quarta-feira, 25 de junho de 2025
O processo histórico contemporâneo
A partir da revolução industrial, com o desenvolvimento histórico desde então, foi consolidado, progressivamente, um sistema econômico capitalista mundial. As características da economia capitalista podem então ser analisadas e compreendidas no nível do sistema mundial. Isto me permitiu a percepção de um movimento histórico característico em que uma onda liberalizante é sucedida por uma onda socializante e, inversamente, a onda socializante é sucedida por uma onda liberalizante, contudo, em uma tendência de socialização progressiva.
As características fundamentais da economia capitalista explicam esta tendência e estas ondulações. O progressivo desenvolvimento científico e tecnológico da capacidade produtiva humana, o desenvolvimento da produtividade e da automação da produção, por um lado, e sua expansão e integração mundiais, por outro, são consequências inevitáveis da lógica econômica capitalista. E estas são condições de socialização da produção e da vida social em geral. Contudo, a concentração progressiva da riqueza também é gerada pela lógica econômica capitalista e isto, também inevitavelmente, leva à crise sistêmica ou crise generalizada de realização. A solução, custe o que custar, será de maior socialização, com redistribuição da riqueza social e maior acesso a recursos e serviços para a população em geral, para as massas. Este ciclo de desenvolvimento socializante deve, no entanto, ter fim quando as sua leis, regras e sistemas tiverem se tornado obsoletos e restritivos demais para a progressão do desenvolvimento produtivo e para a mundialização da produção e vida social. Enquanto persistir a economia capitalista, esta onda será, então, suplantada por uma nova onda liberal, como vivemos com a onda neoliberal, que, no entanto, agora chega ao seu fim. Estamos agora, exatamente, entrando no ponto máximo desta crise. Correspondente, talvez, ao 1929 do século passado. Passamos até aqui sem uma grande guerra mundial, mas estamos em alto risco. Enquanto as forças capitalistas liberais prevalecerem nos centros de decisão política e corporativa este risco é altíssimo, porque a crise não poderá ser suplantada, até que as novas políticas socializantes de coordenação e integração da produção mundial e de redistribuição de riquezas possam ser adotadas largamente no mundo.
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Uma análise sintética do processo histórico contemporâneo, nos seus determinantes e mecanismos fundamentais e em suas contradições e tendências predominantes
Há 18 meses, em 23/02/2024 eu publiquei na revista Outras Palavras, um artigo que começava como se segue.
"A coisa mais óbvia, aquela que todos nós podemos sentir, mesmo quem não tenha a menor ideia de suas causas, é que o mundo está mais tenso, os conflitos estão se tornando mais agressivos, as guerras estão se ampliando, ou, pelo menos, que o risco de grandes guerras está se tornando maior a cada dia.
E isto é simplesmente realista, infelizmente.
No momento, a limpeza étnica sionista na Palestina prossegue, com o apoio das grandes potências ocidentais e sem maiores oposições reais, sem que o mundo consiga fazer qualquer coisa efetiva para deter ou impedir, por mais que muitos, em nome da razão e da dignidade humana, se manifestem e protestem contra. Ninguém consegue deter também a guerra proxi da Otan versus a Rússia, na Ucrânia, que parece longe do fim e com alto risco de se ampliar. E uma guerra, proxi ou direta, dos EUA contra o Irã parece estar apenas no começo. Nestes e em outros conflitos armados internacionais, milhares, talvez, dezenas de milhares, de pessoas morrem todos os dias. Jovens, em especial, são, assim, assassinados e trilhões e trilhões em recursos produtivos são simplesmente destruídos, cotidianamente, nos campos de guerra. E o risco que isto se amplie para níveis ainda mais catastróficos é, realmente, cada vez maior."
Eu entendia que as razões para esta ampliação, real e potencial, dos conflitos no mundo tinha uma base real mais profunda do que apenas se explicaria por um aumento das disputas por hegemonia militar e geopolítica, no plano internacional, com o reerguimento de doutrinas e governos mais imperialistas. Uma base que explicaria, justamente, estas re-emergências.
A realidade histórica está, até o momento, confirmando a minha análise, que procurei desenvolver e apresentar melhor nestes últimos meses e que exponho, abaixo, sinteticamente, em suas linhas mais gerais e determinantes mais fundamentais.
