sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Sala de Situação 09/2015

Sala de Situação 09/2025 Parte 1 Minhas previsões, ou as tendências que eu venho indicando, desde os fins dos anos da pandemia e a partir da emergência da guerra da Ucrânia, sobretudo, estão sendo confirmadas. Ninguém foi, ou é, capaz, ainda hoje, de parar as guerras que já se tornaram realmente catastróficas, seja pela quantidade de mortes de combatentes ou pelo caráter genocida. A aliança hegemônica se enfraquece, apesar de todos os seus esforços para conter a decadência. Os governos da Europa, apodrecidos pela crise econômica, tomam a frente do partido da guerra, como é de se esperar dos líderes políticos capitalistas, ao fim das grandes crises sistêmicas. Os EUA tentam endurecer a sua posição, rugindo e ameaçando, buscando se impor pela força e pelo medo, como um leão velho, que ainda tem seus últimos momentos de poder. Como também era de se esperar, isto já está resultando em mais desconfiança e contraposição em relação aos EUA e seus aliados e em mais deslocamento de parcerias e alianças em direção a um eixo contra-hegemônico, que se forma em torno da China. Já não há saída para as estratégias de poder da aliança hegemônica decadente e ela se arrasta em crises econômicas e sociais, com a reação quasi-natural de tentativas de imposição de poder e guerras, em contraposição ao vetor de desenvolvimento e parcerias de ganho mútuo do polo contra-hegemônico. Como em qualquer briga de gangs, acertar primeiro os mais fracos entre os elos importantes do adversário é tático e, por isso, Brasil e Índia se tornaram os alvos principais da guerra tarifária dos EUA, no momento. Foram identificados como potenciais elos fracos na aliança contra-hegemônica mundial. É certo dizer que EUA, EU com Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Israel, além de Filipinas, Taiwan, Arábia e outros, fazem a aliança hegemônica atual. Também continua sendo certo dizer que a China com a Rússia e sua zona de influência imediata, a Coreia do Norte, Irã, Paquistão e alguns outros, perfazem uma aliança contra hegemônica atual. Ficam como países pêndulo, decisivos, por seu peso econômico, estratégico, populacional e, portanto, geopolítico: justamente, em primeiro lugar, a Índia e o Brasil, seguidos da Indonésia, da Nigéria, África do Sul e, na verdade, toda a África, e, também, até mesmo parte da Europa Oriental e Central. Estes seriam os países e regiões pêndulo mais decisivas e cada vez parece mais claro, mais consistente, que este pêndulo está se dirigindo ao eixo chinês, sino-russo, ou, multipolar, se você quiser, dos Brics e da SCO etc. O Sudeste da Ásia tem tal integração econômica com a China que se atrai de modo inegável ao seu polo; a África, com apoio militar russo e investimento chinês, está passando por novos processos decoloniais; vários países da Europa Oriental se alinham abertamente à Rússia e à aliança em torno à China; a Indonésia parece, também, estar tão entrelaçada economicamente com a China, agora, e em franco desenvolvimento com isto, que não deve voltar atrás. Até mesmo o Brasil e a Índia, os elos relevantes mais fracos, na visão estratégica do governo dos EUA, parece que já se decidiram a não ceder à pressão do tarifaço e de sanções diretas e vão seguir aproveitando as vantagens estratégicas da parceria econômica com a China e a Rússia e com restante do mundo. Já existem bons indícios de que tanto o Brasil quanto a Índia estão, de fato, em uma rota de aproximação politica e estratégica com o novo eixo contra-hegemônico. Por fim, até mesmo as áreas de influência e controle mais imediatos e, aparentemente, inquestionáveis dos EUA, como o México e o Canadá e o restante das Américas, tudo isto agora está muito balançado e, certamente, muito mais propenso a assumir posições de soberania e muito mais próximo, portanto, do polo motor chinês. Parece claro, portanto, que, independente do quanto isto ainda vai custar, a substituição da ordem mundial atual está em curso avançado e imparável e o domínio da aliança hegemônica polarizada pelos EUA terminará sendo superado por uma nova ordem, polarizada pela China. O Brasil tem, sob os dois aspectos sinalizados acima, importância real neste processo. Primeiro, por ser um dos países pêndulo mais importantes nesta disputa pela hegemonia, pela ordem mundial, com algum peso real na definição deste processo, ou, pelo menos, em seu ritmo e seu custo. Portanto, a