atualmente, desde 2007.
A crise generalizada progride com grande pressão recessiva, com fracassos de investimentos, falências, quebra de cadeias produtivas e toda a sequência de dano social que é bem conhecida e que eu procurei sintetizar acima. Mas, custe o que custar, em termos de morte e de destruição de capital produtivo da humanidade, o ciclo de uma crise generalizada na economia capitalista também encontrará o seu fim. Chegado ao ponto de resolução da crise, a economia capitalista encontra um novo ciclo de crescimento, de desenvolvimento e de ganhos sociais, com redistribuição social da riqueza e melhoras reais em capacidade de consumo e acesso a recursos e serviços para as massas. A economia se redireciona melhor para necessidades populares e as políticas de controle, gestão e coordenação da economia, assim como de proteção social, também se desenvolvem mais e melhor. É a onda socializante no sistema capitalista, como aquela que vivemos, sobretudo nos centros hegemônicos do sistema, desde os fins da primeira metade do século passado até os fins da década de 1970.
O ciclo socializante, por sua vez, também deve se esgotar. Por um lado,
A grande redistribuição das riquezas traz um certo estresse à economia capitalista, com queda das taxas de lucro, em geral, e, certamente é um fator adicional para a crise da onda socializante. Mas esta não me parece, contudo, a causa principal ou determinante do esgotamento do ciclo socializante. Em grande parte pelo mesmo motivo apontado acima, no sentido inverso, pois o volume total de ganho do capital, de lucro dos capitalistas, cesce muito com o desenvolvimento durante a onda socialista. E certamente o ganho em volume, o ganho absoluto, em riqueza, importa muito para a realização do capital. A experiência histórica mostra que no fim da última onda socializante, as estruturas sociais, no interior dos países e no plano internacional, superestruturas se mostrarem já um tanto esclerosadas e limitantes para o próprio desenvolvimento característico da economia capitalista, se constituíram em barreiras significativas para o novo desenvolvimento da produção, da tecnologia. Em economia capitalista, isto se dará, necessariamente, pela ascensão de uma nova onda liberal, Foi o que aconteceu com a onda neoliberal e a globalização. Elas realmente produziram mudanças muito significativas em regras e mecanismos de regulação das diversas economias nacionais, assim como do sistema financeiro e econômico mundial, em geral, quebrando barreiras e facilitando a expansão, intensiva e extensiva, da economia mundial.
Agora chegamos, no entanto, ao fim da onda neoliberal e o ciclo se repetirá. Estamos, no momento, entrando no ponto máximo desta crise, com as consequências e também com as contra tendências. descritas acima. Seja como for, custe oi que custar, uma nova onda socializante terá que vir. Em uma sucessão que persistirá ocorrendo enquanto estivermos ainda no sistema capitalista, ou num sistema socialista que é, ainda, o capitalismo, mesmo que em sua fase final. O sentido ou a tendência histórica predominante, nessa sucessão de ondas e crises no sistema eonômico capitalista mundial é, deve ser, progressivamente mais socializante, pelas necessidades mesmas do sistema, como também já indiquei acima. Posso dizer, então, que, em linhas gerais, o sistema econômico capitalista mundial se desenvolve em ondas liberalizantes e socializantes sucessivas, com uma tendência predominante de socialização progressiva. As conquistas sociais de regulação econômica e financeira, de proteção social e anticíclicas não se perdem completamente em cada nova onda liberalizante e o desenvolvimento econômico e social capitalista se dá, necessariamente, ainda que muito contraditoriamente, em direção a uma maior mundialização e ampliação da automação, da tecnologia e da ciência na produção e na vida social, em geral. Condições que são, elas mesmas, por sua vez, aquelas da superação progressiva da economia capítalista, com uma socialização progressiva da produção e da vida social, mundialmente.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
Sala de Situação – Maio 2025 -
A crise econômica sistêmica atual, com a re-emergência fascista e imperialista e alto risco de grandes guerras
E a sua solução histórica.
Em uma grande crise de realização na economia, característica do desenvolvimento capitalista liberal, algumas coisas acontecem, de uma forma mais ou menos conhecida, conforme a história dos últimos séculos indica e a ciência econômica, em geral, identifica. Certamente, em uma grande crise assim, uma série de más decisões e fracassos na condução dos negócios, privados e públicos, são esperados e devem realmente acontecer. Afinal, a recessão, a sucessão de picos recessivos, necessariamente ocorrerá, em uma crise desta natureza, ou seja, muitos empreendimentos privados vão fracassar e as políticas públicas serão insuficientes ou francamente prejudiciais para a recuperação da economia como um todo. Seja qual for o tipo de sandice que você puder imaginar, ela pode acabar acontecendo, resultando sempre no fracasso e na quebra de investimentos, de negócios, de cadeias de produção e consumo e até de setores inteiros da economia, na queima de capital, enfim, e em mais perda da capacidade de compra e de serviços públicos para as massas. Até que um novo ciclo de acumulação e realização possa ocorrer. Não há como escapar disto, pelo caminho ‘natural’ das crises econômicas características de uma economia capitalista liberal. Este processo lembra aquele de podas radicais para que as plantas se desenvolvam ainda mais. Mas, podas radicais podem matar, a economia não é uma planta, as pessoas não são folhas e o custo social das crises econômicas generalizadas é alto demais. Foi justamente por isto que desenvolvemos, dentro do próprio sistema capitalista, as medidas protetivas e anticíclicas, financeiras e sociais, e elas têm sido largamente utilizadas.
