domingo, 7 de dezembro de 2025

A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe

Sala de situação 7 de Dezembro de 2025 A importância estratégica da contenção do avanço militar dos EUA no Caribe Começamos o mês de Novembro e a maior notícia mundial, ou, pelo menos para a nossa região, aqui, segue sendo a ameaça crescente e a intimidação aberta do governo dos EUA contra o governo da Venezuela. A ameaça de ações militares, de maiores proporções, ou de guerra aberta, nunca foi tão grande. Na Europa a guerra se arrasta ainda, de todo modo e o belicismo cresce. Tenho tentado explicar como, agora, a ideologia da guerra é útil à elite capitalista nos países hegemônicos e, principalmente, como a economia da guerra é quase um imperativo, é uma saída imediata, falsa, mas quase irrecusável, em uma grande crise econômica como esta que vivemos, no mundo. Eu escrevi, meses atrás, na ocasião do tarifaço, que as ações dos EUA no atual momento histórico se assemelham àquelas de um leão velho, que já não consegue sustentar o seu poder, mas que ainda tem força para agredir e ferir. Nada mais evidente, neste sentido, do que a violência assassina no Caribe e esta intimidação crescente contra o governo da Venezuela. Hoje ninguém é capaz de prever onde isto vai dar. Mas não importa. Seja como for, a hegemonia dos EUA será superada. Este período está no fim, mais alguns anos ou, até, uma ou duas décadas adiante e já será plenamente claro que os EUA não são mais a potência dominante no mundo. Sob qualquer parâmetro razoável de análise de tendências, a China já pode ser considerada a principal potência mundial, ou o será em breve, numa faixa de 5 a 25 anos, em todas as áreas estratégicas para a humanidade. E o que é mais importante, mais marcante e mais significativo é que esta impressionante troca de hegemonia no mundo não é o fator principal, não é o drive ou a força principal neste momento histórico. Esta mudança geopolítica, espetacular, que estamos todos presenciando, assombrados, nas últimas décadas e, sobretudo, nos últimos anos, não é o centro sísmico das grandes mudanças históricas que estamos vivendo no momento e que vamos viver mais ainda, no futuro próximo. Este centro é mais profundo e mais determinante, é a transição do capitalismo, do capitalismo liberal ou conservador, para o socialismo. Estamos à beira, no início, já, de uma nova onda socializante no sistema mundial, como foi no século passado, principiando anos 20 e 30 e predominando e disseminando-se no sistema, mundial, a partir de 1945. A troca de hegemonia no mundo, ou, pelo menos, a eliminação da hegemonia dos EUA, é um veículo desta mudança profunda. A nova onda socializante será muito mais profunda e decisiva do que a anterior, porque se apoia já sobre os avanços históricos, em termos de direitos sociais e regulação da economia, do mercado financeiro, especialmente, que persistiram mesmo com toda a corrosão neoliberal. Também porque a economia e a vida social já são muito mais integradas mundialmente do que no século passado. E, por fim, porque a nova força surgente, a nova grande potência mundial, a dividir e superar a potência norteamericana, é a China socialista. O governo brasileiro tem que lidar com a hegemonia, com o poderio dos EUA, neste momento extremo, de imposição de força, justamente aqui no nosso subcontinente, dentro de um momento ainda de ascenção das forças fascistas, imperialistas e belicistas no mundo. É andar em gelo muito fino. Tavez dê certo tentar amansar o leão, pra evitar o ataque, mas todos sabemos que amansar um leão agressivo é para muito poucos e tem grande chances de acabar dando muito errado. Trump, se conseguir derrubar o governo da Venezuela, irá se impor mais contra toda a América do Sul, inclusive nós, por maior que seja a capacidade de amansar leões do Lula.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sala de situação Outubro / Novembro 2025 Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul.

