terça-feira, 11 de março de 2025

A crise final da onda neoliberal e o fim do império dos EUA

1. Os bilionários no poder político dos EUA. O que isto significa? No curso desta grande crise econômica em que estamos, a crise do fim da grande onda liberal das últimas décadas, a onda neoliberal, era totalmente previsto que a ideologia liberal se radicalizasse em sua origem de classe, ou em sua condição de classe, de modo que dobrasse e redobrasse as suas apostas na concentração de riqueza nas mãos dos capitalistas, em detrimento da população trabalhadora em geral. A ideologia, neste momento, apela ainda mais para “o espírito animal” do empresário, aumentando a ideia de valor e poder dos líderes empresariais vitoriosos na competição do mercado. Nada pode ter mais valor ideológico para o capitalismo do que a visão do vitorioso no mercado, os líderes empresariais, como sendo os condutores natos da produção e, portanto, da vida social. Isto parece natural, no sentido de que, seja como for, eles tiveram o mérito de vencer no cenário da mais intensa competição. Existem muitas razões para que seja assim. Mas, é preciso ter em mente, sempre, que o período do liberalismo clássico, ou puro, ou radical, ou como queiram chamar, de fato já passou há muito tempo. Estamos em processo de socialização da produção e da vida social como um todo e todas as grandes certezas do liberalismo, ou, mais objetivamente, do capitalismo liberal, foram já derrotadas na história. É muito importante, ou absolutamente fundamental, reconhecer que nada é linear em nenhum sentido pleno e tudo realmente é ondular, existe em ondas. Podemos, portanto, reconhecer um processo histórico de socialização no sistema capitalista mundial que, no entanto, ande em ondas, em ondulações e, portanto, em alguns momentos históricos, toma o sentido oposto, de acentuação do liberalismo na economia, na vida real, no mundo todo. Estamos justamente no fim de um destes momentos de retomada do liberalismo na economia capitalista, de acentuação do capitalismo em sua essência, do capitalismo liberal, se você quiser dizer assim. Neste momento histórico da crise final da grande onda liberal atual, a onda neoliberal, como é de se esperar, os capitalistas e seus representantes, no que toca à distribuição da riqueza e do poder, redobram a aposta na liberdade ilimitada do mercado, o que equivale a dizer: no poder ilimitado do mercado, dos capitalistas, dos líderes capitalistas. É realmente muito peculiar que agora sejam os próprios capitalistas a exercerem diretamente o poder nos EUA. Nada mais evidente. Estamos no ápice da crise e os atores principais não podem mais deixar na mão de seus representantes profissionais. Não podem e não querem. Acumularam realmente tanto poder e estão realmente tão completamente ligados ao estado americano que não precisam e não querem mais ocultar. A gravidade da situação é tão grande que eles precisam tomar as rédeas da política nacional mais diretamente em suas mãos. A crise já se arrasta pelo menos desde 2007. E o que eles fazem? Apostam em maior acúmulo e maior concentração de riqueza e poder para dar solução à crise que foi causada pelo maior acúmulo e concentração de riqueza e poder e, correlativamente, pelo empobrecimento, relativo e até mesmo absoluto, das massas trabalhadoras nos grandes países da economia ocidental, da Europa e dos EUA. Ninguém pode negar este resultado desagradável e fúnebre do neoliberalismo. Promoveu o desenvolvimento da produção, do comércio e das finanças mundiais, mas, concentrou riquezas absurdamente e empobreceu massas humanas nos próprios países centrais da economia mundial. Eles, no entanto, mais uma vez, agora, apostam em mais do mesmo para solucionar os problemas criados por isto mesmo. A necessidade econômica, por seu lado, indica que teremos que superar esta onda, que promoveu a intensa concentração das riquezas, no mundo todo, dos EUA à China. E, de fato, já estamos andando neste sentido. Os dados que tenho indicam que a desigualdade parou de crescer desde 2014 na China. E, recentemente, também tínhamos alguma tendência positiva nos próprios EUA. No entanto, agora, os EUA optaram pela guinada liberal extrema com grandes líderes capitalistas diretamente no poder político nacional. E a sua aposta, como previsto, é de ainda maior concentração de