Esta crise tem um pilar, a incapacidade do consumo absorver a produção, sobretudo dos novos investimentos, em alguns setores importantes, ou de forma mais generalizada, na economia. Os investimentos fracassam, a economia estagna, a produção decai e alguém tem que pagar por isto. Objetivamente, a população tem que consumir menos. No modelo capitalista liberal isto resulta em um ciclo vicioso realmente muito destrutivo e justamente por isto se justificam as políticas anticíclicas de garantia de renda social, para as camadas populares.
O aprendizado histórico e o desenvolvimento social estão, realmente, nos permitindo lidar com as crises econômicas, em geral, e esta atual em especial, de forma muito mais civilizada e positiva do que seguindo o receituário liberal ou a lógica espontânea do mercado capitalista. Em todo o sistema capitalista mundial e, em especial em seus países mais ricos, desenvolvemos e aplicamos, cada vez mais largamente, desde o segundo quarto do século passado, medidas anticíclicas de proteção dos mercados e das pessoas, assim como medidas gerais de regulação financeira, produtiva e social. Isto explica, no meu entendimento, os resultados atuais muito menos destrutivos, até agora, do que aqueles da grande crise mundial da primeira metade do século passado.
Na crise atual, em vários momentos, a partir de 2007, os governos, no sistema mundial como um todo e especialmente nos países mais ricos e poderosos da aliança hegemônica ligada aos EUA, lançaram algumas dezenas de trilhões de dólares na economia, para alívio da crise, socorro ao sistema financeiro, proteção social e incentivo ao consumo. Isto permitiu que as economias recuperassem em parte suas capacidades de desenvolvimento, ainda que apenas de modo instável e limitado, temporariamente. As medidas adotadas claramente não foram suficientes para eliminar completamente a crise. Tivemos picos recessivos anuais mundiais em 2009 e 2020, algo que não acontecia desde o fim da 2a guerra mundial, e talvez estejamos, já, no caminho de um novo pico recessivo. Além disto, no presente, ao fim de maio de 2025, nos principais países da aliança hegemônica, os recursos anticíclicos parecem estarem chegando ao limite ou terem já se esgotado, sem terem sido capazes de reverter a crise. Os seus déficits públicos estão batendo recordes e com tendências de crescimento insustentáveis e parece cada vez mais difícil continuarem com programas de incentivo econômico. Seja com for, nos EUA, na Inglaterra, no Japão, na Alemanha ou na França, por exemplo, as economias estão realmente enfrentando grandes dificuldades e o que se espera é um crescimento muito baixo ou recessão.
Estamos, portanto, chegando ao momento mais grave, mais dramático e perigoso da crise atual, em que parece que os recursos anticíclicos talvez não possam mais ser utilizados em larga escala. Daí também cresce a importância de entender qual a sua natureza, características e tendências principais.
A crise atual, dos países da aliança hegemônica do sistema capitalista mundial, ocorre ao fim de um processo de muita concentração de riquezas e com taxas de crescimento relativamente baixas, o que resulta, necessariamente, em um processo progressivo de empobrecimento relativo e, ao fim, até em empobrecimento absoluto das massas, levando a grandes limitações e impossibilidades para a ampliação e, até, enfim, na sua redução do seu consumo, em contraste com a riqueza cada vez mais concentrada. Não é possível que isto aconteça sem o aumento da insatisfação da população, que, no entanto, não está consciente das características e causas do seu empobrecimento, da estagnação, degradação e piora da sua qualidade de vida, em chocante oposição com o contínuo desenvolvimento tecnológico e da produção em geral.
Muitas justificativas e fantasmas sociais são erguidos pelas ideologias dominantes para direcionar esta frustração e a raiva das massas neste processo. São os mesmos falsos inimigos de sempre, normalmente os mais rejeitados entre os discriminados, que sofrerão de algum modo o ônus ideológico e social da crise. No interior dos países, as classes, as raças, as religiões, gêneros e outras características de grupos populacionais já, de algum modo, fragilizados e oprimidos, serão alvo de violência ideológica, moral, material, econômica e física, muito mais intensamente do que em tempos de paz econômica e social. No cenário mundial, na relação entre as nações, de certo modo, o mesmo acontece e as proteções institucionais, legais, morais, ou, de qualquer ordem são deixadas de lado. A face mais dura do poder político, geopolítico, econômico e militar, imperialista, tende a se apresentar, em sua realidade bruta. Este é o caldo de cultura do qual nasceu o fascismo e, agora, o neofascismo.
Estamos, agora, entrando no ponto máximo da crise econômica e social atual do sistema capitalista mundial e devemos, portanto, também estar no ponto máximo de avanço das forças neofascistas no mundo. Especialmente nos países da aliança hegemônica, que são o centro da crise. Do ponto de vista econômico e político, no interior destes países, deve estar claro que, agora, a insatisfação popular continuará alta e estará atingindo extremos e que, portanto, está altamente sujeita à manipulação fascista. Ao passo que as medidas anticíclicas não foram capazes de reverter as tendências recessivas e nenhuma medida política, dentro da ordem democrática, pode reverter rapidamente as bases econômicas desta grande insatisfação popular.