posição do Brasil, seu direcionamento estratégico na economia e na geopolítica mundiais, mesmo na ausência de poderio militar relevante, é de grande importância para o desenrolar deste processo histórico que, de todo modo, parece inevitável. Ainda mais por ser um dos países do quintal dos EUA, como eles sempre consideraram e agora querem nos impor, ou reimpor. Se o Brasil se decidir e se mantiver firme em uma posição de parceria econômica e estratégica com o polo chinês, mais rápida e mais suavemente este processo se dará. Quanto mais o Brasil vacilar neste sentido, mais ele dará, ainda, forças ao poder decadente e mais acrescentará risco de maiores crises e de guerras mundiais, que são, ao fim, a última estratégia de uma aliança decadente para permanecer no poder. Não deve haver dúvida de que esta estratégia será tentada, mesmo que ela seja estúpida e verdadeiramente suicida. Veja-se como os governos na Europa-Reino Unido se tornaram, hoje, os verdadeiros arautos, propulsores e defensores da guerra. O poder dos EUA, também, obviamente, não deixa nunca de se sustentar na guerra, apesar da retórica contraditória do governo atual, que, certamente, ainda não está no estágio de franco delírio suicida, como boa parte da Europa já se encontra. Mas, certamente também chegará a isto no processo de sua decadência relativa, se não for obrigado a se conter, por forças externas ou revoltas internas. Dois são os fatores históricos, objetivos, que impulsionam esta crise global atual e determinam a sua resolução, que, aos poucos, já vai se configurando. Em primeiro lugar, a crise econômica sistêmica do capitalismo mundial, que se desdobra desde 2007 e que chega agora a limites extremos, apesar de todas as políticas anticíclicas e de proteção social às quais os mais diversos países têm lançado mão, reiteradamente, desde então. Dentro da ordem política atual, as medidas anticíclicas e os recursos de proteção social estão atingindo, ou já atingiram, um limite político e financeiro, imposto pela dívida pública, hoje já em condições de franca crise, ou muito próximo disto, em grande parte dos países da aliança hegemônica, especialmente na Europa, mas também nos EUA. Portanto, não parece haver qualquer perspectiva favorável para novas rodadas de injeção generosa de recursos públicos para salvar as economias em crise. A crise extrema leva a medidas extremas e é o que se vê nas ações dos governos tanto na EU quanto nos EUA, onde já é aparente o desespero, a tentativa desesperada de tomar as rédeas da situação e um direcionamento cada vez maior para o confronto, para a imposição de poder, para a intimidação e para a guerra. Ainda não estão claros todos os efeitos do tarifaço do governo dos US, mas algumas coisas já estão suficientemente manifestas. É certo que provocou uma reação mundial de busca de diversificação e ampliação de mercados internacionais e realização de acordos comerciais, bilaterais ou multilaterais, assim como o fortalecimento dos organismos ou instituições multilaterais polarizadas pela China, como os Brics e a SCO. Isto irá, portanto, também, redirecionar fluxos de investimentos e cadeias produtivas mais intensamente, agora, do que antes. Certamente, em detrimento relativo do polo hegemônico atual e em favor da diversificação, sim, mas, polarizada pela China. A tendência histórica é de mais integração da economia mundial e a tentativa contra tendencial dos EUA, de regredirem para uma economia mais protecionista e isolacionista, com medidas antiglobalização e de decoupling, parece que, paradoxalmente, se reverterá em um benefício para o mundo, com um maior florescimento de uma economia mundial ainda mais globalizada, ainda mais integrada, e com redução ainda maior da participação, do peso, do poder econômico relativo dos EUA. Como sempre, os processos históricos se impõem às vontades e, muitas vezes, realmente, se impõem de tal modo que as ações terminam, paradoxalmente, levando aos resultados opostos e acelerando aquilo que pretendiam interromper ou evitar. A solução da crise econômica sistêmica atual certamente passa pela maior e melhor integração mundial da economia e da vida social em geral e a ação isolacionista dos EUA vai resultar em aceleração deste processo, assim como da perda da hegemonia dos EUA. Vamos nos encaminhando para isto e todos os balões de ensaio e tentativas parciais, limitadas, insuficientes e enviezadas, de estabelecer bases organizacionais para esta maior