renda e poder nas mãos dos capitalistas. Querem mais liberdade de exercício do seu poder e maior concentração dos recursos. Como contrapartida estão dispostos a fazer a massa trabalhadora aceitar, temporariamente, ainda mais perda de serviços e de renda, de recursos e de dignidade. Eles querem jogar o grande jogo no cenário mundial e têm suas razões para isto. Sabem que estão perdendo. É tão incrível que os maiores vencedores do mercado mundial saibam, com certeza, que estão perdendo e acreditem que tomando o poder do estado diretamente em suas mãos possam dar jeito nesta crise. Não podem. Vão aumentá-la. Diretamente, eles vão tomar recursos das classes médias e abaixo, já empobrecidas, dos EUA, enxugando ainda mais os serviços públicos do estado, e, indiretamente, como resultado das medidas de proteção à indústria local, em detrimento da competição e da integração produtiva mundial. Isto, com certeza, aumenta as pressões inflacionárias e de desaceleramento da economia, lá nos EUA e mundo afora. A guerra comercial que os EUA lançaram contra a China e que agora se intensifica, com grandes aumentos de tarifas de importação, é característica deste período de grande crise econômica e de grande mudança na hegemonia, no centro de poder capitalista mundial. Em qualquer outra situação teríamos justamente o inverso, o centro do poder no sistema capitalista mundial é expansivo, deve ser expansivo e liberalizante, deve fazer o que for necessário, incluindo levar adiante guerras, em favor da liberdade de comércio e empreendimento mundiais, mas não para impor-lhes barreiras e restrições. As guerras do ópio do século XIX foram realizadas para liberalizar o mercado da China para o comércio inglês. Já a guerra do ópio atual, a guerra do Fentanyl, que por enquanto, ainda é apenas comercial, está sendo realizada para fechar o mercado americano para os produtos chineses. É um longo ciclo que se fecha. Em ambos os casos o ópio era e é apenas uma marca, um pretexto emblemático, para se abrir ou fechar mercados. O liberalismo, chegado neste extremo da crise, vai negar de bom grado todos os seus dogmas, como já fez antes, vai defender o protecionismo, vai defender as restrições ao livre comércio e à expansão da integração econômica mundial, vai se tornar nacionalista e vai, ao fim, buscar a guerra como solução. Só um dogma não pode ser contestado pelo liberal, o ideal do livre exercício do poder econômico capitalista. Até o limite de tentar tomar, diretamente em suas mãos, o poder político do estado, como está acontecendo agora nos EUA. 2 – Mais empobrecimento, mais imperialismo e mais guerra ou desenvolvimento humano global? Estamos vendo tudo isto diante de nossos olhos e tudo isto já aconteceu antes na história do sistema capitalista contemporâneo. A onda liberal atual, iniciada no fim dos anos 70, ou no início dos anos 80, do século passado, chegou ao seu limite e está em crise desde a segunda metade da primeira década deste século. A resposta liberal é, agora como foi antes, redobrar sua aposta na concentração de riqueza e poder nas mãos dos capitalistas e numa correspondente visão e atuação imperialista mais explícita no cenário mundial. Não pode haver ilusão quanto a isto. O sentido de paz que os EUA acenam hoje para o caso da Ucrânia é circunstancial e o direcionamento dos EUA para a guerra será inevitável, na medida que a crise se aprofunde e ela só pode se aprofundar com o aprofundamento da receita liberal. É até curioso e realmente absurdo que hoje sejam a Inglaterra, a França e outros países da Europa (os que mais perderam economicamente com a guerra, depois da própria Ucrânia) que defendam aguerridamente a continuidade da guerra. Mas, basta olhar para os índices de crescimento econômico destas economias que temos uma pista do porquê estão tomando decisões tão enlouquecidas. É a crise econômica que está atrás destas sandices, assim como foi com o caso da resposta muito disfuncional à pandemia, no mundo ocidental. Nestas circunstâncias em que a economia já está estagnada, com dificuldades generalizadas, e quando as condições de vida estão sendo deterioradas progressivamente, uma longa quarentena generalizada devido à pandemia bem que justifica tudo isto, uma guerra também. E, quando nada mais anda na economia, fazer andar a economia da guerra, da destruição