Tudo isto leva a um risco cada vez mais alto das guerras como alternativas interessantes e aceitáveis, do ponto de vista ideológico pelo fortalecimento do nacionalismo e a projeção de inimigos externos para as massas frustradas e sem perspectiva. De fato, a ocorrência de guerras e crises políticas graves no interior dos países, aumentou muito desde o início da grande crise econômica atual. As guerras são, infelizmente, formas eficazes de se lidar com as grandes crises econômicas, elas cumprem diversas funções neste sentido, realizando a forma mais direta e brutal de queima de capital, físico e humano, de poda radical no sistema econômico e social.
Na medida em que a crise não se resolve e as medidas anticíclicas encontram seus limites e cobram o seu preço, a posição capitalista liberal, que foi tão vitoriosa nas últimas décadas, resiste a ceder o seu predomínio e abre mão de tudo em sua doutrina, menos da ideologia de acumulação ilimitada da riqueza. Todas as outras liberdades de mercado podem ser e são contestadas, na procura de saídas para a crise, mas insistem e insistirão até o fim que a concentração de riquezas deve persistir o seu curso, livremente. É óbvio que isto é a receita certa para a manutenção e aprofundamento da crise e de todos os seus corolários e consequências.
Estamos, portanto, justamente neste momento extremo em que todas as gentilezas cessam e a estupidez e a virulência da lógica da acumulação livre e ilimitada tende a se mostrar sem retoques, sem meios termos, sem contemporizações.
A ideologia da violência, da dominação e da guerra necessariamente são crescentes nestas condições e é justamente o que vivemos na última década, ou nas duas últimas décadas. Sob qualquer critério que se estabeleça, é claramente identificável o aumento da xenofobia, do nacionalismo e do belicismo. Ao fim, a face mais dura do imperialismo se manifesta, necessariamente neste contexto, e é o que estamos vendo. Seja qual for o resultado das investidas imperialistas atuaia, nada vai conseguir restabelecer a hegemonia absoluta dos EUA e nem muito menos conseguir controlar e reverter a grande crise de realização atual do sistema capitalista mundial, que incide especialmente sobre os EUA, UE e aliados e, também por isto mesmo, o risco das grandes guerras se torna cada vez maior, no atual momento histórico.
Dizem por aí que a história se repete, mas o que primeiro aconteceu como uma tragédia, na repetição se torna uma farsa, uma comédia, um arremedo. Olhando o neofascismo atual, em relação ao fascismo na sua origem, este dito popular parece se confirmar. Mas, na verdade, eu não tenho certeza de o quanto, lá na sua origem e até o desencadear das formas mais extremas do poder fascista, se antes disso, ele não tinha também este traço de farsa descarada, de truques idiotas e perversos executados por atores, mágicos ou palhaços canastrões. Justamente como agora. A arte de enganar o povo faz parte, de qualquer modo, do playbook fascista. O espetáculo e a diversão pode predominar mesmo, até quando as coisas conduzem para as ações mais extremas. E conduzirão. Isto não é exatamente uma escolha, ou um plano bem definido qualquer. Não, muita coisa é realizada justamente pela pressão do momento histórico, cada vez mais forte, no curso de uma grande crise histórica, econômica e social. E, neste curso, os palhaços fascistas vão ficando cada vez mais aterrrorizantes, mais macabros e a ideologia da imposição do poder pela força se mostra necessariamente mais, em sua face mais explícita.
Parece mesmo ser um percurso natural ou espontâneo da economia capitalista que, ao fim de uma onda liberal, com a extrema concentração da riqueza social, persistente e progressiva, seguem-se dificuldades incontornáveis de realização do capital produtivo, no comércio, nos investimentos, na renda, no emprego, em áreas mais ou menos extensas, até atingir o nível de crise e, enfim, das grandes crises generalizadas. Com o seu corolário de, ainda mais, fracassos, empobrecimento, insatisfações e frustrações, até o nível do desespero, largamente disseminadas na sociedade, mas atingindo, obviamente, de modo muito desigual as diversas classes de pessoas, impondo-se de modo muito mais brutal sobre os mais pobres, ou, excluídos de qualquer outro modo, contra os quais muitas vezes, ou necessariamente, ainda se viram a revolta e o ódio dos demais na sociedade. As classes populares se encontram, neste momento, ao fim de um longo processo em que perderam, progressivamente mais, o acesso aos melhores bens e serviços frutos do novo desenvolvimento social. Um longo período de perda progressiva da sua renda relativa, pela concentração da riqueza, e perda de serviços e recursos públicos, em que acabam mesmo objetivamente empobrecidas, em comparação a anos e décadas atrás. A crise de realização generalizada acentua todas estas perdas progressivas, disseminadamente, nas camadas populares que vão terminar também por perder, fortemente, uma perspectiva positiva de futuro e ver o desespero crescer no seu meio. O apego às piores ideologias religiosas, nacionalistas, xenófobas, racistas, violentas e bélicas,deverá mesmo aumentar.