Sala de situação Outubro / Novembro 2025 Parte 1. Crise econômica mundial, crescimento do fascismo, do imperialismo e das guerras. O polo contra hegemônico chinês. Foco na situação na América do Sul. Introdução: O momento histórico atual A crise, que atinge principalmente os países ricos e se extende daí para o mundo, vem desde 2007 e tem as características de uma grande crise sistêmica, de realização, em uma economia capítalista. É isso mesmo que se deve esperar, ao fim de uma onda liberalizante na economia, como ocorreu no sistema econômico mundial, desde o início dos anos 1980. A concentração progressiva da renda leva a extremos onde a realização do capital investido passa a se tornar progressivamente mais difícil e, de fato, inviável. Quando isto atinge vários setores e várias regiões, sucessiva e simultaneamente, desencadeia-se a crise sistêmica de realização, que desenvolve círculos viciosos, tendendo para uma espiral recessiva na economia como um todo. A crise leva a rupturas com a ordem social, de vários modos, e, é de se esperar que no seu curso as forças dominantes façam maior uso de recursos extraordinários, institucional e legalmente, e empreguem mais a violência, de vários modos, para defenderem seus interesses. Ou seja, o autoritarismo, o fascismo e o imperialismo, que já existiam, de modo desigual, em todo o sistema, crescem, nestas circunstâncias, necessariamente, se tornam mais extremos e mais explícitos. Estas características e tendências estão, ainda, muito atenuadas, até o momento, dado o uso abundante de recursos públicos, de proteção sistêmica e anticíclicos, lançados às dezenas de trilhões de dólares, em todo o sistema, em ondas, desde 2008. Contudo, os EUA e todos os principais países de sua aliança hegemônica ainda não encontraram um caminho para saírem da crise e, ao, contrário, majoritariamente, mantêm uma linha política que favorece a continuidade da concentração de riquezas. Portanto, a crise deve se aprofundar, se agravar, ainda, por lá. E, por via de consequência, mundialmente. Todas as consequências previsíveis, que tenho descrito sistematicamente, devem persistir e endurecer, no presente e no futuro próximo. E parece que é isto o que está, realmente, acontecendo. O estresse social está eclodindo em todas as regiões do mundo e explodindo em níveis de violência extrema, em vários pontos do planeta. Nas últimas semanas foram várias tentativas de derrubada de governos. A violência assassina, na forma de guerras e de conflitos sociais armados, está atingindo os níveis mais altos das últimas, várias, décadas. A espetacularização da violência se tornou um instrumento de poder mais e mais presente e a guerra se tornou uma alternativa economicamente atrativa. Todo o mundo está aumentando os seus gastos militares e todos governos orgulhosamente vendem isto para os seus cidadãos como a melhor resposta ao desafio do presente. Todos têm que se armar mais, para se protegerem das armas dos potenciais inimigos. Além da força ideológica, de base nacionalista e belicista, este raciocínio e este direcionamento dos recursos sociais têm um forte apelo econômico, nesta condição de crise sistêmica, em que estamos, pois permite algum alívio dentro da espiral recessiva, já que é uma produção contratada, com a realização do capital investido, assegurada. Mas, é uma produção que não pode servir a outro consumo e, portanto, alimentar uma cadeia de produção, que não seja de destruição e morte. Tende a ser um beco sem saída econômico, que, sem outros recursos suficientes para superar a crise, terminará por intensificar a espiral recessiva e destrutiva. Certamente, direcionar para a produção militar mais da capacidade industrial, com todas as cadeias de produção envolvidas, é um alívio econômico imediato. O problema é ter que dar consumo final a grande parte disto, pretendendo manter a indústria e a economia aquecidas pelo setor militar. Ou seja, ao seguir pelo caminho de buscar no setor militar uma proteção contra a espiral recessiva, está se contratando mais destruição e violência, para o presente e para o futuro. Mas, parece que, no curso de uma grande crise como a atual, isto é uma tentação tão grande, que é praticamente inevitável que as forças dominantes lancem mão deste recurso, progressivamente mais. É justamente o que estamos vendo no presente. A Europa está engajada em uma virtual guerra, ou está contratando uma guerra futura, contra a Rússia. O Japão faz provocações inéditas à China sobre o tema de Taiwan. Enquanto os EUA, apesar de todo o