integração mundial, desde as instituições de Bretton Woods e todo o sistema ONU, passando pelos diversos sistemas de integração financeira mundial, pela OMC e até mesmo por todas iniciativas multipolares das últimas décadas, tudo isto irá, agora, convergir progressivamente, para a proposta chinesa de uma nova governança mundial. Iremos certamente para isto, por mais que o polo hegemônico decadente resista e se contraponha. O fato de ser a China quem anuncia oficialmente, de modo aberto, explícito, esta necessidade e este projeto, é fundamental, é definidor, pois, é ela, certamente, o polo motor, o poder econômico que polariza e dá o impulso e o direcionamento do desenvolvimento econômico e social deste novo momento histórico, que estamos começando a viver no mundo. É porque a China, já há um bom tempo, se tornou o maior produtor industrial e o principal ator no comércio mundial, sendo o principal parceiro comercial da grande maior parte dos países, em todo o mundo, que os atos de força dos EUA e da aliança hegemônica, já não conseguem mais se impor e determinar a ordem mundial. Portanto, é apenas por isto que países como o Brasil e a Índia e até mesmo o México, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul e a própria Europa poderão conquistar níveis mais elevados de autonomia, de soberania, em relação à hegemonia dos EUA. É, também, justamente por causa desta ascensão, que teremos uma nova integração e coordenação econômica mundial, ao invés do caos imposto pelas ações anti-globalização e imperialistas que caracterizam a política econômica e estratégica dos EUA, no momento. É certo, contudo, que teremos ainda muitos anos adiante em que prevalecerá uma dupla hegemonia, ou uma real bipolaridade geopolítica, muito mais verdadeira do que que aquela que teria havido no período da União Soviética, que nunca ameaçou de fato a hegemonia econômica dos EUA. Teremos, por muitos anos ainda, a China e os EUA como os grandes polos econômicos e geopolíticos, complementares e antagônicos, no sistema mundial. Por um bom tempo ainda, os EUA e os outros membros da aliança hegemônica serão os países com a população mais rica do mundo, constituindo grandes mercados consumidores mundiais e também reterão algum predomínio na estrutura informacional e financeira do mundo. Mas, isto tudo está se modificando de modo cada vez mais definitivo, já com a evidência clara de que, do ponto de vista tecnológico, industrial e militar, o que é, enfim, praticamente a mesma coisa, já não há vantagem para a aliança hegemônica, ou ao contrário, esta vantagem já está claramente pendendo para o polo contra hegemônico. Ainda que seja muito interessante para o Brasil fazer o discurso de sua autonomia e soberania, o fato é que não poderemos nos furtar a assumir escolhas históricas estruturantes dentro da conformação da ordem mundial, que se desenvolve neste momento histórico. Em todos os aspectos estratégicos que envolvem a tecnologia e o poderio financeiro, militar e a própria institucionalidade mundial, não poderemos evitar a polarização entre as forças hegemônicas, com o predomínio dos EUA, e as forças contra hegemônicas, com o predomínio da China. Simplesmente a realidade se imporá e teremos que nos desligar, refazer e refundar as estruturas do passado, sob a hegemonia dos EUA e aliados, sempre, inevitavelmente, tendo a China como motor e esteio principal desta nova ordem, destas novas estruturas e instituições, os novos sistemas estratégicos globais, informacionais, financeiros, monetários, sanitários, militares etc. Quanto mais decidida e rapidamente o mundo, a Índia e o Brasil, em especial, com a importância destacada acima, marcharem para esta direção e objetivamente realizarem estas grandes transformações na estrutura do sistema mundial, mais cedo sairemos da crise e mais nos afastaremos do risco das grandes guerras. Ao contrário, quanto mais nos tardarmos para isto, mais este risco e sua realidade se farão presentes, como já está ocorrendo. Seja como for, a necessidade da maior e melhor coordenação da economia em nível mundial terminará por se impor, porque ela é requerida pelo próprio desenvolvimento produtivo, tecnológico, da humanidade, no presente. As características regressivas das políticas atuais dos EUA podem retardar estes processos e, talvez, até travar a economia mundial, o que de fato só poderia ocorrer com grandes crises sociais e, ao fim, com guerras, mas, mesmo assim, não podem reverter