Estas são formas de escape da situação objetiva e de manipulação e dominação das massas pelos ricos e poderosos que, ao fim do longo processo de concentração, obviamente, não querem abrir mão disto e vão lutar, com força, por manter e seguir ampliando seu poder e riqueza. Mas, manter e ainda ampliar isto, nos extremos em que a concentração já se encontra, não parece possível dentro das ordens normais de funcionamento da sociedade e da economia. É realmente peculiar deste momento que, agora, as forças socializantes apareçam como os melhores defensores da segurança e da estabilidade no sistema, enquanto os donos do poder procurem se mostrar como os mais disruptivos e anti sistema. O fato é que eles não podem mais se impor, não podem impor mais perdas às massas e mais concentração de riqueza e poder, sem o uso de recursos de exceção e força.
O fascismo que sempre está aí, de certo modo, no capitalismo liberal, disfarçado nas luvas de pelica da democracia, da justiça e da ordem, agora vem à tona, de um modo ou de outro, vem à tona em sua brutalidade mais explícita. O povo é ainda mais jogado contra ele mesmo, no interior dos países e entre países. O ódio explícito aumenta e passa a predominar em alguns extratos da sociedade e da mídia. As frustrações e o ódio generalizados são direcionados para alvos estes falsos, mas muito reais. As notícias e os espetáculos de violência e mortes lavam as almas de muitos, ou, pelo menos, lhes dão algo para se agarrar dentro do desespero e estes extremos de violência fratricida, estúpida e desumana continuarão mobilizando a memória coletiva e os espíritos individuais por um bom tempo, seja por serem expurgados ou exaltados. Seja como for, a solução capitalista liberal das grandes crises de realização generalizada, que são esperadas ao fim de uma onda liberal na economia capitalista, a solução pela imposição de maiores sacrifícios, de mais perdas econômicas e de todos os seus corolários, sobre as massas, que já vêm em uma sequência longa de perdas, não se faz facilmente, sem os recursos ao fascismo e à guerra, ou de algum modo, em síntese, sem a imposição do poder pela força bruta.
A imposição mais extrema do poder, de mais concentração de riqueza e poder sobre o seu nível já extremado, não pode se fazer sem a maior explicitação, sem a maior exposição da sua brutalidade e violência. Isto se torna uma necessidade para impor os maiores sacrifícios ao povo que já está empobrecido . Além disto, aqueles que acumularam tanto em riqueza e poder não querem, obviamente, ceder e redirecionar a economia para ganhos populares na distribuição da riqueza. em renda, recursos e serviços, ao contrário, é mesmo natural e espontâneo que tanta concentração de riqueza e poder queira mesmo se exercer de modo mais pleno, sem os limites institucionais ou legais, nacionais e internacionais.
Por outro lado, neste momento, quaisquer que sejam as ações acertadas, para reversão da concentração de riqueza ou de recuperação e melhora de acesso a recursos e serviços públicos para as massas populares, elas não podem, contudo, reverter a situação de empobrecimento imediatamente e, portanto, o seu valor, em geral, não será percebido no tempo relativamente curto dos ciclos eleitorais. Razão porque, nestes períodos, fascistas e imperialistas serão eleitos e reeleitos e, se possível, tomarão o poder de assalto, pelos motivos que indiquei acima e porque isto é da natureza do fascismo. E é por isto que, hoje, ele ronda as sociedades centrais da aliança hegemônica do capitalismo mundial, bem mais do que nas últimas, muitas, décadas.
Atualmente nós estamos em um nível realmente extremo de desigualdade, dentro das principais economias no sistema capitalista mundial, depois de um longo processo de contínua concentração de riqueza nas últimas 6 a 7 décadas. Não há como ignorar o quanto isto tem cobrado de empobrecimento e perdas de recursos em geral para as massas populares nos países hegemônicos do sistema mesmo. Esta é, sem dúvida, uma base certa, segura, para a crise generalizada, como descrevi acima. Estamos em uma crise deste padrão nos últimos quase 20 anos, nas economias centrais da aliança hegemônica. Mas, é preciso entender, não podemos ignorar de modo algum, que ela está contida, controlada, mitigada, em todos os seus mecanismos e efeitos, pelas redes de proteção social e de regulação financeira já existentes, desenvolvidas ao longo de décadas e séculos, e pelas medidas anticíclicas adotadas, com o uso abundante de recursos públicos injetados na economia, em nível recorde, muito acima do que qualquer precedente. É por isso que não temos de fato uma depressão ou algo parecido. Nos EUA e no mundo, até agora, o que tivemos foi a queda das taxas de crescimento, em média, nos últimos18 anos, aproximadamente, e com os 2 picos recessivos anuais, passageiros, nesse período. Tudo o que se pode referir em termos de crise econômica e social e politica, que se pode esperar da condição atual, como descrito acima, está, de certo modo ocorrendo, mas de maneira bem atenuada, ainda.
Efetivamente estamos, no entanto, chegando ao extremo da crise justamente agora. E, portanto, podemos esperar que todas as suas consequências devem ainda piorar, nos países hegemônicos mesmo. Os limites dos déficits fiscais estão sendo atingidos e as apostas de muitos governos seguem sendo na concentração, ainda maior, de riquezas. Assim a crise não será resolvida lá, ao contrário, e isto atinge todo o mundo, de um modo ou de outro.