e da morte, pode parecer um ótimo negócio para políticos e setores empresariais. Parece claro que é assim que pensam hoje os poderes nos grandes países da Europa, acreditando que assim vão pelo menos manter, pelo terror, parte do seu poder imperial no mundo, que, obviamente, decai a cada dia. Não podemos tomar qualquer estágio da evolução histórica como um parâmetro preciso para os períodos seguintes, mas podemos reconhecer, na estrutura de um sistema, em sua dinâmica histórica, as ondulações que se repetem com certa regularidade. Senão nem poderíamos analisar os processos históricos, apenas narrá-los. Pode-se reconhecer, de modo seguro, pelo menos duas tendências expansionistas evidentes, dentro do desenvolvimento histórico do sistema capitalista mundial. A tendência à expansão da economia capitalista, dos empreendimentos e do mercado, capitalistas, integrando, extensiva e intensivamente, todo o mundo: a tendência à mundialização do comércio, da finança e da produção e, reciprocamente, a mundialização do consumo, a mundialização da cultura, a integração mundial e, por conseguinte, a mundialização das pessoas e do próprio mundo. E a tendência ao desenvolvimento da produção em massa e da ciência produtiva em todas as áreas, sempre revolucionando a si mesma, a tendência ao desenvolvimento da produção tecnológica e automatizada. Obviamente estas, e outras, grandes tendências do capitalismo estão interligadas e são interdependentes e creio que é razoável dizer que a partir da revolução industrial estas características e tendências se mostraram tão vitoriosas, tão dominantes no mundo em geral, que realmente podemos dizer que, desde então, vivemos, todos, em um sistema capitalista mundial. É a este sistema que me refiro quando avalio que estamos, no sistema capitalista mundial, em um sistema econômico de expansionismo tecnológico e de integração mundial da produção e da vida humanas, em aceleração progressiva. Estas forças são maiores que todas as contra tendências do próprio capitalismo e a história mostrou, até agora, que não existe um limite econômico absoluto para a reprodução da economia capitalista e, parece que a história também mostrou que o proletariado industrial não é o condutor histórico da superação do sistema capitalista. Ao ponto que, nas últimas décadas, ele tenha perdido boa parte do seu grande papel político em toda a história do capitalismo e boa parte de sua própria realidade objetiva, histórica, com o desenvolvimento inevitável e progressivo dos sistemas automatizados de produção. O mundo anda por caminhos surpreendentes, mas nós podemos ter certeza que o desenvolvimento tecnológico continuará e que a integração mundial continuará. Isto está no cerne da lógica “cega” do sistema capitalista e está também no cerne da posição consciente, planejada, do socialismo. Estamos, é óbvio, em uma encruzilhada extrema, onde o principal país socialista do mundo tem a economia de mercado mais florescente do mundo, enquanto aqueles que defendiam a liberalização da economia mundial se voltam para a visão regressiva, imperialista e fascista, de defesa da economia e do estado nacional. Certamente seria inteligente que, agora, os anarquistas, os comunistas, os socialistas até mesmo os sociais democratas, assumissemíssemos direta e fortemente estas duas tendências expansionistas como nossas bandeiras, nossos ideais imediatos e diretos, corrigindo assim alguns erros históricos. Quem quer o contínuo desenvolvimento e a expansão da ciência e da tecnologia, somos nós, e quem quer a globalização, quem quer a integração mundial da produção e da vida social mundial, somos nós, também. O capitalismo e os capitalistas podem apenas serem instrumentos, relativamente cegos, relativamente estúpidos e perversos, destes nossos desígnios e nossas escolhas. Essa é a condição e a situação atual do socialismo na China. Dos anos 80 para cá ocorreu um desenvolvimento econômico e social exponencial na China, isto todos sabem. O que nem todo mundo sabe é que este desenvolvimento foi acompanhado de um profundo e intenso processo de concentração da riqueza na mão dos capitalistas e que se forjaram mais bilionários lá do que em qualquer outro país nas últimas décadas. Mas, ao mesmo tempo, a China foi o país que mais prendeu, ou colocou em reformatórios, os seus bilionários. O