Estamos em uma crise generalizada da economia mundial. do sistema econômico mundial, desde 2007, mitigada por injeções periódicas de trilhões de dólares pelos estados nacionais. Esta crise fundamenta-se na concentração de riquezas, extrema, continuada e progressiva, que resulta em dificuldades, também progressivas, de realização dos empreendimentos e investimentos numa economia capitalista. Mas, a economia capitalista é, necessariamente, uma economia de massas e expansionista. A contradição se instala quando as massas não têm mais condição de realizar consumo novo, crescente e, ao contrário, terminam perdendo até a capacidade de manter o padrão de consumo prévio.
Esta crise é característica da economia capitalista liberal e, portanto, ocorrerá sempre ao fim de uma onda liberal na economia capitalista, como estamos vivenciando agora, no mundo. Ela traz consigo uma sequência de eventos sociais e políticos esperados, evidentes no presente: frustração, insatisfação e embrutecimento das massas e, como contraparte, mais autoritarismo, com ascensão de ideologias e práticas fascistas contra alvos estigmatizados , especialmente por a xenofobia, mais nacionalismo, mais imperialismo, mais militarismo, mais conflitos sociais e guerras. Isto é, de certo modo, inevitável em uma grande crise sistêmica, social, na economia capitalista, como a que vivemos atualmente.
Afora esta identidade geral, 04 aspectos dão características próprias à crise atual.
1. Desenvolvimento dos recursos de regulação do sistema e de proteção anticíclica, nos aspectos econômico-financeiro e social. Eles têm sido fundamentais, mas estão demonstrando sinais de estresse máximo e esgotamento.
2. Transição da hegemonia no sistema capitalista mundial. Não é contestável que a hegemonia econômica e sistêmica dos EUA e dos países na sua aliança de poder não é mais a mesma de 5 ou 4 décadas atrás e é certo que ela seguirá declinando, em face, sobretudo, da ascensão chinesa e de seus aliados. Por um lado, isto dá contornos mais dramáticos e de maior risco para a crise econômica, mas, por outro, será parte, necessariamente, da sua solução. O simples fato de haver uma nova economia, um outro subsistema, um novo polo na economia mundial com peso e força suficientes para se contrapor às tendências de crise que predominam no centro hegemônico, pode ser suficiente para permitir a solução menos dramática da crise. Entendo que esta é a situação atual.
3 O nível atual de integração produtiva, de consumo, de comunicação e informação mundial é muitas vezes superior aos momentos históricos anteriores, em que ocorreram crises generalizadas similares. Esta é outra força de contenção, talvez a maior, contra as piores consequências da crise, que seriam, ao fim, as guerras generalizadas entre as grandes potências.
4 De modo compatível, em consonância histórica com este nível do desenvolvimento tecnológico, produtivo e social, integrado mundialmente, a potência contra hegemônica emergente é socialista. O que deve conduzir a uma melhor integração e coordenação mundial e redistribuição das riquezas sociais, que são, justamente, as duas vias fundamentais para sairmos da atual crise.
Todos estes fatores fazem crer que teremos um caminho para além desta grande crise sistêmica, melhor e menos destrutivo do que aquele da grande crise do século passado, por exemplo. A solução , no entanto, terá características similares, necessariamente, que se sintetizam nas duas vias citadas. Para sairmos desta crise teremos que desenvolver uma maior e melhor coordenação da economia, no interior dos países e, sobretudo, no plano mundial e teremos que realizar uma grande redistribuição da riqueza social. E o faremos. Este é um caminho que, digamos assim, atende às necessidades, aos mecanismos, se você quiser, mais determinantes do próprio sistema. De um jeito ou de outro, ele encontrará sua via para realizá-los.
É certo que o sistema econômico capitalista mundial tem realizado um impressionante processo histórico de desenvolvimento tecnológico e de integração da produção e do consumo em escala mundial. Ainda que muito contraditoriamente, estas duas linhas de tendência predominantes na economia capitalista mundial parecem, até hoje, incontestáveis. O desenvolvimento da produção, a sua ampliação e inovação, continuadas, o que é inerente à lógica da acumulação capitalista, requer e impulsiona, também e necessariamente, o desenvolvimento e ampliação do consumo das massas. Mas, a liberdade de mercado, a lógica inerente ao mercado, pura e simplesmente, sem maiores regulações e direcionamentos, a lógica liberal de mercado, conduz à concentração de riquezas, até o ponto em que as massas perdem a capacidade de novo consumo e até de manter o padrão de consumo anterior. O limite desta contradição é dilatado, ou negado, enquanto o desenvolvimento econômico, na área dos produtos de consumo popular, ocorrer de forma mais intensa do que a própria concentração das riquezas. Ou seja, enquanto a perda relativa é compensada e superada pelo ganho absoluto, devido ao crescimento econômico, pode haver melhora da capacidade de consumo e, portanto, das condições de vida das massas, apesar do aumento progressivo da concentração da riqueza. É justamente isto o que se espera na fase inicial de uma onda liberal, como, de fato, ocorreu no sistema econômico mundial, nas décadas iniciais da onda neoliberal atual, entre os anos 1980 e 2006. Mas, a concentração de riquezas, progressiva e continuada, termina por reduzir a própria capacidade de crescimento, trazendo, realmente, dificuldades crescentes para a realização dos investimentos e empreendimentos e criando círculos viciosos recessivos. Este é o mecanismo das crises cíclicas generalizadas, de realização, na economia capitalista e ele deve se repetir ao fim de cada ciclo liberalizante, ao fim de cada onda liberal. É o que vivemos atualmente, desde 2007.