A isto se soma ainda a crise de perda da hegemonia estadunidense na economia mundial. Nas condições atuais, ambas as crises são inevitáveis e o que eles estão fazendo nos EUA, agora, apenas acelera estes dois processos, de muitos modos. A massa se empobrece com a imposição de tarifas de importação, pois os preços sobem, e também com serviços públicos sendo cortados, enquanto os impostos para os mais ricos estão sendo aliviados. Como nada disto é resolutivo, é previsível que mais cortes nos gastos públicos, nas importações e na capacidade de consumo popular terão que ser impostos logo mais adiante. Tudo isto significa, enfim, mais empobrecimento para grandes massas nos EUA, algo que já vem acontecendo, há algum tempo, lá e também na Europa.
As intervenções de socorro nas crises foram efetivas, até o momento, e permitiram, contudo, que a economia seguisse fluindo bem, ao fim, ainda que com crescimento relativamente baixo e picos recessivos. Talvez, a história se repita mesmo, agora, de modo menos trágico, mais enfraquecido, também, pelo aprendizado histórico, de modo que aquilo que foi tão destrutivo agora já não tem mais que ser, porque já aprendemos a reagir. Parece ser esta a realidade atual e nada de tão desesperador, a nível mundial, ainda não aconteceu, no curso da crise atual, em comparação com aquela anterior, da primeira metade do século passado. Aos trancos e barrancos, a humanidade, por enquanto, ainda segue um curso de desenvolvimento e pacificação, um processo de transformação e evolução histórica, dentro do sistema capitalista mundial.
Agora não parece haver, contudo, nem nos EUA ou na Europa e nem nos demais países aliança hegemônica, força econômica ou política para reverter, de fato, as tendências de crise generalizada, com as suas mais trágicas consequências, como aquelas vividas pela humanidade no século passado. O aprendizado histórico, dentro da própria aliança hegemônica, nos trouxe até aqui, nesta condição ainda positiva, dado o extremo de concentração de riquezas que se atingiu, já. As ferramentas e instituições de regulação, proteção social e anti crise, implantadas no sistema, impediram o pior até agora, mas parece que estão no limite e não são capazes de resistir às tendências persistentes da crise, dentro da opção evidente pela persistência e ampliação, ainda mais, da concentração de rendas, nos governos da aliança hegemônica, ou pelo menos, no governo dos EUA atual. A persistência de níveis muito baixos de crescimento econômico e de picos recessivos nestes países parece que será o novo normal, por um tempo ainda relativamente longo, cobrando o preço social que estou tentando destacar. Mas, incrivelmente e para a sorte de todos nós, a antiga aliança hegemônica, já não o é mais hegemônica. Ou, pelo menos, já tem que dividir esta hegemonia. Já existe um novo subsistema econômico, ou um novo polo dentro do sistema econômico capitalista mundial atual, que se projeta progressivamente mais e que realmente já tem força para dividir a hegemonia com o polo dominante antigo. Escrevo isto não no sentido militar ou mesmo geopolítico, mas, primordialmente, no sentido econômico, que ao fim, nas condições atuais é inquestionavelmente determinante para estes outros níveis também. Não há vitória militar, hoje, que não seja, no fim das contas, uma vitória tecnológica e industrial. A China, as parcerias e as alianças para o desenvolvimento, da China com o Sudeste Asiático, com a Ásia Central, com a Rússia, com a África, com o Oriente Médio, com a América Latina, com a Europa, a inciativa Belt and Road, os Brics, tudo isto, tendo sempre a China como centro, já tem a vitalidade econômica e, por via de consequência, geopolítica e militar, para sustentar e dirigir a economia mundial e a humanidade, como um todo, contra, para fora e para além da crise e das suas consequências mais destrutivas a que, de outro modo, parece que inevitavelmente, o sistema capitalista mundial seria conduzido pela aliança hegemônica dos EUA.
Uma das principais ideologias políticas do momento ainda é a ideia de que estamos em grande risco, nas áreas de maior influência dos EUA, de sermos dominados por ideologias e potências externas autoritárias, em face da democracia liberal em que, pretensamente, vivemos, ou, deveríamos viver. Esta é uma visão fake ou iludida da realidade histórica. Primeiro, é falso que o sistema mundial sob a hegemonia dos EUA seja democrático. Isto é falso no nível propriamente mundial, ou internacional, onde o poder militar e econômico se impõe diante de um sistema normativo e de governança embrionário, ainda. É falso, também, no nível nacional, dos diversos países, onde formas de ditaduras e democracias fake são abundantes e, de fato, predominantes no sistema sob a hegemonia dos EUA. Nem mesmo nos próprios EUA, hoje, se pode falar com toda a segurança que esteja em uma democracia. Hoje o poder lá se exerce por atos imperiais do executivo e a estrutura institucional está sendo constrangida ao máximo. Isto é correspondente à natureza da crise atual, com sua determinação econômica bem definida, dado o nível de extremo de concentração da riqueza que já se atingiu lá e dada a resposta que os bilionários no poder estão dando, como era de se esperar.
A resposta liberal, como está se mostrando, pode negar todos os princípios do liberalismo, menos a ideologia de que a acumulação do capital deve ser completamente livre e incentivada, independente do nível de concentração de riquezas. Já chegamos a um extremo de desigualdade, lá, e ainda estão impondo mais, porque, com certeza, este será um resultado da nova isenção de impostos somada à nova política de taxas de importação nos EUA. Tudo isto só poderá aprofundar a crise nos EUA. O que só incentivará ainda mais a via autoritária e o conflito interno, lá. A crise entre o governo dos EUA e o sistema educacional do país, em geral, e as Universidades, em particular, é mais do que um sintoma disto tudo, é um elo razoavelmente bem conhecido da decadência de potências na história da humanidade, da qual faz parte a ocorrência de algum declínio acadêmico e científico e fuga de cérebros.