sistema financeiro está ainda diretamente sob controle do governo chinês e o desenvolvimento da economia atende a um “planejamento estratégico” público e não apenas às forças do mercado e ao poder dos ricos. Houve desenvolvimento social intenso na China, mesmo com a concentração acentuada da riqueza, porque o desenvolvimento econômico foi mais acelerado neste período e porque o poder público dirigiu a economia no sentido da melhora consistente da qualidade de vida das massas. Mas, tanto lá quanto no resto do mundo, este processo de concentração de riquezas não pode mais continuar assim, a economia mundial, o sistema econômico capitalista mundial, está sob estresse extremo devido a esta progressiva desigualdade, progressiva concentração de riquezas e progressivo empobrecimento, relativo e até mesmo absoluto, das massas. Na Europa, em geral, e nos EUA, o aumento da desigualdade progrediu apesar da crise e continuou crescendo desde 2007 até, pelo menos, o período da pandemia. De lá para cá não existe uma tendência consistente ainda, mas, podemos antever uma nova rodada de perda para os trabalhadores locais, e mundo afora, com as ações atuais dos EUA contra o livre comércio e de aumento dos gastos militares na Europa. Na China, reitero, ao contrário, tudo indica que, desde 2014, a desigualdade parou de crescer e até que já houve alguma reversão real da tendência. Como eu já afirmei, não é possível projetar com precisão a evolução histórica a partir dos fatos históricos anteriores, mas eles e a sua análise são os nossos únicos parâmetros para uma projeção razoável de tendências predominantes e cenários prováveis ou possíveis no futuro. A grande crise econômica do sistema capitalista no século passado começou em 1913 e só foi se resolver a partir de 1945. Neste período ocorreu uma grande depressão econômica mundial e, também, duas grandes guerras “mundiais” e uma pandemia que resultaram em mais de 150 milhões de mortes, em uma população mundial de 2 bilhões. A crise atual começou em 2007 e, até agora, só não se manifestou com o mesmo terror do século passado porque foi sabiamente contida com os recursos contracíclios largamente utilizados, com os trilhões e trilhões de dólares jogados nos mercados e nas mãos da população, para manter a economia em funcionamento. Mas, sem a redistribuição da riqueza esta crise está condenada a persistir, protraída, controlada, mas sempre aí, mordendo os calcanhares e os bolsos das classes médias e pobres. É isto que a história nos mostrou. A melhora, absoluta e relativa, da renda, dos recursos e serviços, em geral, nas mãos das classes trabalhadoras e médias marcou o fim dos anos 40 e as três décadas seguintes e a social-democracia emergiu como a principal força política e ideológica do pós-guerra. Até encontrar seus limites e ser superada pela nova onda liberal no começo dos anos 80 do século passado. Temos que entender, ainda, que a velocidade dos processos históricos deve ser cada vez maior pois há aceleração das mudanças dos processos produtivos mundiais e consequentemente das pressões para as mudanças sociais, políticas e ideológicas. Agora ainda estamos no ápice da crise, ainda teremos vários anos, algumas décadas, dentro desta crise mundial final da onda neoliberal no sistema capitalista mundial. Neste período a tendência à absurda, alucinante, solução pela guerra jamais estará ausente ou distante. É, hoje, e continuará sendo, ainda mais, a ordem do dia por longos anos adiante. 3. Uma grande depressão econômica e guerras mundiais são inevitáveis? A gravidade, a importância histórica, desta nossa época não pode deixar de ser reconhecida, estamos no processo da crise econômica do fim de um grande ciclo liberal dentro do sistema capitalista mundial, do fim do ciclo neoliberal. O sistema caitalista mundial está, portanto, no curso de uma grande crise econômica que está sendo controlada por mecanismos anti-cíclicos e de proteção social, limitados e sob constante pressão. Esta crise coincide com o fim de uma grande hegemonia, de uma nação e de uma aliança internacional, no sistema capitalista mundial. Em função da ascensão chinesa, estamos no fim do império Americano, ou Americano-Inglês, ou Americano-Europeu, ou, ainda, da grande Aliança mundial de poder estabelecida pelos EUA. A simples afirmação de que estes são