o curso da história. A emergência da China Socialista como a grande potência econômica mundial me torna racionalmente muito esperançoso de que não teremos que passar por processos ainda mais dolorosos e destrutivos do que o que já está em curso. O caráter socialista desta nova potência indica, fortemente, que a nova ordem mundial terá um caráter distinto do que foi até aqui a realidade histórica no sistema capitalista mundial, indica de fato que ela não será colonialista, nem imperialista. Não há como se dissociar a crise atual do imperialismo, dos EUA e sua aliança hegemônica, da crise atual do sistema capitalista mundial. Esta crise atual tem sua origem nas décadas de concentração de riqueza e empobrecimento relativo das massas no mundo em geral e, em especial, nas economias centrais da própria aliança hegemônica, que marcaram, e ainda marcam, a onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Os níveis de concentração da riqueza se tornaram extremos, até o ponto em que a própria possibilidade de consumo, de novo consumo, essencialmente, das massas, se tornou insuficiente para a realização adequada dos investimentos, levando a um estresse contínuo e progressivo nas próprias economias centrais do mundo capitalista, caracterizado por uma queda persistente nas taxas de crescimento econômico e picos recessivos, mesmo com os trilhões de dólares injetados pelos governos nas economias, desde 2008. A resolução desta crise terá que passar por uma nova redistribuição das riquezas, nas próprias economias centrais do sistema capitalista e mundo afora, aumentando significativamente o acesso a bens e serviços para as massas. Não há, a meu ver, como evitar o desenvolvimento desta nova onda socializante, com maior controle e coordenação da economia mundial e grande redistribuição das riquezas, a não ser na hipótese de crises apocalípticas, causadas por grandes guerras mundiais e ou cataclismos ecológicos, com destruição extensa e intensa das principais economias do mundo, levando a um verdadeiro rebaixamento do padrão civilizatório global da humanidade. Novamente, é a emergência da China Socialista que parece nos garantir que não teremos este destino tão cruel nas próximas décadas. Parte 2 A situação se agrava, dramaticamente, na Europa. Crises sociais abertas já se mostram na França, enquanto a crise fiscal e a tensão social se intensificam, em muito, também na Inglaterra. Como previsto, não há uma resposta razoável por parte do poder político na Europa, nem nos EUA. Ao contrário, a antiga aliança hegemônica transparece ainda mais destinada a uma rota decadente, ao adotar o aumento de gastos militares, a manutenção dos extremos de concentração de riqueza e o protecionismo econômico, como as respostas para os seus males, agora que os limites fiscais e políticos para novos programas de injeção de recursos públicos na economia foram atingidos. Os resultados destas políticas só poderão conduzir ao declínio, maior e mais acelerado, das economias e do poderio geopolítico destes países, ao maior empobrecimento das massas, ao aumento da revolta das populações e da violência social e política. Reitero que teremos que passar por tudo isto, com o risco crescente de guerras maiores. Estamos, já, nos limites mais extremos do desencadear de uma guerra da Europa contra a Rússia e da extensão da guerra na Ásia Ocidental, passando do genocídio palestino e da imposição de poder por parte de Israel sobre seus vizinhos mais frágeis, para uma guerra regional aberta entre os principais países da região. Mas, tenho também a certeza de que, por pior que sejam estes eventos e seus desdobramentos imediatos, nada disto alterará o curso fundamental da história no presente e, ao fim deste ciclo, teremos uma economia mundial mais integrada e coordenada, com maiores e melhores recursos, instituições e sistemas de governança mundial e com importante redistribuição de riquezas no interior das diversas economias nacionais. O predomínio da China, no cenário mundial próximo, não deverá significar uma nova hegemonia baseada na imposição de poder econômico e militar,como foi, e ainda é, no Colonialismo Britânico e Europeu, em geral, e sob o Imperialismo Estadunidense e que tem como contrapartida necessária a submissão e exploração dos países, povos e regiões subalternas no sistema. A trajetória histórica da China e a maneira como ela conduz as suas parcerias e alianças no presente nos mostram uma perspectiva muito