Consideramos, até aqui, muito centralmente, a associação do aumento progressivo da desigualdade social, da desigualdade na renda ou na distribuição da riqueza social com a emergência de crises econômicas generalizadas, crises de realização e acumulação do capital, crises recessivas, que são características do fim de uma onda de liberalização na economia capitalista, como foi, e ainda está sendo, neste fim da onda neoliberal. Crise que, ainda que esteja muito mitigada, traz os seus corolários de ascensão do autoritarismo, do fascismo, como é ascensão atual do neofascismo e as suas consequências geopolíticas. O nosso foco eram as economias centrais, dominantes e, especialmente, a principal economia do sistema capitalista mundial, a economia dos EUA. É bem diferente quando a gente considera uma sociedade como a nossa, o Brasil. Aqui vivemos sempre, com poucas flutuações, os níveis de desigualdade mais extremos, sempre acima dos piores níveis atingidos nos piores momentos históricos nos países centrais da aliança hegemônica dos EUA .
Não é de se estranhar que aqui a gente tenha uma economia capitalista relativamente protraída, com o freio de mão sempre mais ou menos puxado, condenada a voos de galinha, no máximo. Esta é a nossa história. Não é de se estranhar que, aqui, a democracia seja uma farsa mais explícita e dolorosa, mais constantemente e mais violentamente negada, na realidade cotidiana.
Aquilo que a gente abomina e deve mesmo abominar, que nos leva à vergonha e até ao desespero, quando temos ciência de um genocídio, de um holocausto, da execução e eliminação sistemática e continuada de povos, nações, etnias, grupos sociais, atingindo os civis e até as crianças, mesmo quando ocorre em terras distantes, é, no entanto ainda prática cotidiana aqui mesmo no nosso país, contra parcelas do povo brasileiro. Os níveis de violência econômica e social, o uso de assassinatos e de tortura, que se praticam aqui no Brasil, na imposição do poder, são, sempre, ainda, muito além do que é aceitável em uma democracia, para os padrões civilizatórios dos países centrais. Violência extrema, econômica, étnica, jurídica, policial, de gênero, criminal e interpessoal, sempre compõem o nosso cotidiano, nossa vida social, em níveis inaceitáveis para padrões civilizados. Somos, por isto mesmo, uma vergonha, para nós mesmos e para a humanidade civilizada, do mesmo modo que, hoje, Israel é. Porque somos, em nosso cotidiano, um estado e uma sociedade de genocidas, assassinos e torturadores. Ou, pelo menos, uma sociedade que é obrigada a conviver com o abuso, a violência, os assassinatos e a tortura, como se isto como se fosse inexistente e com os seus perpetradores como se fossem homens de bem. É assim que é, aqui no Brasil e em vários outros países, é assim no dia a dia. Abusadores, violentos, assassinos e torturadores, fascistas, estão em postos de poder nas polícias e nas forças armadas, em conselhos e associações profissionais, em instituições médicas e jurídicas, e nas práticas cotidianas disseminadas em todo o sistema. O abuso, o desrespeito, a ameaça, a coação, a violência física, a tortura e os assassinatos ainda são práticas policiais, jurídicas, sociais, corporativas, políticas, econômicas, muito presentes no cotidiano de nossas cidades e campos e ninguém que tenha os olhos abertos pode negar isto. A democracia, em condições assim, só pode mesmo ser uma farsa dolorosa, uma ideologia perversa, como uma religião ou um ideal moral qualquer, aquilo que deveríamos ter e não temos, aquilo que deveríamos ser e não somos. Além da dor da nossa realidade miserável, a gente ainda tem a culpa de não atingir os níveis da civilização dos países ricos ou desenvolvidos no sistema.
Não quero ser pretensioso e obstinado o suficiente para colocar tudo isto na conta da extrema desigualdade na distribuição da riqueza social que é imposta aqui no Brasil e em grande parte dos países colonizados. Mas, não é possível negar como tudo isto é bastante coerente com esta condição econômica permanente na nossa história. A extrema desigualdade permanente realmente impede que a economia capitalista se desenvolva com um grau razoável de autonomia aqui e assim continuamos sempre tributários das potências dominantes, sempre limitados no poder de compra das massas locais, sempre em ciclos de avanços e grandes derrocadas. Uma economia que pode até chegar a ser pujante, circunstancialmente, mas com ganhos muito limitados para as massas e que termina sempre resultando em ciclos de grande perda e empobrecimento. Parece que o fascismo é uma forma natural ou até necessária à imposição do poder, nessas condições de desigualdade extrema, o fascismo político aberto, nos nossos momentos de ditadura capitalista, ou o fascismo nosso cotidiano, na polícia, no judiciário, na medicina, na mídia, nos serviços e nas pessoas, no dia a dia, mesmo nos nossos momentos de democracia. A violência econômica extrema se impõe, quase que necessariamente, por meios extremamente violentos. Aqui, a democracia, o estado democrático de direito, é quase sempre impotente, grande parte do tempo é apenas uma esperança ou uma verdadeira farsa diante desta base de violência extrema no nosso sistema econômico. E é por isto que aqui as práticas do fascismo sempre estão presentes em um nível inaceitável para os países democráticos, civilizados. A relação entre a violência política e a violência econômica, entre nós, também se mostra no fato de que os dois golpes de estado efetivos mais recentes, aqui no Brasil, ocorreram justamente quando a desigualdade social atingia um mínimo histórico e, ambos, foram muito bem sucedidos em impor uma política econômica de intenso aumento da concentração da riqueza. Tanto nos anos 60 do século passado, como nos anos 10 do nosso século, foi justamente isto o que aconteceu, o golpe veio para interromper e reverter o ciclo de redistribuição de riqueza que tinha atingido o máximo aceitável pelos detentores do poder aqui.