A crise generalizada progride com grande pressão recessiva, com fracassos de investimentos, falências, quebra de cadeias produtivas e toda a sequência de dano social que é bem conhecida e que eu procurei sintetizar acima. Mas, custe o que custar, em termos de morte e de destruição de capital produtivo da humanidade, o ciclo de uma crise generalizada na economia capitalista também encontrará o seu fim. Chegado ao ponto de resolução da crise, a economia capitalista encontra um novo ciclo de crescimento, de desenvolvimento e de ganhos sociais, com redistribuição social da riqueza e melhoras reais em capacidade de consumo e acesso a recursos e serviços para as massas. A economia se redireciona melhor para necessidades populares e as políticas de controle, gestão e coordenação da economia, assim como de proteção social, também se desenvolvem mais e melhor. É a onda socializante no sistema capitalista, como aquela que vivemos, sobretudo nos centros hegemônicos do sistema, desde os fins da primeira metade do século passado até os fins da década de 1970.
O ciclo socializante, por sua vez, também deve se esgotar. Por um lado,
A grande redistribuição das riquezas traz um certo estresse à economia capitalista, com queda das taxas de lucro, em geral, e, certamente é um fator adicional para a crise da onda socializante. Mas esta não me parece, contudo, a causa principal ou determinante do esgotamento do ciclo socializante. Em grande parte pelo mesmo motivo apontado acima, no sentido inverso, pois o volume total de ganho do capital, de lucro dos capitalistas, cesce muito com o desenvolvimento durante a onda socialista. E certamente o ganho em volume, o ganho absoluto, em riqueza, importa muito para a realização do capital. A experiência histórica mostra que no fim da última onda socializante, as estruturas sociais, no interior dos países e no plano internacional, superestruturas se mostrarem já um tanto esclerosadas e limitantes para o próprio desenvolvimento característico da economia capitalista, se constituíram em barreiras significativas para o novo desenvolvimento da produção, da tecnologia. Em economia capitalista, isto se dará, necessariamente, pela ascensão de uma nova onda liberal, Foi o que aconteceu com a onda neoliberal e a globalização. Elas realmente produziram mudanças muito significativas em regras e mecanismos de regulação das diversas economias nacionais, assim como do sistema financeiro e econômico mundial, em geral, quebrando barreiras e facilitando a expansão, intensiva e extensiva, da economia mundial.
Agora chegamos, no entanto, ao fim da onda neoliberal e o ciclo se repetirá. Estamos, no momento, entrando no ponto máximo desta crise, com as consequências e também com as contra tendências. descritas acima. Seja como for, custe oi que custar, uma nova onda socializante terá que vir. Em uma sucessão que persistirá ocorrendo enquanto estivermos ainda no sistema capitalista, ou num sistema socialista que é, ainda, o capitalismo, mesmo que em sua fase final. O sentido ou a tendência histórica predominante, nessa sucessão de ondas e crises no sistema eonômico capitalista mundial é, deve ser, progressivamente mais socializante, pelas necessidades mesmas do sistema, como também já indiquei acima. Posso dizer, então, que, em linhas gerais, o sistema econômico capitalista mundial se desenvolve em ondas liberalizantes e socializantes sucessivas, com uma tendência predominante de socialização progressiva. As conquistas sociais de regulação econômica e financeira, de proteção social e anticíclicas não se perdem completamente em cada nova onda liberalizante e o desenvolvimento econômico e social capitalista se dá, necessariamente, ainda que muito contraditoriamente, em direção a uma maior mundialização e ampliação da automação, da tecnologia e da ciência na produção e na vida social, em geral. Condições que são, elas mesmas, por sua vez, aquelas da superação progressiva da economia capítalista, com uma socialização progressiva da produção e da vida social, mundialmente.
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