discrtuso contrário, não podem parar de promover a guerra e agora voltam o seu foco para o "seu quintal", para a América Latina, primeiro para o Caribe e, depois, sabe-se lá quem será a próxima peça do dominó a cair sob a tutela armada dos EUA. A alegação do combate ao crime, especialmente ao tráfico, elevado à categoria de terrorismo, é a bandeira ideológica que serve como o último recurso para a imposição militar da hegemonia dos EUA na América Latina. Estamos todos, agora, sob ameaça de intervenções armadas dos EUA, com esta alegação. A crise de hegemonia dos EUA e o fracasso do sistema da ONU versus a ascensão do polo contra hegemônico chinês As instituições globais, mundiais, o Sistema ONU e instituições associadas, se mostram incapazes para dar uma resposta coordenada, efetiva e razoável, a qualquer aspecto relevante da grande crise atual. Falharam na Covid, falham na guerra comercial e falham, sobretudo, nas guerras propriamente e na violência internacional imperialista. Não têm relevância, não têm voz ativa, neste momento de crise. De fato, hoje, é a ascensão do polo contra-hegemônico chinês, que constitui um dos elementos determinantes, que dão base, para uma saída da crise sem que a gente tenha que passar por extremos ainda muito mais destrutivos. O aprendizado histórico, o estágio atual da integração produtiva e geral da humanidade e o polo contra-hegmônico socialista, chinês, permitem predizer que, apesar de todas as forças e tendências recessivas e destrutivas para as economias e sociedades no sistema mundial, temos uma forte base para sairmos desta crise com menos destruitividade do que na anterior, da primeira metade do século passado. O momento histórico atual é de queda progressiva de poder dos EUA e aliados, em face do poder crescente da China e aliados, no curso de uma grande crise econômico-social do sistema capítalista mundial. Os EUA , tentam, a todo custo, sustentar o seu poder, a sua hegemonia econômica e geopolítica. Por mais que se proponha e se busque construir uma mundialidade multilateral, plural e justa, não podemos ignorar a formação desta polarização mundial. Seja enquanto nação, seja no plano pessoal, em diversos setores e processos estratégicos, teremos que decidir entre dois subsistemas alternativos: o polo dos EUA ou o polo da China. Isto ainda não aparece com toda a força em nosso cotidiano, mas é inevitável que sua presença seja cada vez maior. Tanto no plano econômico quanto no militar, é apenas pela existência do polo contra-hegemônico chinês e russo, que a Venezuela, eventualmente, e, talvez, também, a Colômbia poderão oferecer alguma resistência militar e política real, ou, até, conseguir dissuadir os EUA de ataques militares contra eles, que parece já estarem contratados. E talvez isto seja o fator decisivo para evitar uma expansão da tutela militar dos EUA contra todos os países da América Latina, especialmente contra o Brasil, com todas as piores consequências, locais e mundiais, que isto teria. Agora, cada batalha será fundamental, tanto no plano militar, quanto em todos os outros planos estratégicos como logística, comunicação, ciência, tecnologia e suas cadeias de produção. E quanto mais rápido e mais decididamente países como o Brasil assumirem uma maior parceria estratégica com a China e o polo contra-hemônico, em detrimento do polo hegemônico em torno dos EUA, melhor para a humanidade. Tenho sempre destacado esta importância extrema do polo contra-hegemônico chinês. Do ponto de vista econômico, é uma garantia de que o sistema como um todo pode passar com os menores danos, ou seja, relativamente ao largo, pela grande crise atual, por ter um polo que já se tornou forte o suficiente para minorar em muito os efeitos sistêmicos mais drásticos da crise nas economias hegemônicas atuais. Em qualquer aspecto que se considerar a economia mundial, é verdade que a China já constitui um contraponto real e que já está à frente dos EUA e seus aliados, na ciência e na tecnologia, em grande parte dos setores produtivos. A China já é o maior centro industrial e tecnológico mundial, em cadeias produtivas e de comércio com praticamente todos os países do mundo e segue avançando, intensamente, em integração logística e produtiva em praticamente todo o mundo. Esta é, obviamente, a base real para que a China seja, também em geopolítica, o principal agente do polo contra-hegemônico Sob o aspecto militar, no entanto, parece claro que é apenas pela parceria com a Rússia que a China tem poder para se contrapor ao polo dos EUA e