Talvez se deva fazer, agora, a seguinte pergunta: então os próprios países ricos, democráticos e civilizados e o sistema, como um todo, não podem mesmo regredir ao nível de desigualdade, corrupção e violência dos países secundários e subalternos no sistema mundial, como é o caso do Brasil? Ao invés de nós, aqui e nos outros países da periferia, avançarmos para os níveis mais civilizados dentro do sistema capitalista mundial e ao invés do sistema, como um todo, seguir avançando em sentido civilizatório, o que nós estamos vendo não é justamente o contrário, a regressão dos países centrais à condição de economias de extrema desigualdade e diversas formas de neofascismo político e, quem sabe, de um neofeudalismo econômico?
A minha resposta tem sido sempre não e, consistentemente, não, ainda que a gente tenha que passar pelo avanço ainda maior do fascismo nos países centrais da aliança dos EUA e ainda que a gente tenha que passar por grandes guerras que naturalmente daí sucederão. Estamos em um nível alto de risco de que isto realmente aconteça. Está acontecendo, já. Mas, ainda em um nível limitado. O fascismo não se impôs abertamente em nenhum destes países e provavelmente isto não acontecerá. A guerra, por enquanto, é “apenas” comercial ou econômica, em geral, ou está limitada à Ucrânia, Palestina, Congo e mais uma ou outra guerra localizada deste tipo, aqui e ali, com o número de mortes ainda limitados, diante dos números do século passado, por exemplo. Mas, todo mundo sente que estamos realmente em um risco maior, como naquela situação grave em que idiotas, sentados cada qual em seu barril de pólvora, se provocam mutuamente. Algo muito ruim pode ocorrer a qualquer momento. Mas, não parece que vai ocorrer agora, ainda, pelo menos.
Ainda que isto ocorresse, a solução de uma crise econômica capitalista de realização generalizada, como a atual, não pode ser e não será de regressão a uma condição geral de maior desigualdade e formas mais autoritárias e violentas de imposição do poder. Ao contrário, justamente ao contrário. Mesmo que a gente tenha que passar por um franco momento neo facista, de real imposição autocrática, aberta, do poder, em alguns países da aliança dos EUA, e mesmo que isto nos conduza a guerras bem maiores e mais destrutivas que as atuais, a saída da crise atual se dará por um novo ciclo de redistribuição de riquezas e de avanços socializantes no sistema econômico e social mundial, em geral.
Efetivamente, eu não acredito nem mesmo que a gente sequer vá passar por estes dramas mais extremos, ainda que o risco tenha aumentado muito e seja crescente. Os meus motivos para esta análise, ao fim, se concentram na própria natureza da economia capitalista e no seu estágio atual de desenvolvimento, como um sistema econômico mundial.
Vamos considerar primeiro o estágio atual da economia mundial, ou, do sistema, ainda, capitalista, mundial. A integração da produção, das cadeias produtivas, financeiras e de consumo, mundiais, de um modo especial com o desenvolvimento das tecnologias digitais e da internet, a integração internacional, econômica e social, associada a todos estes desenvolvimentos, tudo isto se coloca como uma rede de proteção, com a força e o poder da necessidade econômica e da vida cotidiana, contra os delírios fascistas, imperialistas e belicistas que já estão em alta, nos centros hegemônicos de poder, e ainda estarão por um bom tempo. Com relação à lógica própria do capitalismo, o fato é que ela impele ao desenvolvimento e mundialização da produção, mesmo que, em certos momentos, isto seja contrário à vontade expressa de seus representantes. Portanto, a violência econômica e militar da imposição imperialista é, ela também, apenas mais um limite, ou, uma forma limitada, para o desenvolvimento econômico mundial, para o desenvolvimento do sistema econômico mundial, e, como tal, deve ser negada pelo próprio avanço do sistema. Parece, claramente, muito difícil a aliança hegemônica dos EUA optar pela guerra imperialista sem limites, contra a Rússia e a China, porque o nível de desenvolvimento e integração da economia mundial já não é mais compatível com a postura imperialista e belicista plena, dos séculos 19 e 20, quando o sistema capitalista mundial ainda engatinhava em termos de sua integração mundial, comparado à realidade atual. Como consequência, por exemplo, as próprias corporações capitalistas transnacionais, dos setores produtivos, do comércio e aquelas do próprio sistema financeiro mundial vão se contrapor, ainda que com muitas contradições, às piores tendências do governo dos EUA contra a mundialização da produção e em favor das guerras. A posição geopolítica e econômica contra a mundialização é, hoje, muito mais anacrônica do que era há 100 anos e isto se mostra e se mostrará, mais ainda nos próximos anos, nas decisões estratégicas de mercado.