diferente e que, certamente, tem a ver com a tradição do país, mas, também, e sobretudo, é devida à sua ideologia e organização social, socialistas. É muito importante, é crucial, que países pêndulo, países decisivos neste cenário internacional, ainda muito incerto e tendente à crise e à guerra, tenham, o mais rápido possível, esta percepção e fortaleçam suas parcerias e alianças multilaterais, nos mais diversos fóruns e estruturas, tendo a China como pivô, como esteio e polo propulsor. Quanto mais e mais rapidamente os países como o Brasil, a Índia, a Indonésia, a África do Sul, os países do leste Europeu e da África, em geral, entre outros, entendam isto e ajam, de modo coerente e consistente, no sentido da consolidação destas parcerias e alianças estratégicas, mais certamente e menos violentamente, nós completaremos a transição para além da crise atual. Do contrário, maiores e mais frequentes serão, ainda, as crises econômicas, as convulsões sociais e as guerras, até a resolução final da crise. É correto que, nestas condições instáveis, em mudança, países como o Brasil, busquem afirmar sua soberania e o multilateralismo na arena internacional, justamente agora que estes valores estão mais direta e francamente ameaçados pelo poder ainda hegemônico no mundo. Mas, também é certo que, diante da atual postura, abertamente imperialista, do governo dos EUA, países como o Brasil e a Índia e todos os demais, incluindo ainda o México, o Canadá e a própria Europa Ocidental, não podem, isoladamente, afirmarem a sua autonomia e, também, de pouco ou de nada adianta se apoiarem nos mecanismos, até hoje desenvolvidos, sob a bandeira do multilateralismo. Há, efetivamente, um vício estrutural na ideologia dos sistemas do multilateralismo, que sempre determinará a sua ineficiência nos momentos em que mais se precisa deles, nos momentos de grande crise e confronto internacionais. É óbvio que não se pode atribuir o mesmo peso, nas tomadas de decisão internacionais e mundiais, a países completamente díspares em termos de poder econômico e militar, território e população. Nunca houve, nem haverá, algo como uma democracia internacional, isto é um absurdo e uma fantasia, na ideologia, e, na realidade, uma farsa, que serviu bem para a organização mundial sob a forte hegemonia dos EUA. Na medida em que esta hegemonia está sendo, progressivamente mais, contestada pela realidade, pois o predomínio econômico e militar decai a cada dia, em face da ascensão da China, de outras novas potências e pelo desenvolvimento geral das economias dos países secundários e subalternos, é claro que os confrontos de interesses passam a ser mais frequentes e intensos e as tentativas de soluções unilaterais ou imperialistas tomam, abertamente, a frente no cenário mundial. Os EUA têm, de fato, agido de modo cada vez mais unilateral e exclusivista, seja em ações econômicas ou militares. Tendência que se intensifica com o desenvolvimento da grande crise econômica que afeta os países hegemônicos, desde 2007, culminando, no presente, com a grande guerra tarifária e também com a nova política migratória, de clara violência social, xenofóbica. Hoje já está mais do que evidente que nenhum instrumento do multilateralismo pode fazer frente a isto. As guerras se disseminam e se acentuam e ninguém tem os meios e o poder para impedi-las. É um fracasso absoluto da ONU e todo o seu sistema, é um fracasso de todas lideranças mundiais e de todos nós, como humanidade, que hoje estejamos todos testemunhando, sem poder deter, a mais um genocídio, uma verdadeira limpeza étnica. O assassinato diário de população civil, incluindo as crianças, pela violência bélica ou pela fome e falta de recursos, em geral, presos em uma condição de campo de concentração. O responsável direto é o governo de Israel, uma potência regional, mas, sob o apoio incondicional da grande potência mundial, e de grande parte da mídia e de setores dos governos dos países ricos, em geral. Existem laços quase inquebráveis, oriundos da própria estrutura do poder econômico capitalista e da posição de extrema relevância que os judeus, historicamente e ainda, atiualmente, têm nesta estrutura, no setor empresarial financeiro. Acrescenta-se a isto, também, os aspectos estratégicos, militares e de inteligência, tecnológicos e científicos em que os judeus e Israel também têm alguma relevância no mundo, dentro da aliança hegemônica atual. Isto permite entender a impotência geral, o