aliados, hoje. Está cada vez mais clara a contraposição entre estes dois polos e quem está em cada um dos dois lados. É inteligível que o Brasil, a Índia, a Indonésia e outros países com peso médio no cenário mundial vacilem entre estes dois polos e até procurem levar a maior vantagem dos dois lados em conflito. Essa posição de independência e esperteza pode não se sustentar, contudo, na medida em que as tensões e os conflitos se avolumam e intensificam, nos diversos setores estratégicos, como eu estou destacando. Aí teremos que decidir e devemos ter claro a importância desta decisão, inclusive para assegurar a nossa autonomia nacional, que, no momento, não está tutelada e ameaçada pela Rússia ou pela China, mas pelos EUA. A diferença que faz a China ser socialista É porque é uma economia socialista, e não é apenas por seu peso econômico e militar, que a China constitui o centro de um polo contra hegemônico mundial que deverá conduzir o mundo para além da crise presente, para uma sociabilidade melhor, mundialmente, com melhora geral de qualidade de vida e do acesso à riqueza para as massas e com muito maior coordenação da economia e da vida social, em geral, a nível mundial. No presente, a inserção da China no sistema econômico mundial se mostra, já se comprova, completamente diferente daquela das grandes potências capitalistas imperialistas. Esta crise deve nos levar, mesmo, a um nível muito maior de integração mundial e sob um direcionamento geral muito mais socialista do que tivemos até agora, tendo, por isto mesmo, a China socialista, a grande potência emergente deste momento, um papel fundamental. A importância da China para a contenção do fascismo e a conquista da paz Em boa medida, o maior desafio do presente é a conquista e a garantia da paz, ou, pelo menos, a conteção da guerra e da violência fascista, ao máximo. Porque as forças dominantes estão sendo empurradas, por si mesmas, para este sentido trágico. Novamente, contamos em muito com a China para a garantia da paz mundial. Mas sabemos o quanto ela será mais e mais provocada. A China já é o alvo principal de uma guerra estratégica e econômica, tarifária e de sanções, dos EUA. A contenção da China é, certamente, o principal objetivo estratégico dos EUA, hoje. Mas, ao revés, ao contrário, é justamente da permanência do desenvolvimento chinês que todos nós precisamos, justamente, para limitar e até superar os efeitos das tendências regressivas da economia e da política nos países ricos, da aliança hegemônica dos EUA. Exemplar desta estratégia de contenção da China e do nível da crise, do nível de insanidade em que estamos, nesta crise, foi a tentativa de retomada, ilegal, da Nexperia, pelo governo da Holanda, sob a alegação de risco à segurança nacional, contra o controle empresarial chinês da empresa, que é estratégica na produção de chips, especialmente para automóveis, que funciona na Holanda. Voltarei a este assunto adiante. Um momento de turning point A compreensão da relevância estratégica, absolutamente decisiva, dos eventos atuais e dos que virão em um período próximo, de sua origem e das forças em movimento, no momento, é, deve ser, o melhor recurso que temos para nos posicionarmos de modo positivo e até decisivo neste processo histórico mundial. Em todos os processos desta monta e características existem momentos decisivos e turning points, onde a resolução alternativa dos eventos vai definir toda a sequência restante, até a resolução da crise. Eu tenho para mim que a resultado da guerra civil espanhola, com a vitória do fascismo, foi um fator decisivo para todo o horror que veio depois, ainda que, talvez, ele fosse mesmo inevitável. Assim como naquela época, trata-se de barrar o fascismo e o imperialismo, de conquistar e garantir a paz. Agora, a contenção da atual ofensiva militar dos EUA sobre a América Latina, no seu nascedouro, no Caribe, pela resistência, pela dissuasão, poderá ter uma importância estratégica, no sentido de contenção do fascismo. O fascismo e o imperialismo não podem avançar. Devem ser contidos, de todo modo, e deve-se buscar, de maneira equivalente, o fim das guerras. Mas, como cumprir estas duas tarefas, ou necessidades históricas, que parecem realmente contraditórias? Não posso ter uma resposta completa, mas já delineei a minha visão estratégica. Aquilo que fortalecer a hegemonia decadente favorecerá, ao fim, também, à crise, à ascensão do fascismo, do imperialismo e à guerra. A vitória estratégica dos EUA, em todo e qualquer plano e área, da produção e da geopolitica, bélica