Nada disto seria, talvez, suficiente para evitar o pior da crise mundial, se não houvesse, já, se desenvolvido, dentro do próprio sistema capitalista mundial, um polo complementar e alternativo ao poder hegemônico dos EUA. As piores previsões distópicas, a possibilidade de um longo período, de várias décadas ou até mais de um século, com a permanência de extremos de desigualdade dentro dos centros da aliança dos EUA e com a regressão de todo o sistema para um longo período de domínio do fascismo, com guerras mais ou menos generalizadas e contínuas, tudo isto seria mais provável se não houvesse o polo chinês a se contrapor à tendência da crise, nos EUA e nos outros países principais da aliança hegemônica, arrastar todo o mundo para catástrofes e perdas civilizatórias sucessivas.
A China se contrapõe às tendências mais destrutivas da economia dos EUA na atualidade, simplesmente por ser tão grande no sentido econômico que já é capaz de funcionar como um ponto de apoio para que todo o mundo não tenha que desmoronar, acompanhando uma perda mais extrema na economia estadunidense. De certo modo, o tarifaço do governo dos EUA só reforça esta realidade. Enquanto o governo dos EUA dificulta a integração mundial e chantageia todo o mundo, para pagar as suas contas e para continuar aumentando os ganhos dos mais ricos por lá, o mundo, de um modo geral, encontra na China um parceiro, forte o suficiente e seguro o suficiente, para fazer negócios e alianças estratégicas e atravessar a crise dos EUA de modo mais seguro e positivo o possível. Eventualmente, até, com maior desenvolvimento econômico e ganhos sociais consistentes. Tudo isto afasta as piores possibilidades de expansão e aprofundamento extremos da crise econômica e social, mundialmente, e vai reverberar em favor dos próprios EUA, que não podem, e certamente não querem, se isolar do mundo ou de grandes parcelas do mundo. Ao contrário, todos nós queremos, ainda que de modos extremamente contraditórios, todos nós queremos a integração mundial. Ela é um bem e uma conquista de todos nós.
Além do peso econômico e estratégico que a China já exerce dentro do sistema capitalista mundial, a maior segurança que hoje nós temos, hoje, é que trata-se de uma economia socialista. Não há como negar que a grande economia, aquela que realmente faz frente e está ultrapassando a hegemonia dos EUA no sistema capitalista mundial, é um país socialista. Esta é uma novidade histórica absoluta, muito diferente, por exemplo da condição limitada e secundária da economia do subsistema soviético no século passado. Isto muda tudo e realmente tudo está mudando, agora.
Todos nós temos que estar atentos a isto, dentro do melhor entendimento que pudermos.
As coisas não acontecem na história por nenhum plano que a gente conheça ou possa pressupor, mas, também não é certo dizer que as coisas aconteçam por acaso na história Podemos predizer e atuar no que está em nosso alcance, pelo conhecimento e recursos que temos, e só. Não é um acaso que a China socialista seja a nação que emerge como potência contra hegemônica, neste momento da história, em face aos EUA.
É evidente que a posição da China, sob alguns dos principais aspectos estratégicos não é aquela dos EUA no sistema capitalista mundial. É melhor. As formas de parceria, de financiamento e de negociação, até agora, se mostraram, em geral, melhores com os chineses do que com os europeus e os estadunidenses. Isto ficou claro, já, para uma grande parte dos países. O desenvolvimento chinês está se estendendo, especialmente para o terceiro mundo, de uma maneira bem mais generosa e produtiva do que sob o imperialismo europeu e, especificamente, sob o imperialismo inglês e estadunidense. Não há dúvidas sobre isto, a não ser no nível da propaganda.
Não há dúvidas também, e isto é correlativo ao ponto anterior, que a posição da China é historicamente, bem menos belicista e bem mais de cumprimento dos acordos e das determinações dos órgãos da governança mundial. A perspectiva que a China anuncia é de ampliação das parcerias internacionais e de desenvolvimento da comunidade internacional para um futuro compartilhado. Este nível de responsabilidade histórica com a humanidade, trans geracional, certamente não pode ser atingida de uma perspectiva capitalista liberal, onde o lucro privado tem que ter o lugar de dominância inquestionável e ilimitada, sobre toda a ordem social. A superioridade da responsabilidade social é também da superioridade da responsabilidade ecológica, pois, ao capitalismo liberal é impossível estabelecer os limites necessários à lógica do lucro ilimitado, também no que toca aos riscos e efeitos de poluição e destruição ambiental. A experiência histórica das últimas décadas confirma tudo isto, mostrando como o caminho estratégico que a China descortina para a humanidade é bem superior ao dos EUA e sua aliança hegemônica.
Estas são as razões pelas quais eu posso predizer que vamos avançar em uma nova onda socializante, de modo bem mais suave do que foi no século passado. E, também, de modo muito mais intenso. Podemos prever, sem muita dúvida, que a integração e coordenação da economia mundial e as instituições e serviços de coordenação e governança mundial, em geral, terão um salto qualitativo em relação ao que se viu sob o domínio da hegemonia capitalista dos EUA. Hoje, todo este sistema vacila, mostra sua fragilidade e sua impotência diante das necessidades imperialistas no momento da crise. Mas esta é, apenas, a situação de momento que, justamente, será superada na superação da crise atual.
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