processos capitalistas, do sistema capitalista mundial, já significa que são, inerentemente, muito violentos e irracionais. Isto é parte da própria lógica do sistema econômico operado pelo mercado. O processo de socialização corrige os erros extremos do sistema do capital, mantendo o capital sob um planejamento e um controle, públicos, fortes. Controlando especificamente a distribuição dos recursos sociais, financeiros e materiais, entre os diversos setores e classes da economia social e deixando o capital funcionar ‘livremente’ dentro destes marcos e limites estruturais socializados. Algo que, certamente, hoje, no mundo, quem demonstrou fazer melhor foi, é, a China. Se os indicadores atuais se mantiverem, podemos nos tranquilizar que a China já assumiu a rota acertada e colocou um foco no aumento do consumo das massas, com ganho relativo de renda para as massas. E não parece haver qualquer questionamento ao sistema de planejamento estratégico púbico da economia socialista na China. Contudo, a ideologia liberal tem penetração na sociedade chinesa atual e o conflito em torno do controle do sistema financeiro e produtivo estará sempre em jogo intensamente nos próximos anos e décadas, tanto lá como aqui. Vamos tratar deste tema em um outro artigo. Agora preciso finalizar meus raciocínios sobre os riscos atuais do sistema capitalista mundial, e especificamente sobre o risco de guerra que, agora, é certamente o maior risco imediato para todos nós, em todo o sistema. Estamos e continuaremos, por um tempo relativamente longo, sob o alto risco de grandes guerras mundiais, porque estamos na confluência de dois grandes movimentos histórico-sociais no sistema capitalista mundial, a crise de fim da onda neoliberal e a crise do fim da hegemonia norteamericana. Ambos, estes movimentos, são, costumeiramente, acompanhados de grandes crises sociais no interior das nações e grandes guerras entre as nações. Essas forças estão presentes na atualidade e tendem a se intensificar nos próximos anos e por décadas, até uma melhor resolução, uma resolução final, se você quiser, da atual crise econômica do sistema mundial. O simples fato, no entanto, de ser realmente um sistema econômico mundial, certamente bem mais globalmente integrado hoje do que há 100 anos atrás, nos protege da fatalidade de termos que repetir os mesmos processos da crise anterior, ainda que estejamos sob as mesmas pressões. A integração da economia mundial torna mais difícil e irracional a realização de grandes guerras. A sua absurda destrutividade se mostra de maneira mais inaceitável quanto mais o mundo estiver integrado, produtivamente, socialmente. Em comparação a 100 anos atrás, parece mais irrazoável, agora, quebrar e destruir o sistema mundial inteiro para não ceder parcelas do poder econômico e político, nacional e empresarial. E, seja como for, no fim eles terão que ceder, o próprio sistema que eles desenvolveram os leva a isto. Vamos ser levados, contudo, ao limite. Certamente, como tenho sempre destacado, o fato da grande potência emergente na economia mundial ser a China socialista é uma verdadeira providência e um resultado da história. A China tem sido, seguramente, a nação, entre as mais poderosas, que mais se mostra disciplinada e aderente às decisões e ao sentido geral do sistema ONU e a que mais tem investido na transição energética. Isto não é de se estranhar, dada a convergência de princípios do socialismo com o internacionalismo e o desenvolvimento da consciência, da inteligência, da segurança e da governança globais, mundiais ou humano-mundiais, se você preferir. Isto é tranquilizador, quando sabemos que ela será a nação mais provocada e atacada pela aliança norteamericana nos próximos anos e, provavelmente, nas próximas décadas. Tenho afirmado também que o aprendizado histórico, justamente, sobretudo, a partir da grande crise do sistema capitalista mundial do século passado e de sua resolução histórica, é outro fator que nos ajudará em uma transição mais intensa e profunda do que aquela do século passado, sem, contudo, termos que reproduzir e sofrer, novamente, a extrema destrutividade que aquela teve. Parte deste aprendizado está nos sistemas públicos anticíclicos e de proteção social, que, com certeza, tornaram a grande crise econômica atual muito menos destrutiva do que aquela