ou tecnológica, reforça o polo que hoje tende a conduzir a humanidade para a recessão, para o fascismo e para a guerra. A cada momento podemos ter uma interpretação tática diferente em relação a isto e é claro que não se pode romper, direta e imediatamente, com as parcerias e dependências que países como o Brasil e a Índia, por exemplo, têm em relação ao polo hegmônico dos EUA. Com certeza, temos que lidar com essa realidade, mas não podemos perder de vista o norte estratégico que é independência, a negação e a superação da dependência e subordinação que temos, em relação aos EUA e seus parceiros hegemônicos. Sob nenhuma hipótese poderemos ter autonomia real diante destas forças imperialistas, fora da parceria com a China. Isto seria realmente impossível se não houvesse, já, o bloco contra hegemônico chinês. Não temos, contudo, que sair da subordinação a uma potência imperialista, para outra. Não temos nem mesmo que conceber que haverá um novo polo hegemônico imperialista. Não temos, portanto, que nos posicionarmos de modo alinhado a um polo imperialista contra o outro. Devemos, ao contrário, desenvolver os novos mecanismos e instituições multilaterais, mundiais. Isto é verdade! Ocorre que não faremos nada disto se o poder da aliança hegemônica atual se impuser de modo ainda mais violento e se encaminhar, enfim, para o autoritarismo, para a violência política e para as guerras, tendências que são, hoje, ao meu ver, extremamente fortes, ou, já, francamente predominantes, no cenário econômico e politico dentro dos EUA e aliados. Essas são as razões pelas quais não devemos vacilar nas decisões estratégicas atuais. Não sei, contudo, se a estrutura social e política brasileira está preparada para isto, agora. A simples passagem do tempo, sem maiores guerras e catástrofes econômicas mundiais, fala muito a favor do polo chinês. A China é, hoje, o país que mais defende, o que mais investe, o que melhor se desenvolve e direciona a globalização mundial, ao contrário dos EUA que toma, cada vez mais, posições regressivas, contrárias à integração mundial. A integração e o desenvolvimento mundiais, da produção e da vida humana, em geral, continuam ocorrendo, e de um modo bem mais positivo para os países de renda baixa e média, nas parcerias com a China. Já não é póssível negar isto e o mundo dos países hegemônicos, em luta contra suas próprias crises, é incapaz de contrapor uma estratégia alternativa de desenvolvimento para os mais diversos países e regiões do mundo, na atualidade. A derrota relativa da aliança hegemônica no plano mundial, neste campo da economia, da integração e do desenvolvimento econômico, é cada vez mais patente. E estas devem ser, ao fim, as principais forças a conter e superar as tendências destrutivas mais extremas, que estão se avolumando nos países ricos, nos páíses da aliança hegemônica dos EUA. A situação no Brasil: o fascismo sempre rondando e sempre presente Especificamente para nós, aqui no Brasil, justamente quando parecia que o fascismo, na sua forma política nacional atual, estaria sendo derrotado, ele renasce, fortalecido, com dois eventos estrategicamente concomitantes: as ameaças e ações militares, crescentes, dos EUA no Caribe e o maior banho de sangue da história recente em favelas no Rio de Janeiro. Aqui, o fascismo nosso de cada dia jamais foi derrotado. Isto é algo que eu repito sempre. O fascismo está sempre fortemente presente, por exemplo, nas instiuições, nas políticas e ações de segurança, sob a bandeira de combate ao crime, especialmente ao tráfico de drogas. Aí o fascismo contamina e até predomina em todos os elos da cadeia institucional, da área judicial até a área médica, passando pelas polícias e sistema carcerário. Como contraparte, predomina também a corrupção. Isto é uma nossa condenação histórica, até agora tem sido. Mas, agora, é diferente e mais perigoso, pois estamos em um movimento mundial. A última arma, o último recurso e a última fortaleza da doutrina liberal burguesa é o estado de exceção, a violência política e militar, o fascismo, o imperialismo e a guerra. A falsa bandeira da guerra contra as drogas, contra o tráfico de drogas, se presta perfeitamente para isto. As ações e tendências recessivas, contra o livre comércio mundial e anti globalização, versus a integração da economia mundial. A batalha dos chips e a batalha das terras raras. Agora já se mostram a redução, as paralisias e quebras parciais de cadeias produtivas e comerciais, os efeitos recessivos, do tarifaço e das várias sanções e