silêncio absoluto ou relativo da maioria e o apoio aberto e incondicional de boa parte, de grande parte, da maior parte, enfim, do poder hegemônico atual ao genocídio do povo Palestino, pelo Estado de Israel. que já dura anos. Isto é um fracasso histórico de todos nós e, sobretudo, de todas as lideranças mundiais, que quedam inertes e no máximo lançam frases protocolares de condenação e lamentação e, também de modo apenas protocolar, procuram inutilmente as instituições do multilateralismo. O mesmo é verdade em relação à guerra da Ucrânia, onde, apesar de não ter o caráter absolutamente imoral do genocídio, no entanto, tem provocado ainda muito mais mortes do que na Palestina. O principal fracasso é, obviamente, da ONU, que, antes de tudo, tem como seu mandato a garantia da paz no mundo. Há muito que a ONU mostrou a sua ineficiência para cumprir este seu principal mandato. Ela padece de um vício estrutural que a leva a esta impotência. A verdadeira esquizofrenia entre a Assembleia Geral "democrática" e o Conselho de Segurança Imperial, em que os poucos países considerados vitoriosos da segunda guerra mundial têm poder de veto sobre qualquer decisão. Isto leva à completa paralisia e inutilidade da instituição justamente quando ela é mais requerida, como agora. É óbvio que ampliar o número de participantes no Conselho de Segurança não pode ser uma solução, nem mesmo o encaminhamento para uma solução, ainda que seja justo que Índia e Brasil, por exemplo, reivindiquem e conquistem seus acentos nele. Mas, isto não mudará em nada a condição de paralisia e impotência da ONU, justamente diante do seu mandato principal, que é a garantia da paz no mundo. A diplomacia presidencial agressiva do atual governo dos EUA, verdadeiramente imperial, rompeu de modo definitivo e inapelável com esta estrutura e nada mais de relevante no mundo é sequer debatido de verdade, quanto menos ainda decidido, seja na ONU ou na OMC, por exemplo. Agora, o manto ilusório do multilateralismo democrático foi completamente rasgado. A situação é grave e urgente demais para manter as aparências e, então, o poder tenta reivindicar os seus direitos, diretamente, sem qualquer disfarce, em negociações bilaterais e pela imposição unilateral, utilizando mais os recursos de força aberta, rompendo com cerimoniais institucionais e até com a capa protetora das ações secretas. Mas, frequentemente, o poder que tem que mostrar os seus dentes e apontar as suas armas para se impor é, justamente, aquele que já não consegue mais se impor de forma polida e institucional. Esta é, claramente, a situação dos EUA na atualidade. Não vai ser, portanto, fazendo recurso à ideologia do multilateralismo, nem tentando fazer apenas algumas reformas nas instituições que representaram, até aqui, esta ideologia, que poderemos avançar e superar tanto a grande crise econômica mundial, quanto a transição da hegemonia global. O que parece estar, já, se constituindo como uma alternativa e um caminho real é uma miríade de iniciativas e instituições internacionais, como os BRICS, SCO, BRI, entre várias outras, que estão desenhando uma nova estrutura institucional de tomadas de decisão e de atuação integrada dos diversos países no cenário mundial. Como eu acentuei antes, por mais que se postule e advogue o multilateralismo e a democracia internacional, nestas diversas instituições e iniciativas transnacionais, elas, assim como os governos dos diversos países, operam dentro da realidade que é a existência de um claro polo contra-hegemônico ascendente, representado pela China Socialista e por sua aliança com a Rússia, uma grande potência militar da atualidade, e com os demais países que são imediatamente aderentes a este polo. Todo o poder de chantagem econômica e militar que os EUA lançam hoje contra a Índia e o Brasil e, na verdade, contra praticamente todo o mundo, na tentativa desesperada de manter seu império, teria outro destino, seria certamente muito mais bem sucedido, se não houvesse, já, dentro da economia mundial este novo polo, este novo sub-sistema, tão forte que é capaz de fazer frente, não apenas ideologicamente, ou moralmente, ou, até, nem mesmo apenas militarmente, às potências hegemônicas, mas, sobretudo e antes de tudo, economicamente. Dito de outro modo, a grande crise econômica, que já atinge em cheio a Europa e que cada vez se aproxima mais dos EUA, só não nos arrastará a todos por este motivo: porque já há uma força econômica suficiente