do século anterior, pelo menos até agora. Não creio que estes recursos vão falhar completamente agora, permitindo que as grandes catástrofes econômicas e sociais da crise passada se repitam. Ainda que muitos sinais e tendências neste sentido estejam presentes, sempre estarão, em uma grande crise de fim de uma onda liberal do sistema capitalista mundial, eles parece serem, ao fim, mais fracos do que os mecanismos regulatórios e de proteção social que já foram postos em movimento pelo próprio sistema. Mostrando, justamente, o aprendizado histórico. Contudo, a crise continua presente, ainda hoje, com certeza, grande parte da Europa se encontra em recessão e os EUA estão sob forte ameaça, enquanto que, em todo lugar, a percepção de empobrecimento das massas, de ameaça e insegurança generalizadas continuam disseminadas, especialmente dentro das próprias nações dominantes. Agora a solução é, será, socializante, como foi no século passado. Mas, mais intensamente do que foi no século passado e mais suavemente, também. No cenário mundial é claro que novas estruturas de decisão, de organização, de governança, enfim, terão que ser desenvolvidas, portanto, mais intensamente do que no século passado, correspondendo ao nível mais desenvolvido da economia mundial, da sociedade mundial, se preferir. Com certeza vamos avançar muito além dos limites e das contradições do sistema das nações unidas e de Bretton Woods, no sentido de uma verdadeira governança global. Como era de se esperar, os EUA teriam que se tornar o maior inimigo do sistema da ONU, que ele foi decisivo para criar, pois é o seu poder hegemônico que deve ser derrotado pela governança global. E assim será. Mas, agora, ainda estamos longe disto, aparentemente mais distantes até do que há 80 anos. Essa aparência é dada pela condição de momento, em que os EUA mostram reconhecer a sua perda relativa de poder e reagem a isto violentamente, tentando resgatar seu império. Como sempre, chega um momento em que tudo isto vem tardiamente, quando um movimento econômico e social real já solapou as bases da hegemonia decadente. Tudo o que então se faça, em nome de preservar e restabelecer esta hegemonia, termina por ajudar a conduzir ao seu fim e toda tentativa de demonstração de força por parte do império termina por revelar a sua verdadeira fraqueza. Exemplos categóricos disto são a derrota da OTAN na guerra da Ucrânia e o resultado, nulo ou, verdadeiramente, inverso, das sanções impostas à Rússia e à China, que, certamente, estão acelerando a superação do poder da Aliança dos EUA, em vez de fortalecê-la. As forças econômicas e sociais já se desenvolveram e transformaram neste sentido, a ponto de não ter mais retorno. A hegemonia, o imperialismo, dos EUA no sistema capitalista mundial terminará e levará junto consigo os resquícios coloniais do imperialismo europeu que persistem ainda hoje. Algo central neste processo de aprendizado e desenvolvimento histórico é que as medidas, as ações, as intervenções sociais que anteriormente só foram tomadas depois do pior, agora devem ser tomadas antes. Antes das grandes crises catastróficas, como foi a depressão mundial dos anos 30 do século passado, as medidas anticíclicas e de proteção social já estão, em parte ao menos, em jogo. Agora o que nós precisamos é avançar, ainda mais decidida e intensivamente, no sentido da socialização do sistema econômico mundial. E, antes das grandes guerras mundiais, precisamos da renovação, da reconstituição e desenvolvimento dos sistemas de decisão e governança mundiais. Isto terá que ser feito. Mas é um processo que demorará tempo e se realizará com grande dificuldade. Imagine, por um minuto só, como será custoso eliminar todas as bases militares internacionais dos EUA. Elas são mais de 800 e continuam aumentando. O mundo é, verdadeiramente, ocupado militarmente pelos EUA. E isto terá que ser eliminado ou, antes, globalizado, internacionalizado, submetido a uma verdadeira governança mundial. Um processo longo e difícil, mas que terá que acontecer. Enquanto isto, podemos também, com certeza, pedir pela cidadania mundial. Ainda que isto esteja, do mesmo modo, distante no horizonte atual, é certamente esta a cidadania que nos interessa, correspondendo à integração do sistema produtivo social mundial. Somos mundiais e queremos ser mundiais.