restrições ao livre comércio e investimento, mundo afora, impostos na verdadeira guerra econômica que o governo dos EUA inciou, ou que, certamente, acentuou drasticamente, neste ano. Creio, no entanto, que duas batalhas neste cenário econômico e geopolítico atual já estão comprovando a minha hipótese de que a integração econômica, em todos os aspectos e, sobretudo, a integração produtiva, é tão grande hoje que forma uma verdadeira rede protetora, contra as piores tendências recessivas e de quebra das cadeias produtivas que são crescentes nos países da aliança hegemônica dos EUA. Nos confrontos mundiais em torno à questão da produção e distribuição das terras raras e dos chips, a interdependência das economias nacionais, mundo afora, em um verdadeiro sistema econômico mundial, se mostra tão grande que a sua ruptura resultaria em quebras imensas nas capacidades produtivas em todo o sistema. Quebras de tal monta que não é aceitável manter a guerra econômica nos níveis extremos, ao menos não nestas áreas. Destaca-se também que em todos estes pontos, nos conflitos atuais, como no caso da Nexperia e no mercado de terras raras, a posição de predomínio, quem teve a vantagem estratégica, foi a China, para o bem da continuidade da integração produtiva mundial e com um grande potencial para evitar, inclusive as guerras, já que a produção de tecnologia militar de ponta é completamente dependente destes dois setores de produção globalizada. O caso da Nexperia exemplifica, mais uma vez, fortemente, o nível de irracionalidade que vem dominando as principais lideranças dos países ricos, o que é, repito, completamente esperado em condições de crise sistêmica, generalizada, como a atual. E, mais ainda, é outro exemplo categórico de como estas decisões irracionais e absurdas, terminam levando para dificuldades, paralizações e quebras em cadeias produtivas, ou seja, levando, enfim, a mais dificuldade para a economia, para o desenvolvimento econômico, fortalecendo a espiral recessiva. O shutdown do governo americano também é mais um indicador da gravidade da situação de crise em que nos encontramos atualmente. Já ocorreram alguns casos de shutdown antes, é certo, mas o atual foi o maior da história. A seu modo, isto também leva mais lenha para a fogueira recessiva, também promove alguma redução no fluxo normal da economia nos EUA. A "economia em K" e sua superação Ainda é cedo para definir com segurança quais são os resultados finais da grande guerra tarifária que o governo dos EUA lançou contra o mundo, seja sobre a própria economia dos EUA, seja sobre a economia global. Parte deles só se mostrará mais plenamente no ano que vem e nos anos seguintes. Com relação à situação dos EUA temos, hoje, indicadores contraditórios, com o PIB do último trimestre e as bolsas projetando otimismo sobre a economia do país, enquanto os dados de emprego e do consumo das famílias indicam em sentido contrário. Alguns analistas estão chamando este momento, que é a crise final da onda neoliberal, em que nos encontramos agora, de economia em K, que cresce para os setores superiores e cai para os mais pobres. Esta é uma descrição correta do presente e se mostra como característica da onda liberal, conservadora, atingindo extremos neste momento final da crise, como estou insistindo. A minha análise, como tenho reiterado, é que os EUA continuam mantendo a aposta irracional em promover ainda mais concentração de riquezas, quando a crise está fundada justamente nisto. E, ao fim, as fortes tendências recessivas terão que prevalecer, enquanto a questão distributiva não for direta e fortemente atacada, enquanto não se reverterem as políticas concentracionistas atuais. Do mesmo modo, as ações estadunidenses contra o livre comércio internacional, terminam por produzir uma forte onda regressiva na economia dos próprios EUA e do mundo como um todo. Como também tenho reiterado, estas forças e estas fortes tendências recessivas, regressivas, na economia mundial, são contrarrestadas pelo nivel de integração da economia mundial atual e pela posição estratégica da China, do polo contra hegemônico. Do balanço destes dois conjuntos de forças opostas resultará o caminho do desenvolvimento futuro, nos próximos anos e décadas, ele determinará a velocidade do processo e se teremos ou não que passar por extremos de destrutividade ainda muito maiores. Mas, ao fim, este processo conduzirá, repito, para uma maior socialização do sistema econômico mundial, com redistribuição de riqueza e mais integração produtiva e social, mundial.