para siderar a economia mundial para além desta grande crise, passando, em boa parte, ao largo dela. Não será possível para países como o Brasil e até mesmo a Índia se manterem neutros, agarrados à sua pretensa soberania e ao multilateralismo. A realidade da cisão entre sistemas divergentes em todas as grandes áreas estratégicas se imporá cada vez mais. Devemos ter o máximo de sabedoria e senso de oportunidade, para jogarmos o nosso jogo, no nosso interesse, dentro desta cisão sistêmica. Mas, no limite, teremos que decidir de que lado estamos em todas as dimensões mais estratégicas da atualidade. Isto inclui as parcerias e alianças simplesmente econômicas, mas, se tornará cada vez mais decisivo, também, no campo militar, assim como no campo das tecnologias de ponta, no tocante à logística e ao sistema financeiro, mundiais. Onde haja uma necessária competição de diferentes sistemas, teremos que escolher, objetivamente, com quem nos alinharemos, quais os recursos de tecnologia militar adotaremos, de quem compraremos e com quem nos associaremos e no que toca à internet, em geral, e com relação às redes sociais, serviços de localização, de informação e consulta, assim como no desenvolvimento das IAs, por exemplo, especificamente. Em grande parte destes aspectos, o predomínio, ou pelo menos a disputa em paridade de condições, da China em relação aos EUA, já é evidente e somente irá crescer nos próximos anos e décadas. É, realmente, somente por isto que países como nós, a Índia, a própria Rússia e o restante do mundo, incluindo até mesmo os países da antiga aliança hegemônica, podem sair-se razoavelmente bem da pressão, das chantagens, das investidas imperialistas atuais dos EUA e transitar para além da atual crise, com mínimos danos. Não há como negar esta realidade objetiva e quanto mais cedo a reconhecermos, pragmaticamente e também ideologicamente, agindo coerentemente neste sentido, melhor para nós e para todo o mundo. É óbvio que isto não significa a nossa submissão a uma nova hegemonia de padrão colonialista ou imperialista, como sempre estivemos submetidos, em relação à Europa, à Inglaterra e, nos últimos 80 a 100 anos, em relação aos EUA. Ao contrário, justamente a ascensão da China Socialista no cenário global representa um novo momento da história, onde o Brasil terá, certamente, uma proeminência muito maior do que tivemos até agora, dentro de uma economia, e até de uma cidadania, mundiais, muito mais integradas e coordenadas do que vivemos até o momento, no sistema capitalista mundial. As posições da China, até agora, nos deixam mais seguros neste sentido. Hoje, é a China que defende a continuidade e o aprofundamento da globalização, como um processo histórico real, objetivo, contra o qual somente as maiores guerras mundiais poderão opor alguma resistência real. É, também, a China quem defende, propugna e desenvolve o novo sistema de parcerias e alianças mundiais para um futuro humano compartilhado, que já está rompendo com o hegemonismo imperialista, dos EUA e dos antigos países colonialistas, que predominou nas últimas décadas, sob a fantasia de uma democracia internacional global. O governo brasileiro, acertadamente se alia a este processo, mas ainda com muitas vacilações e sob fantasias ideológicas que poderão custar muito caro adiante, tanto para nós quanto para o mundo em geral. Uma última observação. Como contraponto à ideologia da democracia internacional, surge com alguma vitalidade, atualmente, a ideologia de uma multipolaridade dos poderosos, ou daqueles que, de algum modo, teriam reconhecido o título de países civilizacionais. As verdadeiras grande potências de cada momento. Um neoimperialismo na forma e no conteúdo, com os governos dos impérios dividindo o mundo em suas áreas de influência. Eu reconheço realidade aqui também, o poder realmente se estabelece, se mede e se reconhece no plano internacional e a existência de grandes potências não pode ser ignorada. Mas, obviamente, não podemos ficar prisioneiros deste brutalismo. E não vamos. A correção, a superação, necessária e verdadeira, real, desta pretensão neo-imperial se dá e se dará, justamente pela maior integração mundial, que nega esta cisão entre impérios. Ocorre que é justamente agora que a economia está se tornando mais intensamente e intrínsecamente mundial. Demos a isto o nome de Globalização e a China Socialista é hoje realmente quem mais abraça, acertadamente, a perspectiva da Globalização.